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Os planos e os segredos do Rei

 
Alegre, solto, leve, descontraído, esbanjando bom humor. Este foi o Roberto Carlos presente à coletiva anual para a imprensa, realizada na quinta-feira, 21, a bordo do navio Costa Pacífica, parte da Programação do Projeto Emoções em Alto Mar 2016. O cantor, apresentado por Eri Johnson, chegou ao palco irradiando bom astral.

 

A tarde foi bem divertida, pois a voltagem sentimental no Teatro Stardust andou sempre muito elevada: a quantidade de fãs autorizados a participar do encontro superou as cifras dos últimos anos. A casa estava lotada. E não há a menor dúvida quanto à qualidade da atenção dos fãs de Roberto Carlos… sintonia fina perde. Aplausos, ditos espirituosos, gritinhos e muito riso denunciaram o prazer de estar ali, diante do Rei.

 

No saldo geral, foi uma tarde feliz, com um clima de confraternização positivo. As perguntas formuladas por jornalistas de todo o país, de veículos dos formatos os mais variados, focalizaram assuntos quentes do momento relativos ao artista. Tanto se perguntou sobre a sua aparência e as suas rotinas de vida, como sobre os seus projetos, a materialidade do Projeto Emoções, a situação do país.

 

Roberto Carlos não recusou resposta em nenhum momento. Elegante, contornou com nobreza algumas investidas mais indelicadas e driblou bem as perguntas indiscretas. Rapaz educado, fingiu não perceber um ou outro deslize de algum profissional mais nervoso, mesmo quando as fãs, em especial as fãs, mulheres atentas, pontuavam a falha com vigorosas manifestações. Rei é sempre Rei.

 

Ao falar sobre as suas musas, reafirmou a vida que passa como a sua musa principal, fonte de inspiração maior para o seu trabalho. “Na vida, vou encontrando histórias, pessoas, e principalmente mulheres para que sejam as minhas musas.” Ressalvou, contudo, que nas suas músicas estão mulheres que realmente ama, não tratou de registrar reflexos fugazes do cotidiano, ainda que, relembrou, a ode à mulher de quarenta tenha sido resposta ao pedido de uma fã.

 

Brincou muito, fez piadas, contou detalhes preciosos dos próximos projetos e fez mistério total a respeito do assunto que mais mobiliza o fã clube: os segredos do seu coração. Declarou que não está casado, insistiu que não tem nada contra o casamento, pois já casou três vezes… Mas também não tem nada contra estar solteiro. Da sala, choveram ofertas de núpcias. E suspiros esperançosos.

 

Diante da insistência na tecla do amor, refutou as especulações correntes a respeito da existência de uma rainha secreta de plantão, negou com veemência as insinuações que bailam no ar. Assumiu que, no navio, não estava acompanhado. E sustentou que não pretende assumir, em breve, publicamente, nenhum relacionamento amoroso. A Candinha bebeu, afirmou bem sóbrio. E a sério, ao que parece.

 

Afinal, assegurou convicto a sua solteirice e, com um ar entre pensativo e romântico, comentou a rebeldia do amor, sentimento que não tem hora nem lei para acontecer, como bem sabem todos os que deixam a sensibilidade livre embarcar nas canções do artista. E garantiu estar disponível para o amor, quando ele quiser chegar. Mas não contou os truques que, tão famoso, consegue por em ação para paquerar ou conquistar uma mulher.

 

Uma leve sombra de irritação percorreu a sua fala ao falar sobre a vizinha da Urca, assunto de repercussão forte no ano passado que não poderia faltar na pauta. Explicou mais uma vez o seu gosto por passeios de carro pelo seu bairro, ao sair do estúdio, a sua cortesia diante da multidão de frequentadores dos bares das cercanias – a Urca, hoje, é um ponto de encontro da juventude, que lota a orla, adora bebericar e namorar na mureta de frente para o mar.

 

“Não sei de onde inventaram esta história absurda, sem fundamento algum”, respondeu firme. E insistiu nos detalhes da sua inocência. Não mandou flores para a moça, não teve nenhum namoro com ela, não circula vadio pelas ruas em busca de encontros e, se ela está grávida, como observaram, o filho não lhe pertence de jeito nenhum, também por um outro motivo, pois fez vasectomia há bastante tempo. Sem dúvida um papo para encerrar o assunto.

 

Mas a leveza e o alto astral retornam logo. O cantor é, decididamente, um homem apaixonado por seu ofício, mergulhado no seu trabalho, perfeccionista, minucioso, atento ao seu público. Demonstra felicidade ao falar de sua arte. E mais. A pergunta sobre a devoção do seu público, o sucesso permanente, alcançado em meio a um tempo de retração, recebe uma resposta sincera, provoca uma onda de emoção na sala. Roberto Carlos reconhece bem o quanto é amado: “…é uma coisa muito linda na minha vida, eu sempre digo que existe um caso de amor muito sério entre o meu público e eu.”

 

O status privilegiado, percebe-se fácil, não surgiu como fruto do acaso. A dedicação é exemplar. O cantor demonstra o seu engajamento na arte a todo instante, deixa transparecer clara a sua condição cotidiana de operário da música, alguém inclinado a ter uma agenda repleta de compromissos, para a alegria de seu empresário, Dody Sirena, companheiro de mesa no palco. Alguns dos planos para o futuro foram expostos pelo empresário.

 

E parece mágica. Ao falar sobre música e sobre os tantos projetos em que está envolvido, a atmosfera etérea volta a se instalar, as sombras desaparecem. O primeiro tema do encontro atestou esta condição feliz. A alegria quase infantil se impôs quando ele começou a falar do novo disco de inéditas, que espera lançar em um ano, com a inclusão de Este Cara Sou Eu e Furdunço, e mais oito músicas. Segundo declarou, quatro já estão prontas, precisa fazer mais quatro, com lavra própria e alguma parceria com Erasmo, “o meu querido parceiro”.

 

O tom leve se transformou em brincadeira rasgada e tomou a plateia quando Roberto Carlos começou a falar sobre o show de aniversário de 75 anos, dia 19 de abril, programado para a sua cidade natal. A fala, direta, foi o estopim para o gargalheiro geral: “…é uma emoção muito grande, eu resolvi comemorar os meus 57 anos lá em Cachoeiro…”. A tirada descontraída, inesperada, botou fogo no salão.

 

Mas, apesar da alegria, a tarde, foi, na verdade, uma tarde de despedida. O Projeto Emoções em Alto Mar, diante do maremoto que ameaça instabilizar as vidas no país, não será reeditado no ano que vem, até porque não se sabe com certeza o traçado, aqui, das rotas dos transatlânticos nos próximos tempos de crise. E o traçado do valor do dólar. Depois de doze anos, será inaugurado um novo formato, de frente para o mar, num resort do Nordeste: o Projeto Emoções em Terra Firme. A escolha da região, segundo Dody Sirena, ocorreu também por causa do perfil do principal contingente de frequentadores do Projeto, a maioria de nordestinos. Talvez, passado o turbilhão, o Projeto retorne ao oceano.

 

Mas a vida não para. Sim, o trabalho de escrever a Autobiografia prossegue, porém ainda não há data para a conclusão e o lançamento. Divertido, Roberto pediu ao público boa vontade e paciência, recusa à tentação de ler outros livros que por acaso apareçam, pois na sua autobiografia “vão saber muitas coisas que com certeza não estarão em outra biografia feita por qualquer outra pessoa.” A promessa de fazer o livro foi renovada – logo estará pronto e vai abordar até a Jovem Guarda.

 

A carreira internacional continuará a ser foco de trabalho em 2016, com o lançamento de um novo cd em espanhol, inédito, comemorativo dos 50 anos de trabalho no universo hispânico. O trabalho de estudo e gravação de canções italianas também será objeto de atenção, para lançar um novo cd em italiano.

 

A parte divertida foi ampliada ainda com uma pergunta sobre nudes – ele confessou que já recebeu algo do gênero, nada muito agressivo ou de mau gosto, mas nunca enviou nada. Provocou novos suspiros e um pedido do número do telefone, ao contar que tem whatsapp e que visita a sua própria página no facebook.

 

Surpreendeu mais uma vez ao reconhecer que sim, há alguma chance de Wesley Safadão ser convidado para o especial de fim de ano, de 2016, pois o sucesso, no seu entender, é algo que não se discute, deve ser respeitado. Mas a aposta em nomes ainda é muito prematura, observou, pois o trabalho vai se desenrolar ao longo do ano, que mal começou.

 

A melancolia rondou a sala com o inventário das grandes perdas recentes, partes da história do Projeto Emoções. A pergunta relembrava a morte da excelente jornalista Ivone Kassu, há três anos, brilhante assessora de imprensa do artista, e do encantador Luís Carlos Miele, em 2015. Roberto Carlos comentou como foi difícil aceitar a falta de Ivone Kassu, grande profissional e grande amiga de todos no projeto. “Ela conquistou todos nós, há muito tempo, há muitos anos.” Foi difícil continuar, no seu entender, mas o caminho da recuperação passou pela manutenção dos profissionais de sua equipe, Maurício Aires e Rogério Alves, que aprenderam muito bem o caminho trilhado por ela.

 

Este ano, o desafio para o cantor é enfrentar a falta do “grande Melão” – apelido carinhoso de Miele. Um nome muito importante na trajetória do cantor, ele foi o produtor, ao lado de Ronaldo Bôscoli, do primeiro grande show de Roberto Carlos, no Canecão, com textos e orquestra de peso. E uma frase gaiata do mestre de cerimônias divertido foi lembrada, para o aplauso efusivo da plateia – uma noite, ao entrar no camarim de Roberto Carlos, ele declarou “Cara, gosto muito de você, gosto de você até cantando.”

 

Amigo dileto, personagem forte de uma longa história de parcerias, na direção, produção e autoria de textos de espetáculos, Miele era também peça decisiva do Projeto Emoções. O one man show, a bordo, fazia apresentações cômico-musicais irresistíveis e era o exemplar apresentador do karaokê. Nesta última função, o microfone caberá agora a Eri Johnson.

 

Mas, além do inventário das perdas, que a vida ajuda a superar, a nota mais séria do encontro foi o comentário a respeito da tragédia de Mariana e da situação deplorável de corrupção no país. Compreende-se a comoção do cantor, intérprete da pungente As Baleias, desde 1981, e que não viu, de lá para cá, qualquer mudança na relação brasileira com os crimes ambientais. Com veemência, ele deplorou a degradação do mar, a lama tóxica devastadora liberada pela negligência dos poderosos. E condenou o grau de corrupção a que chegou o país, a seu ver absurdo e vergonhoso. Não dá para aceitar quem prejudica o Brasil, asseverou.

 

A tarde se fazia alta e adivinhava uma noite de lua mágica, apesar dos véus de nuvens insistentes, vez por outra cortando a visão do astro. A coletiva foi encerrada, para a preparação do show do Rei, o segundo a bordo. Algumas surpresas musicais iriam pontilhar o espetáculo, atestando a grandeza, a vitalidade e a disposição do artista. Mas esta é uma outra conversa – ou melhor, um outro texto, a ser publicado, para falar o que foi um dos últimos shows a bordo, um acontecimento histórico, o penúltimo show do Projeto Emoções em Alto Mar, um encontro de arte cuja história, por enquanto, está em suspenso. Sem deixar tristezas, pois o projeto aconteceu sempre para celebrar a alegria. Ficou, da coletiva, uma sensação sentimental reconfortante. Apesar de tanto tempo de estrada, Roberto Carlos não se afasta da nota maior arquiteta de sua arte, bela lição de vida: a decisão de viver em estado de amor.