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Roberto Carlos, o dono do tempo

Uma entidade – a expressão é a que melhor define Roberto Carlos hoje na sociedade brasileira. Isto significa, em linguagem mitológica, digamos, uma via láctea além da celebridade. A constatação é imediata a bordo do Projeto Emoções em Alto Mar 2019, que singra o oceano em direção a Santos, escala final, amanhã, dia 20, da viagem iniciada dia 16 de fevereiro. Lá, existe um universo sentimental único, um encontro de natureza bastante especial.

 

Dentro do navio Costa Favolosa, é possível ser simplesmente fã, viver Roberto Carlos vinte e quatro horas por dia. O som ambiente reproduz sem parar as canções que ele fez para todos nós, as atrações combinam a rotina usual dos cruzeiros com atividades de eleição do Rei e, cereja irresistível do bolo, há um show modelado para o ambiente, no teatro flutuante, muito mais aconchegante do que as apresentações habituais. De certa forma, o que acontece a bordo é um mergulho no universo do cantor.

 

A rigor, a proposta é exatamente esta, tornar mais próximo, palpável mesmo, o grande astro, ainda que não seja possível, com mais de 3000 passageiros, instaurar uma confraternização ampla, geral e irrestrita. O astro permanece à distância, mas está ali, magnético. Para muitos fãs – a maioria – a proximidade com Roberto Carlos se dá apenas num dos shows, num total de três, para atender ao contigente numeroso de viajantes. Com alguma sorte, existe a possibilidade fugidia de vislumbrá-lo no show de Tom Cavalcanti, acompanhar a sua participação no Karaokê, esbarrar com ele na boate ou no cassino.

 

Mas não é só isto. O projeto inovou na construção do perfil do artista. Na primeira edição, em 2005, a imprensa cobriu o lançamento e o resultado fez surgir a ideia de transformar a coletiva anual do cantor num encontro a bordo. A escolha alcançou sucesso imediato e, naturalmente, despertou a curiosidade dos fãs. Logo a sua participação foi aceita. Assim, por sorteio, uma parte dos navegantes tem a chance de acompanhar a coletiva ao vivo, sem direito a perguntas e sob a recomendação expressa de moderar as manifestações de amor ou de ódio. A contenção, naturalmente, não é a tônica e o clima permite aos jornalistas avaliar a voltagem dos sentimentos que unem a coletividade emocionada que envolve o cantor. É eletrizante.

 

Neste último domingo não foi diferente – a coletiva aconteceu no porto do Rio de Janeiro e foi um encontro muito animado, de informação, questionamentos (leves) e diversão. O tom descontraído surgiu a partir da abertura, com Eri Johnson se apresentando para dar as coordenadas e reger o coro “Como é grande o meu amor por você…” . Quando Roberto Carlos passou pela cortina, uma onda de perplexidade varreu a plateia – estava vestido com uma elegante camisa rosa, mais radiosa do que nunca, graças ao contraste com as calças brancas.

 

Foi a primeira surpresa da tarde, a maior de todas – a plateia entrou em delírio, com intensa aclamação e muitos gritos de aprovação, plena celebração da escolha. Questionado, ele respondeu que o azul estava se tornando uma compulsão. Ou seja, está na ordem do dia romper com o TOC. Divertido – e o bom humor, combinado com as maneiras elegantes, é uma das suas qualidades memoráveis – Roberto Carlos frisou não ter medo da cor rosa, pois se garante como homem.

 

A masculinidade, aliás, foi explorada sem maiores meandros nas perguntas mais esperadas pelo fã-clube feminino, larga maioria na sala. A indagação a respeito do coração do cantor, a existência de um amor novo, as formas de preservação de sua vida privada provocaram frisson e, por vezes, uma bela gritaria. Roberto Carlos garantiu que continua só, que o amor, esta rede sentimental imprevisível, pode acontecer a qualquer momento, observou a dificuldade enfrentada no dia a dia para preservar a vida privada, quer dizer, o que acontece dentro de sua casa.

 

Outro bloco de perguntas propício para gerar tsunamis afetivas na plateia envolveu a política – a marola começou a surgir com a lembrança da canção Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos, composição dedicada por Roberto Carlos a Caetano Veloso, comovido com o drama humano do seu exílio durante a ditadura militar. Roberto Carlos pontuou com precisão o fato: não houve intenção política no seu ato, como não houve, sustentou, ao gravar Como Dois e Dois, de Caetano, pois o ponto de mobilização de sua vida e de sua arte era e continua a ser a tessitura sentimental, mais humana. Nesta linha, Roberto Carlos fez grandes elogios ao artista amigo, ainda que observando a existência de profundas diferenças na visão dos fatos políticos, condição que, para o cantor, precisa ser respeitada.

 

O desdobramento para o assunto inflamável continuou: a pergunta a respeito de sua opinião sobre a liberação do porte de arma para a população civil, sugerida pelo novo presidente, provocou uma vaia estrondosa. Os fãs, ao que tudo indica, não aceitam qualquer pressão a respeito da orientação política do cantor. Ele foi, por sinal, muito objetivo – observou que o país vive uma guerra e que o lado de cá, o cidadão, está desarmado. Lembrou que o seu pai tinha uma arma muito bem guardada, na sua infância. Mas frisou que o assunto é muito delicado, precisa ser muito discutido, olhado com cuidado. A plateia apoiou na íntegra as suas ponderações.

 

Sim, é claro que houve comoção positiva, com o agradecimento do Rei aos fãs pelo carinho, assim como houve exaltação diante das tiradas felizes ou engraçadas e houve até clamor diante de uma declaração inusitada, de que a primeira música que compôs permanece inédita ainda. O coro “canta, canta!” foi uníssono, mas Roberto Carlos reconheceu que esta teria sido apenas a sua primeira canção, obra de iniciante, e que a sua qualidade é inferior àquilo tudo que fez depois. Quer dizer, não cantou, se limitou a lembrar que o nome da música parece ter sido “Perto de mim”.

 

E perto do coração do povo, o lugar em que mora, ele marcou presença mais ainda, ao comentar a respeito da longevidade da sua carreira, situação atribuída por ele à dedicação dos fãs. Com extrema sinceridade, se disse agradecido pelo sucesso. Roberto Carlos garantiu que não é dado a traições e que nunca fez nem cantou “música de corno”. Divertido, comentou não ter identificação com a temática. Na sua avaliação, cantou mais o amor, as separações ou desencontros e recentemente percebeu a ausência das músicas dedicadas a chorar a traição, mas não se revelou nem um pouco disposto a seguir esta rota. Ao contrário, buscou enfatizar sua fidelidade ao amor. E mais de uma vez agradeceu ao público, que permitiu que chegasse aos 15 anos do Projeto Emoções, uma proposta que tem público fiel, pois no seu dizer 30% do público presente nesta edição já esteve em outros projetos.

 

O jeitinho entre o tímido, o sentimental e o garoto levado aflorou com força nestes momentos – foi o colorido da fala singela sobre como faz para, depois de 60 anos de carreira, 15 anos de Projeto Emoções, mais de 600 músicas, permanecer humilde. “Eu sou o que eu sou, não faço nada para ser humilde, sou deste jeito…” Os fãs exultaram. Também aqui ele devolveu à plateia atenta o mérito do seu sucesso. Na mesma ótica gentil, homenageou Carlos Imperial, autor da primeira canção gravada, João e Maria, composta em parceria.

 

Na versão que apresentou, Carlos Imperial fez a música e, ao examiná-la, Roberto Carlos fez algumas sugestões – situação bastante para o amigo lhe conceder a parceria. A gratidão a Imperial, que impulsionou a sua carreira e o levou para gravar na antiga CBS (Sony), foi expressa com muita sinceridade – “… ele me ajudou muito, tenho o maior carinho.”

 

Uma ponta discreta de decepção, no entanto, pairou no ar diante da notícia de que o filme com a sua biografia ainda não será lançado este ano: o roteiro, aos cuidados de Gloria Perez e Breno Silveira, ainda está em fase de elaboração, tarefa cuidada, cercada de atenção. Roberto Carlos brincou, observando que, com ele, as coisas nunca andam muito rápidas. A justificativa foi clara: “A linha é a verdade total sobre a minha vida. Estou animado. Mas a pressa é inimiga da perfeição…”

 

Com animação, o cantor falou dos novos projetos, alguns em andamento acelerado, pois já há uma agenda internacional de shows digna de um astro de intensa luz, pontilhando a Europa e as Américas. Londres, cidade em que nunca fez um show aberto, motivou perguntas a respeito do repertório a ser apresentado e da expectativa de recepção. Para anunciar o Projeto Emoções em Cancun, previsto para 2020, o microfone foi passado para Dody Sirena, que falou ainda sobre a estabilidade, hoje, da difusão das músicas nas plataformas digitais.

 

O cinema, graças ao bem sucedido filme Minha Fama de Mau, dedicado a Erasmo Carlos, de Lui Farias, esteve na berlinda em vários momentos. Roberto Carlos confirmou as notícias de que gostou da fita, elogiou de forma bem efusiva a direção, o roteiro, o desempenho dos atores, o clima da história. E disse, sem constrangimento, que chorou na cena dos amigos, sentado ao lado de Erasmo Carlos.

 

Além das qualidades que atribuiu ao desempenho de Chay Suede, no papel de Erasmo Carlos, aprovou a sua imagem registrada por Gabriel Leone e sim, considerou provável que o jovem ator possa vir a fazer o seu filme, mais uma vez na sua pele, mas observou que a realização depende ainda de muitas etapas. Impossível um raciocínio mais Roberto Carlos…

 

Mas a agitação não parou por aí, uma outra surpresa favorável ao coração das fãs ainda despontou na tarde de chuva: Roberto Carlos declarou alto e bom som que adorou ir ao cinema e que pretende repetir a aventura, mesmo que a produção seja um pouco trabalhosa. Para ir ao cinema junto com o público, o Rei precisa combinar com antecedência com a gerência, entrar no escuro com muita discrição… O esforço, a seu ver, compensa: sem ir ao cinema desde Titanic, ficou feliz como um menino diante da tela grande, da qualidade do som – “tinha esquecido como cinema é bom”, frisou.

 

No mais, um disco em italiano está em gestação, a atenção ao mercado latino está fervendo, o ano de 2019 será bem internacional, o disco brasileiro de inéditas persiste no foco, mas distante. O rei ainda não sabe o que fará no seu aniversário, este ano comemorado em plena Sexta-Feira da Paixão, uma data sagrada no seu calendário, inapropriada para festejos. Ficou bem claro que este será um ano repleto de compromissos, trepidante mesmo, sob medida para alguém que ama o que faz e se dedica com fervor à própria arte, como insistiu em dizer. Para o rei, apenas uma coisa o incomoda na música: o silêncio, a falta de música.

 

O amor à música e a devoção ao trabalho transpareceram íntegros, arrebatadores, no show, à noite, no teatro do navio. O extenso roteiro de músicas, após a abertura orquestral, foi inaugurado com Detalhes, opção que deu o tom ao que se seguiu – uma apresentação de canções do repertório vestidas com arranjos requintados, solos generosos dos músicos da banda, uma apresentação preocupada em aproximar os corações e liberar o sentimento. Na coleção de momentos musicais arrebatadores, calou fundo na alma a bem sucedida versão de Cavalgada, de Roberto e Erasmo, com interpretação sentimental precisa, uma féerie impressionante de som e luz, uma espécie de orgasmo musical. A viagem musical amorosa seguiu intensa até o final, de confraternização geral com o público, iniciada na performance de Champagne, de Pepino Di Capri,com direito a champanhe servida por camerieri, e indo até a distribuição de rosas, sob os acordes de Comandante do seu coração, de Roberto e Erasmo.

 

Enfim, uma engrenagem perfeita, uma aventura musical em que os direitos do coração fazem valer o estado de amor, selam uma união profunda entre palco e plateia, na qual o comandante é não uma das partes, mas o estado geral de felicidade. Como se fosse obra de requintado joalheiro, o Projeto Emoções abole o tempo, apaga a natureza cruel do mundo, rompe com o vendaval lá fora, instaura a paz, sugere o desvio da tristeza e da solidão, instaura o caminho do amor. Revigora tudo, sem dúvida, como se fosse um daqueles banhos de mar de descarrego. No caso, foram lavadas as almas. Você perdeu? Não fique triste não, nada de ficar infeliz – o que passou, passou, ano que vem tem mais. E quer saber o melhor de tudo? O navio rumo ao amor de si partirá do Rio de Janeiro. A bordo, uma entidade que é pura música regerá as almas brasileiras sofridas segundo uma partitura de felicidade humana, de exceção.

 

SERVIÇO

PROJETO EMOÇõES EM ALTO MAR
Cruzeiro-show com Roberto Carlos
Produção e direção técnicas: Genival Barros
Maestro: Eduardo Lages
Músicos: Tutuca, Paulo Coelho, Elias, Clécio, Nahor, Darcio, Ubaldo, Dedé, Norival, Jurema, Ismail.
Fotos: Caio Girardi

 
INFORMAÇÕES DE CONTATO
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