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Entrevista Coletiva com Roberto Carlos

Local: Projeto Emoções em Alto Mar – Costa Pacífica

 

Mar de almirante, timoneiro da canção, comandante do mar afetivo de todos nós. A duplicidade de funções revela a maturidade absoluta do maior mito da canção brasileira. Na coletiva concedida domingo, 05/02, a bordo do navio Costa Pacifica, Roberto Carlos conversou com jornalistas de todo o país – e até de Portugal – e deixou claro o novo porto conquistado em sua carreira: atingiu o grau de artista hábil para singrar as ondas fortes do mercado internacional, em projetos de marketing um tanto afastados de uma política de criação. A escolha significa também uma guinada contra o desejo dos fãs: não há no momento uma política consolidada para o lançamento de inéditas.

 

Ao longo da amistosa conversa com os jornalistas, em que as perguntas  diplomáticas, de reconhecimento da consagração do cantor, dominaram, o artista deixou clara a sua percepção do imenso sucesso conquistado ao longo da carreira. Deixou transparecer também o seu grande segredo, a chave decisiva para alcançar esta marca – um misto de doçura, bom humor, elegância, inteligência e humildade. Assim, quando um jornalista perguntou se ele sabia a razão de sua aclamação unânime, ele afirmou não saber explicar o fato, tarefa a ser cumprida por outros profissionais, mas reconheceu, em uma tirada sutil, gostar dessa situação, gostar de ouvir quando falam do amor que ele dá e recebe.

 

Diante de perguntas espinhosas ou um tanto menos delicadas, o cantor contornou divertido o obstáculo, demonstrou uma presença de espírito afiada e – mais uma vez – encantou os fãs autorizados a lotar o vasto teatro de 1200 lugares. Por isto, fez sucesso ao garantir que ainda é cedo para pensar na hipótese de indicar um sucessor. E ao sustentar o seu respeito por tudo o que repercute no público, tudo o que o povo aclama, como o estouro recente conquistado por Michel Teló. Na véspera, no primeiro show do Projeto Emoções em Alto Mar, a plateia começou a cantar a música-coqueluche e Roberto Carlos aceitou a brincadeira, cantou o refrão aclamado nas ruas.

 

O grande foco da coletiva, contudo, passou adiante do inventário recorrente do lugar de projeção do rei – pois afinal ninguém mantém a realeza em uma república fervilhante de egos artísticos, como o Brasil, sem fundamentação bastante. A partir da constatação do impacto do show realizado em Jerusalém, no ano passado, ficou muito perceptível a existência de um projeto bem delineado para a internacionalização do astro. A experiência em Israel teve um alcance forte, tanto no plano pessoal, para a estruturação da fé, do sentimento religioso do artista diante da vida e do mundo, como significou também uma conquista de arte. A qualidade musical e visual obtida no grande palco permitiu gerar  uma série de trabalhos gratificantes:  o próprio show, um programa de televisão, a gravação de cd e dvd, estes em fase de acabamento de produção para o lançamento no mercado nacional.

 

Mas não foi só. O Oriente Médio confirmou algo que já se notava no mundo hispânico – a possibilidade de sonhar com a ampliação das fronteiras traçadas pela música do cantor. Há um espaço, no mundo, de receptividade para a canção, para as melodias e ritmos inclinados ao flerte com os sentimentos humanos, explorado a partir de grandes projetos turísticos. E a certeza da existência deste espaço na cena fora do Brasil surgiu clara na entrevista, com o anúncio de que  Roberto Carlos  realizará em breve  turnês no México e nos Estados Unidos, terras em que não é marinheiro de primeira viagem, mas que inspiram agora projetos fortes de mercado.

 

Nesta dinâmica, o fato de não ter gravado o tradicional programa de fim de ano, levado ao ar pela Rede Globo religiosamente, substituído pela reprise do Show de Jerusalém, não foi uma decisão desagradável, para o cantor, nem fez com que ele ficasse contrariado. Sempre com bom humor e um olhar divertido para os fatos, o astro comentou que seria difícil produzir um especial comparável, em qualidade, ao evento de Jerusalém. Assim, no seu entender, o ideal é deixar um espaço de tempo, entre a beleza pungente do programa produzido com tanto esmero e uma nova gravação, para a comparação ser menor. Vale dizer: um novo cálculo de qualidade se impõe, inclinado a constituir uma linha forte o bastante para marcar a incursão no mercado externo. A decisão é bem séria, se forem levados em conta o perfeccionismo e o espírito profissional do cantor.

 

Apesar de abraçar um projeto de tamanha dimensão, formulado em sintonia com o empresário Dody Sirena, presente na coletiva, Roberto Carlos afirmou manter-se fiel ao perfil já conhecido dos fãs, às manias e rotinas de sempre. Ao lado do gosto pelo amor, sentimento que o seduz ainda e sempre, sustentou continuar caseiro, noveleiro, amante de Cachoeiro de Itapemirim, terra natal em que cogita apresentar o show Emoções, e eterno cortejador da alma feminina. Bronzeado, feliz, em bela forma física – mesmo sem tempo no momento para marombar, outro dos prazeres cultivados sempre – o cantor assegurou não ter tido agenda para ver o musical Tim Maia, no qual figura em controvertida caricatura. Mas não economiza palavras – ou emoções – para falar do cruzeiro no navio Costa Pacífica: “uma maravilha, uma viagem de sonhos.” A seu ver, trata-se de um momento muito importante em sua agenda, algo esperado o ano inteiro. “Quando volto para a terra, dá vontade de voltar para o navio. Aqui a gente vive um clima de muito amor.”

 

Este amor tão desmedido esteve também no carnaval do ano passado, na homenagem ao artista realizada pela Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis, que o escolheu como enredo – uma emoção inexplicável, inesquecível. Mas este ano, em meio a projetos tão ousados, depois de estrear na discoteca virtual do iTunes, o Rei não vai sacudir a Sapucaí com a sua presença, garantiu que não irá ao carnaval. Vai acompanhar a festa em casa, pela televisão. Não há dúvida: vai preparar as forças para enfrentar outras ondas, acertar o leme para se lançar nos mares do mundo.