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Roberto Carlos – professor de amor

 
Um show histórico: Roberto Carlos, aula de amor. Apesar do frio repentino que se abateu sobre Lisboa, após um dia de sol e de uma discreta sugestão de verão primaveril, a multidão serpenteava ansiosa diante dos acessos de entrada para o belo Meo Arena, antigo Pavilhão Atlântico. O desejo era forte – matar as saudades de Roberto Carlos, o grande mito da canção romântica latina, há nove anos sem fazer shows na cidade. E, na verdade, em razão da procura, foram programados dois shows – um na quinta e outro na sexta. Um retorno impertinente dos ares do inverno não poderia atrapalhar o prazer do acontecimento.

 

Pois as expectativas não foram em vão. Vestido num deslumbrante terno branco, com uma delicada camisa azul e branca, Roberto Carlos ocupou o palco sob o tom profissional requintado que é a sua marca, à frente de um conjunto de dez músicos regidos por Eduardo Lages e dois cantores de sua equipe habitual. Foi uma noite de muita música, um forte encontro de almas e intensas emoções – apesar da distância, Roberto Carlos também reina nos corações daqui.

 

A estrutura da apresentação seguiu a linha tradicional, mas com variações admiráveis, bem pensadas para a terrinha. O cantor estava feliz, solto, falante, íntimo como um filho querido e um tanto moleque que volta para casa. Ainda que tenha declarado de saída o seu gosto pelo canto, em lugar da fala, várias foram as intervenções e os comentários ao redor dos números musicais, por vezes espontâneos, improvisados. O tom amigo, coloquial, brincalhão fez sucesso diante da plateia lotada, de 12 mil lugares.

 

O show seguiu um desenho musical inspirado e generoso – com a abertura, foram vinte canções, escolhidas tanto para honrar a trajetória do artista, como para flertar com o jeito amoroso de Portugal e revelar a densidade musical do conjunto. Após o apanhado orquestral do início, o primeiro bloco foi iniciado com Emoções, seguida de Eu te amo, te amo, te amo, Além do Horizonte, Detalhes. Nesta altura, a hesitação técnica do som da Meo Arena falou mais alto – este foi o único senão da noite – e impediu que o acompanhamento do rei ao violão pudesse prosseguir por todo o número, nada, porém, que as cordas exemplares de Paulinho Coelho não pudessem compensar.

 

A variação da qualidade do som marcou presença aqui e ali, mais ou menos discreta, mas sem conseguir, no entanto, reduzir o brilho da noite – a comunhão entre o palco e a plateia se consolidou desde a abertura, uma grande viagem musical fora proposta e aceita, envolta por uma atmosfera de entrega e carinho. E o público cantava emocionado, batia palmas, dançava com o corpo e com os braços, gritava exclamações de amor ou de admiração. Em poucas palavras, aquela coisa de coração entregue, um luxo.

 

Alguns momentos foram de impacto absoluto: Lady Laura, tão eloquente para uma terra carente dos feitos juvenis do passado, Nossa Senhora, eco grandioso do espírito devoto do país, Coimbra, de tantas querências e memórias sentimentais coletivas, As Baleias, o protesto do passado, um canto precursor de Roberto Carlos, oração ecológica eletrizando a sensibilidade de uma pátria de pescadores, velhos caçadores de baleias no mundo. A celebração do amor no presente, o casamento malicioso entre galanteria e modernidade num tempo feminista, ganhou o espaço em Esse Cara Sou Eu. Houve o brinde ao amor entre Brasil e Portugal, graças a uma Aquarela do Brasil alegre, dançante, com arranjos coloridos de samba. Aliás, a lista de momentos inspirados da partitura e do desempenho dos músicos seria um texto a mais…

 

E a noite foi assim: emocionante, generosa, coletiva, emocionada, musical. Uma massa humana em estado de felicidade, sintonia fina de corações, chegou ao final do roteiro ao som de Jesus Cristo e da alegre confraternização das rosas sem vontade de ir embora e dizer adeus. A saudade de Roberto Carlos era grande demais, protestou uma senhora na plateia, enquanto bravamente pedia “mais um, mais um”, no barulhento coro de palmas. E como não se pode calar a voz do povo, o rei voltou para mais duas canções – Amigo, a música delicada de exaltação do sentimento de comparsaria tão presente na vida lusitana, Amada, Amante, ode ao coração errante, um pouco uma imagem propícia para evocar um jeito de ser simbólico de Portugal, terra de povoadores dos quatro continentes.

 

E assim a noite foi encerrada, envolta numa nuvem de bons sentimentos, apesar da madrugada fria que se anunciava no vento cortante. Enquanto a multidão em estado de afeto se dissolvia s sombras da cidade, impossível deixar de pensar no que acontecera ali, um grande encontro sentimental. Talvez seja disto, bálsamos sentimentais fortalecedores das almas amantes, atestados de humanidade pura, do que o mundo mais precise no momento, no cotidiano de cada um. Salve, Portugal, lar dos navegantes do afeto, o país fez escola: do lado de lá, no Brasil, somos seus filhos. Roberto Carlos está aqui, traz a aula magna da sua lição, a aula de amor que, da Lusitânia, aprendemos.

Foto: Caio Girardi