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A volta da velha senhora

 
Ela voltou, comece a festejar. Mas não é apenas isto: ela está de volta turbinada, no melhor de sua forma, antenada com a vida dos cidadãos, curiosa e ácida, impiedosa, decidida a zombar dos defeitos humanos do nosso tempo, aquelas falhas prejudiciais à melhor marcha do mundo.

 

Sim, Sucesso, de Leandro Muniz, cartaz até dia 2 de outubro no CCJF, honra a melhor tradição brasileira da comédia de costumes e esta qualidade, por si, torna o programa imperdível.

 

É o nosso velho amor pelo riso de volta, para castigar os maus costumes. Portanto, vá vê-la, o prazer será todo seu. A chance de rir sem piedade dos descaminhos de hoje anda rara, faz tempo o hábito saudável recolheu-se às prateleiras da História.

 

Você é uma pessoa séria, a volta da velha irreverente não lhe basta? Quer mais razões para largar o sofá e ir ao teatro? Pois a montagem foi arquitetada por um grupo jovem, a Quase Companhia, um elenco dedicado à arte do palco, liderado por um autor-diretor muito hábil. Assim, a noite traz a paz com o passado e o presente do teatro, o que não é para se desprezar.

 

A rigor, o texto frenético de Leandro Muniz se impõe como veículo para um trabalho de criação de grupo – a trama, criada e estruturada pelo autor, foi trabalhada na sala de ensaio sob sua direção, prática poética dinâmica o bastante para fazer com que a cena revele um gosto de vida palpitante e contenha algumas marcas do coletivo. A cena é viva, quente, sagaz.

 

O olhar ao redor, para o nosso presente, é devastador. Estão lá os nossos clichês, os nossos preconceitos, a nossa escravidão à aparência imediata dos fatos. E não só a trama, o enredo, visita a nossa alma, mas os truques teatrais, as soluções cênicas e os recursos espetaculares dialogam intensamente com a sensibilidade atual.

 

O eixo central da brincadeira ácida é um grande fantasma da vida moderna, em particular da miséria social brasileira. O foco está no cidadão. Refém do jogo histórico, o cidadão do nosso tempo sofre o massacre de não ser, a síndrome de existir como Zé Ninguém, mergulha atônito no anonimato, condenado a acompanhar uma vertiginosa escalada de celebridades ocas, inexplicáveis em seu poderio fulgurante.

 

Ainda que o título seja exatamente sucesso, o protagonista é Ordinário, um sujeito incapaz de escrever o seu nome no muro da fama, apesar do feroz desejo de tornar-se célebre. Anderson Cunha desenha o papel sob tons patéticos, entre a entrega e o desenho crítico. A combinação faz com que a gana de vencer se projete misturada a uma alta dose de ingenuidade, com um efeito cômico muito forte.

 

Num resumo simples, a trama apresenta o pobre coitado, Ordinário, revendo a sua própria vida de fracassos diante da morte, que acontece justamente no instante em que ele poderia cogitar a hipótese de se tornar um sucesso. De certa forma, trata-se de uma espécie de Woyzeck ao contrário, para rir, em que o idiota é idiota mesmo, sem humanidade, mas é um pouco todos nós, anônimos na roda do mundo.

 

O tratamento debochado de construção do zémané transparece na mãe desnaturada, minucioso desempenho caricato de Juliana Guimarães, excelente também na irresistível professora de teatro. E impregna o hilário modelo de homem famoso, o empresário e multiartista Henrique Sanchez, de Pedroca Monteiro. Flui livre nas intervenções corrosivas de Daniela Fontan (Constantine), Fabiano Lacombe (amigo imaginário) e Rafael Pissurno, este encarregado de uma linha de criação musical de impacto, preciosa mesmo, sob a direção atenta de Fabiano Krieger.

 

O elenco, em estado de graça, contracena e faz música, numa permanente ciranda de invenção. A cenografia, de Paulo Denizot e Janaína Wendling, é tão plástica quanto um sonho ao redor de uma vida perdida. A partir da base realista de um set de filmagem de televisão, ela se espraia por múltiplas situações, hábeis recursos para liberar um fluxo narrativo sem amarras cronológicas. A luz de Paulo Denizot participa ativamente deste jogo. Os figurinos, de Bruno Perlatto e Tuca, são construções inventivas adequadas à oscilação entre realidade e desvario.

 

Enfim, uma beleza. Existe pesquisa, busca, inquietação e originalidade na pauta do teatro dos grupos jovens cariocas, a prova está aí, não dá para deixar de ver. Longe dos holofotes e da fama descartável, este conjunto assina uma linha de produção fadada a honrar o nome da peça: está fadada ao sucesso. Pois, ao desnudar grandes mazelas da vida mesquinha de hoje, estes jovens honram o teatro, iluminam caminhos humanos e traçam a mais requintada sintonia que a arte pode desejar, a sintonia de saber atualizar as suas maiores tradições, para inseri-las, reinventadas, na fogueira hostil do nosso próprio tempo.

 


Ficha Técnica
 
Texto e direção: Leandro Muniz
Elenco: Anderson Cunha, Daniela Fontan, Diego de Abreu, Fabiano Lacombe, Juliana Guimarães, Pedroca Monteiro e Rafael Pissurno
Cenário: Paulo Denizot e Janaína Wendling
Iluminação: Paulo Denizot
Cenografia: Bruno Perlatto e Tuca
Direção musical: Fabiano Krieger
Direção de movimento: Carol Pires
Assistente de direção: Julia Tavares
Assistente de cenário: Aline Pais
Assistente de iluminação: Daniel Ramos
Assistente de produção: Gabriela Prado
Programação visual: Pablito Kucarz
Direção de produção: Junior Godim
Idealização: Anderson Cunha e Leandro Muniz
Realização: Quase Companhia
Foto: Daniel Moragas da Costa
Assessoria de imprensa: Duetto Comunicação

Serviço
Sucesso
Local: Teatro do Centro Cultural Justiça Federal
Endereço: Av. Rio Branco, 241 – Cinelândia / Centro / Rio de Janeiro
Temporada: de 02 de setembro a 02 de outubro de 2016
Horários: sextas, sábados e domingos, às 19h.
Valores: R$30,00 inteira / R$15,00 meia entrada
Duração: 70 minutos
Lotação: 140 lugares
Classificação: 14 anos.
Telefone da bilheteria: (21) 3261-2550