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O que mantém o Antunes vivo

“Antunes Filho morreu. Talvez se possa erigir uma placa em sua homenagem, com as datas 1929-2019. No entanto, a atitude será mera formalidade oca. Pois a figura de Antunes Filho persistirá, eco flamejante em cena, enquanto por aqui houver teatro. Ou será uma coluna românica seca, de pura pedra talhada imponente. Seja qual for a imagem atribuída ao diretor teatral, ninguém duvida deste raciocínio, ao que parece, mas… Será que será mesmo assim? Será que dispomos dos meios para imortalizá-lo? A pergunta incide sobre dois planos, a identidade do diretor e a nossa capacidade para reconhecê-lo, torná-lo imortal.

 

Em primeiro lugar, vale indagar a respeito do eleito. Quais são as razões para afirmar tal ruptura com o destino comum dos homens, afirmar a imortalidade de um mero diretor de teatro, profissão distante para boa parte da sociedade? Por acaso Antunes seria deus ou imortal? Qual a incandescência capaz de fazer com que ele queime rotinas habituais da vida para persistir entre os vivos, ser vagante em estado de eternidade?

 

Não há resposta fácil, mas o fato crucial, aqui, é a trajetória cumprida por ele, uma jornada de herói, um herói escorregadio, movente, um herói de teatro no rigor da expressão. Um simples olhar para a sua biografia traduz este percurso fenomenal, revela uma pessoa que nunca se acomodou, nunca conseguiu se aquietar e viver dos louros conquistados. Ele foi uma personalidade em movimento, o seu olhar estava fora do ponto de fuga, adiante. Antunes Filho passou pela vida perseguindo um sonho, o sonho do teatro de reinvenção humana. E se reinventou a si mesmo sempre, até o final dos seus dias.

 

Entendi esta trama após uma entrevista, em 1995, no CPT, na qual eu buscava entender um parêntese da História do Teatro Brasileiro, na minha opinião muito grave. Pedi para conversar com Antunes Filho para pensar a trajetória da atriz Maria Della Costa e de sua companhia, a Companhia Maria Della Costa, banidas dos livros escritos até então a respeito do teatro brasileiro. Queria ajuda para tentar entender como uma obra teatral monumental tinha sido apagada da memória do próprio palco. Além de ele ter sido contemporâneo, ele dirigiu duas peças para a empresa em momentos bem especiais.

 

Muito gentil, ele aceitou de bom grado o convite. Apesar da carreira consolidada e célebre do diretor, a nossa conversa foi surpreendente. Ali conheci uma visão generosa do teatro nacional – quase uma cruzada em prol do adensamento da linguagem da cena brasileira. Uma alquimia preciosa foi revelada logo de saída na sua fala, a combinação de instinto e razão, sensibilidade e teoria, para definir a sua visão da forma ideal de ser em arte.

 

Já na abertura da entrevista, quando se pede ao entrevistado breves palavras sobre a sua trajetória, ainda que o assunto não seja a sua carreira, o diretor deixou evidente o seu perfil resoluto, capaz de escolhas profundas. A inquietude que fez com que não se interessasse pela universidade, largasse o curso de Direito, o integrou à famosa Turma da Estátua, um pessoal que se reunia no saguão da Biblioteca Municipal de São Paulo, ao pé da estátua A Leitura, para discutir arte e cultura e seguir cursos oferecidos por notáveis como Ruggero Jacobbi, ministrante de aulas concorridas sobre cinema.

 

A turma contava com um elenco que se projetaria bastante na vida cultural brasileira – estavam lá, entre outros, Manoel Carlos, Bento Prado Jr., Roberto Schwarz, Mario de Almeida, Flávio Rangel, Paulo Rangel, Cyro Del Nero, Fábio Sabag, Carlos Henrique Escobar, Ruth Escobar… O interesse comum era ler, debater, trocar ideias sobre arte, cultura, o intenso momento teatral e ver cinema, na Cinemateca. A ponte com o teatro amador era direta, foi ela quem conduziu Antunes à iniciação teatral.

 

A sua primeira direção, um trabalho amador, foi vista por Décio de Almeida Prado, um fato inexplicável, no seu entender, medida do engajamento do grande crítico na vida teatral de São Paulo. Diante da montagem juvenil, o crítico não hesitou – assinalou a existência de vários erros. Mas, para surpresa do iniciante, observou que ele era do ramo e convidou-o para ser assistente de direção no TBC, ainda que ele fosse um ser estranho à roda teatral que já se organizava, pois sequer frequentava a EAD. Ele não hesitou diante da proposta e assim se tornou assistente de Ziembinski, Adolfo Celi, Flaminio Bollini Cerri, Luciano Salce – quer dizer, foi assistente dos grandes diretores estrangeiros responsáveis pela implantação do teatro moderno no país.

 

Foi a deixa para a sua profissionalização, pois logo ele estava dirigindo para Abelardo Figueiredo, na Cia Nicette Bruno. Na estreia, com Weekend,de Noel Coward, o sucesso de público foi brutal e a carreira seguiu, não só no palco. Ao lado de Osmar Rodrigues Cruz, ele foi pioneiro do teatro na televisão, na TV Tupi, um assunto bem pouco estudado. Na televisão, segundo o seu depoimento, ele criou um padrão de teleteatro de alta qualidade, com a escolha de grandes textos da cena e da literatura. E levou toda uma geração, a geração moderna, para a telinha.

 

No entanto, uma inquietude que ele associa à pulsação vital da Turma da Estátua sempre o impediu de acomodar-se – tanto o teatro profissional quanto a televisão acabaram por desencantá-lo. Na verdade, além do turbilhão pessoal e geracional, a revolução interior que o transformou no original encenador brasileiro moderno, dotado de aguda percepção pictórica, eclodiu a partir do casamento com Maria Bonomi, artista plástica de excepcional sensibilidade, sólida formação cultural e impressionante ímpeto criativo.

 

Com a esposa, contemplada com uma bolsa de estudos, Antunes viajou para a Europa e transformou a sua visão cênica graças à vivência intensa do mundo das artes plásticas. Na sua entrevista, ele comentou com detalhes esta experiência cultural e observou a sua paixão pelo românico, sua repulsa pelo barroco, a sua inclinação para a cena limpa, essencial, minimalista, erguida a partir da essencialidade da forma. Enfático, frisou: “não me dou com o barroco e odeio os pintores barrocos, Rubens…”

 

Uma outra tradição pesou com força na estruturação do seu modo de trabalhar: a análise de texto moderna, em particular o método de Ruggero Jacobbi, exaustivo, dotado de extrema carga intelectual. A mesa de leitura do diretor italiano, intelectual refinado, na sua descrição, era arrebatadora – apesar do seu trabalho, ao levantar da mesa, perder bastante do brilho. No seu entender, duas referências intelectuais ficaram absolutas – o diretor italiano e Décio de Almeida Prado. Quer dizer – a figura do homem intelectual, devoto do estudo profundo dos temas, foram inspirações permanentes. Ao analisar as suas palavras, é possível localizar neste ponto a estrutura da sua performance. Para onde esta constatação leva o pensamento sobre o diretor? O que o teórico provoca no homem prático bicho de cena?

 

Há um debate em história do teatro moderno de particular interesse – a possibilidade de diferenciar diretor e encenador. Os primeiros modernos, responsáveis pela criação de encenações tecidas a partir da poesia do texto, seriam diretores. A geração seguinte – ou mesmo alguns diretores desta leva primeira, na sequência de suas carreiras – seriam encenadores ao optarem por leituras cênicas autorais orgânicas, mas ousadas, com frequência em atrito com o texto do dramaturgo ou apenas propondo uma visão lírica, pessoal, liberta, do original proposto. Antunes Filho fez este percurso: primeiro nome da primeira geração de diretores brasileiros, foi moderno e se tornou encenador de grande impacto.

 

A marca da virada foi Macunaíma, de Mario de Andrade, em 1978, encenado por um grupo liderado pelo diretor, que dará origem ao CPT (Centro de Pesquisa Teatral). Olhar a história e a ficha técnica da montagem é ato de extrema importância. O projeto foi iniciado em 1977 com um conjunto de jovens atores dedicados ao estudo do texto. Ao lado do diretor, um nome se projeta com intensidade, na direção artística, na cenografia e nos figurinos – Naum Alves de Souza (1942-2016). A rigor, estes dados significam o reconhecimento de uma regência de arte, por parte do antigo diretor, capaz de amalgamar, tecer e criar a partir de uma espiral coletiva de invenção; propor, enfim, um grupo de criação. É como se o líder se afirmasse como um catalizador da imaginação coletiva e, partir deste jorro de invenção, instaurasse uma escrita cênica.

 

Apesar do tema restrito – Maria Della Costa – a entrevista foi longa, se tornou uma deliciosa conversa sobre história do teatro brasileiro, com algumas tiradas de espírito irresistíveis e provocações exemplares, para gregos e troianos. Impossível resumir aqui, o texto merecia ser publicado na íntegra. A sua visão dos atores é de particular interesse. Questionado a respeito de sua função como coveiro do velho teatro moderno, pois assinou tanto a última montagem do TBC quanto a última montagem do TMDC, Antunes Filho respondeu, com muito espírito, que se via, na verdade, como uma fênix, sempre capaz de renascer das cinzas. Para ele, as cinzas devem ser consideradas como um portal de anúncio do novo.

 

Em consequência, dois grandes vetores importariam para explicar os motivos responsáveis pela imortalidade do diretor – a sua personalidade intensa, insaciável, sempre orientada para a pesquisa,capaz de gerar uma obra coerente e impactante, e o formidável ambiente cultural existente ao seu redor. Se desejarmos imortalizar Antunes Filho, a saída é simples, está ao alcance de todos os que amam o teatro. Ou a cultura. Importa promover iniciativas permanentes de vivência cultural, estimular o estudo das tradições e a transformação das referências cristalizadas, garantir aos jovens o acesso à informação e ao estudo. Viabilizar a existência de muitas Turmas da Estátua. Não tentar transformar o encenador efervescente em placa anódina na parede.

 

Ao longo do depoimento, ficou muito clara a paixão de Antunes Filho pela busca incessante de novos caminhos de criação e a sua crença na força do texto, da palavra, unidades da arte passíveis de transmudação em corpo, movimento, cena, mas fontes, sempre, pontos de partida, sem dúvida. O autor, a dramaturgia, a palavra da cena foram preocupações permanentes em sua carreira. Algumas atitudes do nosso tempo honram as ideias e as práticas do consagrado diretor. Uma delas está logo ali, ao nosso alcance, com resultados lindos. É o Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI, preocupado em descobrir e desenvolver novos autores teatrais brasileiros.

 

De certa forma, a metodologia praticada no núcleo sintoniza com as propostas acionadas por Antunes Filho: trata-se de um nicho de investigação intelectual, inquietude. Aqui, o programa anual de estudo e criação mistura teoria e prática com atividades variadas, desde a leitura de textos filosóficos e teatrais até os debates e os exercícios de escrita. Contudo, a concepção é eminentemente prática, posto que cênica – os estudantes são convidados a escrever duas dramaturgias, sob a orientação do coordenador do núcleo, Diogo Liberano.

 

Pois a hora, agora, é de conhecer os resultados obtidos pela 4ª Turma do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI. Pela Editora Cobogó, serão lançados os textos ‘Saia’, de Marcéli Torquato, ‘Desculpe o transtorno’, de Jonatan Magella, e ‘Só percebo que estou correndo quando vejo que estou caindo’, de Lane Lopes. No mesmo dia, 13 de maio, serão lançados os livros e estreará o espetáculo ‘Saia’, de Marcéli Torquato, sob a direção de Joana Lebreiro.

 

Um fato curioso: a peça trata do medo do mundo – uma mãe extremosa decide criar as filhas debaixo de sua saia para protegê-las dos males do mundo. Por ironia, um sentimento muito brasileiro, pois muita gente acredita que somos figuras humanas (e artísticas) absolutas, irresistíveis monumentos de afeto, diante de um mundo seco, hostil, capaz de estragar o melhor de nós. Uma equação esquisita. Há, sem dúvida, um imenso valor nacional, a criatividade e a alegria em destaque, capazes de conquistar o mundo, em lugar de se perder diante do estrangeiro. Com certeza Antunes Filho ajudou a colocar a equação do medo entre parênteses, ao fazer uma boa metade deste tal mundo árido se deslumbrar com Macunaíma. Se o caminho proposto por ele não for ignorado, Antunes Filho permanecerá, imortal, no panteão do teatro brasileiro. Ou mesmo sobreviverá num cantinho quente qualquer do coração da alma nacional.

 

SERVIÇO
Foto: Macunaíma, autor ignorado, material de divulgação.
 
Saia
Temporada: De 13 de maio a 18 de junho
Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI
Teatro Firjan SESI Centro
Avenida Graça Aranha, 1 – Centro – Rio de Janeiro/RJ (Próximo ao Metrô – Estação Cinelândia).
Telefone: 2563-4163.
Dias e horários: 2ª e 3ª, às 19h.
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
Lotação: 338 pessoas
Duração: 1h15 minutos
Classificação: 12 anos
Funcionamento da Bilheteria: De segunda a sexta, das 11h30 às 19h30. Sábados, domingos e feriados,