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A invenção do Brasil e a mamãe França

“Reza uma antiga modinha de carnaval: quem inventou o Brasil, foi seu Cabral. Andei viajando e pensei bastante na data do 21 de abril. Discordo do velho sucesso – quem inventou o Brasil foi a França. Para os descrentes, exponho os argumentos.

 

De saída, importa frisar que o interesse de Portugal, ao enviar o nobre Cabral ao mar, não foi a descoberta de terras. O desejo da Coroa era estabelecer um fluxo certo de comércio, via Oceano Atlântico, com o Oriente. No entanto, várias potencias europeias rondavam ao redor, em busca de fontes de riqueza. E, dos mais atilados dentre todos, lá estavam os franceses.

 

Sim, se não fosse segredo de Estado, saberíamos muito bem que os inventores do Brasil foram os franceses. Por causa deles, os portugueses buscaram proteger a rota oriental, cujo fechamento completo em seu benefício pretendiam. Por isto, Cabral fez-se um pouco ao largo e fincou marcos de posse no Brasil. A mensagem era: fora, franceses. E o nobre cortezão seguiu pelo mar bravio. Desastrado e inábil, fracassou em Calicute e acabou bombardeando a cidade. Os franceses, por sua vez, não entenderam a mensagem – ou fingiram não entender.

 

Apesar do Cabral e dos cuidados lusitanos, flibusteiros franceses faziam a festa no litoral brasileiro. Tudo indica que, talvez antevendo a garota de Ipanema, ficaram fascinados por Cabo Frio e danaram a fazer festas por lá, festas de luxo, repletas de toras de pau-brasil. No início, era só veraneio, até que descobriram o paraíso na Terra, um berçário ideal para o nascimento da beleza, e inventaram de se esbaldar no Rio de Janeiro. Ali, quase na beira do mar, ilhoa, nasceu a mais formosa das cidades.

 

Pois foi bem assim que foi inventado o Brasil. Nasceu sob o amor mais desbragado dos franceses pela Baía de Guanabara, pérola litorânea. E saiba-se lá qual o nome atribuído pelos amantes gauleses ao acidente geográfico mais encantador do litoral nacional, sabe-se do amor. A história de amor é longa, vale resumir.

 

Ainda que os portugueses tenham estado a levar a melhor, ao menos em aparência, na realidade a França optou por se infiltrar de várias formas no território açambarcado pelos lusos. A paixão se tornou recíproca e eclodiu como um caso tórrido no século XIX – tudo por aqui referente ao bem viver, ao bom gosto, moda, comportamento, maneiras de ser e cultura, se tornou francês.

 

Pesquise, busque, observe – veja as modistas, as comidas, as moças garridas e as aquietadas, o ir e o vir, a música, as artes plásticas e, enfim, a nobre arte do teatro: tudo virou fruto de inspiração francesa. Em retribuição pela excelência tintureira da madeira original, todos os encantos relativos à arte de estar no mundo foram despejados por cá. Sim, alguns chamam este proceder de imperialismo, colonialismo. Mas… qual seria a opção alternativa? O que é mesmo ser nativo? Dá para voltar a ser índio?

 

Certa vez estive na Amazônia dando aulas. Conheci então um grupo de artistas dedicado ao retorno à cultura da terra – quer dizer, ao modo de viver indígena. Alguns artistas acompanhavam o meu curso e me convidaram para conhecer o movimento, num almoço de sábado num banho. Banho era o nome daquilo que por aqui, no Rio, chamamos de sítio.

 

Criatura curiosa, aceitei o convite. O banho era recortado por um rendilhado de igarapés, pequenos cursos de água derivados do Rio Negro. A cor do nome, conhecida desde os livros, parece mesmo Coca-Cola e, para quem nasceu tomando banho de mar no Rio de Janeiro, nada tem de convidativa. O desenho do banho era simples: apenas uma incrível renda d’água sobre a terra, salpicada de restos de floresta, pontilhada por choças, palhoças, quase todas providas de um teto e só uma parede.

 

No centro de tudo ficava o banheiro, um ripado de gravetos coberto de palha, com fossa viva por baixo, uma das coisas mais nauseantes que vi em toda a minha vida, lugar fervilhante de larvas repulsivas frequentado também pelos porcos e pelos animais criados soltos. A coisa era de tal ordem que o uso do banheiro se tornava apenas impossível.

 

As explicações a respeito dos rituais seguidos tornavam tudo mais complicado. Exemplos mais radicais – para dormir, eram usadas redes e as pessoas se acumulavam como bem quisessem, com um nível de privacidade menor do que zero, na suposição de que viver empilhado é obrigatório.

 

Na refeição servida, muita simplicidade – um delicioso peixe assado, de curta existência, preparado na lenha, quer dizer, uma fogueira no meio do terreiro, embrulhado na folha de bananeira (não quis duvidar que tal receita pudesse ser indígena, para não ser antipática). O toque local era claro: não existiam pratos, nem talheres. A minha expressão de absoluta perplexidade, irmanada com a minha total inabilidade para comer com as mãos um peixe quente e, mais, a recusa para comer sem guardanapos, fizeram com que os apetrechos consagrados à mesa pelos franceses surgissem em meu benefício, num lance de mágica.

 

O encanto durou pouco, no entanto. Para complicar o jogo, os animais criados soltos, ao perceberem a presença de comida sobre as mesas (sim! existiam mesas, ocidentais mesas, uma heresia! E bancos de madeira também hereges!), correram disparados para o repasto e para os comensais, largando a fossa viva em que há pouco chafurdavam. Assim, galos, galinhas, patos, cabras, bodes e porcos investiram ávidos em busca do almoço alheio. Convenhamos, uma deplorável visita, razão suficiente para acabar com a admiração pelo prato servido, de repente disputado com o rebanho, apesar dos inúteis protestos vigorosos dos anfitriões.

 

E o tema vai por aí – lá no banho, claro, não existia eletricidade, este inconveniente detestável do mundo branco. E para tomar banho mesmo, no sentido carioca da palavra, só de rio, aquele mesmo rio cortejado pela fossa viva. Em resumo, para quem desdenha o mundo ocidental e peleja com radicalidade contra o imperialismo, o cenário não poderia ser mais perfeito, ainda que algumas falhas de fidelidade despontassem aqui e ali – por exemplo, nas facas de cozinha e em vários instrumentos de trabalho. Hoje, não sei se ainda existe o movimento nativista que eu conheci. Aliás, não tenho mais qualquer curiosidade a respeito.

 

Saí do almoço o mais rápido que pude, como se fosse uma happy hour fast-food, expressando com sinceridade a minha falha, quer dizer, a minha total condição de colonizada, alma vendida ao espírito colonial ocidental devastador. Nunca sonhei almoçar na animada companhia de frangos, bodes e assemelhados; o simples fato de olhar para eles como se fossem colegas de banquete já funcionou como um brevê contra a gula. Confesso que não me incomodaria de vê-los assados, ao ponto, à disposição do meu prato e de hábeis talheres. Jamais cogitaria dormir no meio da selva sem quatro paredes e uma boa cama.

 

Vi, portanto, graças a uma demonstração radical de retorno à terra brasilis pré-europeia, como era gostoso o meu francês. Não, eu não seria capaz de comer carne humana, não é isto – nem acredito que os colegas manauaras pudessem chegar a este ponto de fidelidade na restauração da ordem antiga e pretender este cardápio alternativo. No meu cérebro, no entanto, relampejou a hipótese medonha: se queriam mesmo voltar no tempo, voltariam também na concepção ideológica da vida? Comeriam um rival valente que tornasse o comensal mais valente? O que seria mesmo romper com o imperialismo e voltar ao mundo indígena?

 

Assim, o meu referencial francês amado logo evocado era o francês dos talheres, dos vestidos de belo corte (cada vez mais curtos) em sintonia com o ar do tempo, a maquiagem, as letras, o livre pensamento, as cenas. O teatro brasileiro nasceu francês: não dá para entender Martins Pena, Gonçalves de Magalhães, João Caetano, o primeiro crítico… sem recorrer à França.

 

E não parou por aí, ele seguiu francês pela vida – as revistas de ano, as operetas, o gênio de Artur Azevedo, tudo aconteceu em sintonia com o colonizador secreto. Mesmo os rivais do velho teatro, amantes da encenação, derrubaram a antiga bastilha local com armas bleu-blanc-rouge. Não dá para entender o teatro moderno, Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi, Cacilda Becker, Nathalia Timberg, Fernanda Montenegro, Maria Fernanda, Paulo Autran… sem recorrer à França.

 

A lembrança importa para todos os que – diante da cultura ocidental – questionam o valor e presença do velho mundo, bem como a sua relevância para a sociedade humana. É curioso como certos opostos políticos vegetam tão próximos: os mesmos que clamam por uma cultura nativa a mais pura possível, pretendem criar mecanismos de censura contra a arte e a cultura, e assim se aproximam daqueles que, selvagens num outro sentido, consideram a arte e a cultura desnecessárias, boas para serem banidas.

 

No fundo, há o casamento dos extremos e o desejo comum é o de acabar com a cultura tout court, vendo-a apenas como forma de corrupção dos mais elevados valores da alma. O resultado é o mesmo: preservar as trevas, celebrar o pior estrangulamento do mundo tropical, destituir a liberdade de criação e de pensamento.

 

Para os dois extremos, a censura é necessária e cabível, o controle dos processos criativos é obrigatório e a arte, esta criação humana tão infeliz, é muito mais um veículo de algo outro do que ela, antes de ser uma linguagem e uma forma sensível de estar no mundo. No entanto, para o nosso grande modelo histórico de sempre, a França, a cultura é uma atividade econômica de primeira grandeza. E é um valor imaterial indiscutível, bússola essencial para orientar a trajetória humana no mundo.

 

Na França, a visão de que a arte deve ser um serviço público, como a água, o esgoto, a saúde, a educação e a eletricidade, começou a se tornar realidade social insofismável desde o século XIX. A concepção se consolidou no século XX. E segue sendo uma forma híbrida de estruturação do mercado que, infelizmente, no Brasil, nunca se copiou: apesar da dimensão continental do país, da pobreza cultural e das dificuldades de implantação de uma rede educacional nacional eficiente, nunca o Estado entendeu o papel revolucionário que a cultura deveria desempenhar na formação do cidadão. Copiamos apenas a aparência das coisas, como a aldeia fake que eu visitei – afinal, todos lá deveriam estar nus, enfeitados com penachos e pintados de urucum ou coisa que o valha… e sem animais domésticos europeus!

 

A sensação brutal é que o Brasil nunca saiu da pior figuração de um nocivo indigenismo regressivo. Somos, para sempre, uma aldeia. Ou duas aldeias. Para os pajés e gurus revelados, o poder e todo o séquito de luxúria consumista possível, pago pelo suor dolorido do povo, à custa da ausência dos serviços básicos – inclusive a cultura – que deveriam ser institucionalizados. É a aldeia do poder, dos iluminados, que governa e gerencia tudo a seu favor. O resto é resto mesmo, ainda que seja a maioria: a aldeia dos sem-sem. A grande aldeia dos excluídos é todo o país.

 

E aí vem a pergunta incômoda – cadê a França que estava aqui? Qual foi o gato que comeu? Havia uma França corrosiva, libertadora, inquieta, com todas as ideias que fizeram a independência e muito mais. As tais ideias liberais revolucionárias se aquietaram com o tempo, sumiram. Quer dizer, a França inventou o Brasil. Mas o Brasil, enorme, devastado por sua complexidade, não foi um grande aluno. Devorou o francês, mas não para absorver o melhor do invasor e incorporá-lo, mas para simplesmente apagá-lo do mapa.

 

Nesta semana, quatro espetáculos entram em cartaz no Rio: Abujamra Presente, O censor, Dentro e Recital da Onça. Há uma tal diversidade entre eles que só uma formação europeia inquieta de base poderia explicar a extensão temática e de linguagem da amostra teatral. Qual a dimensão do diálogo que propõem com o horizonte social? Este palco fala para a sociedade brasileira? Quem o sustenta? Trata-se de um convite para pensar. E a hora é de pensar o teatro brasileiro e a brasilidade, e mais, pensar a nova lei de incentivo à cultura, também estreando. É preciso estudá-la, em extensão e profundidade. Para tentar entender a invenção sugerida pela velha França, o Brasil, ao lado daquela arma secreta chamada cultura, a mesma que permitiu aos franceses subjugar o aparente poder português.

 

SERVIÇO

 
Espetáculo Abujamra Presente, da Cia Fodidos e Privilegiados
Teatro Dulcina
Rua Alcindo Guanabara, 17
Centro, Rio de Janeiro (RJ) Tel.: (21) 2240-4879
Dias e horário: 19, 20, 21, 22, 26, 27 e 29 de abril, às 19h
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Até 29 de abril

 
O censor, de Anthony Nielsen
Estação Net Botafogo
Voluntários da Pátria, 88, em Botafogo
Apresentações às sextas e sábados, às 20h, e domingos com duas sessões, uma às 18h e outra às 20h.
Preço: R$ 40 (inteira).
Até 18 de maio

 
Dentro, de Diogo Liberano
Drama
Centro Cultural Banco do Brasil (Teatro III). Rua Primeiro de Março, 66 – Centro – (21) 3808-2020.
Qua a dom, às 19h30.
Até 26 de maio.

 
Recital da Onça
Teatro Oi Casa Grande Leblon
Rua Afrânio de Mello Franco, 290 –A Leblon
Sextas e sábados, às 20h – domingos, às 18h.
Ingressos: a partir de R$35 (meia)
Até 12 de maio

 
FOTO: cartão postal do ator Coquelin Ainé (1841-1909), artista muito estimado no Brasil, endereçado a uma certa Mademoiselle Adelaide Monin, moradora da Praia de Botafogo, 132, data provável 1908.
Coleção da autora.