Soraya Revenle em Instabilidade perpetua High-res version

Bibi Ferreira: o poder e o artista no Brasil

“A pauta do momento é fervilhante. O assunto é obrigatório. Talvez possa ser considerado um pouco desagradável. Mas não dá para contornar. O gancho imediato se impõe com extrema força, vai rasgando tudo – a partir da morte de Bibi Ferreira (1922-2019), brota a pergunta ácida: afinal, o que é o artista? O que é um artista?

 

Não tenho qualquer dúvida a respeito do lugar histórico de Bibi Ferreira. Considero que ela foi a maior atriz brasileira. Nem posso discutir. Para chegar a esta avaliação, considero o repertório trabalhado, o perfil artístico e técnico, a voltagem de sua comunicação com as plateias. Friso – é importante fazer a ressalva – que Bibi Ferreira, um talento múltiplo e de extrema luminosidade, foi injustiçada pela história.

 

O desencontro não é muito fácil de explicar, exigiria um tratado de História do Teatro Brasileiro ou uma tese de doutorado. Ficarei em poucas linhas, diretas. Na sua maturidade, quando ela estava na plenitude de seus recursos artísticos, o teatro brasileiro deu uma guinada contra o musical, o gênero de maior identidade com a atriz. Assim, Bibi Ferreira deixou de nos dar muitas obras exemplares, que ela estava apta para realizar. Fazer o quê?

 

Ainda assim, a sua herança teatral é um tesouro de densidade imensa. Ela brilhou tanto no teatro comercial de fina extração, infelizmente uma facção importante do mercado, em qualquer centro cultural sério, também aqui desaparecida, como em outras páginas. Exemplos? Ela arrasou as almas das plateias nos musicais, de perfil popular ou grandioso, da revista aos formatos clássicos. É possível não gostar de Gota d’água, por exemplo, mas o desempenho de Bibi Ferreira… valha-me, Dioniso!

 

Vale registrar um depoimento pessoal, além da avaliação objetiva da grande estrela, já que o rol de sucessos está exposto por todos os cantos deste mundo conversador de hoje. Conheci Bibi Ferreira pessoalmente da forma mais surpreendente do mundo. A rigor, eu era sua fã declarada e fervorosa desde ali pelos doze anos, quando tive o imenso prazer de ver My Fair Lady. Além disto, ela se tornou para mim uma espécie de mentora pessoal secreta, muito respeitada, a partir do dia em que li, numa entrevista, a sua declaração de que era capaz de encontrar um grampo de cabelo no escuro do próprio quarto. Para quem detestava bagunça no cotidiano e se esforçava para ter arrumação ao redor, foi um bálsamo ler o argumento da atriz.

 

Mas não foi assim que eu conheci Bibi Ferreira. Aconteceu que estreei na crítica teatral em 1982, no jornal Última Hora e na Revista Isto É. No jornal, muito sensacionalista, por volta de 1984, recebi um dia uma pauta que arrebatou todos os meus brios humanos. Araci Cortes (1904-1985), a inefável criadora de Ai, Ioiô no teatro de revista (1928), estava na mais completa miséria, passando fome num barraco precário. Apurei o caso, localizei o seu fiel protetor, J. Maia, e tratei de fazer o melhor que eu podia. Fiquei tocada com a situação, nem sabia para onde correr em busca de ajuda.

 

Em casa, o telefone tocou – naquela época não existia celular. Do outro lado, era Bibi Ferreira. Ela queria saber como poderia me ajudar a encontrar apoio para a velha estrela. Foi a única artista que se mobilizou e por seu intermédio, graças à pressão feita junto a Adolpho Bloch, chegamos ao ministro Jarbas Passarinho. Deu trabalho. Passei a sentir um respeito humano profundo pela atriz – mesmo que a aposentadoria que lutamos para fazer valer tenha chegado tarde, no dia seguinte da morte da veterana. Nossos políticos sabem fazer escolhas detestáveis. Aliás, cadê as homenagens do poder ao monstro de teatro Bibi Ferreira?

 

Todas estas pontas se unem num raciocínio urgente – o que é, afinal, para nós, na nossa sociedade, o artista? Nós entendemos de verdade quem é este personagem social? Nós sabemos no nosso cotidiano, na nossa pele, no nosso sentimento, o valor destas obras construídas por figuras afinal tão delicadas, tão frágeis, tão expostas aos fluxos profundos da vida? Nós prezamos e cultivamos os nossos artistas?

 

Olhando os debates correntes aqui e agora, parece que o conjunto da sociedade brasileira, infelizmente, não sabe o que é arte nem o que é o artista. Isto é péssimo – primeiro, porque temos um imenso potencial artístico natural como povo, possuímos um talento vigoroso para a criação. Segundo, porque esta cegueira denuncia com muito impacto a miséria das nossas escolas, incapazes de formar uma massa crítica minimamente adequada ao século XXI.

 

Para muitos brasileiros – e o pior: para muitos brasileiro que possuem poder político ou social – a arte é a pátria dos desocupados, dos preguiçosos, dos incapazes e dos que temem a luta séria pela existência. Quer dizer, temos uma visão da arte e dos artistas com razoável difusão na sociedade que sintoniza com a realidade histórica da primeira Revolução Industrial , do século XVIII, anterior ao mercado de arte, quando a economia e o mercado ainda não sabiam o que fazer com a arte.

 

Na época da máquina a vapor, prima da tração humana e animal, os espaços sociais da arte eram estreitos, reduziam-se aos lazeres castelãs e aos lampejos fugazes de invenção lírica das feiras. Sem luz elétrica, sem maquinismos, sob um ritmo de produzir-rezar-sobreviver, a arte se fazia em frestas muito estreitas, mais associada ao lazer do poder do que vinculada à saúde social do cidadão.

 

Acontece que o mundo mudou, queiram os desinformados tropicais ou não. O ser humano fundamental para a marcha da vida, hoje, não pode mais ser pura força física bruta ou maquinal ou manual, ferramenta humana controlada por seres, os ditos nobres, benzidos por alguma graça divina capaz de endossar o domínio dos seres por seres. O ser-besta-fera-boçal não serve mais ao ritmo do mundo.

 

O ser humano do nosso tempo precisa de arte como precisa de alimento, oxigênio, água. A sua inteligência criativa deve ser estimulada desde cedo, a sua formação deve conter uma alfabetização em arte, nas diferentes formas de arte. Saber ler, calcular, conhecer a situação do mundo, entender versos, cantar canções, representar uma cena, tocar instrumentos, dominar os processos tecnológicos mais atuais – todas são habilidades imprescindíveis para a vida moderna.

 

Portanto, é um absurdo que se desconheça hoje o que é exatamente um artista e o que significa tornar-se artista. Bibi Ferreira é o modelo perfeito da artista essencial para o mundo contemporâneo. Destaque – ela ocupa este lugar não exatamente por ser capaz de transitar com desenvoltura do drama para o musical, da interpretação para a direção, do palco para a TV. Ela ocupa este lugar por representar a primeira atriz de extensa formação artística e cultural da cena brasileira. Para ser a estrela que foi, Bibi estudou muito.

 

O quê isto revela? Revela que o artista, mesmo quando vira um magnata, com a sua arte, um milionário, o que não foi o caso de Bibi Ferreira, o artista não é um ocioso. Mesmo quando existe talento inato, o puro talento não move a sensibilidade do mundo – é fundamental estudar, trabalhar, manter o corpo e toda a forma expressiva em estado alfa. O talento bruto foi possibilidade no passado.

 

Trabalho com arte faz bastante tempo e posso garantir que não conheço artista vadio – os vadios desistem. Mesmo o artista ingênuo, deslumbrado, alheio ao ato de pensar a própria arte, sabe, no arrepio da pele, que presta um serviço social de primeira necessidade. Ele entende de alguma forma que possui uma missão e que esta missão torna as pessoas melhores. E que, para exercê-la bem, precisa estudar, ser comandante dos seus meios expressivos, para guiar os corações do mundo.

 

Assim como o padeiro sabe que o seu produto garante a sobrevivência das pessoas, mata a fome e preserva a vida, e deve saber que nós contamos que ele faça o melhor pão que souber fazer, assim o artista sabe ou intui que o seu trabalho move as engrenagens profundas da vida. E mais – a arte é e será cada vez mais uma máquina monumental de fazer dinheiro. Apesar da visão marxista tradicional, de tentar definir a arte em paralelo com a mercadoria e com o debate acerca da alienação, dá para considerar hoje uma outra visão, menos empobrecedora, nada reducionista, a aposta na certeza de que toda e qualquer forma de arte refina o estatuo humano no mundo.

 

Estes debates estão fervilhando agora aqui, em alta temperatura. A cena carioca se esfacela diante da omissão do poder público, a cena nacional hesita diante de conteúdos primários de desconhecimento da situação social da arte e da precariedade do universo institucional brasileiro para a arte. Resta saber qual o projeto dos poderes estabelecidos – querem vender carne brasileira descerebrada para os civilizados? Com quê sentido de mercado?

 

A interlocução com o presente move muito da cena brasileira. Os artistas sofrem, respondem na urgência, só pensam em mobilizar de imediato a sociedade para a força da arte. A ausência de visões culturais consolidadas da arte e de projetos culturais densos por parte dos poderes condena a produção de arte ao imediato, afasta os artistas de mergulhos na tradição, nos requintes de linguagem, no diálogo mais solto com a sociedade. Não parece estranho, neste país, que Araci Cortes tenha morrido na mais humilhante miséria, com falta de dinheiro para comer. Cantamos Ai, Ioiô, entre outros momentos sublimes de arte que ela projetou na sociedade e nem sabemos mais quem ela foi.

 

Chega disso, não? A hora é de agir. Mudam os governos e não muda a miséria da sensibilidade brasileira. É preciso lutar, para transformar a nossa capacidade de produzir arte no verdadeiro tesouro que efetivamente somos capazes de engendrar.

 

Para aquecer o debate, tecer questões sob um enfoque feminino, aí vem março e um ciclo interessante no Teatro Maria Clara Machado. Tudo a ver com as batalhadoras convictas, históricas, que foram Bibi Ferreira, Araci Cortes. Entre numa, se ligue: o assunto é quente e desagradável, pois está sob a mira a qualidade do seu viver.

 

SERVIÇO
MULHERES EM CENA 2019
Programação especial em homenagem as Mulheres no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher (8 de março). Curadoria de Antonio Gilberto e Felipe Prado
EQUIPAMENTO CULTURAL: TEATRO MUNICIPAL MARIA CLARA MACHADO
MÊS DA PROGRAMAÇÃO: MARÇO 2019
ENDEREÇO COMPLETO: Av. Padre Leonel Franca, 240 – Gávea
Rio de Janeiro/RJ – CEP: 22451-000
TELEFONE: (21) 2274 7722
HORÁRIOS DE FUNCIONAMENTO: De quarta a domingo de 14 às 22h
CAPACIDADE: 117 lugares (teatro de arena)

Evento: Os Últimos Dias de Gilda
Linguagem: Artes Cênicas
Data: 15 a 17 de março
Horário: sex e sáb as 21h / dom às 19h
Valor do Ingresso: R$40,00 inteira, R$20,00 meia
Público alvo: Moradores da região com idade entre 16 e 65
Público esperado: 300 pessoas
Local de venda: Ingressos à venda na bilheteria de 4a a domingo das 14h às 21h ou pela internet na plataforma ELEVEN TICKETS.
Classificação: 14 anos
Duração: 1h

Evento: Instabilidade perpétua
Linguagem: Artes Cênicas
Data: 22, 23 e 24 de março
Valor do Ingresso: R$ 40,00 inteira, R$20,00 meia
Público alvo: Moradores da região
Público esperado: 330 pessoas
Local de venda: Ingressos à venda na bilheteria de 4a a domingo das 14h às 21h ou pela internet na plataforma ELEVEN TICKET.
Classificação:12 anos
Duração: 60 min

Evento: Calango deu! – Os causos da Dona Zaninha,
Linguagem: Artes Cênicas
Data: 29, 30 E 31 de março
Horários: sexta e sábado às 21hs e no domingo 19hs
Valor do Ingresso: R$40,00 inteira, R$20,00 meia
Público alvo: Moradores da região com idade a partir de 12 anos
Público esperado: 117 pessoas
Local de venda: Ingressos à venda na bilheteria de 4a a domingo das 14h às 21h ou pela internet na plataforma ELEVEN TICKETS.
Classificação:12 anos
Duração: 90 minutos