A ORDEM NATURAL DAS COISAS 3 High-res version

A Desordem Artificial dos Seres

 
Séculos e séculos se passaram sobre a Terra: o homem, animal racional, deixou de ser reles coisa viva e se tornou sujeito. O longo caminho, contudo, não trouxe a libertação, pois este fugitivo da natureza mergulha, sempre que pode, no caos gerado por sua própria liberdade. A Ordem Natural das Coisas, de Leonardo Netto, também responsável pela direção, que esteve em cartaz até este domingo no Mezanino do Sesc Copacabana, joga o foco diretamente aí. A qualidade da peça fará com que a temporada seja prolongada, procure saber e, onde estiver, não perca, corra para ver.

 

Trata-se de uma encenação redonda, indicada para quem gosta de pensar o nosso tempo, a nossa sociedade, as intrincadas malhas afetivas atuais envoltas no caos nosso de cada dia. O espetáculo vale a noite – além do texto inteligente, antenado com a alma atual do mundo, você verá um ator memorável em cena – João Velho. A sua construção do papel principal é de uma humanidade arrebatadora, ourivesaria fina.

 

A trama tem uma aparência de simplicidade enganadora. A cena acontece num apartamento moderno, desestruturado, povoado por caixas de presentes e de mudança, um cenário de ambientação assinado por Elsa Romero. No meio do entulho doméstico, perdido de si, Lúcio (João Velho), um noivo abandonado na hora do casamento, é consolado por Emiliano (Cirillo Luna), o ex-futuro-cunhado. Logo uma vizinha, Cecília (Beatriz Bertu), desponta em cena, para tentar salvar o náufrago do coração, mas a situação vai rodar em círculo, para um desfecho impactante: não é fácil assumir o controle da própria vida, saber o que fazer com a imensa liberdade que nos cerca.

 

Em boa hora a peça foi lançada em livro: a leitura compensa, ela merece um debate denso. O ponto de partida da ação é a cartilha clássica, pois a situação dramática, como queriam os teóricos da velha escola francesa, está debruçada sobre o início de uma grande crise. Mas a ruptura com o padrão clássico se dá a seguir, no andamento da situação dramática, pois não há progressão no sentido de desenlace, resolução – o problema não só permanece, como é adensado, como se houvesse um círculo sem fim, sem saída, no qual cada um, herói impossível, se encontra perdido de si e sem chance de perceber de verdade quem é o outro. A liberdade de todos transforma o outro numa pergunta sem resposta.

 

Assim, tudo o que acontece funciona para lançar o herói num desamparo maior, numa solidão maior, numa rede de mentiras, uma ciranda humana obscura, cujo desfecho é apenas uma espera – um resultado imprevisível. Esta espiral cega, de engenharia muito precisa, não tem transparência para o público: também somos levados de roldão. Talvez o texto tenha alguns excessos, talvez pudesse ter uma velocidade mais acelerada, talvez recebesse bem alguns cortes, opções limitadas pela direção do autor, vítima natural de apego ao texto. Mas isto não chega a ser um problema, não ofusca o extremo prazer que nasce da oportunidade de ver uma peça nacional de bela carpintaria, densos conceitos e perfeita sintonia com a profunda crise humana de nosso tempo, nossa solidão transcendental: acredite, o deleite é absoluto.

 

A direção preserva o texto também ao apostar alto no ímpeto dos atores. E João Velho, neste turbilhão, alcança resultados impressionantes. Ele é o noivo abandonado, o ser afetivo aturdido, desnorteado, entre o perplexo e o atônito. Emparedado pela impossibilidade de entender os fatos ao seu redor e entregue ao abismo de si, o Lúcio de João Velho expõe um artesanato emocional comovente, da apatia à ira. Num percurso requintado, o ator chega ao gesto mais sublime, a homenagem ao pai, Paulo César Pereio. Para quem é de teatro, é para vibrar de emoção cênica total.

 

Dois papéis funcionam como apoios para a construção da escalada sentimental vazia de Lúcio, dois desafios interessantes, exercícios estimulantes para afinar o jogo de cena, obras que evidenciam o fato de que o autor é ator. Emiliano, o amigo dedicado, impõe a Cirillo Luna uma equação perigosa, uma ambiguidade imprevista, da qual ele cuida com elegante contenção. Beatriz Bertu, na enigmática Cecília, alcança resultados fortes e chega a surpreender as expectativas na virada sentimental bem desenhada.

 

De certa forma, as personagens criadas são seres completos no sentido da expectativa da sociedade. Todos estudaram, assumiram o chamado da vida para ir à luta, cuidam de sua projeção profissional. Este protagonismo social é bem explorado pelo autor nos diálogos e também nas modernas inserções narrativas, através das quais a plateia conhece um pouco mais de cada um. Há, contudo, um clima de fratura permanente – de alguma forma, as vidas são falhadas, fraturadas, passíveis de questionamentos, pois a resposta à demanda da sociedade não resolveu o oco interior de cada um. Quando não existe um vendaval de perguntas interiores, há o questionamento por parte do interlocutor. Em consequência, tanto o publicitário, quanto o consultor de feng-shui e a especialista em arte aparecem como arremedos de existência.

 

Peça do presente, documentário sentimental de nossas vidas aqui e agora, A Ordem Natural das Coisas conta com uma produção singela, despojada, capaz de resolver com limpidez o cenário e traduzir a ação em figurinos adequados, de Maureen Miranda. Um exemplo eloquente da grandeza da criação está na fina grade-parede que envolve a cena, sugestão de gaiola dourada ou prisão preciosa. A mesma sutileza aparece nos gestos, de inspirada poesia cotidiana, resultado da acertada direção de movimento de Marcia Rubin.

 

E assim flui a criação, puro jogo de achados delicados, prazer teatral. A iluminação de Aurélio de Simoni dimensiona a linha de ação, situa os tons afetivos e sublinha o clímax. A trilha sonora, do autor, incide diretamente sobre o tema central, a hipotética libertação do ser humano no nosso tempo, ao eleger joias dos anos 1960, a velha rebelião musical juvenil, como parte do eixo central da ação.

 

Num tempo de tantas perplexidades e de tanta dificuldade para reconhecer a fragilidade da pessoa humana, situar os seus limites e dimensionar a sua cegueira, a proposta é mais do que oportuna. O espetáculo é um convite generoso para saudar a nossa condição vulnerável, ínfima mesmo, à deriva de jogos afetivos sociais cuja veracidade não conseguimos controlar. Que este presente nasça de um ato de atores, do texto ao palco, eis o grande motivo para louvar a cena – afinal, a passagem de tantos séculos nos permitiu saber de verdades humanas mínimas, descartáveis, mas essenciais, dilacerantes. E aqui elas são ditas por aqueles que, diante da arte, fazem o gesto mais efêmero: são apenas meros atores.

 

Ficha Técnica
 

Texto e Direção: Leonardo Netto
Elenco: Beatriz Bertu, Cirillo Luna e João Velho
Direção de Movimento: Márcia Rubin
Iluminação: Aurélio de Simoni
Cenário: Elsa Romero
Figurino: Maureen Miranda
Trilha Sonora: Leonardo Netto
Design Gráfico: Lê Mascarenhas
Fotos: Dalton Valério
Mídias Sociais: Rafael Teixeira
Direção de Produção:Luísa Barros
Produção Executiva: Alice Stepansky e Thaís Pinheiro
Mobilização de Recursos: Marcela Rosário
Realização: Sesc Rio e Fulminante Produções Culturais

Serviço:
Espetáculo: “A Ordem Natural das Coisas”
Local: Sesc Copacabana (Mezanino).
Endereço:  Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana.
Dias e horários: Quinta a sábado, às 21h. Domingos, às 20h.
Ingressos: R$ 7,50 (associados. Sesc), R$ 15 (meia) R$ 30 (inteira)
Bilheteria: segunda-feira, das 9h às 17h. Terça a sexta, das 9h às 21h.
Sábados, das 13h às 21h. Domingos e feriados, das 13h às 20h.
Informações: (21) 2547-0156.
Capacidade:  70 lugares.
Classificação etária: 14 anos.
Duração: 90 min. Gênero: drama.

Lançamento do livro “A Ordem Natural das Coisas”
(Editora Livros Ilimitados)
Dia 7 de maio (segunda), às 19h, na livraria Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572).