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As ondas longas do canto nacional

Ouvidos atentos, olhos conquistados. Muitos estudos precisam ser feitos a respeito da relação brasileira entre rádio e teatro. Ela está na ordem do dia. A aproximação entre os dois espaços de criação nasceu desde a implantação do rádio no país e nem sempre foi pura harmonia, muito pelo contrário… Assim como o cinema despertou temores de que, por causa dele, o palco iria se acabar, também as transmissões radiofônicas, em especial depois da eclosão da paixão pelas radionovelas, trouxeram a suspeita de que os dias da cena estariam contados.

 

O tema surge para o debate por várias razões. Em primeiro lugar, por causa da insinuação, agora, de novo, de que o teatro poderá morrer em função de ocupações domésticas, tais como a televisão, os filmes em casa, a dedicação ao parque de diversões contido nos celulares. Estive por estes dias conversando com amigos da Zona Norte do Rio e eles se declararam reclusos noturnos, quer dizer, eles não saem mais de casa à noite, por causa do medo da violência. Abdicaram de vez do prazer de ir ao teatro e se dedicam a outras artes e diversões, em casa. Optaram por se divertir entre quatro paredes familiares.

 

A razão da escolha de agora difere da situação passada, gerada quando o rádio despontou, que era de puro amor radiofônico. Registra, contudo, a mesma inclinação para a diversão doméstica desfavorável ao teatro. Dificilmente a maioria dos recolhidos atuais optará por ouvir rádio, mas, de toda a forma, eles elegeram a opção de se divertir no lar. Este novo recesso me fez lembrar o antigo, rememorar uma velha história importante para o teatro.

 

Pois existem outras razões para trazer à baila o tema da aproximação entre as duas searas de produção: o rádio, quando surgiu, decididamente enfeitiçou a população. O sucesso fez com que muita gente, artista, migrasse dos palcos para os microfones das estações. Vale assinalar um fato menosprezado, a ascensão do rádio coincidiu com o declínio progressivo do teatro de revista, tema bastante polêmico não pesquisado até hoje. Seria possível argumentar que a revista cumpriu um ciclo e sumiu por sua própria fraqueza.

 

Ela não teria conseguido se reinventar. Não conseguiu se estruturar com estabilidade como atividade de mercado, dentro de um jogo econômico mais competitivo do que o do século XIX, quando o palco era soberano. Só que a nascente música popular, que pulsava no teatro, nasceu nele para as plateias, se tornou uma fortaleza nas rádios. A partir deste trampolim, virou indústria, numa vertigem de capital distante da realidade teatral.

 

O trânsito atingiu também autores e atores. Alguns dramaturgos – e o maior exemplo é Oduvaldo Vianna, o pai (1892-1972) – se tornaram grandes personalidades do rádio, como autores de radionovela e como dirigentes de emissoras. Algumas vozes célebres de atores do teatro brasileiro só podem ser analisadas com propriedade se considerarmos a sua formação ou a sua aclamação nas rádios.

 

Mas é possível ir mais longe. Um dado curioso a observar é que hoje um movimento inverso, de retorno, marca a cena brasileira. A música, traidora, que abandonou a cena a favor dos estúdios, voltou a ocupar a velha casa em escala crescente, no ciclo de renascimento, de agora, do teatro musical. A pergunta mais importante do tema é a respeito do fluxo que preside este movimento. O quê move a sensibilidade brasileira neste jogo? O que torna a produção de música importante aqui, irresistível, uma atração capaz de abrir exceção na reclusão atual do carioca? Uma amiga da Zona Norte desistiu do teatro mas, pressionada, reconheceu – vai sair de casa sim, para ir ao Centro, mas para ver musical, suprema delícia, a seu ver.

 

Vale reler algumas páginas do final do século XIX, assinadas por Machado de Assis, ou do início do século XX, com Lima Barreto. Os dois acusam a existência de um forte gosto brasileiro pela música. Mas, se havia o retrato de uma devoção ao piano, no primeiro, o segundo já fala do violão e da impressão repulsiva que o instrumento, amado pelos marginais, causava nos chefes das famílias, autênticos caçadores de seresteiros. Os primeiros sucessos destes notáveis vadios aconteceram nas rodas de samba e de batuque. Para os palcos das revistas, foi um passo curto. E o violão acabou por se tornar um som nobre da vida brasileira.

 

Não se pode, entretanto, achar que o passo curto foi fácil, rápido e rasteiro: o processo de namoro foi lento. Não foi uma paixão imediata, fulminante. A música que veio do século XIX, mesmo no violão, era filha dileta do belcanto, amante do dó de peito. Apesar do remoto vínculo idealista, ela mexia com o corpo, com os quadris. O resultado é fácil de imaginar: a revista e o teatro musical do início do século aconteciam sob uma aura de transgressão. Causavam repulsa nos meios intelectuais elevados e nas famílias de qualidade, eram qualificados como terra do trolóló e pernas nuas. E o mais engraçado é que pode até ser que o corpo da roda de samba tenha sido contido para caber no palco. Ainda assim ele era uma facilidade expressiva, era tosco, excessivo, segundo as normas dos saraus à beira do piano. Aracy Côrtes (1904-1985) machucando um maxixe era uma visão obscena.

 

O que foi que provocou a mudança e fez surgir um tórrido caso de amor? Não há dúvida, para a boa música brasileira, a dissipação dos tabus, a popularidade e o gosto familiar foram conquistados graças ao rádio. E é do rádio que o teatro empresta, agora, os seus maiores sucessos, acontecimentos que podem fazer as pessoas saírem de casa, mesmo com a violência, pois os horários das sessões teatrais começam a se aproximar das tardes. Se antigas marchinhas ironizavam as fãs, vistas sob o rótulo pejorativo de macacas de auditório, hoje se pode ver nas plateias que macacas e madames compartilharam paixões. O caso de amor aconteceu e varreu tudo e todos.

 

É nesta abordagem que se pode entender a aclamação de vários sucessos da cena teatral musical recente. Olhar a cena carioca neste momento revela propostas de contorno bem nítido, cuja origem só pode ser explicitada se for considerado o sucesso do rádio, dos programas de auditório, a consagração do hábito de ouvir música em casa, na intimidade. E o prazer de ter a alma banhada por belas vozes brasileiras.

 

Vale destacar que o rádio foi a porta democrática capaz de viabilizar a aclamação de pessoas de origem muito humilde – Elza Soares e Elizeth Cardoso (1920-1990) chegaram ao estrelato absoluto, mais do que merecido, por este caminho. As ondas sonoras levaram para todo o território a arte das duas e o caminho de consagração foi mais eficiente do que o teatro poderia ser, pois era um caminho imediato e nacional. Por mais que o Rio de Janeiro, capital federal, falasse dos palcos para o país, esta repercussão possuía outro andamento.

 

O rádio proporcionou também o surgimento de possibilidades locais de projeção – novas estações foram criadas por todo o território. É importante observar como, até certa altura, estas manifestações locais não possuíam autonomia e seguiam o padrão ditado pelo Rio de Janeiro. Este jogo centro-periferia transparece no início da carreira de Isaurinha Garcia (1903-1973), uma voz privilegiada de São Paulo que iniciou a carreira na Rádio Cultura e na Rádio Record, de São Paulo, e se firmou como artista a partir de sua cidade.

 

No início de sua trajetória, as referências com que trabalhava eram Carmen Miranda (1909-1955) e Aracy de Almeida (1914-1988), consagradas cantoras sediadas no Rio de Janeiro. Contratada pelo rádio em São Paulo, Isaurinha construiu uma identidade forte, consolidada na sua cidade, com projeção nacional, graças à beleza de sua voz e ao poder do novo veículo. A sua carreira nacional projetada longe do Rio traduziu, portanto, o esboço de uma nova realidade geopolítica da arte no país.

 

Pois eis em sua integridade a questão. Por obra e graça do gosto popular por espetáculos musicais, as três grandes cantoras estão em cena no Rio de Janeiro em produções cuidadas e de grande densidade artística. Elizeth recebeu a graça divina do desempenho inspirado de Izabella Bicalho e faz enorme sucesso no Teatro Maison de France. A atriz consegue irradiar o encanto e o magnetismo da cantora, envolta numa aura de época muito bem desenhada.

 

Elza Soares recebeu a ousadia de ver a sua identidade plasmada através de um número cabalístico – sete atrizes representam o seu imenso poder artístico no palco do Teatro Riachuelo. Num redemoinho de canções, pulsações, corporeidades, cores, elas revelam a impressionante força de Elza, força humana e força artística.

 

Já Isaurinha Garcia retorna à cena numa nova encenação sob a luz da excelente Rosamaria Murtinho, criadora da personalidade em 2003. Nesta nova montagem, ela terá a companhia das radiosas Kiara Sasso e Soraya Ravenle. Trata-se de uma narrativa biográfica, dedicada à estrela paulista na época de ouro do rádio, novo cartaz do Teatro Oi Casa Grande. O que se pode dizer?

 

O encanto que o rádio espalhou em ondas curtas e frequência modulada está entre nós de novo, sob uma outra forma, a forma teatral. As atrizes, contudo, não fazem mais um teatro cabeça-pescoço, engessado como uma ópera velha – elas trazem uma idade nova do musical brasileiro, quente, vibrante, povoado por corpos expressivos, musicais.

 

Os primeiros musicais biográficos deste novo ciclo histórico – como Dolores ou mesmo Rádio Nacional, por exemplo – ainda possuíam atores em desempenhos quase radiofônicos, frontais, rígidos diante das canções. No início, o palco mimetizava um pouco a situação do estúdio, engessamento ainda presente em algumas montagens, esquecidas do fato de que se trata de uma outra poética.

 

No geral, contudo, o novo musical busca desenvolver uma forma cênica em sintonia com a vida atual – uma vida em que a intensidade do corpo é um valor de primeira grandeza. Mesmo falando do passado, o teatro descobriu que encenar não é apenas fazer fluir a voz, como se o físico fosse uma estaca alto-falante. A cena mudou e é importante conferir – a homenagem às estrelas fica ainda mais emocionante. Não dá para perder a chance de sintonizar com ondas profundas responsáveis por muito da nossa identidade.

 

Vale agradecer ao rádio, por ter sido incubadora e abrigo de talentos tão notáveis. E ao teatro, agora numa fase musical intensa, por gostar tanto de música e oferecer oportunidades preciosas para que se saia de casa, se levante a cabeça, e se vença o medo de morar no Rio. Importa usar a velha paixão por canções para lotar os teatros. Nada melhor se poderia oferecer ao sofrido povo carioca neste momento: olhos, ouvidos e corações em sintonia fina.

 

Serviço
Elizeth, A Divina
ESTREIA: 04 de julho (4ªf), às 17h
LOCAL: Teatro Maison de France
Av. Presidente Antônio Carlos, 58 – Centro / RJ Tel: (21) 2544-2533
HORÁRIOS: quartas às 17h e quintas às 19h /
INGRESSOS: R$ 50,00 e R$25,00 (meia) / HORÁRIO
FUNCIONAMENTO DA BILHETERIA: 3ª a domingo, a partir das 14h
VENDAS POR INTERNET: www.tudus.com.br /
CAPACIDADE: 355 espectadores / DURAÇÃO: 120 min (com intervalo)
GÊNERO: Musical
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: Livre
TEMPORADA: até 16 de agosto (excepcionalmente nos dias 01 e 02 de agosto não haverá espetáculo, devido a compromissos do teatro previamente agendados)

Elza
Temporada de 19 de julho a 30 de setembro
Quintas, às 19h. Sextas e Sábados, às 20h. Domingos, às 18h
TEATRO RIACHUELO
Rua do Passeio, 38/40 – Centro
Vendas na bilheteria do teatro e site da Ingresso rápido.
Ingressos:
Quintas: R$ 40 (Balcão Superior), R$ 80 (Plateia e Balcão Nobre), R$ 100 (Plateia VIP).
Sextas: R$ 50 (Balcão Superior), R$ 100 (Plateia e Balcão Nobre), R$ 130 (Plateia VIP).
Sábados: R$ 50 (Balcão Superior), R$ 100 (Plateia e Balcão Nobre), R$ 150 (Plateia VIP).
Domingos: R$ 40 (Balcão Superior), R$ 80 (Plateia e Balcão Nobre), R$ 100 (Plateia VIP).
Classificação etária: 14 anos.
Duração: 120 minutos.

Isaura Garcia – O Musical
ESTREIA: 29 de Julho
Local: Teatro OiCasagrande, Av. Afrânio de Melo Franco 290 A, Leblon
Temporada: de 26 de julho a 14 de outubro
Horários: quinta-feira, às 20h; sexta-feira, às 20h; sábado, às 17h30 e às 21h; domingo, às 18hPreços: de R$ 50 (inteira) a R$ 150 (inteira)
Vendas: bilheteria do teatro e pelo site Tudus (https://www.tudus.com.br/evento/oi-casa-grande-isaura-garcia–o-musical)
Classificação etária: 12 anos