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A estupidez absurda da guerra, a beleza absoluta do teatro

 
Talvez nada, entre nós, humanos, seja mais estúpido do que a guerra, ato puro de desamor à vida. A tristeza maior é a necessidade de reconhecer o óbvio: as formas da guerra são várias, não são simples, não são apenas aquelas tradicionais, em que a relação diplomática é abolida a favor de bombas e canhões. Esta dolorosa constatação está em cena só até hoje, no Espaço Cultural Sergio Porto, corra para ver. É imperdível.

 

A obra – A Palavra Progresso na Boca da Minha Mãe Soava Terrivelmente Falsa, de Mátei Visniec – é assinada por um grupo teatral surpreendente, o Multifoco Companhia de Teatro, fundado em 2010. Apesar de muito jovem, o coletivo revela em cena uma força poética espantosa, comovente mesmo, aquele tipo de turbilhão criativo típico de quem tem o que dizer e veio para ficar.

 

Assim, uma maturidade teatral comovente rege a performance da equipe. Há uma expressão coletiva orgânica, consciente de sua força, devotada ao trabalho de arte como instrumento de transformação humana sensível. O grupo apresenta uma assinatura, uma identidade artística nítida, se projeta como um autêntico coletivo de arte, algo que não é comum no meio cultural brasileiro.

 

O texto do autor romeno radicado em Paris foi criado sob encomenda do Teatro Nacional de Craiova, Romênia, dentro de um projeto intitulado Teatro da Europa, espelho das populações deslocadas. A estrutura é fragmentada, picotada como as saraivadas da fuzilaria, mas conta com uma espinha dorsal, uma ação dramática básica, o próprio sentido mais profundo do viver.

 

O original revela a sofrida tentativa de uma família para retomar a vida na sua velha casa após a guerra. No retorno, a casa está arruinada e a terra povoada por mortos. Os mortos compõem a paisagem histórica do lugar. A companhia fez ligeiras adaptações do original, em especial para incluir no entrecho a nossa guerra brasileira particular, não declarada, mas vivenciada a pleno vapor no cotidiano, nos corações e mentes desde sempre.

 

Sob a direção de Ricardo Rocha, um diretor dotado de aguda percepção plástica, a cena se torna uma criação visual de intensa sedução. Iluminador, ele domina os códigos de movimentação e de composição geométrica do espaço em sintonia orgânica com a potencialidade da luz. Artesão da palavra, ele instaura sob uma concepção poética muito precisa a comunhão entre o texto e a cena.

 

Desta forma, surgem quadros cênicos vibrantes, de extrema beleza visual, dotados de uma pulsação notável, com uma alquimia surpreendente de cores em que predomina a cor da terra e do incêndio, do sangue pisado e da guerra, o claro-escuro, aliada aos gestos, a musicalidades e intensidades corporais. A cena é com frequência arrebatadora. Importa observar em particular a forma de uso do foco e dos planos visuais – hábeis percepções do indivíduo, do coletivo e do abstrato. É lindo.

 

A articulação com a cenografia, de Nivea Faso e do diretor, e com os figurinos, de Nivea Faso, se dá como fluxo contínuo de criatividade cênica, concepção límpida, sem hesitação. A direção de movimento e as coreografias, de Palu Felipe, são marcadas pela inteligência e por uma aguda percepção do jogo cênico, situação também dominante na direção musical de Vinicius Mousinho.

 

A este conceito vivo de cena deve ser agregada a extrema disponibilidade física do elenco, devotado a uma linguagem teatral em que o corpo se impõe, em que há absoluta presença e performatividade dos atores. Predomina no palco o desejo bem sucedido de criar uma nova forma física emocionada, intensa e sinuosa, construída graças à incorporação da dança, da acrobacia, da imediatidade circense.

 

O resultado atingido tem um grande impacto – ainda que algumas partes interpretativas decisivas, de forte solução interior, por vezes soem superficiais ou mecânicas, por causa da demanda física. O limite é comum quando o efeito estético solicita ação física extrema, simultânea ao mergulho na interioridade. Há também uma extensão perigosa da ação, um namoro prolongado do grupo consigo próprio. Mesmo com estas ressalvas, não há como ficar indiferente ao jogo proposto pelo elenco. É arrebatador de verdade.E é histórico: nasce aqui um excelente diretor e um grupo original.

 

Luan Vieira, como Vibko e Travesti, impressiona ao apresentar uma organicidade de interpretação rara de encontrar – é físico e alma em pleno jogo poético, traz a potência de um grande ator. Bárbara Abi-Rihan arrebata a plateia em especial por sua excelente performance plástica, além de conseguir expor tons humanos patéticos verdadeiramente impressionantes.

 

Erick Tuller é uma escultura humana vívida,límpida; ele se divide com maestria em múltiplos papéis, explora notas densas impressionantes no Pralic e revela com aguda sutileza o cinismo desconcertante do Novo Vizinho. Fábio Lacerda demonstra profundo domínio do desenho das ações físicas, tem um fôlego emocional notável, mas hesita um tanto diante das necessidades do mergulho interior mais profundo.

 

Viviane Pereira tinge de desvario e de dor a mãe, com algum perigo de melodrama nas passagens mais delicadas. Camila Zampier colabora com muitos quadros pictóricos da cena e tem na figura de A Patroa o seu momento mais intenso.

 

Por mais um pouco, a cena poderia figurar uma procissão cênica de desvalidos, caricaturas tristes – mas a mão do diretor soube contornar todos os perigos. Na cena desenhada com rigor de estilete, além de alguns poucos apetrechos indicados pelo autor, há uma proposta teatral autêntica, entre o simbólico e o retrato realista das situações. Destaque-se, para este resultado, os grandes achados da cenografia – submetida a uma densa composição visual, ela materializa de forma direta, econômica, uma atmosfera alucinada de vida massacrada, dolorida, sobra de guerra, lixo urbano, restos de humanidade.

 

Seres destroçados pela guerra, pelo consumismo, pelo desamor, pela impossibilidade de valorizar a vida humana e de respeitar o próximo, desfilam pungentes na cena, demonstram a fragilidade do ser humano e a necessidade de novas percepções a respeito da vida no mundo. Um canto teatral lancinante paira no ar e advoga o triste mérito de criar no palco a atmosfera paralisante do nosso tempo.

 

Migalhas humanas, os atores se lançam ao nosso olhar surpreso e comovido como corpos poéticos líricos, acionam a palavra para expor os corpos da guerra, querem ser inteiros e são fragmentos, estilhaços humanos. À plateia, impregnada pelo mais aterrador sentido do humano, resta um convite sublime: a consciência profunda a respeito da estranheza deste nosso mundo, a percepção de que é urgente usar a vida para se dedicar à paz. A dúvida sacode a civilização: e a palavra progresso soa terrivelmente falsa, como desejou mostrar o autor.

 

Ficha Técnica
 

Autor: Matéi Visniec
Direção e Iluminação: Ricardo Rocha
Elenco: Bárbara Abi-Rihan, Camila Zampier, Erick Tuller, Fábio Lacerda, Luan Vieira e Viviane Pereira
Direção de Movimento e Coreografias: Palu Felipe
Direção Musical e Preparação Vocal: Vinícius Mousinho
Cenografia: Nívea Faso e Ricardo Rocha
Figurino: Nívea Faso
Cenotécnico: Moisés
Imagens e Edições: Daniel Debortoli e Viviane Dias
Fotografia: Diogo Nunes
Realização: Multifoco Companhia de Teatro

Serviço:
Espetáculo: A palavra progresso na boca da minha mãe soava terrivelmente falsa
Ocupação Multifoco Companhia de Teatro
Duração: 100 minutos
Classificação: 18 anos
Temporada: 05 a 28 de maio
Local: Espaço Cultural Sérgio Porto
Endereço: Rua Humaitá, 163 – Humaitá
Telefone: (21) 2535-3846
Gênero: drama
Temporada: 19 a 28 de Maio.
Dia\horário: sábado a segunda, às 20h30
Ingresso: R$30\R$15
Bilheteria: de quinta a domingo das 17h às 21h