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O Dia Mundial da Felicidade Humana

 

Hoje é um dia para dançar na rua, alegre: o mundo comemora o Dia Mundial do Teatro. Se aqui no Brasil ainda não temos tanta gente interessada na festa, a falha é nossa, da gente de teatro, do povo dos palcos.Não conseguimos engajar o prazer da sociedade na nossa arte. Mas, como para tudo na vida há jeito, a classe teatral carioca está programando uma manifestação cidadã importante para hoje, terça, dia 27 de Março.

 

Vale ir até lá conferir – vai ser um protesto pelo fechamento do Teatro Villa-Lobos, em Copacabana. O assunto interessa a todos, pois o complexo teatral foi erguido com dinheiro público, mantido pelo Governo do Estado e abandonado incendiado com obras de reforma inacabadas pelas mesmas autoridades. Sim, é um complexo teatral, uma construção grandiosa, um verdadeiro centro cultural inativo, queimando o investimento do dinheiro do povo.

 

Não se sabe se o Teatro Villa-Lobos tem fantasmas e assombrações rondando no seu interior – afinal, ele próprio foi promovido a alma penada da cidade. Na verdade, parece que teatros jovens, posto que jovens, custam a contar com assombrações, pois elas são modernas como as casas e se inclinam para outros passatempos, mais afinados com os tempos.

 

O Villa-Lobos é muito jovem. O teatro começou a ser construído em 1978, ficou pronto em treze meses. Receberia o nome de Ziembinski – mas o governador Faria Lima, no melhor estilo ditadura militar, mudou o nome para Villa-Lobos e o Ziembinski acabou na Tijuca, quando Walmor Chagas construiu o pequeno teatro de endereço confuso lá no bairro.

 

Se não tem fantasma para chamar de seu, ao menos o Villa tem lendas saborosas. A mais importante cerca o seu nascimento e permite vários debates a respeito da nossa política cultural. Reza a lenda que teria ocorrido um debate acalorado a respeito da necessidade de construção de casas de espetáculo no Rio. A vertente vencedora dos debates propunha uma orientação renovadora: que o bom dinheiro destinado a este fim fosse empregado na construção de uma constelação de casas simples, despojadas, sem luxo, tropicais e práticas. O projeto foi feito, assinado por um famoso cenógrafo com mão de arquiteto, aprovado e tcham! Derrubado. Um outro rumo para a verba foi decidido.

 

Ainda segundo a lenda, na Funterj, Fundação Estadual de Teatros do Rio de Janeiro, o presidente Adolpho Bloch idealizou, com a assessoria do experiente Geraldo Matheus, um teatro monumental, de veludo, mármores e grandes arcadas, projeto de Raphael Matheus Peres. Como o terreno é passagem do interceptor oceânico, que leva todo o esgoto da Zona Sul para o emissário de Ipanema, foi preciso mesmo um gigantismo arquitetônico para contornar o terreno acidentado. Por isto, todo o movimento em degraus e desníveis que a construção segue, para driblar o esgoto da cidade que corre por ali.

 

Não sei – insisto – se a lenda é verdadeira, apenas ouvi falar, não pesquisei e não tenho provas. Se ela é verdadeira, parece natural que a casa não tenha fantasmas, pois quem viveu a época e morreu deve estar procurando endereços errados, de pequenos teatros urbanos que não chegaram a sair do papel – teatrinhos perdidos na imaginação, hiperfantasmas teatrais. E parece uma página do teatro de absurdo o Estado erguer monumentos que não consegue manter.

 

Seja como for, o Teatro Villa-Lobos está aí, na paisagem urbana, nasceu para ser um glorioso templo teatral da cidade e é absolutamente inaceitável o estado de abandono em que está. A casa abrigou espetáculos históricos, encenações memoráveis – foi inaugurada em 1979 com o espetáculo Pato com Laranja, de William Douglas Home, direção Cecil Thiré, com Marília Pêra e Paulo Autran. Ou seja, chegou dizendo a que vinha, apresentando uma montagem digna de qualquer cidade zelosa por suas ofertas espetaculares.

 

Teatro comercial? Sim, com certeza – é com ele que todos pagam as contas e trabalham a sensibilidade média, corrente, da cidadania, constroem a identidade da sociedade, trabalham os nossos humores. E, no Dia Mundial do Teatro, é bom pensarmos os motivos que fazem com que se queira inviabilizar este lugar do teatro, de bilheteria, textos convencionais, montagens caras e cuidadas, investimento razoável de capital, estabilidade profissional. Qual a razão para dinamitar o mercado teatral? Onde se deseja chegar com isto?

 

Portanto, se não tem fantasma, o Teatro Villa-Lobos tem lenda e insondável mistério. Não é nada razoável ter o Teatro Villa-Lobos fechado desde 2010, devastado por obras intermináveis e incêndios mal explicados, sem datas ou planos para que o povo volte a usufruir a casa que pagou para ter. O que está acontecendo nos gabinetes, que não há sequer um mínimo gesto para dar explicações, prestar contas?

 

Talvez no Dia Mundial do Teatro não tenhamos nada para festejar – não temos planos de Estado para a Arte, não temos políticas culturais que percebam a função social básica do teatro junto à cidadania, não temos garantia de que os parcos teatros cariocas sobrevivam ao desmando geral. Mas vamos à luta exigir explicações, para tentar entender os fatos e saber se o teatro corre o risco de ser banido do nosso mapa social.

 

Ficha Técnica
 

O que o Estado pretendia fazer com o Teatro Villa-Lobos:

IMPRENSA RJ

NOTÍCIAS
CULTURA
SECRETARIA DE CULTURA APRESENTA PROJETO DE RECUPERAÇÃO DO TEATRO VILLA-LOBOS
30/01/2013 – 12:53h – Atualizado em 30/01/2013 – 13:08h
» Ascom da Secretaria de Cultura
Sala de espetáculos terá mais 234 assentos

A secretária de Cultura, Adriana Rattes, apresentou nesta terça-feira (29/01), em evento na Casa França-Brasil, o projeto de recuperação, modernização e ampliação do Teatro Villa-Lobos. Conforme o novo projeto, a sala de espetáculos principal terá mais 234 assentos com a criação de um balcão. Ao todo, serão 656 lugares.

O teatro receberá nova caixa cênica, novos camarins, e equipamentos de última geração. Os vidros negros da fachada darão lugar a vidros transparentes, para melhor integração com o espaço público. Um recuo na calçada possibilitará melhor movimento para desembarque do público de carros e táxis. O projeto foi criado pelo escritório Archi 5 e pela arquiteta Tânia Chueke, com consultoria cênica de José Dias.

– Vamos superar a tragédia de 2011 recuperando, modernizando e ampliando o Teatro Villa-Lobos, de forma que ele possa atender às produções mais exigentes e às necessidades da cena teatral do Rio de Janeiro. O teatro reabrirá rejuvenescido – , diz a secretária.

Além dos novos assentos, o teatro receberá nova caixa cênica, novos camarins, e equipamentos de última geração. Os vidros negros da fachada darão lugar a vidros transparentes, para melhor integração com o espaço público. Um recuo na calçada possibilitará melhor movimento para desembarque do público de carros e táxis.

O projeto observa as condições ideais de acessibilidade e sustentabilidade, inclui ainda um novo foyer em três níveis, com um moderno e bem equipado café. Também no foyer estará trabalho de grandes dimensões, criado pelo artista Daniel Senise e feito com material retirado dos escombros do incêndio. As produções que trabalharem no teatro passarão a contar com um espaço novo: uma sala de leitura e convivência.

No lugar do antigo Anexo III, nos fundos do terreno, será erguido um novo prédio, dotado de um moderno teatro modular para 120 pessoas, destinado a trabalhos experimentais, e de duas salas de ensaio cujas dimensões reproduzem o palco. Além disso, terá um café ao ar livre.

A variedade de palcos e as novas condições técnicas possibilitarão a realização simultânea de até quatro espetáculos por semana.

As obras, a cargo da EMOP-Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro, estão previstas para começar em julho de 2013. A previsão para a reabertura do teatro Villa-Lobos é o segundo semestre de 2014. O custo das obras foi estimado em R$ 36.700.000,00.
Objetivos do Projeto

• Reconstruir a Sala Principal, aperfeiçoando suas qualidades originais e incorporando novas tecnologias de palco, som e luz

• Ampliar o complexo, de 3.487 m2 para 5.366 m2

• Criar uma nova plateia, com 444 lugares, e balcão com 212 lugares = 656 espectadores
• Revitalizar a imagem do conjunto, incorporando novas linguagens e materiais

• Criar novos espaços de convivência

• Construir um teatro modular com 120 lugares

• Construir e equipar um Centro de Ensaios com duas salas que reproduzem o palco principal (12 X 16 metros)

• Ampliar, modernizar e tornar mais flexíveis camarins e espaços de apoio

• Dotar todos os espaços de condições ideais de acessibilidade

• Equipar o conjunto com soluções tecnológicas de água, energia e ar condicionado modernas e sustentáveis

• Ampliar e modernizar áreas técnico-administrativas