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O Rio e a síndrome Antonio Maria

“Hoje, olhos atentos nos textos do jornal, uma surpresa e uma imensa sensação de cansaço: desabou na minha cabeça aquela síndrome Antonio Maria típica do Rio de Janeiro atual. A cidade, ainda que bela e sestrosa, não faz outra coisa a não ser cantar “ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor…” Eu só conseguia pensar – quando foi que nós resolvemos desamar o Rio, largar a cidade de lado, estraçalhada por vendilhões do tempo, sujeitos avessos à beleza desta capital do amor, sujeitos ignorantes da história da muy leal e gloriosa aldeia de São Sebastião?

 

O fato estarrecedor foi simples. Pois lá no caderno de leilões do jornal O Globo estava o anúncio cheio de letras – o Terezão vai passar no martelo no dia 21. Fiquei congelada, como se não pudesse acreditar no anúncio, seco, direto, objetivo. Lembrei do fechamento do Teatro de Arena, no mesmo prédio, uma casa de história notável para a cidade, até mesmo para a MPB, suprimida de forma sumária da vida carioca.

 

O Terezão deveria ser, ao lado do Arena, o motivo áureo para que o Shopping dos Antiquários se tornasse um impressionante centro cultural, em pleno burburinho de Copacabana. Pois não é que não? O teatro solitário, excelente casa de espetáculos sob a bandeira da NET, corre o risco de desaparecer do mapa? O Rio merece isto? É assim mesmo, adeus arte do teatro?

 

Uma torrente de casas e nomes começou a pular na minha cabeça. Primeiro, o Teatro Glória, ali do Hotel Glória, que Eike Batista decidiu detonar e fez como quis, com a benção da prefeitura. Depois, sem ordem cronológica, lembrei do Teatro Recreio, demolido lá na Praça Tiradentes para virar um fim de rua. E o São José, também na Praça, um terreno usado para subir um hotel. E o Eva Hertz, tão sublime, incrustado no impressionante prédio do Cine Vitória…

 

Logo surgiu faceiro um palco delicioso, o inesquecível Teatro Mesbla, de notável história, liquidado pelas Lojas Americanas, ali no Passeio Público, região, aliás, de importante passado teatral. Num ponto quase oposto do Centro, lembrei da Biblioteca Estadual, na Presidente Vargas, um lugar que já se chamou Biblioteca Celso Kelly em honra de um dos patronos do grupo Os Comediantes… Nem o nome dele ficou por lá’ e o moderno teatro aconchegante, apesar de estrear sob promessas quentes de belos momentos de arte, fechou sem mais nem quê.

 

Lembrei também do Teatro da Galeria, no Flamengo. E do velho Teatro Glória, na Cinelândia, oscilando tendencioso para o cinema e, hoje, sem fita, templo religioso. Só no Centro da Cidade, um grande cemitério teatral pode ser mapeado, como se tais casas não tivessem função para a comunidade ou para a cidadania e devessem sair da mira do cidadão.

 

Mas isto não é tudo. O Rio de Janeiro tem um potencial teatral reprimido inacreditável. Poderia listar aqui um número expressivo de teatros/auditórios fantasmas, digamos, não demolidos, mas instalados em escolas cariocas e sem projeção para a vida cultural da cidade. Por que há um abismo entre educação e cultura?

 

Todos estes espaços apresentam instalações capazes de cumprir com muito garbo sua missão cultural cênica, mas permanecem anônimos, no limbo. Sediam rotinas e práticas escolares e sofrem com uma notável capacidade ociosa. Um deles sempre me deixou abismada – o Teatro do Liceu de Artes e Ofícios. Não sei como está atualmente, mas era monumental.

 

Os teatros escolares – ou mesmo teatros implantados nas quadras das escolas de samba – poderiam se tornar ativos a um custo bem mais acessível do que a construção de novos edifícios ou a recuperação (ó sonho!) dos que, apesar de imponentes, foram demolidos. Quando olho para o Automóvel Clube do Brasil, no Passeio, sempre lembro de Joseph Papp e pergunto por que razão não temos um por aqui. Precisamos de um Joseph Papp para ontem.

 

O produtor Joseph Papp, criador do Shakespeare Workshop em 1954, origem do New York Shakespeare Festival, promoveu uma bela reviravolta urbana na cidade ao conseguir a transformação do prédio do atual Public Theater, na Lafayette Street, em espaço cultural. O edifício, do século XIX, por volta de 1965 estava abandonado e condenado à demolição. A atitude do empreendedor, além de fazer surgir um centro cultural dinâmico, favoreceu o renascimento daquele pedaço da cidade.

 

Pois em 1967 o teatro foi inaugurado com a estreia mundial de Hair – uma peça não shakespeariana. Hoje, o prédio conta com cinco espaços para apresentações: Anspacher Theater (275 lugares), LuEsther Hall (160), Martinson Theater (199), Newman Theater (299) e Shiva Theater (99). Há ainda o Joe’s Pub, um espaço no estilo cabaré, para pequenos musicais, revistas e solos.

 

Pergunta de carioca curiosa: quantos teatros poderíamos ter no Automóvel Clube do Brasil? Seria um eixo cultural dos sonhos, uma orla letrada, com um percurso que viria lá da Graça Aranha, com o Teatro Sesi-Firjan, prosaria com a Academia Brasileira de Letras, acenaria para a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional de Belas Artes, o Teatro Municipal, animaria a volta do cine Vitória, flertaria com o Teatro Rival, passaria pelo Odeon, piscaria para o Serrador, se deslumbraria com o Riachuelo, exultaria no Automóvel Clube, vibraria com a Escola de Música, se enobreceria com o IHGB e daria para esticar até o novo Teatro Adolpho Bloch – agora Teatro Prudential…

 

Pergunta de carioca decidida a romper com a síndrome Antonio Maria: qual será o prefeito, em acordo com as demais instâncias de poder, estaduais, federais, – que vai sair da vida mesquinha de detonar o Rio e vai entrar para a história da cidade maravilhosa, para disputar, como lenda urbana transformadora, com o imbatível Pereira Passos? Senhores, façam seus lances – comecem por favor no dia 21, impedindo que o Terezão, mito urbano de primeira grandeza, deixe de ser o que sempre foi, um encantador teatro em sintonia com o coração do Rio. Alguém em sã consciência acha justo que o Rio de Janeiro perca o Teatro Tereza Rachel?

 

Veremos o que vai acontecer. Temo que o cenário político esteja estreito demais para chegar a ter espaço para a poesia. Se o poder não faz a sua parte, o teatro segue, ainda que com tetos escassos. E segue e seguirá sempre, com muitas mulheres fortes. Fortes como foi Tereza Rachel – foram poucas as mulheres que ousaram dar teatros ao Rio. Tivemos Zaquia Jorge, Brigitte Blair, Marieta Severo e Andreia Beltrão. Alguém lembra mais alguma? Se elas não conseguem construir teatros, tudo bem, elas erguem cenas magistrais. E a semana vai provar isto, a força da mulher no teatro.

 

Apesar da triste notícia envolvendo o Terezão, a cena segue. E dois cartazes imperdíveis trazem o turbilhão do poder feminino, em peças que ficariam lindas… no palco que imortalizou a sensacional atriz Tereza Rachel. Se Antonio Maria nos deu versos para traduzir a nossa tristeza diante do desamor, são muitas as estrelas com luz para revelar a garra que faz a grandeza da vida. Mulheres de luta, na luta, para que não se fale em ir pela vida afora de fracasso em fracasso. É tempo de amar o Rio – que a força da cena nos conduza para uma cidade outra vez maravilhosa.

 

SERVIÇO
“Angela Maria – Lady Crooner”
Texto, Roteiro Musical e Direção Geral: FRANCIS MAYER
Elenco: Lílian Valeska E Mauricio Baduh
Dia 14 de maio às 19h (estreia aberta ao público)
CENTRO CULTURAL DOS CORREIOS
 – Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro / RJ


 
“Quebrando Regras – Um Tributo a Tina Turner”
Texto: Stella Maria Rodrigues
Direção : João Fonseca
Elenco: Evelyn Castro e Kacau Gomes
dia 15/05, quarta-feira, às 20h30 – estreia para a classe
Data: 07 até 29 de maio
Horário: terça e quarta às 20h30
Local: Teatro Clara Nunes, Shopping da Gávea.
Endereço: Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea – RJ