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Foi um Rio que passou: precisa voltar

Desculpe aí, você que nasceu num rincão nacional distante e hoje desconhece – ou pior, repudia – aquele amor antigo, puro e intenso, que tantos nacionais dispersos por aqui sempre devotaram ao Rio de Janeiro. O amor ao Rio foi um esporte nacional. Graças a Deus – ou a São Sebastião – eu curti um pouco esta era dourada que se foi.

Sou carioca, nasci no Rio. Carioca da gema, convicta – nunca vivi em outra cidade. Portanto, falo do Rio de Janeiro com autoridade, liberdade e conhecimento. Sou de um tempo em que, quando viajávamos pelo país, fazíamos sucesso só por sermos do Rio. Chegaram os cariocas – e a temperatura do lugar mudava. Viam em nós uma miragem dourada, de moda, cultura, charme…

Depois veio um esmaecimento, a glória da cidade se apagando. De repente, o Brasil passou a ser um pouco, digamos, nacional. As aldeias foram se tornando metrópoles. Assim, coisas que só existiam no Rio, se espalharam pelo país. São Paulo foi disfarçando a caipirice com rios de dinheiro. E as garotas de Ipanema deram lugar às meninas brasileiras. A febre do Rio passou.

Mas a coisa não parou por aí. A seguir, começou a tragédia maravilhosa – não sei se alguma cidade se afundou no leito esplêndido com tanta ginga como o Rio. Curiosamente, começou a nascer um movimento nas velhas províncias contra o sudeste, encarado como eixo do mal, colonizador. Mais pás de cal tombaram sobre a cidade desfalecida.

Contudo, parte interessada que sou, apaixonada, tento achar que o amor é o mesmo, sempre, apesar da velocidade das eras. Ao menos o meu amor. Busco abrigo na ideia de que a terra que adotamos como berço fica grudada no coração. Olho o Cristo Redentor com uma cumplicidade capaz de ecoar na alma. O enlevo brota natural diante do Pão de Açúcar, da enseada de Botafogo. Sim, eu amo o Rio. Confesso.

É bem verdade que, de uns tempos para cá, me surpreendo delirando com um projeto gaiato, bem carioca: sonho em publicar um anúncio nas redes da vida dizendo “doo-me, eu mesmo, sem ônus, em pessoa e livros, para algum recanto sossegado em que se possa acalentar o velho sonho do amor em paz.” Então, eu partiria. Talvez sacudisse os sapatos, como a detestável Carlota Joaquina, penso, quando estou mais aborrecida.

Logo, assustada, recuo, como se fosse piada e não um sonho querido. E, rápida, me justifico. O Rio de Janeiro está de lascar, como diria aquele sublime carioca de importação, Zé Trindade (se você não sabe quem é, nota zero em carioquês…). A vidinha está mais amarga do que jiló. Que cidade construímos, destruindo tudo ao redor… De dia não falta água, mas sai esgoto das torneiras! E a buraqueira? E a ladroeira?

No entanto, há o sol depois das enxurradas e dos torós. Há a Lagoa ao lado do engarrafamento. Sempre se pode ver uma nesga de mar, uma tira de morro, um tico de floresta. Também sobram piadas, o bom humor sobrevive, sob o tiroteio. A malícia sobrevive apesar das milícias. A gente ainda troca sorrisos anônimos de graça, assim sem quê ou por quê, pelas esquinas das ruas.

Apesar do meu otimismo inveterado e inexplicável, tremo por dentro só de pensar no carnaval que vem por aí. Até decidi, num acordo com a carnavalesca que habita em mim: estou fora. Quase topei desfilar no Império, mas logo o bom senso chegou e me obrigou a recolher a animação. Talvez o ideal para este carnaval seja um retiro daqueles de meditação profunda. Possivelmente embaixo da cama.

Não faz muito tempo, em palestras ou aulas sobre História do Teatro Brasileiro pelo país, nas quais falava sobre a trajetória do nosso teatro desde o século XIX, comecei a ouvir protestos educados e ainda débeis. Os ouvintes começaram a reclamar dos fatos apresentados, a seu ver uma visão oficial, uma visão em que o foco estava apenas sobre o palco carioca, como se não houvesse nada ao redor. Aos poucos o rumor aumentou de volume.

As primeiras vezes, senti surpresa, fui objetiva – não existe nada nos livros sobre “o resto” do Brasil. Ou melhor, o que há é um nada. Como pesquisadora e historiadora carioca, eu sempre pesquisei Rio de Janeiro, algum São Paulo, escassos brasis. E não teria solução para a queixa. Cuidem dos seus vazios, por favor!

Infelizmente, não há mesmo nada ao redor: pois não há pesquisa. As pesquisas pouco começaram, pouco reviraram as tábuas erguidas por toda a parte pelo país. Constituem um campo novo. A história do teatro fora do Rio de Janeiro e de São Paulo não foi escrita, ainda.

Ou quase. Um movimento recente está transformando os saberes antigos: em breve, quem sabe, falar do teatro nacional significará seguir uma trama criativa muito diferente daquela cristalizada nos textos dos velhos historiadores. Nestes anos 2000, cabeças preciosas surgiram dispostas a reverter o quadro.

Conheci fatos impressionantes a respeito do planalto central e de uma dinâmica teatral platina insuspeitável graças à dissertação de um ex-aluno, Fabrício Moser. Ele revirou arquivos para revelar a riqueza da história do teatro em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, uma dinâmica com razoável independência frente ao eixo Rio-São Paulo.

Nomes como Antônio Cadengue (1954-2018) e Leidson Ferraz transformaram a história do teatro pernambucano. Diógenes Maciel têm garantido outro tanto para uma visão renovada do palco paraibano, assim como Denis Bezerra tem se dedicado a sacudir o registro da cena amazônica, sobretudo paraense. 

Na verdade, a lista de nomes sonantes é enorme. A densidade criativa do Brasil é muito elevada – por toda a parte, faltam registros, análises, construção da fortuna crítica desta potência nacional, mas ela vem sendo apurada recentemente por pesquisadores atentos. Isto significa muita pesquisa, muito trabalho, muita dedicação, muita seriedade. As estantes estão ficando repletas de belos textos para publicar.

Sim, é preciso correr. Os arquivos são precários, a humidade é traiçoeira, os enxames de bichos e de pragas são vorazes. A memória se apaga por combustão tropical: fatores locais devastadores, implacáveis. As políticas e os projetos culturais ou são inexistentes ou transitórios – quando existem, passam rápido pelo sinteco dos gabinetes. 

Mas vale apostar nesta linha de trabalho. Ela é prioritária, importa para a história, para a saúde social, para a cultura e para a autoimagem do país. Não se trata de uma riqueza estática, inerte, morta. Ela corre nas veias de todos os cidadãos, como se fosse parte de nosso fluxo vital. Naturalmente precisamos dela. É parte profunda de nossas vidas.

Um dado curioso é dimensionar como a vontade de saber a respeito de nós e de conhecer a nossa cultura repercute no fazer teatral. Exemplos? Não faltam, são muitos. No Rio, esta semana, temos dois casos a considerar. O primeiro é o musical Novos Baianos, estreia no Teatro Riachuelo, um convite para pensar algo da história do grupo inquieto. E um pouco mais. Há, no caso, além da pulsação libertária, contra a censura, a pergunta latente a respeito da força estranha que vem da Bahia e faz o povo dançar. Afinal, o que é que a Bahia tem?

O texto, assinado por Lúcio Mauro Filho, um autor cuja a intimidade absoluta com o palco compensa a relativa inexperiência em dramaturgia, focaliza um recorte da história do grupo irreverente. Foi concebido naturalmente como dramaturgia de sala de ensaio – quer dizer, em diálogo com o diretor Otávio Muller e com as necessidades do jogo cênico.  

Invenção e liberdade não faltam, portanto, na proposta, que estreou em São Paulo e deverá eletrizar a cidade maravilhosa, justamente o palco responsável pela consagração nacional do grupo, nos anos 1970, época em que o Rio ainda disfarçava o processo de liquidação a que fora condenado e era a cena de celebração. Portanto, será um espetáculo-festa, daqueles que fazem o adorável público ganhar a rua sob o seu astral mais alegre.

Outro tanto acontecerá na Casa Julieta de Serpa. A hora do chá do endereço elegante oferece um espetáculo muito interessante para a difusão da cultura tradicional carioca, Nosso Samba é Campeão . Trata-se de um musical assinado por Carlos Alberto Serpa dedicado aos sambas históricos, criações que celebraram a alegria do Rio e fizeram todo o país cantar. Para o turismo de carnaval, um grande acerto.

Mas a semana traz ainda uma outra novidade de impacto para a louvação do espírito carioca. Uma proposta bem diferente, apaixonante, vem do Jardim Botânico. O célebre jardim, joia preciosa a honrar o charme histórico maior do Rio, voltou a oferecer a experiência rara de passear pelo jardim à noite. O percurso, guiado, permite a visita a 18 pontos de interesse histórico. É torcer para que nenhum fantasma célebre da cidade apareça para festejar o evento e cobrar dos andarilhos, hoje, a ruína da cidade beleza.

Na verdade, são propostas muito bem vindas – permitem um exercício curioso, o exercício da alma carioca, que está precisando se tonificar. Da Cinelândia ao Jardim Botânico, passando pela Praia do Flamengo, está traçada uma rota de fantásticas riquezas locais. O que se pode concluir do exercício aldeão?

Se nós sabemos bem como o Rio encantava o Brasil e recebia de braços abertos todos os que se enamoravam pela cidade, vale proclamar aos quatro ventos que a beleza continua. Apesar dos aventureiros demolidores, interessados na ruína da maravilha à beira mar,  a princesa sobrevive. Mais tímida, talvez, retraída, quem sabe, porém ela não se tornou célebre em vão – possui infinitos tesouros para aqueles que, carinhosos, insistirem em desbravar as trevas transitórias que pairam por aqui. 

SERVIÇO

 NOVOS BAIANOS

Temporada: 31 de janeiro a 16 de fevereiro de 2020 

Quintas, sextas e sábados, às 20h30. Domingos, às 18h. Exceto nos dois últimos domingos da temporada: dias 09 e 16 de fevereiro serão duas sessões: às 16h30 e às 20h.

Foto: André Wanderley – divulgação

Teatro Riachuelo – Rua do Passeio 38/40 – Centro

Ingressos a R$ 120 (Plateia VIP), R$ 100 (Plateia), R$ 80 (Balcão Nobre) e R$ 50 (Balcão Simples).  

Classificação: 16 anos
Duração: Primeiro Ato: 60min
Intervalo: 15min
Segundo Ato: 50min

Horário de funcionamento (bilheteria):

Terça à Sábado: 12h00 até 20h

Domingos e feriados: 12h até 19h

Em dias de espetáculo a bilheteria funciona até 1 hora depois do início.

Assessoria de Comunicação | Novos Baianos
Factoria Comunicação

NOSSO SAMBA É CAMPEÃO – Musical de Carnaval
Estreia dia 22 de janeiro, quarta-feira, 16h.

Quarta-feira a Domingo, das 16h às 19h
Valor único de: R$140,00

Necessário fazer reserva
Tel: (21) 2551-1278
Whatsapp: (21) 99823-0331
E-mail: reservas@casajulietadeserpa.com.br

TRILHA HISTÓRICA NOTURNA NO JARDIM BOTANICO

Datas  (agende sua visita pelos telefones (21) 2239-9742 ou    (21) 2259-5026. Vagas limitadas):

Fevereiro – 12/2 (quarta-feira)
Março – 11/3 (quarta-feira)
Abril – 15/4 (quarta-feira)

Ponto e horário de encontro: Centro de Visitantes (acesso pela Rua Jardim Botânico, 1008, casa 6) às 18h30.

Duração da visita guiada: 2 horas (das 19h às 21h). Ingresso: R$ 30,00

Esta atividade é uma parceria com a Associação de Amigos do Jardim Botânico – AAJB.