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Teatro e futebol: formas do saber humano

Já conheci várias pessoas com uma característica espantosa: o ódio ao teatro. Algumas tinham o coração entregue ao futebol, arte mais verdadeira e intensa, na sua opinião. No conjunto, os motivos do ódio são vários. Impossível elencar todos – vão desde a convicção de que o teatro é velho, superado, passam pela certeza de que a cena explora apenas a vaidade e o exibicionismo rasteiros e chegam até o mais puro desencanto com a arte. Para este ponto de vista desencantado, o teatro estaria devotado mais à materialidade fútil do que à intensidade ideal da poesia. Algo assim como se um craque se preocupasse mais com os volteios do seu penteado do que com a qualidade dos seus chutes, digamos.

 

A lista das queixas é longa. Já sai de uma peça de vanguarda obscura com duas senhoras devotadas ao teatro, desconhecidas, indignadas com a cena apresentada. Exaltadas, elas declararam com veemência que iriam abandonar o teatro em favor do cinema, pois, amantes da velha arte, enfrentaram naquela semana uma sequência de peças experimentais no seu entender inúteis, equivocadas mesmo, como estudo da humanidade. Elas estavam furiosas e chegaram até a zoar o elevador canhestro do velho prédio: já que o foco da casa era a invenção, qual o motivo de ter um elevador modesto, trôpego pelos andares?, proclamaram.

 

Ouvi em silêncio. Mas entendi que existe uma falta, um abismo, entre o palco e a sociedade brasileira. Depois do jogo da seleção, ao andar a pé no meu bairro, na universidade em que trabalho e por diferentes recantos da cidade, o que eu ouvi em todas as bocas era a discussão, às vezes bem exaltada, a respeito dos rumos do futebol brasileiro – vale topete, pose, maquiagem ou o importante é o pé, o cérebro de par com a bola…? Foi jogo ruim ou roubo? O futebol fez vários gols estes dias e disparou os corações. O teatro com frequência não consegue nada parecido, mesmo com aqueles que o amam com intensidade. A norma é o tédio e não há nem mesmo a vontade de xingar o juiz.

 

Podem ser ciclos da sociedade humana – no século XIX, a vida não era assim. Não existia o futebol, nem o cinema, ou a TV. O teatro era o rei do pedaço. Sim, tinha a concorrência da ópera e da música, mas, desde a função de ser a escola de costumes, até o nobre papel de apontar a definição requintada do ser, tudo era próprio do gramado do teatro. Neste século XXI, quem sabe o futebol esteja com os seus dias contados, prestes a morrer, a favor de uma nova arte, a arte de viver virtual, um casamento da internet com a performance? Não, não será uma forma de teatro, será outra coisa, ainda sem nome. E o teatro?

 

Sobreviveremos – vale a resposta curta, histórica, emprestada por Tchekhov. Impossível saber para onde andará o teatro: sempre usamos um edifício velho no nosso tempo novo, pois, quando as paredes teatrais se erguem, registram, a rigor, o teatro que passou. Sempre usamos fiapos do que fomos e fizemos e da arte cristalizada no ar, sempre recorremos ao público fiel – portanto, passados, todos passados. Ansiamos o futuro, mas vivemos ancorados no passado. Como dimensionar o futuro? Impossível saber. Porém, a necessidade de aprender com a presença humana, de ouvir o outro e se encantar, sempre existiu e sempre existirá – sobreviveremos.

 

Vale buscar, olhar e avaliar a cena que consegue pulsar no meio da Copa do Mundo. Vale tentar entender o que faz com que tantos percam o seu tempo, sem lamentar, com os olhos pregados nos pés dos atletas e rejeitem, sem piscar, a dedicada energia de tantos artistas da cena. Há um saber humano aí? Há sentimento bruto, de um lado, refinamento de emoção, do outro? Qual o caminho?

 

De longe, chegam aqui atestados da grandeza do teatro brasileiro. De Portugal, do FITEI, um festival de teatro que sobrevive há 41 anos, chegam notícias do sucesso das apresentações no Porto do nosso celebrado Caranguejo Overdrive, da Aquela Cia. Além do tema, o descompasso profundo entre poder e sociedade que dilacera o país desde sempre, indicador da não superação aqui da condição colonial, alcançou impacto lá a forma da linguagem. Entre o documentário e o drama, alicerçado a um só tempo na narração, na representação, na performance e na apresentação, o trabalho despontou como eloquente registro da expansão da sensibilidade individual no nosso tempo. A forma da cena não fala mais apenas de sensibilidades conduzidas, integradas, como quer a linguagem teatral convencional, o velho drama, mas também de sensibilidades que pleiteiam a maestria da própria expressão.

 

O FITEI – Festival de Teatro de Expressão Ibérica – oferece uma gama variada de atividades – além da apresentação de peças nacionais e internacionais, conta com oficinas, concertos, debates, encontros, festas. Esta edição acontecerá de 12 a 22 de junho, contemplando não só o Porto, mas Vila de Gaia, Matosinhos, Felgueiras e Viana do Castelo e a presença brasileira está bastante forte.

 

Não se pense, contudo, na existência de facilidades para a arte em Portugal. Na semana passada, outro festival de projeção, de Almada, promoveu o lançamento de sua 35A., a ser realizada de 4 a 18 de Julho. No lançamento, além da definição da programação, foi reafirmado o compromisso público de manutenção do festival, apesar dos cortes de verbas anunciados. A expectativa é a de que a redução do financiamento público, divulgada em março, seja revista em prol da sobrevivência do encontro cultural importante.

 

Enquanto isto, lá como cá e por várias partes do mundo o dinheiro jorra nos gramados e a favor das chuteiras. Ninguém fala em corte de verbas para o futebol. Ele figura como necessidade primeira. Apesar dos escândalos de corrupção, do roubo e do vedetismo consumista exaltado dos craques – com frequência mergulhando no ridículo – nada leva a crer na possibilidade de falta de capital para o futebol nos próximos tempos. E, se tal acontece, uma coisa é certa: multidões apaixonadas garantem a sobrevivência da atlética ocupação.

 

O diagnóstico do caso, visto do lado do teatro, pode ser preciso. Talvez seja o caso ululante de uma unanimidade burra, como diria Nelson Rodrigues, ele próprio louco por futebol, ainda que não pudesse ver claramente qualquer jogo, por problemas sérios de visão. Mas ia aos estádios e simulava bem um domínio perfeito das artes da bola no campo, para atiçar os ânimos, como deseja o jogo. Ou o teatro. Teatro, futebol, Nelson Rodrigues: quem sabe se misturar tudo permita que se chegue a algum novo entendimento da espécie humana?

 

Pois, nesta semana de copa, paixões acirradas, torcidas histéricas e descabelamentos atléticos, uma sensacional montagem de Nelson Rodrigues estará à disposição do distinto público. E de graça. O Espaço Furnas Cultural, em Botafogo, vai apresentar a irresistível Perdoa-me Por Me Traíres, de Nelson Rodrigues, de 16 a 24 de junho, às 19h.

 

A peça é um clássico do autor e exala aquele sentimentalismo transgressivo exaltado do grande torcedor do Fluminense. A direção de Daniel Herz alcançou um efeito potencializador da dinâmica do texto, graças a uma cena límpida, geométrica, marcada por desempenhos intensos, realçados pela cenografia cirúrgica de Fernando Mello da Costa e pela luz diabólica de Aurélio di Simoni.

 

A oportunidade é de ouro, como a falecida taça Jules Rimet – ela permite pensar algo a respeito de um encontro improvável, mas desejável, entre teatro e futebol. Ao escavar o subterrâneo das almas, o autor fala da estrutura de sombra, paixão e dilaceramento que ergue o homem, talvez os mesmos engenhos que o futebol aciona, numa outra voltagem, quando instaura no estádio o urro coletivo. Quem sabe se este tipo de programa desperte a necessidade de teatro que sobrevive em todas as almas, ajude a diluir o ódio equivocado ao teatro, o ódio estranho que grassa por aí e impede a arte de revelar democraticamente as belezas que pode oferecer, em benefício da iluminação da vida?

 

SERVIÇO:
Perdoa-me por me traíres
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Daniel Herz
Elenco: Bebel Ambrosio, Bob Neri, Clarissa Kahane, Ernani Moraes, Gabriela Rosas, João Marcelo Pallottino, Rose Lima, Tatiana Infante e Wendell Bendelack
Espaço Furnas Cultural
R. Real Grandeza, 219 – Botafogo, Rio de Janeiro
Temporada: 16 e 17, 23 e 24 junho
Entrada franca
Horário: 19h
Classificação: 14 anos
Duração: 80 minutos