Realismo High-res version

Jovem, irreverente e irresistível: palavras simples, mas diretas, adequadas para definir bem, na velocidade do nosso tempo, o impactante espetáculo Realismo. O texto corrosivo de Anthony Neilson, um original de aguda inteligência, exala ironia e irreverência a partir do título, qualidades exploradas com elegância por Tato Consorti, responsável por uma direção sutil, uma bela arqueologia do texto, artesanato de extrema competência. Há uma brincadeira teatral bem calculada o tempo inteiro na cena, situação sob foco também em função da escolha do galã, João Velho, um ator de extensa paleta expressiva, da imagem ingênua ao jovem rebelde.

 

A proposta é exatamente esta: definir o que é o ser humano, um ser humano, o protagonista, que atende, aliás, pelo nome do ator responsável pelo papel. E o realismo da peça é apresentar um recorte de um dia no imaginário e na intimidade do ator-personagem, apresentado sob o próprio nome do ator, opção mordaz que aponta para a essência da cena: uma sucessão de deslizamentos de significados. Assim, João Velho é o ator que se apresenta como personagem, que é herói da ação que não é ação nenhuma, posto que acontece em um sábado, dia de inação, e é apenas vida íntima, cotidiana e imaginária, de limites esfumados entre a imaginação e a concretude da vida do personagem. Muito da ação cênica se revela, aos poucos, como devaneio do herói, o que seria, para o senso comum, o avesso do realismo.

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