FESTU 2019 3 High-res version

O Teatro no poder

“Um fato inegável merece o nosso reconhecimento – o Brasil é uma usina louca, permanente, de sentimentos inesperados. Surpreendentes, de verdade. Quando a criatura pensa que já sentiu tudo, lá vem o Brasil e derrama um tonel de sensações indescritíveis na alma do incauto. Haja ectoplasma, como diria o meu velho tio Raul, espírita mesa branca confesso, daqueles de não perder missa ou sessão de atabaque ou pregação de pastor. Todo verbo serve ao espírito, talvez ele dissesse, se obrigado a se explicar.

 

Mas não – o próprio deste inferno sentimental tropical é não ter explicação. A vida vai, arrasta o coração, se possível desenha um vale de lágrimas. Esta situação indefesa, desprotegida, típica de maiores abandonados, fala da solidão coletiva de uma terra em que não se resolveu a bravata colonial. Estamos ainda à mercê de donatários, devastando tudo o que aparece ao redor, às voltas com nativos incompreensíveis – é razoável que nesta altura da História ainda não tenhamos uma compreensão humana profunda sobre os nossos indígenas? Isto para não falarmos da causa negra. Nem das mulheres e dos gays. Somos senhores ferozes de uma solidão humana pobre, brutal. Cada um é menos um, pois não se reconhece em nenhum outro.

 

O sentimento desvairado me invade ao escutar a pá de cal do novo governo federal, lançada sobre si, a respeito da impossibilidade de apenas administrar o país, sem bate-boca gratuito e barraco ocioso. Diante da crise falimentar monumental que invade as escolas nacionais, do Oiapoque ao Chuí, muito bem atestada por figuras lúcidas como Cristovam Buarque, o governo insiste em apostar na luta ideológica e… atirar contra os cursos de História e Filosofia. Ou no corte de verbas de escolas carentes de tudo. Valha-nos Sócrates – e no caso não penso no jogador ilustre de futebol. A insistência em buscar defeito no lugar errado é fatal, afunda ainda mais a sociedade na crise.

 

O problema da escola brasileira não é ideologia nem humanidades e quisera fosse excesso de dinheiro: o problema é a falta de uma política pública séria para a educação. A mudança deste quadro deveria começar ontem. O primeiro passo teria que ser uma valorização explosiva – como uma bomba atômica – do salário dos professores. Simples assim. Ensinar se tornaria o ringue dos melhores, dotados de talento absoluto e vocação férrea, merecedores de salários astronômicos. Isto antes que as escolas se acabem, no sentido literal e também figurado. Nelas, ao lado das batalhas campais ferozes, há um teatro cínico, quer dizer, há a violência objetiva e a violência simbólica, aquele teatrinho de fingir que a escola é boa, na acepção mais horrenda da palavra teatro.

 

As salas de aula estão se tornando um verdadeiro pântano: os professores resistentes são intimidados, espancados, massacrados, expulsos e até mortos. Os omissos, ou os professores que, por inúmeros motivos, aderem à lassidão mais devastadora de descaso institucional, fazem de conta que dão aulas e os alunos fingem que estudam. Raras são as ilhas de exceção e não se consegue saber qual a sua densidade efetiva e a sua resistência. A ruína é magistral e caminha para construir uma sociedade muito incompetente. O problema é muito mais antigo, mais grave e mais sério do que as tentativas ocas de explicação através de coloridos políticos banais.

 

E não adianta elevar o padrão escolar para uns poucos, numas idílicas escolas de elite – quando a sociedade se omite diante da necessidade de adensar a construção do pensamento comum, do pensamento médio, não há qualquer possibilidade de resguardar algum segmento social, nenhuma escola se eleva. As escolas públicas, voltadas para as massas, precisam ter qualidade ao ponto de até mesmo formarem gênios; assim, elas mudam a temperatura do conjunto social e, claro, elevam o tônus das escolas que pretendem ser formadoras de elite. E formam gênios vindos das classes mais pobres. Eles existem e precisam ter espaço, despontar.

 

Um exemplo simples, mas bem eloquente: a elite pode não se preocupar com o saneamento básico e a saúde pública. Pode morar em castelos ou fugir para a amenidade serrana. Mas tanto a peste negra medieval como as pestes tropicais – dengue, chicungunha, zica, tifo, malária, febre amarela – atravessam paredes e desconhecem as cores dos sangues, azul ou bege, tanto faz… Para isto, dentre outras coisas, serve a História, para derrubar a soberba. Nos feudos e cortes da Idade Média europeia ou nos encantos petropolitanos do século XIX brasileiro (época esta da qual estamos, afinal, tão perto), pequenos animais, ratos, mosquitos, ensinam aos homens obtusos o valor de estudar a vida em sociedade com grandeza humana.

 

Pois importa muito este tema: vale abordá-lo a partir do olhar urgente para a situação da cultura. Um longo debate. Sim, cultura e educação caminham juntas. Não dá para pensar uma sem mexer com a outra, trata-se de um intrincado jogo de pega varetas. Numa terra com a educação em frangalhos, a cultura se torna o consumismo mais tosco, quando aflora como necessidade simbólica. Pois agora, hoje, o novo governo anda falando muito em educação e cultura. Mas o quadro assusta por ser fala de surdo: se o governo é do Brasil e dos brasileiros, a nação tem que ser ouvida.

 

Se o governo não é suicida, não pretende assinar o ato da própria morte e, sem temor, tentar levar todo o Brasil junto, vale considerar que o que está acontecendo agora é apenas uma proposta de conversa com a sociedade. Parece razoável que o governo – ou alguns governos – chamem com urgência um encontro de cultura, articulando as diferentes esferas envolvidas, da administração à produção, quer dizer, gestores, administradores, políticos, artistas, intelectuais, educadores, consumidores, cidadãos.Tipo, vamos conversar.

 

Não se trata mais de debate público, mas sim de encontro para pensar a sociedade brasileira diante da crise mais acirrada de sua História. A cultura terá um papel fundamental neste processo. A única saída do abismo é a educação – apostar todas as fichas nesta arte de cuidar do outro e do futuro. Todas as demais artes precisarão comparecer. Então precisamos conversar e, quiçá, pensar juntos, na união dos possíveis ainda que impossíveis.

 

Qual o indício de que a conversa foi apenas iniciada, está na expectativa de uma resposta do saber coletivo para se transmudar em referência concreta, lei e instituições? Simples – Eduardo Barata, presidente da Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR), em declarações à revista Época, deixou claro um ponto importante do cenário atual, expôs o nervo tenso, distante da calma da solução.

 

Segundo Barata, as medidas divulgadas pelo governo não representaram a modificação da Lei Rouanet – aconteceu apenas a publicação de uma instrução normativa de regulação de procedimentos do mecanismo de incentivo/mecenato. Significa dizer que isto é só uma parte da Lei, após 28 anos de vigência e uma considerável mudança da realidade da produção cultural. Nem o Fundo Nacional da Cultura nem o Ficart, essenciais para que exista uma política de cultura do Estado clara, foram revistos. Portanto, o trabalho do governo neste campo mal está no começo, há um longo caminho a percorrer e os companheiros de viagem terão que ser os produtores de arte e cultura e os promotores da educação.

 

Por falta de diálogo e de vivência da questão cultural, as propostas do governo, ainda que pretendam favorecer a expansão da cultura na sociedade, aliás o objetivo eterno da vida dos artistas, ficaram distantes de suas possibilidades efetivas de realização. Três pontos são nevrálgicos, pois podem conduzir a deformações maiores do que os defeitos que se desejava pretender corrigir.

 

O primeiro e mais grave é a redução arbitrária do teto de captação, sem estudo denso da estrutura do mercado. Se 60 milhões era uma cifra espantosa para a pobreza nacional, 1 milhão é um atestado de óbito para o sensacional mercado de musicais e de grandes montagens que – por bem ou por mal – o mercado teatral, sempre anêmico, passou a conhecer graças à lei. E aqui entra a importância da História como condutora do pensamento: afinal, um dos aríetes responsáveis pela profunda crise dos musicais brasileiros a partir dos anos 1950 foi a derrubada dos grandes teatros cariocas. Walter Pinto podia reinar na Praça Tiradentes sustentado por sua bilheteria. O que aconteceu?

 

Em qualquer cidade de importância cultural do mundo, os teatros à italiana de grande formato, ligados ao padrão do século XIX, permanecem ativos. A sua lotação, com mais de 1000 lugares ou algo próximo, garante que a bilheteria será uma fonte de capital efetiva para as grandes encenações. O Estado, no Brasil, avalizou a especulação imobiliária mais desenfreada e não moveu palha a favor da preservação dos grandes edifícios teatrais. Pior: é difícil encontrar um grande e belo teatro público em condições de uso decentes. Portanto, o maior avalista da fragilidade de capital que ameaça o teatro musical é o Estado. Espera-se justamente que ele pague a conta.

 

Na citada matéria da Revista Época, há uma contraposição de visões, com respostas às mesmas perguntas, do produtor Barata e de José Paulo Martins, secretário especial adjunto da Secretaria Especial da Cultura e secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do Ministério da Cidadania. Para o secretário, parece simples usar a caneta e decretar o acesso da população carente ao mundo da arte. No entanto, não foram criadas, aliás, nunca foram criadas no país, formas públicas efetivas de institucionalização do acesso às artes. Assim, de súbito, a boa intenção corre o risco de se tornar inócua, ser apenas grossa demagogia, e o pior, em prejuízo da produção cultural. Quem dispõe de um produto cultural e pretende franqueá-lo, disponibilizá-lo para o acesso democrático, sabe muito bem a dificuldade imensa existente para estabelecer a circulação. Que tal ouvir quem viveu estes meandros confusos da caridade oficial?

 

O terceiro ponto é talvez o mais polêmico – o desejo do governo de inventar um mercado de arte ali onde ele não existe. É fácil supor a existência de um Eixo do Mal das Artes, a polarização Rio-São Paulo, pretensos monopolizadores das verbas, dotações e incentivos. Há uma realidade objetiva a ser reconhecida – Rio e São Paulo formam na verdade o Eixo do Bem, o mercado de arte do país, dentro, contudo, da precariedade nacional. São mercados fraturados, em boa parte em razão da eterna ausência de projeto cultural do Estado. Na verdade, a impressão é a de que há um gato na tuba – o efeito mais nocivo da nova proposta para a Lei talvez passe soturno como um fantasma por aí, a Lei serve de álibi para o Estado se retirar de suas obrigações constitucionais de promover a cultura como um dos esteios da plenitude cidadã. Financiar a cultura, a fundo perdido. Em poucas palavras, a Lei permite ao governo reduzir a cultura no orçamento da União. O mercado Rio-SP ficaria entregue ao próprio desvario e o resultado da Lei seguiria para o interior ou, quando muito, bancaria propostas pequenas e juvenis nos dois centros de arte.

 

No entanto, nos centros menores, por todo o país, nos quais a vida cultural é semiprofissional ou apenas diletante, amadora, o financiamento das práticas culturais deveria ser função de Estado e não de isenção fiscal. Se não existe um mercado minimamente estabelecido, não há o que fomentar, há que investir. Uma das grandes mazelas da sociedade brasileira é o imperialismo interno, a desvalorização dos valores locais em favor dos nomes de circulação nacional, dos grandes centros. A cena de arte local não valoriza os nativos. Assim, a demanda em tais regiões é efetivamente modesta. Sangrar os esquálidos mercados centrais (sim, eles são anêmicos, este é um outro tema) para dar vida a mercados inexistentes parece ser uma política de cegueira cultural absoluta.

 

Se a isenção fiscal pretende (pretendia, não é mesmo?) ser uma via didática para estimular o mecenato, o mecanismo deve funcionar como uma prática de adensamento do mercado. Isto pode significar, idealmente, aplicação de recursos para fomentar capitais da atividade artística, quer dizer, para a capitalização da arte, sem que seja uma forma vitalícia de custeio da atividade. A economia criativa precisa do fomento e da isenção fiscal para a constituição do capital criativo.

 

Neste jogo, poderiam ser favorecidos novos talentos, pequenos e médios produtores (para a sua expansão), grupos estáveis de pesquisa, grandes montagens de relevância artístico-cultural. O incentivo seria, efetivamente, fomento. As verbas públicas manteriam as instituições (edifícios, centros de estudo e pesquisa, escolas, equipamentos de produção…) inclusive nas grandes cidades e, nos centros periféricos, financiariam a vida cultural – financiariam a fundo perdido, pois não dá para ver aí a figura do fomento e sim do financiamento.

 

Portanto, há muito o que debater para que se possa chegar ao lugar efetivo – necessário – de celebração da cultura do país. Resta fazer o quê? Supor que o governo e os artistas entenderão a necessidade de diálogo, a importância de uma compreensão cristalina da realidade de produção da arte. Existe lucidez, liderança, grandeza humana e espiritual: sem estes atributos o indivíduo não se torna artista e, acreditamos, os políticos precisam disto para que a História e a cultura venham a honrar suas imagens e ações no futuro. Para quê se esforçar para acabar na lata de lixo da História? O Brasil merece sentimentos melhores.

 

Um grande exemplo? O sentimento mais arrebatador de crença na potência criativa humana é o motor do FESTU – Festival de Teatro Universitário. Vale experimentar, conhecer a inquietude jovem mais saudável que varre o evento em toda as suas atividades.

 

Para este ano, as inscrições já estão abertas, até o dia 24 de Maio. Podem se inscrever, gratuitamente, estudantes universitários de todo o país, somente pelo site www.festu.com.br, com peças longas – para a Mostra de Espetáculos – ou com esquetes – para a Mostra Nacional Competitiva. O resultado da seleção será divulgado no site e nas redes sociais do FESTU a partir do dia 5 de junho.

 

Para chamar a primavera, estação propícia para novas ideias e para um evento jovem, o festival acontecerá de 5 a 22 de setembro em vários espaços culturais do Rio de Janeiro. Falar em novas ideias, no caso, importa muito – o FESTU é um grande exemplo de renovação cultural, de junção bem sucedida do teatro com a educação, funciona como uma verdadeira turbina cultural, como se o teatro estivesse no poder. Criado em 2010 por Miguel Colker e Felipe Cabral, o festival pulsa intenso como uma maratona teatral. Nas oito edições anteriores, os números alcançados dizem tudo: foram apresentados 200 esquetes, 32 espetáculos, 11 peças foram patrocinadas e 73 categorias premiadas. Ou seja – uma fonte luminosa de sentimentos surpreendentes do Bem, capazes de fazer a alma nacional vibrar feliz e acreditar na possibilidade de grandes encontros. Olhar a garra da juventude, disposta a superar tantas dificuldades nacionais, faz crer no melhor – acreditar que o Brasil tem cura.

 

SERVIÇO

 
9ª edição do FESTU – Festival de Teatro Universitário.
De 05 a 22 de setembro de 2019.
Mostra de Espetáculos (peças longas)
Mostra Nacional Competitiva (esquetes)
Inscrições gratuitas: até 24 de maio de 2019
Local: site www.festu.com.br
Resultado da seleção: a partir do dia 5 de junho