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Você e todo o amor deste mundo

 
Faz tempo, numa terra devastada por guerras, um jovem poeta inspirado buscou conceber uma poção para acabar com as dores do mundo. Conseguiu um resultado fascinante, exemplar, tão exemplar que persiste pulsando à disposição de todos os seres de boa vontade desejosos de mergulhar no lado iluminado da vida. O poeta, era William Shakespeare (1564-1616), a poção, Romeu e Julieta (1595?).

 

E agora, nós, varridos por guerras e ódios, desgovernados em meio ao náufragio do país, recebemos este presente do teatro, um bálsamo para acalmar tantas dores, mostrar um outro caminho de delicadeza neste momento de turbulência total. Aproveite, está bem aqui, no Rio, no Teatro Riachuelo. E a montagem, gente, é uma espiral ensandecida de beleza e de arte, para sair do teatro levitando, dançando na rua. Imperdível. Corra para ver.

 

Sob a direção inspirada de Guilherme Leme Garcia, você verá em cena uma montagem esplendorosa do texto clássico. A poção mágica descoberta pelo poeta – o amor, sim Romeu e Julieta é sinônimo de amor – está presente por todo o espaço, do saguão do teatro ao mais afastado recanto do palco. Uma trama inefável de beleza e de elevação estética passa por toda parte.

 

Para expor este jogo doce do amor, de bem querer e de se entregar, se anular, Guilherme Leme Garcia concebeu um espetáculo dotado de uma rígida convenção estética, absolutamente teatral – é só o puro amor ao teatro, sempre, nada de realismo, naturalismo, romantismo ou melodrama. Talvez se possa dizer que a direção de cena adotou um simbolismo pictórico, em que os humores, as formas, os desenhos e as cores seguem um código explícito, sempre estético, como numa pintura, voltado para falar de opostos, do eterno e do efêmero, do grande e do pequeno, do poder e do deserdado, do amor e do ódio.

 

A escolha é fiel à chave mais profunda do texto, feito de jogos de opostos, oxímoros. Trata-se de uma fórmula renascentista de explicação do mundo, dual. Segundo este pensamento, para traduzir o ímpeto vertiginoso do amor, devastador e inaugural, seria essencial vê-lo diante da força oposta, o ódio, também uma força devastadora, mas de destruição. O convite era muito oportuno, um sucesso, numa terra desolada diante das guerras de religião, promovidas por seitas irredutíveis, tão opostas como os Capuleto e os Montecchio, seitas que não ambicionavam apenas dominar as almas comuns, mas o trono inglês.

 

Opostos simétricos, amor e ódio são meios de cegueira do ser, formas de não ver – no amor, se tem apenas a bela visão, no ódio, apenas a visão do horror. Portanto, a bela visualidade da cena é a mais perfeita defesa do ato de amar. Como no amor, a cena nos arrasta e nos faz vagar assim, em sonho teatral, frágeis pedaços quentes de ser à deriva do mundo, o imenso e frio mundo lá de fora. Como o efeito de uma canção doce de Marisa Monte.

 

A opção surge já na cena de abertura, lírica, quando Romeu canta o seu amor sozinho sob o luar – no caso, o amor por Rosalina – e a praça de lutas, de rinhas permanentes, aparece povoada por jovens fervendo por sangue. Amor e ódio se apresentam loquazes nos corpos. Ao fundo, os volumes da cenografia falam de poderes objetivos, opressivos, formas cristalizadas da política na sociedade, que precisam do ódio, em algum momento, para governar.

 

A lição remota explorada em cena, sob um tom sutil, é de Gordon Craig (1872-1966): a verticalidade dos volumes em oposição à pequenice humana. Esta inspiração rege a cenografia majestosa de Daniela Thomas, uma criação genial – ela incorporou a ideia e transfigurou-a em torres simples, potentes, móveis e praticáveis, de uma textura entre o medievo e a renascença exposta na dureza da pedra varrida por alguma cor do tempo.

 

As cores da montagem, aliás, formam um espetáculo à parte, são um convite ao romance, remontam à história da pintura e à história do figurino. O seu impacto se torna maior graças aos preciosos efeitos de luz, de Monique Gardenberg e Adriana Ortiz, em diálogo criativo intenso com a direção, a concepção e a cenografia. Em alguns momentos chaves, o tratamento do espaço, a composição dos volumes, o jogo das luzes e o telão colorido criam um efeito plástico de extremo vigor, a cena se torna um quadro plástico de arrebatadora representação teatral.

 

Sim, é uma cena teatral total e o diálogo se estende aos figurinos, claro. Afinado com a chave de leitura proposta pela direção, João Pimenta concebeu roupas sem época, mas sempre eloquentes para identificar climas e situações, eficientes para expor personalidades fortes, bem definidas na sua função dramática. Desenham, também, uma corte rica, uma opulência interiorana, em que reina a ostentação e o bem comum não é um valor cotidiano. Para frisar o conflito central, os coloridos dos figurinos das duas famílias se opõem. As roupas do baile, com leves insinuações de absurdo, são eficientes retratos de uma sociedade engessada pela hierarquia e pelo desejo voraz de aparecer.

 

Mas não é só – a grandeza da encenação se faz com muitos outros ingredientes. Há o jogo de corpo, um fluxo intenso de representação, dramático e musical, mas despojado, ainda que fiel ao propósito de ser simbólico e poético, de Toni Rodrigues. Há a limpeza das lutas, sempre elegantes e convincentes, obra de Renato Rocha. Há o visagismo requintado de Fernando Torquatto. E há, afinal, a música.

 

Esta versão do famoso romance é um musical na plena acepção do têrmo, estruturado ao redor do repertório de Marisa Monte. O verbo estruturar é intencional: com texto adaptado e roteiro musical de Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche, autores experientes no gênero, foi feita uma escolha de músicas em função do rendilhado dramático, marcado, este, por uma tensão moderna, seca, mais objetiva e menos narrativa.

 

Quer dizer – mesmo quando as canções não registram ações efetivas, objetivas, são apenas declarações de sentimento ou exposições de estados da alma, elas aparecem tratadas sob o conceito de ação dramática. Assim, o fluxo da ação não esmorece, a música faz a peça caminhar, ativa a sensibilidade e a emoção do público, sempre em sintonia direta com a trama, abordada de maneira ágil.

 

O resultado é deslumbrante – é fundamental reconhecer. A direção musical de Apollo Nove e a direção vocal de Jules Vandystadt conseguiram traçar um desenho sonoro envolvente, um conjunto de sensações sentimentais que, além de arrebatar a plateia, é um hábil propulsor do jogo de cena. As vozes surgem em solos cristalinos, são apoiadas por soluções corais vibrantes, tecem climas, dialogam com a excelente orquestração. Vale destacar: a formação do conjunto musical garante momentos sentimentais intensos graças à sonoridade especial proporcionada pela harpa e pelo rico naipe de cordas.

 

É preciso, contudo, dizer algo mais, frisar que este é um espetáculo histórico, uma encenação espetacular de exceção. Trata-se de uma montagem obrigatória, para ir ver e rever. Além do olhar teatral plástico e poético de Guilherme Leme Garcia, a atriz Vera Holtz assina a ficha técnica como colaboradora artística, indício de que o projeto foi dominado pelo cálculo estético mais intenso que se possa imaginar, atendeu a um conceito teatral em que a cena é um olhar de arte, criação de fluxo de beleza solto no espaço, situação à qual os atores aderiram.

 

Várias cenas, em consequência, se projetam como momentos de teatralidade pungente, arrasadora mesmo, vertigem estética de emoção. Vão fazer parte da história do teatro brasileiro como momentos de criação absoluta, teatro total. Integram esta lista, no mínimo, a cena do balcão, com a arrebatadora chuva de rosas brancas, a cena do casamento, com a celebração celestial dos freis, a cena da despedida da noite de amor, com o vestido vertigem de luz, a cena do mausoléu e a cena final, da reconciliação, canto geral de amor de toda a companhia – ou de Verona, digamos.

 

Uma outra conquista da encenação é o equilíbrio do elenco, a afinação da equipe de atores. Uma sensação preciosa de amor ao teatro irradia do palco para a plateia, vale insistir. Há uma doação sincera dos intérpretes, a sala é inundada por um sentimento de crença profunda nos valores humanos mais nobres. Comentar os desempenhos é uma longa tarefa, é impossível focalizar todos os trabalhos. No entanto, muito do que é oferecido em cena é de uma qualidade tão exemplar que algum registro precisa ser feito.

 

Bárbara Sut é uma Julieta decidida e diáfana, garrida e inquieta, capaz de se lançar ao amor com ímpeto juvenil, sem medo, seguindo um impulso cego digno da jovem herdeira mimada. Prisioneira do amor, ela se entrega e se expõe sem reservas. Canta com segurança e beleza, domina a cena com naturalidade: a sua força cênica é tão desmedida que ela transforma a canção Amor I Love you, polêmica e discutível para muitos, em momento irresistível.

 

Thiago Machado é um Romeu boêmio, impulsivo, aventureiro, sonhador, coração aberto para o mundo, de porte altivo e destreza nobre, aura elegante, sedutor até nas canções, ingênuo na medida certa. Afirma-se de saída como galã romântico na canção de abertura, expõe com sinceridade o desespero do amor interdito e recebeu de presente a excelente versão de Ainda Bem.

 

Ícaro Silva estrutura Mercuccio sob tons transgressivos fortes, verdadeiro negro gato, com extrema plástica corporal. E encanta por sua malícia nas contracenas, por alguns toques certeiros de humor rasgado, além de se destacar em pequenas intervenções no canto.

 

Stella Maria Rodrigues é um fenômeno de empatia avassalador. Intérprete intensa, revela toda a sua excelência de atriz na Ama, jogando com o perfil materno e brincalhão da serviçal, explorando a malícia da criadagem, exalando a mais objetiva sentimentalidade popular. O gestual, as expressões, as intenções trabalhadas nas falas fazem com que ela acione mais um estágio sentimental da plateia, a forma de amor expressa por aquele que cuida do outro. Ao lado do Frei Lourenço de Claudio Galvan, a atriz participa de um dos números musicais arrebatadores da noite, o dueto O Que Você Quer Saber de Verdade. A dupla é irresistível.

 

No Cântico Gregoriano, na antológica cena do casamento, Claudio Galvan demonstra a intensidade de sua presença cênica e a beleza de sua voz. Na condução do desastre do caso de amor, ele é um perfeito conselheiro trágico, combina a boa intenção com o involuntário e o patético.

 

Kacau Gomes, na Senhora Capuleto, é o retrato da frivolidade, a expressão correta da mulher dominada e sem poder, objeto decorativo. Marcello Escorel, em contraponto, materializa no Senhor Capuleto a força massacrante do chefe de família autoritário, impõe o perfil do líder inflexível de facção política radical.

 

Pedro Caetano sugere para Teobaldo uma dimensão hierática prepotente, Bruno Narchi compõe Benvólio em sintonia com o o seu caráter conciliador. Nas cenas de conjunto e nos solos, os outros quinze atores que completam a ficha técnica se destacam pela devoção ao teatro e por um profissionalismo extremo, aquele necessário para definir a palavra elenco.

 

Enfim, o espetáculo é encerrado com uma cena painel de extrema beleza, de conciliação e celebração do amor, em lugar da longa cena trágico-dramática de relato dos fatos aos pais litigantes, da versão textual original. A morte por amor une as famílias inimigas e dilui o ódio em Verona, restabelece, na dor, o equilíbrio da vida na cidade: o amor cumpriu o seu ciclo de criação.

 

Afinal, a lição da peça, surpreendente como a poção de um mago iluminado, reza que o amor prevalece, o amor é sempre a razão da existência, é o segredo sublime do ser. Um ódio tão sólido, tão grande, só poderia gerar o amor mais delirante e absoluto, caminho para a pacificação.

 

Vale reconhecer, por fim, que não somos renascentistas, não acreditamos mais nestes jogos de opostos para explicar a vida, nossa vã filosofia seguiu outros caminhos, mas a beleza desta construção poética teatral é bem oportuna – sem dúvida, é deste clima que estamos precisando. Portanto, não perca de jeito nenhum, aproveite, tome um banho de amor, faça a sua alma cintilar sob uma nova humana luz. Você merece todo o amor deste mundo.

 

Ficha Técnica
 

Autor: William Shakespeare
Músicas: Marisa Monte
Concepção e Direção: Guilherme Leme Garcia
Adaptação e roteiro musical: Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche
Colaboração Artística: Vera Holtz
Direção Musical: Apollo Nove
Direção Vocal: Jules Vandystadt
Coreografia: Toni Rodrigues
Lutas: Renato Rocha
Cenário: Daniela Thomas
Figurino: João Pimenta
Visagismo: Fernando Torquatto
Desenho de luz: Monique Gardenberg e Adriana Ortiz
Desenho de som: Carlos Esteves
Desenho gráficol:Victor Hugo
Produção de elenco: Marcela Altberg
Elenco: Bárbara Sut (Julieta), Thiago Machado (Romeu), Ícaro Silva (Mercuccio), Stella Maria Rodrigues (Ama), Claudio Galvan (Frei), Marcello Escorel (Sr. Capuleto), Kacau Gomes (Sra. Capuleto), Bruno Narchi (Benvoglio), Pedro Caetano (Teobaldo), Diego Luri, Kadu Veiga, Max Grácio, Neusa Romano, Franco Kuster, Gabriel Vicente, Laura Carolinah, Luci Salutes, Saulo Segreto, Thiago Lemmos, Vitor Moresco, Gabi Porto, Santiago Villalba, Daniel Haidar e Natália Glanz.
Músicos: Maestrina: Claudia Elizeu, Teclado: Gabriel Gravina, Violões e Bandolim: André Barros, Violino e Viola: Arthur Pontes, Cello Acústico: Fábio Meg, Percussão Orquestral: Gabriel Guenther, Harpa: Gelton Galvão.
Fotos: Felipe Panfili
Produção: Leme produções Artísticas e Aventura Entretenimento
Patrocínio: Circuito Cultural Bradesco Seguros

Serviço:
ROMEU & JULIETA
Local: Teatro Riachuelo Rio – Rua do Passeio, 40 – Cinelândia – Rio de Janeiro/RJ
Temporada: 9 de março a 27 de maio
Horários: sextas (20h), sábados (20h) e domingos (18h)
Vendas: www.ingressorapido.com.br
Preços (valores de entrada inteira):
SEXTA 20h
Plateia VIP – R$ 140,00
Plateia – R$ 120,00
Balcão Nobre – R$ 100,00
Balcão – R$ 50,00
SÁBADO 20h e DOMINGO 18h
Plateia VIP – R$ 160,00
Plateia – R$ 140,00
Balcão Nobre – R$ 120,00
Balcão – R$ 50,00
Capacidade: 1000
Duração: 2h
Classificação etária: Livre
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Informações para a imprensa
MNiemeyer Assessoria de Comunicação