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Hoje, quero falar de alegria. Apesar da atmosfera densa, do clima pesado, dos tempos sombrios, da dor que nos envolve, persistente, quero falar de alegria. E alegria aqui tem uma qualidade definida – é a alegria de palco. E tem um nome – Paulo Gustavo (1978-2021).

 Ao longo da vida, que já vai adiantada, conheci inúmeros atores. Conheci atores geniais, absolutos, atores generosos, intensos. Aqui e ali, deparei com uma forma de ser ator particularmente comovente – o ator cujo motor é a alegria de palco. Talvez seja difícil explicar, para quem não é de teatro, o quê exatamente vem a ser isto. Talvez só compreenda quem sentiu, em cena ou na plateia, a  alma tocada por esta sensação tão especial, o prazer da representação. Neste instante, a alegria de palco nos invade e somos capazes de compreendê-la: um sentido profundo de crença na vida nos isola de tudo e faz com que embarquemos, plenos, na mentira deslavada da cena. Somos integralmente a representação. E até brincamos com o fato de o ser.

 Conheci Paulo Gustavo em 2006, no Teatro Cândido Mendes. Ele apresentava o turbilhão de invencionice carinhosa – uma deslavada declaração de amor à vida – que era a versão primeira de Minha mãe é uma peça. Fiquei entre extasiada e deslumbrada com a alegria de palco que irradiava do jovem ator. A nota dominante, do princípio ao fim, era esta: transformar a vida banal cotidiana, a vida de família, a rotina, o cotidiano, o perrengue nosso de cada dia, em iluminada constatação de que bom mesmo é viver.

 O impressionante, no trabalho do jovem, era o desmedido de energia catalisado – esta forma, entre intensa e louca, fazia com que cada gesto, cada escolha, por mais modesto que fosse o ato, se tornasse uma fonte de energia pura. As suas cenas eram frutos de um artesanato cuidadoso, requintado, para que fossem plenitude de ficção. Ele desenhava os gestos, as ações, as falas, as imagens e era até capaz de rir de si próprio diante do esmêro de execução… como se o mais importante fosse a inteireza do estado de invenção e, portanto, a sua consciência do fato. Ele inventava tudo de forma sublime e ria, naquele primeiro tempo, discretamente, de si. Mais tarde, amadurecido, o riso chegou a se tornar escancarado, nem que fosse em cenas de making-off.

 Após a sessão, fiquei para conversar um pouco com o ator, para  dimensionar o grau de elaboração poética presente no trabalho. Contido, cansado, exaurido e quase tímido, ele deixou perceber claramente o seu requinte de artesão do palco e a profunda sintonia com a arte que escolheu. A sua força cênica valeu uma indicação para o Prêmio Shell e ali nascia uma carreira artística admirável. Paulo Gustavo tinha a forma clássica do ator brasileiro, obrigado a criar o próprio espaço de trabalho, empreender, existir como personalidade criativa destemida. Ele não hesitou. Movido a alegria de palco, ele não reduzia a marcha, foi adiante e deslumbrou o país.

 Acredito que a chave do seu sucesso – e do encanto de quem o via em cena – estava na sua profunda alegria de palco, esta celebração do ato de representar, esta entrega franca à ficção. Ela nos tornava cúmplices de sua arte, parceiros, parentes, pois ele, na verdade, compreendia a essência da alegria de palco: o flerte com o prazer de viver, com o prazer de estar vivo.

O resultado desta inteligência artística refinada era a sua figura radiosa, iluminada, repleta de graça, importa dizer. Ele instaurou uma magia na sociedade brasileira, por isto alcançou tão merecido sucesso: a magia de reconhecermos que somos todos farsantes – e estamos vivos e sobrevivemos, neste estranho país cruel, exatamente por isto.

 Assim, ele nos conectou com nossas formas sociais de celebração mais profundas – no seu último filme, fui ao cinema com pipoca em família, para rir e me emocionar em família, assim como fez a aparente maioria da plateia da mesma noite. Eu me senti conectada com o passado, um passado bem nacional, com as idas ao circo ou às chanchadas de Oscarito, em família e com pipocas.  

 A partir desta chave, eficiente para banhar em poesia as coisas pequenas do cotidiano, as delicadas tramas de afeto domésticas, Paulo Gustavo se tornou um grande intérprete da família brasileira, um gênio hábil na radiografia da alma sentimental nacional. Fará uma falta imensa, pois bem precisamos, nesta era de luto histórico, do encanto profundo que só se obtém com a mais cristalina alegria de palco. Descanse em paz, moço alegre. Nós, almas desconectadas desta fonte vital de energia, relegadas à nossa impiedosa tristeza tropical, só podemos dizer – muito obrigada.