Múmia_feminina_02 High-res version

O teatro, o dinossauro e os seus cupins

 
Os cupins – tão pequenos – conseguiram derrubar um dinossauro: esta foi uma das notícias surpreendentes da semana. É certo que eles são vorazes e obstinados, digamos. Ou objetivos. E também é certo que o dinossauro, no caso, era um pobre simulacro, restos de ossos armados em poderosa estrutura de madeira. Ela foi eleita pelos devoradores, que puseram o monumento abaixo. Aconteceu no Museu da Quinta.

 

Talvez o Museu da Quinta, a antiga residência de D. João e dos imperadores brasileiros, possua uma secreta identidade com o teatro brasileiro. Por isto a notícia me arrebatou, além, claro, do fato de eu ser apaixonada pelo Museu da Quinta desde a infância.

 

Paixões de lado, dá para afirmar que muitas analogias podem ser traçadas entre o antigo lar dos imperadores e o antigo altar da alma nacional, o teatro. A mais evidente das analogias é retumbante como a pátria – depois da glória como centros do poder no século XIX, os dois estão caindo aos pedaços.

 

E – dói reconhecer a evidência cruel – a ruína é resultado direto da nossa ação, da ação humana, quer dizer, desinteresse, baixa mobilização, egoísmo, falta de visão do bem comum. Talvez tenhamos um jeito republicano torto, um tanto maligno, que nos impeça de abraçar metas favoráveis à saúde nacional. Tanto saúde física, como cidadã ou simbólica.

 

Não, não vou discutir aqui o que o teatro e o museu nacional significam para a saúde nacional. O foco é outro. Penso que é trabalhoso, mas é fácil banir (e erradicar!) os cupins. Segundo as minhas vivências, é essencial matar a rainha. Quer dizer, banir o núcleo gerador do problema. Então, no caso do museu, como não frequento a casa, vou abdicar de formular sugestões objetivas.

 

Sim, já decidi, estou fora da Quinta da Boa Vista. Só volto por lá quando estiver bem espanada, pois a última vez em que lá estive, a múmia, a preciosa múmia estimada do imperador, uma peça ilustre de preço estratosférico, estava passando pela gloriosa experiência tropical de tomar banho de chuva! Fiquei com medo de deparar com a cena dantesca, de tanta intimidade, a cena de ver uma múmia egípcia arquimilionária tomando banho, e abdiquei, larguei a Quinta, como se inspirada por D. Pedro I fosse.

 

Portanto, a boa espanada por lá não seria coisa leve, tipo tirar pó de múmia, até porque a nossa múmia não tem pó, ela toma banho. A coisa seria pesada, tipo suspender o dinossauro. Ou indo mais longe: arranjar una escada eficiente para consertar o telhado… O espanador começaria bem lá em cima, portanto, para ir até o subsolo. Abdico. De folga, vou para o teatro. Abaixo os cupins, viva a cena.

 

E o que fazer com os cupins do teatro? Em primeiro lugar, reformar, limpar, consertar os teatros da cidade. Depois, construir uns cinco teatros de grande porte, para abrigar grandes espetáculos, inclusive grandes musicais, e permitir uma política sólida de interação entre educação e teatro. Sim, levar as escolas ao teatro, aos magotes.

 

Além dos grandes teatros, legítimos altares da cidade, faria os “teatros de bairro” – pequenos oratórios comunitários para peças mais delicadas, pontuais, onde haveria agenda para programações locais significativas. Também abriria uma linha de crédito para que cada escola pública construísse ou reformasse o seu teatro, um teatro para chamar de seu, onde os alunos fariam apresentações e receberiam visitas teatrais de peças profissionais adequadas aos seus estudos.

 

Todo artista interessado em descascar abacaxi e provido de uma faca afiada o bastante para tal fim teria direito a um financiamento amigável, liquidável, para construir o seu próprio teatro. Nenhum shopping seria autorizado a funcionar sem teatro. Uma rede de galpões espalhada pela cidade ofereceria apoio para depósito de materiais cênicos, de uso privado ou comum.

 

Mas teatro se faz com gente. Assim, todo ano haveria a escolha municipal do artista do ano – um dramaturgo (vivo ou morto), um ator, uma figura relevante do palco, algum ser teatral com dimensão histórica. Uma agenda de eventos celebratórios convocaria a coletividade para louvar, analisar, pensar, debater a figura. Uma grande montagem em sua honra seria o centro do ritual.

 

Algumas outras iniciativas seriam estratégicas para assegurar a barreira de contenção ao redor da arte, capaz de libertá-la de nova infestação de cupins. A primeira seria uma política permanente e consequente de edições teatrais – peças, programas, almanaques, revistas, livros de pesquisa e de estudos, dissertações e teses. A estante teatral largaria a anemia e ficaria bem robusta.

 

A segunda, coisa do espírito, implicaria na organização de seminários, simpósios e oficinas de formação, atualização ou reciclagem profissional, eventos para encontro e debates, trocas de ideias. Aconteceriam também concursos, prêmios e uma política séria permanente de bolsas para aperfeiçoamento de jovens talentos, com intercâmbio internacional.

 

Parte da formação escolar e cívica, o teatro contaria com um incentivo oficial direto do governo para a encenação de peças estruturadas no interior de projetos culturais. Em consequência, o ingresso seria subsidiado, poderia ter um preço mais barato do que o custo bruto da produção determinaria. Quem não desejasse este formato, poderia sim explorar todos os meandros do teatro comercial.

 

Penso que esta ciranda de ideias e de projetos culturais imunizaria o teatro, do subsolo ao urdimento. E esta é apenas uma singela sugestão pessoal. A sua divulgação social acarretará, se ocorrer, a multiplicação da espanada em infinitas fórmulas, o fim dos cupins. A atitude é urgente, estamos em ano eleitoral. O dinheiro público para esta virada só vai existir se o patamar de roubo e de corrupção for zerado… Portanto, liberte os seus sonhos, ponha para fora os seus desejos, cobre soluções. Venha para o espanador você também! O tempo pede.

 

Sim, o terreno é muito propício para ações de saneamento bem radicais. Veja-se, por exemplo, a linda escolha jovem que estreia esta semana no Teatro Serrador – um dos textos mais impressionantes de Ibsen, Um Inimigo do Povo, direção de Bruce Gomlevsky. A montagem marcará a formatura de uma turma do primeiro semestre de 2018,da CAL, do curso profissionalizante de ator. E denuncia uma vontade de mudar vigorosa.

 

O debate proposto pelo texto é um nó atravessado na alma carioca desde o Império – a salubridade das águas urbanas. Inferno dos trópicos, o Rio teve um longo tempo de fama de pestilência, em especial em algumas regiões ao redor da Baia de Guanabara, sem que se chegasse a debater francamente o assunto.

 

Outras montagens aptas para sacudir a madeira dos palcos e ajudar o movimento espanta-cupim podem encantar o público, com um banho de carioquice, como a esperada homenagem a Martinho da Vila. E podem ser teatro em estado puro e alta voltagem, caso de Contracapa, texto original de Suzana Nascimento, direção de Priscila Vidca. A peça propõe uma discussão coerente com a necessidade humana geral de faxina: aborda as relações familiares, avaliadas através de escolhas feitas no passado, e de suas consequências. No elenco, José Karini, Roberto Frota, Rocio Durán (idealizadora do espetáculo) e Saulo Rodrigues.

 

A rigor, a empreitada de sacudir tudo, arejar, espanar e espantar cupins tem uma utilidade complementar importante: impede que os seus promotores, os protagonistas, imóveis, inativos, virem múmias, situação perigosa no Brasil, pois a chance de uma múmia ser condenada a banho de chuva é enorme. Dizem alguns que o teatro brasileiro não sofre este risco: mesmo infestado de cupins, ameaçando cair, ele persiste jovem e de bom humor. Pode cair e sobreviver. É atlético. Mas o ideal, de verdade, é que fosse uma realidade cultural fervilhante e que o fervilhar não fosse a ação destrutiva dos cupins.

 

SERVIÇO:
 
“Contracapa”
Temporada: de 18/5 a 10/6 – sexta e sábado, às 20h; domingo, às 19h.
Local: Casa de Cultura Laura Alvim. Av. Vieira Souto 176. Tel.: 2232-2015
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia).
Lista amiga: contracapaapeca@gmail.com
Capacidade: 190 lugares. Duração: 70 min. Classificação etária: 14 anos.