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Ideias de amor e teatro.

Você sabe qual o significado verdadeiro da palavra amor? Pois vou tentar dar uma sugestão – amor significa saber. Sim, pois se o amor é o melhor sentimento humano, capaz de fazer com que a espécie viva em estado de paz, amor só pode significar saber. De certa forma, o amor é inteligência. Claro, pois o amor garante a continuidade da vida.

Efeito bomba. Se eu defendesse alto e bom som estes paralelos, logo correriam muitas almas raivosas, para reclamar. Exaltadas, diriam: que absurdo, para o amor ser saber, ele teria que abdicar de sua condição primeira de existência, a carnalidade. Só poderia ser aplicada, esta definição, ao amor platônico, isto é, ao amor às ideias. O resto, portanto o amor em sua totalidade, o amor em si, nu e cru, estaria de fora…

Confesso, a restrição é bem oportuna. O obstáculo, contudo, vem de outra ordem. A brincadeira com as palavras traz um problemão para a velha definição de filosofia, que seria o amor (filo) ao saber (sofia). A partir dela, bem se vê que amor e saber não andam juntos, vivem desencontrados. A rigor, podem até precisar de um esforço considerável para chegar a um encontro e fazer nascer a filosofia, não? O empenho milenar da filosofia para levar os seres humanos à prática da inteligência parece atestar com rigor o descompasso.

Esbarrei neste tema depois que escrevi aqui na coluna algo a respeito de uma prática preciosa, o pensamento teatral. Logo alguém pegou o telefone e protestou: pensamento teatral? Disparate, tal não existe! Para este interlocutor crítico, o teatro é uma prática artística, das mais pedestres, quando muito pode cogitar reivindicar o perfil de poética. Como precisa de materialidade demais para existir,  o peso de tanta carne impede a sua aproximação ao pensamento. Quando Leonardo bradava que arte era um procedimento mental, não estava falando de teatro…

Não quis argumentar. Cada cabeça, uma sentença, reza o velho saber da guilhotina; impossível mudar a mente daqueles seres cujos neurônios detestam a arte do palco. No entanto, vou ousar afiar o fio da lâmina aqui, com a má intenção de chegar mais longe, casar teatro, amor e pensamento. Lá longe, ecoa nestas ideias a lucidez de Ortega y Gasset no seu texto precioso A Ideia do Teatro, leitura básica para quem deseja flertar com definições ousadas a respeito da arte do teatro.

Para o filósofo, nas grandes crises da História, momentos em que os humanos se defrontaram com vertiginosas viradas da estrutura do pensamento, o grande conforto obtido pela espécie para ultrapassar a crise foi o teatro. Em cada uma destas épocas, Ortega y Gasset situa grandes momentos da arte do palco – a sociedade grega, o renascimento, o século XVIII… Na sua definição, vicejaria aí um teatro em forma; nas épocas restantes, ao redor, predominaria o teatro em ruínas.

Então, observe-se, a constatação salta diante dos olhos: tais épocas douradas de grande teatro foram acompanhadas – ou seguidas – por fantásticas  formulações filosóficas. Dá para localizar em tais momentos uma grande atmosfera amorosa, uma inclinação generosa ao culto do humano, único caminho viável para suplantar a crise, razão fundante para a expansão, então, do teatro. O amor ao humano desencadearia o fluxo de novas ideias e, um pouco como Sócrates, o teatro atuaria para o nascimento do pensamento novo.

Com certeza a análise fica bem mais difícil se tentarmos aclimatar este raciocínio no Brasil. Até hoje, não existe a possibilidade de indicarmos um filósofo brasileiro. Nenhuma reviravolta fabulosa do pensamento despontou por aqui a nosso favor, para aplacar o nosso desespero, que se alonga por nossos longos séculos.  E afinal, do século XIX para cá, talvez a história do teatro nacional precise ser definida como um amontoado de ruínas.

No meio do monturo de cascalho bruto, aqui ou ali brilha uma ruína mais retumbante, logo submersa por cacos e estilhaços diversos despencados de todas as partes. Seria, cada ponto mais cintilante, um arremedo de forma perfeita? Assim como a sociedade brasileira desfila pródiga em farrapos humanos, assim o palco nacional se debate, valente, para tentar corporificar uma forma nacional alentadora, que nos governe um tanto, como sensibilidade, amor e razão.

Precisaríamos pensar, com urgência, este lugar e seus limites, para contribuir na luta a favor da superação deste abismo. E o fato desalentador mora aí: não construímos nem mesmo uma tradição de pensadores do teatro. Não praticamos o pensamento teatral. A bem da verdade, o deserto de ideias é maior no Rio de Janeiro: a cidade não pode chamar de seu nenhum dos nomes que já tentaram pensar teatro no Brasil. E, por tanto tempo perto do poder, deveria ter cuidado disto.

Vale sublinhar que pensador de teatro não é exatamente um filósofo, mas um estranho ser anfíbio ambientado em diversas praias. E que tipo de ser é este? Um ser-cabeça, evidentemente, mais do que um ser-corpo. Uma cabeça capaz de dimensionar o perfil objetivo das práticas, conhecedora do saber de coxia que faz o cotidiano da arte, mas hábil para situar este fazer e a sua poética na História. Mais, ainda: alguém capaz de indicar as conexões estéticas e sociopolíticas  de cada ato teatral.

Existem grandes nomes dedicados a este campo no cenário internacional. Vale uma predefinição. Uma boa polêmica envolve os nomes dos teóricos-encenadores-diretores. Presos à prática, fim último dos seus pensamentos, eles deveriam ser retirados da lista, por mais contundente que seja a sua fortuna conceitual, como é o caso de Brecht? Só deviam ser levados em conta os puros pensadores?

Em caso afirmativo ou não, um bom passatempo pode ser o ofício de situar as duas margens do jogo de ideias – aqueles nomes que são fieis ao gabinete e os que são bichos de palco. No primeiro time, importa realçar a contribuição de figuras tais como Nietzsche, Roland Barthes, Bernard Dort, Silvio D’Amico, Anne Übersfeld, Claudio Meldolesi, Juan Villegas, Patrice Pavis, Óscar Cornago…, para ficar sob um olhar rápido.

Na América Latina, dois nomes são impactantes, Enrique Buenaventura e Augusto Boal – os dois muito influenciados por Brecht. Na Argentina, Jorge Dubatti assina uma produção teórica de interesse radical, pois além de pensar as urgências estéticas da cena contemporânea, ele se dedica à estruturação das Escolas de Espectadores, uma prática de alcance histórico impressionante.

Importa, contudo,  situar o mapa das ideias brasileiras neste concerto. O grande nome no campo das ideias teatrais nacionais dotado de projeção internacional é, sem dúvida, Boal, ainda que seja um prático, digamos. No contexto histórico, olhando os mortos, para contornar a injustiça de deixar de citar alguém, os nomes de absoluta grandeza apontam para uma situação curiosa: como já se observou, o Rio de Janeiro não conta com uma tradição de pensadores teatrais. A rigor, na verdade, apenas um grande nome histórico pode ser vinculado ao pensamento da cena na cidade, o gaúcho Gerd Bornheim. Em geral, homens e mulheres de teatro atuantes no Rio foram empiristas, quer dizer, bem mais cronistas, críticos ou noticiaristas do que pensadores na extensão do termo.

São Paulo, ao contrário, apresenta uma lista de pensadores teatrais de grande envergadura: a enumeração pode ser iniciada com Décio de Almeida Prado e precisa incluir Anatol Rosenfeld, Ruggero Jacobbi, Alberto D’Aversa, Sábato Magaldi, Fausto Fuser, Jacó Guinsburg. Este grupo histórico se dedicou em particular ao pensamento a respeito do teatro moderno e mudou, com as suas ideias, muito da cena teatral nacional.

Um dado desponta com força, intrigante. Na atualidade, sob a atmosfera do que se poderia chamar de pós-moderno, cena e pensamento passaram a desfrutar de uma intimidade chocante. A aproximação inspirou até mesmo uma tirada muito inspirada do pensador Jorge Dubatti, durante uma conferência online este ano: a seu ver, ficou muito difícil situar os nomes dos especialistas e teóricos do teatro, pois uma pequena multidão, agora, se dedica à especialidade. O engarrafamento nasceu da expansão universitária, lógico.

Haverá um sentido latente, oculto, nesta difusão acelerada das ideias de teatro no nosso tempo? Há um encontro – e não mais um desencontro, sempre tão bem dimensionado por Óscar Cornago – entre o palco e o exercício do pensar? Qual o sentimento que une a sociedade atual com esta cena, esta arte tão preocupada em sintonizar, digerir e difundir ideias, mais do que lidar com percepções e sentimentos? Existe um divórcio litigioso entre o palco e a sociedade?

Novos tempos, outros tempos, nossos tempos. Talvez seja urgente ampliar este curioso sentido de amor que historicamente invade o teatro, fazer com que, além de se fundir ao pensamento,  o teatro se preocupe em mergulhar no jogo social. A ideia está no ar, aliás, imposta pelo enfrentamento à pandemia. Onde observá-la?

É simples – vamos recorrer a um caso singular, basta examinar a programação do Teatro PetraGold. A casa talvez seja a mais apaixonada por teatro no Rio de Janeiro. De saída, há nas suas escolhas o culto devotado ao teatro em todas as suas tradições, em particular o reconhecimento de sua mais contundente dimensão social. Lá, teatro é diálogo com o tempo vivido. Seguindo este tom, vale destacar uma iniciativa recente, a campanha, já encerrada, de extrema inteligência para a vitalidade da arte, o Ingresso Solidário Teatrogold.

A ideia inédita, inovadora, esteve centrada na busca de união entre palco e sociedade. Quer dizer – não se tratava apenas de vender ingressos e mostrar um produto-peça, mas com certeza cuidar de atingir algo maior. Através da compra de ingressos antecipados, para a retomada da cena pós-pandemia, o projeto captava meios para apoiar as famílias em crise de técnicos e artistas, custear as empresas teatrais em cena e favorecer a manutenção em atividade do teatro. Um gesto decididamente amoroso.

Em consequência, o Teatro PetraGold fortaleceu a sua imagem social e histórica. E se afirmou como uma casa teatral orientada para um repertório bem recortado. Foi definida uma cara para o teatro. Os cartazes anunciados envolvem peças notáveis em virtude da carpintaria da cena,  da relevância temática para o presente, da repercussão poética dos textos. Este olhar persiste na pós-pandemia, a temporada anunciada para o início do ano que se aproxima consolida estas marcas. Se depender da equipe, o amor ao teatro vai se espalhar no Rio, sob a ideia de que o teatro é o maior de todos os cultos à vida humana.

Ok, com certeza amor, ideia e teatro não são sinônimos, não são a mesma coisa. Insistir na redução dos termos, um ao outro, denuncia a indiferença aos seus claros limites, instaura um perigoso não-saber. Mas vale o exercício, para que se chegue a uma conclusão singela, reconfortante. Precisamos pensar teatro. Pensar muito. Um fato inegável, afinal, esteve sempre em cena, desde a Grécia: quando existe grandeza existencial, amor, ideia e teatro caminham juntos, bem juntos. E são capazes de mudar o mundo. Ou menos – no mínimo, mudar a cabeça dos seres humanos.

PARA LER SOBRE PENSAMENTO E TEATRO, IDEIAS DE TEATRO, AMOR AO TEATRO:

Ortega y Gasset –

Bernard Dort –

Jorge Dubatti –

Pesquisas brasileiras contemporâneas:

PARA IR AO TEATRO AMAR A VIDA:

SERVIÇO:

Temporada de Janeiro – 2022

 Teatro PetraGold – Rua Conde de Bernadote, 26, Leblon

 Acompanhe as ações do teatro através das redes @teatropetragold

PEÇAS:

A vida passou por aqui

02/12/2021 a 27/01/2022

Gênero(s): Comédia Dramática

ESPETÁCULO PRESENCIAL

Elenco: Claudia Mauro e Édio Nunes

Texto: Claudia Mauro

Direção: Alice Borges

Grande sucesso de público e crítica há 2 anos e 9 meses em cartaz, visto por mais 18 mil pessoas.

INDICADA AO PREMIO CESGRANRIO DE TEATRO E APTR NAS CATEGORIAS MELHOR TEXTO E MELHOR ATRIZ, INDICADA AO PREMIO DE MELHOR TEXTO BOTEQUIM CULTURAL

SINOPSE A peça conta a história de uma profunda e sólida amizade entre uma mulher e um homem de estratos sociais diferentes – Silvia (Claudia Mauro), professora e artista plástica, que viveu grande parte da vida às voltas com as crises em seu casamento e um enorme sentimento de solidão, e Floriano (Édio Nunes), boy e faxineiro, de hábitos simples e inteligente por natureza, que sempre levou sua vida com leveza e bom humor. Depois de quase meia década de convivência, Silvia é uma mulher solitária que se recupera de um AVC, e Floriano o único amigo ainda presente. Aos poucos, ele contagia Silvia com sua alegria de viver e senso de humor, que acabam devolvendo a saúde e os movimentos à amiga. Juntos, se divertem e rememoram os altos e baixos de quase 50 anos de amizade.

Charles Aznavour – Um Romance Inventado

07/12/2021 a 25/01/2022

Gênero(s): Comédia Dramática

ESPETÁCULO PRESENCIAL

Elenco: Sylvia Bandeira e Mauricio Baduh

Texto: Saulo Sisnando

Direção: Daniel Dias da Silva

Direção Musical, Arranjos e piano: Liliane Secco

ESTREIA: dia 09 de novembro (3ªf), às 20h

HORÁRIOS: sempre às terças, às 20h

Ingressos: R$60 inteira e R$30 meia

SINOPSE: Idealizado pela atriz Sylvia Bandeira ‘Charles Aznavour – Um Romance Inventado’, é um musical romântico escrito pelo dramaturgo paraense Saulo Sisnando, que criou um texto com humor e leveza sobre o universo da saudade, das paixões e da passagem do tempo, a partir das músicas mais icônicas do artista francês.

Um Dia a Menos

08/01/2022 a 13/02/2022

Gênero(s): Drama

ESPETÁCULO PRESENCIAL

Elenco: Ana Beatriz Nogueira

Texto: Clarice Lispector

Direção de Leonardo Netto

SINOPSE: Um dos últimos contos escritos por Clarice Lispector (1920-1977), já no ano de sua morte, UM DIA A MENOS fala, com humor e fina ironia, da solidão e dos muros que eventualmente levantamos, sem perceber, ao nosso redor.

Temporada: De 8 jan a 13 de fevereiro, sempre aos sábados e domingos às 20h

Ingressos: R$60 inteira e R$30 meia Ingresso amigo: 20,00

DURAÇÃO: 50 min

GÊNERO: drama

 CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: 14 anos

Saiba mais

O prazer é todo nosso

14/01/2022 a 11/02/2022

Gênero(s): Comédia

ESPETÁCULO PRESENCIAL

Texto: Beto Brown

Direção: Bel Kutner

Com: Juliana Martins

SINOPSE: A peça conta a história de uma mulher dona da própria vontade. Sem culpa. Mãe, filha e profissional, depois de casada por 19 anos, descobre um sexo antes desconhecido. Livre, ativo, presente e libidinoso. Igual sempre foi permitido aos homens.

Valores: R$ 60,00 (inteira) e R$ 30,00 (meia)

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Os Reis do Riso (The Sunshine Boys) – Leitura Dramatizada

19/01/2022 a 19/01/2022

Gênero(s): Comédia

ESPETÁCULO PRESENCIAL

Texto: Neil Simon

Tradução,adaptação e direção de Pedro Paulo Rangel

Elenco: Cândido Damm, Rodrigo Lima e Pedro Paulo Rangel Cenários e figurinos: Colmar Diniz

Produção: Fabrício Chianello

Agradecimentos: Alexandre Contini

Duração: 60 minutos

Classificação: 12 anos.

Dia 19 de janeiro de 2022 às 20h

Valores: R$ 60,00 (inteira) e R$ 30,00 (meia)