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O poder de Curitiba, a Geografia e as cicatrizes da Terra

“Na escola, pode ser que você tenha adquirido uma visão errada da Geografia – ficou pensando que esta ciência é um mergulho nas pedras inertes e em tudo aquilo que existe ao redor e não muda. Cuidado: as areias movediças também foram pedras um dia. Na verdade, a Geografia estuda o desenho (ou a cicatriz!) da passagem do ser humano pela face do mundo.

 

Por causa desta visão torta, talvez você acredite que a capital teatral brasileira está situada no Rio de Janeiro (Ó, Belacap!) ou em São Paulo (Ó, Paulicéia Desvairada!). Mas o mapa não é bem este – desde ontem, a capital teatral brasileira andou e andou para longe, buscando outros palcos e, acredite, hoje ela está serena, triunfante, em… Curitiba!

 

Pois é, não fique aí parado, para sempre enganado – ontem começou o Festival de Curitiba, este ano em cartaz de 27 de março a 7 de abril. Ele é um dos cinco maiores festivais de teatro do mundo, e isto não é megalomania, é realidade, vamos ver adiante o por quê. E mais: sabe qual o maior mérito do Festival? Ser aquilo que ele sempre foi, desde todo o sempre: uma grande vitrine do teatro nacional.

 

Com certeza, para os órfãos da françantártica, alheios ao velho espírito mercador português, pode parecer detestável a afirmação de que o festival é uma vitrine. Não fica bem, parece comércio, venda de arte, sei lá… Mas não tem jeito: esta foi a sua busca, é a sua vocação e a sua maior qualidade, a força que faz com que Curitiba possa reverter a Geografia e reescrever o mapa do país.

 

Mesmo quando o festival nascia e ainda era pequenininho, ele já se impunha como ‘espelho, espelho meu’, e refletia o painel das questões do momento teatral nacional. Naquela época, com limites mais tímidos, o festival buscava o mais belo, o mais ousado, o mais isso ou aquilo. Mas era uma escolha dentro do que estava proposto na mesa de criação nacional – ops, a rigor, a mesa era o sulmaravilha, Rio e São Paulo. Portanto, era vitrine, sem tirar nem por.

 

Aliás, a bem da verdade, parece que não existe saída da vitrine, a não ser quando os festivais se arvoram a produtores e, prósperos, bancam montagens inusitadas, arrojadas, invenções do futuro, produzem o absolutamente novo, com sérios riscos. Quem conseguir pensar diferente, supor um outro modelo de festival fora os dois indicados aqui, por favor atire a primeira pedra e quebre o vidro. A norma desta invenção chamada festival, uma espécie de festa, é ser a celebração da arte, do existente, reunindo numa grande comemoração triunfal o que acontece digno de registro retumbante na arte. Ninguém dá festa com fantasmas. Ou simulacros.

 

Dentro desta rotina, só resta aos festivais, em diálogo com a cena nacional – e até internacional, recolher exemplares do que se faz e/ou se diz. Sempre existe o recurso de sapecar um conceito aqui, rabiscar um rótulo ali e tentar esfumaçar a transparência da vidraça, simular um recorte inteligente ou cheio de bossa. Mas não adianta o truque esperto, pois o vidro, esta estranha forma derretida da areia, estará lá. E não poderá escapar da sua condição intrínseca complementar de ser espelho, duplicar o que já existe. O desafio abissal, trabalhoso, a impor horas e horas diante de uma enxurrada de espetáculos, às vezes repleta de cascalhos, é reunir exemplares de primeira linha, obras que justifiquem a sua projeção. A vitrine, então, será faiscante, estará ali, tinindo diante de todos.

 

Mas, afinal, como diria o velho sábio diante da pedra fria que adorou receber o corpo exaurido de Prometeu, que mal há nisso? Se você inventou o fogo e desejou distribuí-lo aos pobres mortais, qual o problema de doar o fígado e sentir o duro da pedra nos ossos? É tão ruim assim ter a honra de apontar, para a cena brasileira, o que de melhor vai pelos palcos, pelas ideias e pelos corpos e merece a atenção nacional?

 

Pode parecer pouca coisa, mas é exatamente graças a esta operação de inventário-Brasil que a deusa urbana do sul tem desviado o curso da Geografia nacional faz tempo. A magia dura após 28 edições e este é um número para respeitar. Quem já foi ao Festival de Curitiba para vivê-lo, acompanhá-lo, em peregrinação pelos diferentes espaços, testemunhou o colorido humano irresistível adquirido pela cidade, provou deste impactante poder cultural. Curitiba vibra de uma forma surpreendente diante do grande evento, faz jus ao título de capital teatral – ou cultural? – nacional.

 

Os números em pauta na edição deste ano falam de uma grandeza impressionante. A Mostra Oficial, o eixo ao redor do qual o evento se estrutura, contará com 27 espetáculos, selecionados pelos curadores Guilherme Weber e Marcio Abreu. O Fringe, espaço para representação aberto e sem curadoria, uma tribuna que atrai companhias das mais diversas naturezas, nacionais e estrangeiras, com inscrição voluntária, vai oferecer mais de 350 espetáculos, em 71 espaços diferentes, de Curitiba e da Região Metropolitana. No total, 13 estados brasileiros estarão representados.

 

Importa acrescentar ao pensamento alguns tons particulares irradiados pela cidade. Curitiba, abrigo acolhedor para uma extensa variedade de imigrantes, se notabiliza por ser hospitaleira. Por este feitio, as gentes nativas recebem com alegria a população que invade as suas terras para ver teatro. Curitiba ama se sentir cosmopolita. Há, ainda, um agravante: há um grande mistério histórico envolvendo as terras do Paraná – a quantidade de atores nascidos nesta região insinua que talvez exista algo esquisito na qualidade da água ou coisa que o valha. A coisa é tão forte que não se pode resistir ao lugar comum e proclamar, com humor, que o Paraná é um celeiro (ou uma estufa?) de atores. Ou melhor, de artistas. Logo, não há viva alma que tenha, na região, coração de pedra para as artes.

 

Sim, artistas, faz tempo que o Festival de Teatro de Curitiba virou Festival de Curitiba: cresceu tanto que englobou várias formas de arte e de confraternização humana. No total geral deste ano, são mais de 400 atrações, em 80 espaços culturais de Curitiba e da Região Metropolitana. Estarão presentes grandes nomes da classe artística do Brasil e do mundo, com espetáculos nacionais e internacionais de teatro, dança, circo, música, shows e performances, ao lado de oficinas e de diversas atividades culturais, para diferentes públicos, de todas as idades.

 

No entanto, vamos combinar, há um gostinho especial quando dizemos que o festival é de teatro. E qual seria o motivo? A sensação imensa de poder que deveria, assim, por este estratagema, ser atribuída ao palco, quando se verifica que ele catalisa o desejo de tanta gente, acelera os pulsos e, super-herói alheio a todas as criptonitas, muda a Geografia nacional, dando ares de centro do país para a encantadora cidade do sul.

 

Duvida? Pois se informe, amigo, corra, pegue o primeiro avião, voe para lá, é melhor mesmo. Certas coisas, contadas, perdem toda a graça, pois precisam ser vividas. Abandone o tal do ouvi dizer, o tal do quem sabe outrora, talvez um dia. Embarque nas formas modernas de aprendizado, aquelas em que importa por as mãos nas pedras, pois a massa do conselho vetusto deixou de ser inerte e já foi para Curitiba, está à sua espera. Você vai verificar que a forma teatral do momento brasileiro anda faceira por lá. E que, senão sempre, ao menos uma vez por ano vale esquecer velhas lições emboloradas e virar o mapa de cabeça para baixo.

 

SERVIÇO

28º Festival de Curitiba – De 27 de março a 7 de abril

 
Destaques da programação:
Primeiro espetáculo dirigido por Ariane Mnouchkine fora do Théâtre Du Soleil: As Comadres
Musical Elza
Espetáculo de abertura: ‘Aquele que cai’ (‘Celui qui Tombe’)
Retorno de Regina Casé ao teatro: O Recital da Onça.
Sísifo, de Gregório Duvivier
Mostras da Companhia de Teatro Curitibana Stravis-Damasceno e de Os Satyros

 
Segmentos do Festival de Curitiba
• Mostra – espetáculos convidados pela curadoria, formada por profissionais atuantes que acompanham o cenário nacional e internacional para traçar um panorama relevante e diverso do que é produzido.
• Mostra Convidada: novidade em 2019, a convite do Festival abriga duas mostras de repertório de companhias brasileiras importantes;
• Interlocuções: compondo a Mostra 2019, a plataforma amplia a experiência da arte, da reflexão e da convivência aproximando público, artistas e aprendizes em debates, oficinas, encontros, lançamento de livros e outras experiências. Programação inteiramente gratuita.
• Fringe: um espaço aberto, democrático e sem curadoria, recebe a participação voluntária de companhias profissionais que recebem apoio de produção do Festival de Curitiba. Alguns grupos se organizam por afinidades artísticas e criam suas próprias mostras. O Fringe se tornou uma grande vitrine no cenário teatral brasileiro.
• Programa Guritiba – voltado ao público infantil e juvenil tem atrações teatrais, musicais, brincadeiras e promove ações sociais itinerantes que perduram ao longo do ano;
• MishMash – com curadoria de Rafael Barreiros, apresenta variadas formas de atrações artísticas em um único palco mesclando teatro, musica, circo e dança, em uma programação familiar que diverte todas as idades;
• Risorama – sob os cuidados de Diogo Portugal promove a mistura de estilos de up comedy reunindo os melhores humoristas do país;
• Gastronomix – evento musical e gastronômico oferece um variado cardápio a preços acessíveis, criado por grandes chefs brasileiros sob a curadoria de Celso Freire.

 
Ingressos: site www.festivaldecuritiba.com.br e aplicativo oficial “Festival de Curitiba 2019”, disponíveis para os sistemas Android e IOS. E nas bilheterias localizadas no ParkShoppingBarigüi (Piso Superior – Lado Norte) e no Shopping Mueller (Piso L3).

Valores
Mostra 2019
De R$ 0 a R$ 70,00 (entrada inteira) + taxa administrativa
Fringe
De R$ 0 a R$ 60,00 (entrada inteira) + taxa administrativa
Risorama
R$ 70,00 (entrada inteira) + taxa administrativa
Mish Mash
R$ 40,00 (entrada inteira) + taxa administrativa
Guritiba
De R$ 0 a R$ 40,00 (entrada inteira) + taxa administrativa