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Sonhar com política: a revolução do presente

Vou confessar um segredo terrível: gosto de política. Desconfio de um contágio prematuro irreversível na infância, do qual não me recuperei. O meu pai era cabo eleitoral no subúrbio, cismava de incentivar os meus supostos dotes precoces para a redação e a oratória. Assim, aos nove anos me tornei locutora de comitê eleitoral e também aquela menina chatinha ocupada em recitar versos e discursar no palanque em louvor à pátria antes do candidato tomar a palavra.

 

Sim, tomava-se a palavra. Discursar era um ato de verter belas palavras vindas de uma fonte borbulhante de inspiração. Se a política é, em razoável grau, puro jogo de afeto e sedução, outrora tais sentimentos surgiam na fala para expor uma arte. A arte de demonstrar algum entendimento das necessidades sociais e, claro, de revelar capacidade para gerenciar a solução dos males inventariados.

 

O mundo mudou. A política se fez outra. Por isto sinto certo mal estar diante da política pós-dramática do nosso tempo, em que a ação verbal virou confronto pessoal – o jogo afetivo não é mais para levar o eleitor a acreditar na possível solução dos problemas, nem para expor problemas ou programas para enfrentá-los.

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