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Chute o balde, por favor

 
Não sei a opinião do povo psi-pensante – mas defendo a existência da Síndrome de Gauguin. E o que seria? Bem, exatamente aquele sentimento decidido, bruto, em que a criatura fica saturada de tudo ao redor e decide chutar o balde. Vai, chuta e foi. Como, ao que tudo indica, não existe mais no mundo inteiro nenhum Taiti para refúgio dos afetados pela síndrome, o jeito é chutar o balde à pequena distância, por aqui mesmo ao redor.

 

Nestas horas, o teatro é um grande aliado – você chuta o balde, entra lá e se livra do balde, adeus mundo. Parte para uma outra realidade, nem sempre melhor, nem sempre pior, mas com certeza diferente. Para você que atingiu o ponto de saturação e está no vermelho, só pensa em chutar o seu balde, existem várias opções.

 

A primeira é bem completa e radical: você pode fazer um curso de teatro. Não, não precisa de vestibular, Enem, nem qualquer outro balde burocrático. Existe a CAL – a dinâmica escola de teatro, a mais dinâmica dentre todas, promove cursos livres, de férias, com especialistas e para várias aptidões. Tanto pode ser Interpretação, para TV e cinema e sob várias outras abordagens, como pode ser uma oficina de diálogos com a experiente autora Marcia Zanelatto ou um curso prático de roteiro para iniciantes, com Voya Wursch. Há ainda corpo com a notável Sueli Guerra, teatro musical com a dupla de excelência Mirna Rubim e Menelick de Carvalho. E mais – a inscrição pode ser feita online, sem nenhum balde, liberdade pura.

 

Mas, se o seu caso é mais direto e simples e basta, para a sua sensibilidade carente de emancipação, um bom e belo espetáculo, corra para ver Agosto, de Tracy Letts, direção exemplar de André Paes Leme. A cena se torna o lugar do chute no balde afetivo, o espaço poético de extravasamento de conflitos da vida inteira, oportunidade para interpretações históricas, absolutas, sob a liderança da magmática Guida Vianna, uma enxurrada de lama existencial que rompe devorando tudo. A contracena com a esplêndida Leticia Isnard é a apoteose do balde perdido – tudo aquilo que você pensou em dizer nas tramas sufocantes de afeto e não conseguiu.

 

E ainda tem no elenco cinco estrelas uma coleção de feras, impiedosos aliados no chute ao balde nosso de cada dia: Alexandre Dantas, Claudia Ventura, Claudio Mendes, Eliane Costa, Guilherme Siman, Isaac Bernat, Julia Schaeffer, Lorena Comparato e Marianna Mac Niven. Todavia, há um detalhe muito ruim – a temporada vai ser curta. Nesta reestreia deste enorme sucesso de 2017, o cartaz ficará apenas até 4 de agosto no Teatro SESI.

 

É interessante este dado: a reestreia. O passado, assim, contribui com mais uma chance para os distraídos chutarem o balde com classe. Vale destacar que não é só Agosto que permite este feito. Um outro trabalho arrebatador de 2017 decidiu ajudar aos chutadores de balde contemplativos, que precisam muito entrar em ação no teatro. Está em cartaz apenas até este fim de semana o belíssimo Tom na Fazenda, um dos mais pungentes gritos de defesa da liberdade humana vistos em tempos recentes no teatro brasileiro.

 

Trata-se de um chute no balde sideral, a favor da beleza integral de ser e do ato pleno de viver, a favor da plenitude do amor, texto de Michel Marc Bouchar. A direção de Rodrigo Portella é de tirar o ar e sacudir a alma, o cenário de Aurora dos Campos, devastado como as pessoas da cena, é uma joia da cenografia, o elenco desgoverna o infinito com a força telúrica de Armando Babaioff, Analu Prestes, Gustavo Rodrigues e Camila Nhary. A peça voltou no Teatro Dulcina e neste sábado o pensamento sobre a cena vai ferver com um debate entre Armando Babaioff, o diretor Rodrigo Portella e Isabel Diegues, da Editora Cobogó – que lançou o texto da peça em português.

 

Aliás, sim, ler pode ser uma forma elegante de chutar o balde – e até bem discreta. A poesia pode estar num livro ou em cena. Neste último caso, será preciso ler o livro-ator. De certa forma, este chute no balde tão especial é garantido por Matheus Nachtergaele, com a peça Processo de Conscerto do Desejo, dirigida e interpretada por ele em homenagem à sua mãe, a poetisa Maria Cecília Nachtergaele, falecida em 1968. O ator não apenas representa, mas incorpora a figura materna, e recita os textos da poetisa acompanhado dos músicos Luã Belik e Henrique Rohrmann/Bryan Diaz. A volta ao cartaz acontece no Teatro da Caixa Nelson Rodrigues, com temporada de 25 de janeiro a 4 de fevereiro.

 

Mas enfim tudo isto aí pode ser que seja café pequeno – ops – balde pequeno, para o seu caso. Se a coisa se avolumou, se é preciso pensar grande, voar alto, existem sugestões vindas lá de São Paulo exemplares. São Viagens Musicais, com apoio e divulgação da Cultura Artística, coordenação geral da Sociedade Chopin do Brasil. A coisa é para grupos pequenos, com lugares limitados e confirma que existe no país um público sofisticado para um mercado cultural de alto padrão – balde de ouro, digamos.

 

A programação faria até mesmo Gauguin exultar, se ele fosse nosso contemporâneo. Ela se estende de março até setembro. Integra este calendário de ofertas requintadas a felicidade de acompanhar os maiores festivais musicais mundiais e eventos top do top – Festival de Páscoa em Salzburg, Festival de Páscoa em Aix-en- Provence, Abril em Nova York no Metropolitan, a Toscana, Festival Stars of the White Nights, Festival de Verão em Baden Baden, Festival de Arena de Verona, Festival Bayreuth, Festival de Salzburg, Festival de Lucerna, Festival Enescu… Os nomes envolvidos – para citar alguns escolhidos a êsmo – demonstram porquê o nosso tempo será parte importante da História Cultural do mundo.

 

A lista rápida revela a presença da Staatskapelle Dresden, Martha Argerich e Daniel Barenboim, Nelson Freire, Marcelo Lehninger, Filarmônica de Nova York, Leonidas Kavakos, Yuri Termiokanov, Ballet do Bolshoi, Anna Netrebko, Franco Zefirelli, Roberto Alagna, Orquestra Filarmônioca de Viena, Ricardo Muti…

 

Bom, cansei. Não há balde que sobreviva a este time. Desconfio que ler os nomes já oferece uma trégua para o lado exaustivo do mundo. Então, veja bem, você nem precisa viajar tanto e para tão longe.

 

Basta ter a certeza de que a arte, esta estranha invenção humana, herança dos deuses, existe para aliviar o peso da vida e do mundo sobre as nossas cabeças – se procuramos com atenção, logo vemos que a arte está ali do nosso lado, ao nosso alcance, para nos ajudar a nos livrar dos baldes, preservar nossos pés e todo o resto. Afinal, convém lembrar, Guaguin chutou o balde e fugiu para o Taiti exatamente para fazer… arte!