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O cânone e o nada

 

Semana fervilhante: a cidade está em ponto de combustão. O país não fica muito atrás. Para todos os lados, problemas e protestos. Protestos justos e bem fundados, em boa parte. Só que o turbilhão não para. Manter o alto astral, a cabeça fria e o cérebro pensante se tornou tarefa para seres extraterrestres.

 

Não faltam motivos para que se perca a paciência, sair do sério ficou fácil. Na verdade, estava inscrito na tabuleta desde sempre que um dia ia dar uma baita confusão por aqui. Chegou a hora. Espera-se que a gente bronzeada mostre o seu valor. Para quem pensa, a esperança é clara – tomara que o ímpeto de reclamação e protesto, generalizado, seja transformador de verdade, que não seja apenas vontade de alugar a disponibilidade do próximo.

 

Reclamaram até da coluna – um amigo leitor protestou, afirmou que escrevi supondo que não existe o cânone, que não há a grande arte, diferente dos pastiches e das trivialidades banais. No seu entender, compus uma ode de celebração da arte ruim, do achismo, da opinião rasteira do momento.

 

Ô xente! Pois eu estava falando de um outro ponto de vista, não da análise acadêmica e douta, nem do sistema de arte, mas da recepção do ser comum, sem superpoderes acadêmicos ilustrados. No receptor, existe a sensibilidade, mas não existe o cânone, se não temos sistema educacional e cultural. A arte que chega ali, dialoga com o universo expressivo do sujeito, é mesclada com a sua expressão sentimental, é a arte em circulação e vai proporcionar algum prazer sensível.

 

Mas vale o debate. Cadê o cânone? Para o amigo, seria formulado na arte, independentemente das condições de recepção ou de produção. Portanto, sobreviveria impávido numa torre de marfim, metafísico. Será? Podemos dizer que produzimos arte canônica?

 

Este é o problema – é claro que estamos dançando num pé só, na beira do abismo, faz muito tempo. O medo (ou a ignorância) do abismo levam muitos artistas a obras rarefeitas, apelativas, efêmeras demais. Em alguns casos, há até uma autoimolação afetiva, dilaceramento em cena, a alma dependurada do lado de fora, no último fôlego. Para a plateia geral, esta é a arte que está aí, não existem referências de comparação/validação. E se é assim tortuosa, bicho-grilo e, por vezes, cara, a plateia foge estarrecida.

 

Pois o desespero da beira do abismo criou um tipo de artista estranhíssimo, autóctone, apavorado com a obsolescência, eterno vanguardeiro. A ordem do dia é a pesquisa, a invenção, a ultrapassagem dos limites – mas só o artista conhece (ou pensa conhecer) os limites a ultrapassar.É preciso ser transgressivo, audaz – quer dizer, em lugar de encenar Shakespeare, urge reinventar o bardo. Antes de saber falar os versos elaborados do autor, explorar a sua densidade, deve-se descobrir um jeito novo, revolucionário, de estrangular cada estrofe.

 

Portanto, em tais condições, debater o cânone da arte teatral no Brasil se torna muito difícil. Aqui a arte é líquida, não é instituição, se esvai sob o sol escaldante do verão. Podemos debater Shakespeare, Goethe, Tchekhov, Ibsen, Strindberg, Shaw… Quais seriam para você, leitor, os autores teatrais canônicos? Mas qual a materialidade destes autores no universo teatral brasileiro? Aliás, para criar mais um problema, quais são os autores canônicos nacionais?

 

Enfim, problemas, muitos problemas. Problemas gigantes como o país. O que eles exigem? Protestemos contra a falta de projeto cultural e educacional de Estado, protestemos contra a indigência em que vivem os professores deste país, protestemos contra a atmosfera cultural pífia de nossas cidades. Protestemos! Mas, ao lado dos protestos, importa agir. Agir significa algo simples – encontrar meios para fazer da arte da cena uma prática densa, instaurada na ordem social.

 

Não, não é para rejeitar o que somos e começar do zero. Temos uma obra teatral consolidada com feição própria. Por causa de nossa vanguardite crônica, temos exemplos curiosos, fortes, de ação bem sucedida. Conseguimos resultados históricos valiosos. Um exemplo notável poderá ser avaliado a partir desta semana, no CCBB, o peculiar fôlego para o trabalho da Cia dos Atores. Eles vão estrear Insetos, de Jô Bilac.

 

Quer dizer, não é bem isto – a rigor, faz tempo que a dramaturgia, para a Cia dos Atores, é um lugar de experimentação. Assim, Insetos tem adaptação assinada pela Cia dos Atores e pelo diretor desta montagem, o premiado Rodrigo Portella, de Tom na Fazenda. O que isto significa? Simples – esperem algo absolutamente inovador. Para começar, a sala de apresentação não será um teatro convencional, com palco, plateia e CEP, mas sim as salas C e D, espaço rotineiramente usado para exposições do CCBB.

 

E não é só – o cenário de Beli Araújo e Cesar Augusto (sim, o ator e diretor) foi construído com pneus, este símbolo da inventividade (a roda) e da obtusidade (o automóvel). Os figurinos de Marcelo Olinto passeiam pelo mundo dos insetos. E a junção destes elementos cênicos já insinua a força expressiva da montagem – o foco é falar da crise da sociedade do nosso tempo, usar os insetos para desviar a lupa para a potência destrutiva humana.

 

A montagem comemora os trinta anos da cia, com a presença em cena de quatro atores-fundadores do conjunto – Cesar Augusto, Marcelo Olinto, Marcelo Valle e Susana Ribeiro. Chegar a tantos anos de trabalho, no teatro brasileiro, é um feito memorável – quase um protesto cronológico anteposto a todos os obstáculos contrários à força do teatro.

 

A força do teatro, afinal, é uma qualidade importante para a sobrevivência da arte na sociedade. Ela transita em outras montagens de vida longa, reestreias desta semana, indícios da resistência da arte. Na Caixa Cultural (Teatro de Arena), até 1 de abril será possível ver Silêncio, de Renata Mizrahi, excelente trabalho de atriz de Suzana Faini. Ao lado de Priscila Vidca, Verônica Reis, Jitman Vibranovski, Alexandre Mofatti e Gabriela Estevão, a protagonista expõe uma situação de família muito eloquente para a atualidade, pois a cena é atravessada pelo preconceito mais rude, o enfrentamento de um tabu bem pouco debatido ainda hoje.

 

A jovem guerreira Clara Santhana cumprirá, no Teatro Clara Nunes, mais uma temporada do musical de bolso biográfico dedicado a Clara Nunes, uma montagem de sucesso popular. Com texto de Marcia Zanelatto e direção de Isaac Bernat, Deixa Clarear – Musical sobre Clara Nunes ativa a linha dos musicais singelos que têm feito a rotina da cena carioca.

 

Já no Teatro Net Rio, a oportunidade imperdível é o vigor da luta de Martin Luther King, que tanto tem para ensinar a este Brasil racista, autoritário e preconceituoso. O Topo da Montanha, de Katori Hall, permite que os excepcionais atores Lázaro Ramos e Taís Araújo nos emocionem até o último feixe de nervos com ideias, situações e sentimentos de humanidade plena.

 

Portanto, a conversa da semana é papo direto – debater o cânone é fundamental para as lides acadêmicas. Para a rotina da sociedade e do teatro, o valor maior é situar as necessidades da hora e as respostas cênicas sonantes. Quer dizer – diante dos problemas, dos desafios, vale buscar saber o que o palco tem a dizer, como ele diz e para quem ele diz.

 

Os valores e requintes mais sofisticados disto tudo, conheceremos no futuro, nos livros. Ou, se continuarmos apenas em combustão e explosão, sem construir uma ordem nova, quem sabe as traças – com certeza traças canônicas, aperfeiçoadas pela fervura geral – venham um dia a saber o valor mais elevado do que anda agora rolando nas cenas, antes de o país ir pelos ares.

 
Foto: Elisa Mendes
Espetáculo: “Insetos”
Temporada: De 22 de março a 6 de maio, de quarta a domingo.
Horários: de quarta a sexta, às 19h. Sábado, às 17h e 19h. Domingo, às 19h.
Local: CCBB Rio (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro)
Salas C/D – Segundo andar.
Informações: (21) 3808-2020.
Capacidade: 116 lugares. Recomendação etária: 14 anos.
Duração: 80 minutos.
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
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