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Sob a eterna benção do teatro

“Crise? Como assim? De teatro, de tudo? Ora, existe saída – não se angustie. A crise tem solução fácil, basta querer. A mais visível não é imediata, é de longo prazo. Mas, afinal, vale a solução. É bela. Importa identificar o caminho e juntar esforços, pois almas nobres estão reunidas batalhando a favor da mudança. Uma palavra resume o tema: educação.

 

Pois é, um grande eixo de força está em ação para acabar com a crise teatral. Quiçá mexer com a crise geral do país. O eixo tem enorme visibilidade aqui no Rio de Janeiro, ainda que pouco se fale nele. Mas começa a ter força por todo o país. Por todo o território existem histórias de sucesso, exemplos para seguir. Copiar, neste caso, soma a favor da mudança radical da estagnação e da decadência. Vamos ao exemplo aqui de casa: gente, ele é abismal, aterrador, tal a sua grandeza humana.É um caso de enorme desmedido, tipo o amor de Pedro e Inês. Lembra disto?

 

Ok, sejamos objetivos. Trata-se do ensino de teatro – ou de artes cênicas – na Rede Escolar. O Rio de Janeiro é revolucionário por ter implantado a atividade à frente de todo o país. A conquista carioca surgiu como parte (embora tardia) de um processo mundial de reconhecimento da importância do teatro para a formação cidadã. Por isto, assim, forçados pelo mundo e não apenas por influência do Rio, a prática ganhou o território brasileiro, como um rastilho de pólvora. Logo se tornará rotina importante da vida escolar. Quer dizer, esta condição já está em vigor aqui na cidade maravilhosa.

 

Falo da escola pública: a Rede Municipal do Rio de Janeiro possui uma estrutura escolar de perfil avançado, mais do que moderno. Nas escolas, existem aulas de teatro. Mas há um pouco mais. Em diferentes regiões escolares da cidade, existe um Núcleo de Arte, nove no total. Nele, após os estudos regulares diários em sua escola, no contra-turno, a criança pode ter aulas de artes à sua escolha – música, dança, artes plásticas, vídeo e animação e, claro, teatro.

 

Visitei sábado o sensacional Núcleo de Arte Prof. Albert Einstein, na Barra da Tijuca. E precisei disfarçar e recorrer àquela mulher férrea que às vezes mora dentro de mim para não chorar. Uma torrente cristalina de emoção varreu a minha alma. Disfarcei, fiz cara de contente e trouxe a emoção para estas palavras. Amigos, procurem conhecer o Núcleo de Arte do seu bairro ou aquele que está pertinho ou visitem o Albert Einstein. E contribuam com esta ideia.

 

Detalhe – contribuir aqui significa falar, disseminar o trabalho, comentar, divulgar. Espalhar a notícia na sociedade funciona como uma imensa dádiva. Várias empresas e instituições podem se engajar na proposta. Cada Núcleo de Arte apresenta um rol enorme de necessidades, muitas fáceis de sanar, para o grande capital ou a grande estrutura institucional. E o impacto não bate só nos contemplados.

 

Já no caminho aprendi que iria para uma escola diferenciada ao extremo. Ela fica no Novo Leblon, um lugar que pouco conheço, na Barra da Tijuca, um bairro em que sempre exercito a estranha arte de me perder – e não no sentido antigo, da minha adolescência, em que o areal deserto da Barra da Tijuca era, segundo as mães, um antro de perdição. Eu me perco mesmo, fácil, para desespero do GPS.

 

Pois bem, perdida, passei na porta de um clube de bombeiros – não posso explicar, não sei o que é isto, fiquei no espanto! – e pedi ajuda ao porteiro, um senhor já idoso, negro, bonachão, dono de um sorriso capaz de iluminar o universo. Pois quando ele ouviu o nome da escola, conseguiu ampliar ainda mais o imenso sorriso para exclamar: ah, a minha escola! Tem festa lá hoje? Dê um abraço apertado por mim no diretor…

 

A Escola Albert Einstein e o seu Núcleo de Arte são exatamente isto, lugares de humanidade absoluta, plena, uma atmosfera devotada à criação contagiante. O astral impressiona por sua positividade, são pessoas decididas, aquele tipo que acredita que vivemos num baile e que importa mesmo tirar a vida para dançar. E, no caso de faltar música, elas terão a música nos pés, no corpo, na alma. São pessoas alegres, iluminadas pelo próprio trabalho, gente que vive em sintonia com o seu ideal, fazendo tudo por ele. Quando mostram a escola ou o núcleo de arte ou descrevem o seu ofício ou relatam a trabalheira insana que enfrentam para manter tudo em forma, o olhar dessa gente brilha com fulgor. São estrelas guerreiras do trabalho. Nenhum obstáculo, diante delas, aparece como tal – se ele está ali, deve ser vencido.

 

E que gente é esta? Professores, claro. Professores de arte, professores de teatro. Os que me receberam foram os professores de teatro. Dentre eles, o perfil mais comum consiste naquele ator que, diante da profissão, percebeu a instabilidade radical da carreira e, para sobreviver, decidiu dar aulas. Mas, alto lá! – não se trata de gente mesquinha, frustrada, que fracassou na cena e foi dar aulas, nada disto. Alguns até têm carreira paralela no palco e na TV, outros decidiram se entregar de corpo e alma à magia que é formar gente com arte, mudar diretamente o mundo. São apaixonados. E apaixonantes. Na verdade, todos foram mordidos pela mosca-magister, um bicho contagioso, resistente a vacinas e sem remédio, capaz de virar a cabeça de todas as suas vítimas, para sempre entregues ao ofício de ensinar.

 

Estes atores-mestres logo perceberam, diante dos alunos e das escolas, que era necessário outra visão do ensino da arte, devotada ao trabalho com a expressão do ser humano, algo que não formará necessariamente um artista, mas dará plena potência, imensa dignidade à cada pessoa. Assim, se jogaram na batalha, inventando métodos, enfrentando imensas carências. A adesão ao fazer tornou o saber de cada professor algo muito vivo. A todo momento, as teorias se despem da distância e mergulham no cotidiano. Neste ritmo, o Núcleo de Arte se impõe como realidade viva, palpitante, uma usina de libertação da expressão humana.

 

A dinâmica seguida nestes espaços de arte obedece a uma estrutura muito ágil. Os alunos da Rede buscam o núcleo capaz de oferecer as habilitações em arte de sua preferência. A entrada e a saída são livres. Para os que chegam, existe o Módulo Básico, de alfabetização na arte escolhida. Para os que possuem alguma formação ou passaram pelo Básico, há o Módulo de Continuidade. E, afinal, há o Módulo de Montagem, uma oficina multidisciplinar em que diferentes professores se integram para que os processos criativos resultem num produto de arte.

 

A minha visita foi direcionada para ver o trabalho de montagem deste ano do Núcleo de Arte Prof Albert Einstein, o espetáculo O Amor de Pedro e Inês, texto de Rodrigo Rangel focado na história de D. Pedro e de Inês de Castro. No Albert Einstein, o professor Rodrigo Rangel conseguiu construir – ou adaptar – um gracioso teatro. O espaço singelo, equipado com refletores feitos de latas de tinta e muito material reaproveitado, logo se revela um lugar poético dominado pelos estudantes. Eles, ali, estão em casa. E felizes.

 

Seria bastante extenso descrever as qualidades impressionantes da montagem. Para aproximar os jovens estudantes de um tema árduo, com frequência tratado sob um português culto e até empolado, Rodrigo Rangel levou a trama para a realidade de tiroteio carioca. Em cena, um grupo de teatro escolar, de uma favela deflagrada, tenta ensaiar a história portuguesa, enquanto as balas chovem ao redor.

 

O aluno ator professor ensaiador volta e meia sai de cena, às voltas com o cotidiano fervilhante das escolas em áreas tensas, um meio para nos falar da realidade crua imediata. Enquanto isto, os alunos-elenco seguem ensaiando. E aí a ciranda da imaginação dá a melhor resposta aos tiros e aos seres truculentos. A peça acontece como construção humana pura, na mais impressionante garra de fazer.

 

Inventividade corporal, espacial, visual, musical, trabalho com vídeo, dança… A cena roda diante da plateia como um caleidoscópio de belas ideias, ideias aptas a inventar tudo – a pobreza de meios desagua numa imensa fortuna de imaginário. Caixotes compõem amuradas, torre, castelo. Pincel, brocha, vassoura viram bonecos-marionetes… Plástico preto surge como manto real. Capsulas de balas compõem a mão de um esqueleto precioso…

 

No caso do professor Rodrigo Rangel, não foi o primeiro texto nesta linha de trabalho. Em atividade no Município desde 1995, ele concebeu uma proposta genial para aproximar a fortuna cultural do ocidente de alunos da Rede que, com frequência, vivem distantes do universo mais denso do saber. O espírito empreendedor o levou a adaptar Cyrano de Bergerac, de Rostand, Medéia, de Eurípedes, Lisístrata, de Aristófanes, Sonho de uma Noite de Verão e Romeu e Julieta, de Shakespeare, A Aposta, de Tchekov.

 

Por conta da projeção conquistada, ele passou de uma escola da Rede para o Núcleo em 1999 e, no Núcleo, ganhou salas abandonadas para fazer o teatro. Mas não é só, o reconhecimento foi ainda mais longe – este ano, ele recebeu a Medalha Carioca de Educação, honraria concedida pela Prefeitura para as contribuições mais relevantes para a educação na cidade. A seleção é rigorosa, feita por uma comissão de especialistas. Foi a primeira vez que a láurea foi concedida a um professor de teatro.

 

E a hipótese de estarmos diante de uma crise sem precedentes no país fica esfumada diante da nobreza deste tipo de iniciativa. Quando o professor Rodrigo Rangel fala a respeito do seu trabalho, ele fala de arte em dois planos diferençados – o trabalho de ator, no qual sempre se destacou desde os bancos da Escola de Teatro da UNIRIO, e o trabalho do professor.

 

Ele comenta que cada arte traz a sua gratificação. Cada arte tem a sua engenhosidade. A solidão do ator no seu processo criativo implica na certeza de mover a sensibilidade do mundo em algum grau, ainda que ínfimo, exclusivamente a partir de si. A comunidade do processo de ensino da arte a escolares desencadeia a certeza não apenas de criar plateias e difundir a arte, mas de aflorar gente num sentido sensível novo ou renovado, como se o que é humano devesse tomar as rédeas do mundo. Diante deste oceano criativo de tamanha beleza, vamos dizer o quê? Obrigada, professor. E parabéns, por sua infinita grandeza de espírito.

 

NUCLEOS DE ARTE DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

 
Relação dos Núcleos de Arte

E/CRE Núcleo de Arte Endereço/Telefone(s)
1ª CRE NA Avenida dos Desfiles
nucleartdesf@rio.rj..gov.br
Rua Salvador de Sá, s/nº –Cidade Nova– Sambódromo –Setor 9
Tel. 2502- 5199

2ª CRE NA. Leblon
nucleartpfisterer@rio.rj.gov.br
Praça Nossa Auxiliadora, s/nº – Leblon Tel.. 2512-8666
NA Copacabana
ucleartguima@rio.rj.gov.br
Rua Toneleiros, 21 – Copacabana
Tel: 2236-0154

3ª CRE NA Nise da Silveira
Creo3artes@rio.rj.gov.br
Rua Ramiro Magalhães, 521 – Engenho de Dentro
Tel. 3276-7787 / 3111-7085

4ª CRE NA Grécia
nuclearte@rio.rj.gov.br
Avenida Brás de Pina, 1614 — Penha
Tel.: 3391-4682

5ª CRE NA Professor Souza da Silveira
nucleartsilveira@rio.rj.gov.br
Rua Amália, s/nº – Piedade
Tel.e Fax: 2597-2937

6ª CRE NA Grande Otelo
nuclearteotelo@rio.rj.gov.br
Rua Arnaldo Guinle s/n°- Coelho Neto Tel:

7ª CRE NA Silveira Sampaio
nucleartsilveira@rio.rj.gov.br
Rua José Perrota, 31 – Curicica – Jacarepaguá
Tel. e Fax: 2441-2550
NA. Albert Einstein
nuclearteae@rio.rj.gov.br
Rua Guimarães Rosa, 156 – Novo Leblon – Barra da Tijuca
Tel. e Fax: 2438-5144

9ª CRE NA Prof. João Fernandes Filho
ucleartdickens@rio.rj.gov.br
Rua Primeira Cruz, s/nº – Campo Grande
Tel. e Fax: 2415-2373

NÚMERO DE ALUNOS:
E/CRE Unidade de Extensão – Núcleo de Arte Nº Alunos
1ª Av. dos Desfiles 453
2ª Copacabana 608
Leblon 951
3ª Nise Da Silveira 347
4ª Grécia 773
5ª Prof. Souza da Silveira 467
6ª Grande Otelo *
7ª Silveira Sampaio 757
Albert Einstein 519
9ª Prof. Joaõ Fernandes Filho 511
Total 5.386
OBS: N A grande Otelo, criado em 2008, sito à Rua Arnaldo Guinle, s/nº – Coelho Neto (E/6ªCRE), em processo de implantação.
(Informações copiadas do site da SME/RJ)

 
FICHA TÉCNICA:
O Amor de Pedro e Inês
Texto, Direção e Músicas: Rodrigo Rangel
Direção de Movimentos e Vídeo: Diego Braga
Cenário e Adereços: Da Penha
Figurinos e Adereços: Carol Bianchi
Produção: Núcleo de Arte Prof. Albert Einstein – Prefeitura do Rio de Janeiro
Elenco:
Personagens/ Atores:
Professor Chico Caseira – Gabriel Magalhães
Rafael/Pedro – Renan Tavares
Léo/ Lobato – Matheus Linhares
Márcia/ Inês de Castro – Vitória Silveira
Bia- Adrielly Santos
Daniel/ aluno operador – Rayan Pretinho
Luana/ Constança – Mandy
aluna muda – Leilla Soares
Sara – Sarah Menezes