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Lição de arte

 
Um raio de luz fulgurante varre o ambiente e ilumina a expressão de todos – Aracy Cardoso desponta no espaço, cria um fluxo de energia positiva capaz de magnetizar a sala. Não me peçam para explicar o fenômeno, não sei o segredo, só sei que era exatamente assim. E que era um prazer, sempre, contar com este banho de luz incandescente, pura humanidade. Agora, ela se foi.

 

Aracy Cardoso Fróes, nascida no Rio de Janeiro em 17 de junho de 1937, faleceu esta manhã no Rio de Janeiro, cercada pelo carinho da família. Reservada em relação à vida pessoal, a atriz deixa duas filhas, dois netos e um bisneto. Foi casada com Ibanez Filho e era viúva de Hemílcio Fróes.

 

Filha de uma cantora de ópera, desde cedo desejou seguir a carreira de atriz. Estudou piano, dança e canto. Estudou História da Arte e se manteve estudiosa durante toda a vida, pois defendia a ideia de que o ator precisava ter densidade intelectual.

 

A carreira foi iniciada nos anos 1950, no teatro, base da sua formação. Em 1953, participou da montagem de O Judas em Sábado de Aleluia, de Martins Pena, direção de Sergio Britto, ao lado de Eva Wilma, John Herbert, José Renato. Em 1954, sob direção de Ruggero Jacobbi, integrou a ficha técnica de A Filha de Iório, de D’Annunzio. Em rápida trajetória no TBC, participou em 1955 da montagem de O Profundo Mar Azul, de Terence Rattingan, direção de Adolfo Celi, no elenco titulado por Tonia Carrero e Paulo Autran.

 

Outra montagem de destaque da sua carreira foi a encenação de Tartufo, de Molière, de Abujamra, à frente do Grupo Decisão, no Teatro Miguel Lemos. Participaram da peça Jardel Filho e Glauce Rocha. Como diretora, assinou Histórias do Medo, em 2012, no Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim, trabalho de sofisticado artesanato de Priscila Camargo.

 

A carreira na televisão também foi iniciada nos anos 1950 e começou sob o ritmo do pioneirismo, antes do videoteipe, com as novelas transmitidas ao vivo exigindo dinâmica pessoal, extrema presença artística e capacidade de criação imediata. Na TV Tupi do Rio, protagonizou novelas que ainda não eram diárias e, com A Canção de Bernadete, de 1957, viveu o primeiro grande fenômeno de audiência das telenovelas nacionais.

 

Ainda na TV Tupi, esteve ao vivo em programações de forte impacto – o seriado O Falcão Negro, as novelas não diárias O Morro dos Ventos Uivantes e Só Resta o Silêncio, o teleteatro concebido por Jacy Campos Câmera Um, nos anos de 1957 e 1958.

 

Em 1965, na TV Excelsior de São Paulo, começou uma bem sucedida carreira de papéis de mocinha em várias novelas. O grande destaque foi A Indomável, de Irani Ribeiro, adaptação de A Megera Domada, de Shakespeare. A forte consagração nacional foi conquistada ainda nos anos 1960, na TV Globo, com Anastácia, a Mulher Sem destino (1967), Fogo Sobre Terra (1974), Vejo a Lua no Céu (1976), Água Viva (1980), A Gata Comeu (1985).

 

Profissional decidida, batalhadora, apaixonada artesã da arte, Aracy Cardoso deixou uma longa lista de trabalhos em diferentes canais de televisão – o seu último papel foi uma participação em Sol Nascente, este ano, na TV Globo. Também atuou no cinema, ainda que a sua filmografia não tenha o impacto alcançado por seu trabalho na televisão.

 

Divertida, elegante, gentil e graciosa, Aracy Cardoso era uma das grandes deusas delicadas da classe teatral carioca, uma presença adorável nas estreias e nos encontros sociais da categoria. Talvez o seu imenso brilho pessoal, a luz que irradiava ao redor quando chegava em qualquer lugar, nascesse do seu espírito inebriante, engajado na luta pela melhor expressão humana, sempre em sintonia profunda com a arte. Ela se foi. E, hoje, a festa será no céu.