Captura de Tela 2018-12-03 às 20.50.47 High-res version

O Teatro do corpo

“Teatro não é literatura: a afirmação já rendeu bastante polêmica. Ainda rende. Mas ela aparece aqui sob uma outra veste – o que se quer dizer com ela é muito simples. No teatro, à diferença da literatura, a palavra é destituída de seus poderes próprios, ela vira corpo. Isto mesmo – ela corporifica. Palavra no palco é ação, portanto corpos em movimento.

 

No entanto, a coisa não é tão simples assim: dois caminhos complementares estão insinuados no parágrafo de cima. Um caminho é o da palavra, não está sob o foco agora. Vale observar apenas que a tal palavra é sirigaita, quer dizer, é uma palavra cheia de carne, não é uma palavra seca, perdida em si, como sonha a vã literatura.

 

O outro caminho, totalmente rebolativo, é o do corpo. Sim, o corpo: esta nossa parte perecível, que vai sumir um dia, para que as nossas palavras, eternas de alguma forma, tenham a razão, a fala final. Por ser perecível, o corpo só cabe em si, nada o preserva, muito embora as emoções elaboradas por ele possam chegar às palavras… Mas este seria o terceiro caminho, ali onde palavra e corpo caminham, não interessa agora.

 

Interessa apenas e exclusivamente o corpo, esta parte baixa oposta ao espírito. Ele tem uma história vasta na História do Teatro mas, choremos, ainda não se escreveu o precioso volume História do Corpo no Teatro. Valeria a pena, não tenho dúvida.

 

Para começo de conversa, o corpo não existe, existem os corpos. O corpo grego não é o corpo medieval, não é o corpo renascentista, não é o nosso corpo. Quando se aprende a olhar o corpo, é uma diversão analisar fotos antigas e perceber a linha do corpo de cada tempo. E em cada tempo, múltiplos corpos se comprimem – por idade, classe social, gênero… Há uma cadeia infinita de corpos ao nosso redor.

 

O curioso é que todos os corpos nascem livres. Nas crianças, apesar da ação rápida das exigências sociais, ainda se consegue ver vestígios da liberdade, gradualmente suprimida pelo jogo social. Para os artistas, na sua formação, é preciso treinar o corpo – contê-lo nos padrões estéticos da época, condicioná-lo ao espírito do tempo.

 

De toda forma, parece inegável o predomínio, na maior parte da história do corpo teatral, no ocidente, de uma submissão do corpo à palavra. A partir do texto, da ideia do autor, o ator desenha uma realidade física e esta realidade física obedecerá ao fluxo textual.

 

Direções como as de Debora Colker, em Dancing Days, ou de Duda Maia, em Elza, alcançam uma projeção enorme a partir deste debate. Pois não é que o corpo, nestes casos, insinua um estado de rebeldia, emancipação, voz própria? E é este o ponto principal aqui: em que grau se pode afirmar a existência de um processo novo, do nosso tempo, em que uma potência física desponta e aponta para uma outra construção do ator no palco?

 

A reflexão importa no drama, no teatrão (se é que ainda temos teatrão, nesta terra sem deus, na qual nem Dioniso emplaca…), na vanguarda e, em especial, no musical. Ao que tudo indica, a intensidade do corpo, plástico e comunicativo, se tornou ferramenta básica para a comunicabilidade da cena. Importa ter o corpo adestrado – e são muitas as ofertas de treinamento – mas, mais do que isto, é imprescindível trabalhar a “fala” do corpo. No musical, o corpo precisa ser música, precisa cantar (isto é um pouco mais do que dançar). Veja-se as coreografias de Victor Maia, agora mesmo nas cenas vibrantes de 70? Década do Divino Maravilhoso, no NET Rio.

 

No caso brasileiro, pois cada país hoje terá as suas amarras e solturas, vale perceber e dissolver os processos de mordaça e de enrijecimento corporal existentes para conduzir a estruturação do nosso corpo social. Penso nos trabalhos históricos de Angel e Klauss Vianna, Regina Miranda, Joana Ribeiro, Ana Bevilaqua, Suely Guerra – para citar de memória e de impulso. Para situar profissionais híbridos, que volteiam entre a sala de aula, a sala de ensaio e o palco.

 

Há uma tendência contemporânea para o apagamento de fronteiras, a aproximação das artes, a erosão dos limites dos fatos culturais. Em São Paulo, de 6 a 16 de dezembro, acontecerá um festival, o Risco Festival, em primeira edição, com atividades gratuitas e apoio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos. Segundo as organizadoras, estarão em pauta diversas expressões artísticas, “dança, performance, música, artes visuais e foto, que se fundem e complementam para provocar uma reflexão sobre a criação artística produzida por todxs e para todxs…”

 

Ou seja, há um palco em movimento, ainda que o release do festival não fale no teatro. Mas o teatro em estado pleno precisa ser chamado à arena. Penso em tudo o que se pode fazer nas salas de aulas, para a formação do cidadão, a partir do trabalho com teatro na escola, tema de infinita grandeza e imenso poder estratégico. Na rusticidade das escolas públicas de hoje, o trabalho com o corpo pode ser revolucionário, para famílias em que a opressão é o cotidiano. O cala-boca tem uma extensão inacreditável.

 

Esta semana um evento universitário, aqui no Rio, dimensiona bem a extensão do debate. Organizado por professores da UNIRIO e da UFRJ, aborda o trabalho de corpo para autistas, com a oferta de oficinas para autistas, psicóticos e acompanhantes e familiares. A iniciativa impactante revela como o corpo cresceu, transbordou da cena e começou a ser uma fala social. Portanto, vale associar os dois continentes, corpo e cidadania. Mas não apenas por causa de uma nova essência do teatro ou da expansão do corpo na sociedade contemporânea.

 

Na verdade, o teatro é necessidade urgente na sociedade brasileira porque estamos no meio de uma crise histórica sem precedentes, uma ruína dos sonhos de gerações. E de séculos. Basta ler alguns documentos a respeito da história da Inconfidência Mineira (1789) para avaliar como e quanto temos sonhado com estas terras daqui em estado de cidadania livre, ainda que tardia. O problema é que esta tarde não chega. Assim, quem é massacrado pelo edifício social arruinado é o cidadão, o homem comum, aquele que mal começou a ensaiar a sua fala para entrar em cena neste salão de barões e viscondes chamado Brasil.

 

Para o homem comum que precisa ir ao teatro e dimensionar com sensibilidade a sua existência, a maestria da palavra deve ser incitada. Corporificada, incorporada, encorpada. Portanto, uma palavra nova, plena, redonda de si, carregada de sentimentos e impregnada por um corpo que sente e vive Brasil, este gigante calado há mais de meio milênio. Palavra e corpo não são palavras ocas, oratórias, vazias. Não são apenas recursos teatrais. São sinais vitais de uma sociedade que está aí e precisa mostrar as garras para ser reconhecida. Que as suas garras sejam palavras e palavras bem fincadas na beleza do corpo é a nossa última esperança. Pois o resto, é o caos.

 

SERVIÇOS

FOTO: Angel e Klauss Vianna.

RISCO Festival, SP – de 6 a 16 de dezembro
Locais e endereços:
Aparelha Luzia (Rua Apa, 78)
Biblioteca Mário de Andrade (Rua da Consolação, 94)
CCJ – Centro Cultural da Juventude (Av. Dep. Emílio Carlos, 3641)
Centro De Referência De Promoção da Igualdade Racial (Av. dos Metalúrgicos, 155 (Cidade Tiradentes)
CRD – Centro de Referência da Dança – Galeria Formosa (Baixos do Viaduto do Chá, s/n)
Espaço Público – Av. Paulista, altura do número 3000
Espaço Público – Vale do Anhangabaú
Itaú Cultural (Av. Paulista, 149)
Instituto Tomie Ohtake (Rua Coropé, 88)
MIS – Museu da Imagem e do Som (Av. Europa, 158)
SP Escola de Teatro (Praça Roosevelt, 210 – Centro)
Teatro de Contêiner (Rua dos Gusmões, 43)
Teatro Décio de Almeida Prado (Rua Cojuba, 45)
Vila Itororó (Rua Pedroso, 238)
Informações para Imprensa
Canal Aberto Assessoria de Imprensa

III Encontro Circulando: caminhos com o autismo”.
Dias 6 e 7 de dezembro . (UNIRIO e UFRJ)
Coordenação geral: Professores Adriana Bonfatti e Joana Tavares (UNIRIO) e Ana Beatriz Freire e Fábio Malcher (UFRJ)

“Projeto Circulando: Ateliê de teatro para jovens com transtornos mentais” – projeto cadastrado na PROExC, implantado em março de 2013 na Escola de Teatro do Centro de Letras e Artes da UNIRIO, através do oferecimento de ateliês de teatro para jovens que sofrem de transtornos mentais (autistas e psicóticos).

Em 2014 o projeto passou a oferecer ateliês para acompanhantes e familiares.
Desenvolvido em âmbito interinstitucional, o projeto estabelece parceria com o projeto “Circulando entre invenção: um novo dispositivo clínico para jovens autistas e psicóticos”, coordenado pela profa. Dra. Ana Beatriz Freire, do Instituto de Psicologia da UFRJ.