Às vezes, há um prazer enorme em ser enganado: a tapeação soa como um convite para retornar à infância e ser feliz, graças a algumas palavras e a um convite ao sonho. Esta leveza é a matéria-prima de “Por Pouco”, de Samuel Benchetrit, autor francês de atuação maior no cinema pouco divulgado aqui, cartaz do Teatro Poeira. Mas é uma leveza enganadora, um tanto rascante, pois a evasão feliz proposta significa optar por um estado de alegria diante da condenação iminente à morte e, no caso, uma morte dolorosa. Este tom curioso do texto, escapista lírico, foi reproduzido em todo o desenho do espetáculo, uma proposta de teatro comercial agradável, bem resolvido e bom de ver. Trata-se de diversão de padrão elevado, adequada ao espectador interessado em uma noite divertida, porém elegante, afinada com uma mente que se preocupa com os valores mais respeitáveis do ato de existir.

A trama é um ato de ficção completo, deliberado e descabelado, um legítimo caso de inverossímil crível. Revela dois senhores bastante vividos condenados a morrer em poucos dias, daqueles que a senhora do além já começou a visitar com suaves carícias; subitamente, eles decidem que não vão partir sem aprontar algumas travessuras. E fogem do hospital de pijamas, partem para a aventura; logo na estrada na noite escura fracassam para conseguir uma carona, mas encontram uma grávida às voltas com a hora decisiva, abandonada pelo pai do bebê.

O fato, de óbvio eco simbólico, serve como ponto de partida para uma série de andanças, todas surpreendentes para um par de heróis de pijamas e com um tripé de soro, mas sempre oportunas para a revelação de suas personalidades, histórias de vida, dramas pessoais. Ainda que o sumário sugira uma tessitura bizarra, o autor tem um bom domínio da escritura dramática; ao final, soa agradável perceber a materialização de uma fábula, uma espécie de conto fantasioso, evocativo dos cálculos de La Fontaine, próprios para indicar às crianças uma lição de vida.

Não se trata de um simples efeito do texto, no entanto – a bela direção de Ary Coslov tem imensa responsabilidade para a criação de uma atmosfera de levitação existencial. A partir de uma cenografia minimalista singela (Marcos Flaksman), sob uma luz eficiente para desenhar intenções e movimentações (Pedro Pederneiras), com um figurino adequado às situações (Kika Lopes), o diretor criou cenas despojadas, diretas, concentradas no desempenho dos atores.

Ilvio Amaral e Maurício Canguçu defendem o texto com empolgação extrema; atuam como uma dupla de comediantes tradicionais, de vaga inspiração circense. Ilvio defende a linha mais séria (o clown branco), Mauricio se inclina para o trapalhão (o tradicional palhaço Augusto). Wolney Oliveira tem desenvoltura nos diversos papéis masculinos complementares, Flávia Fernandes hesita um tanto, mas resulta correta na defesa da galeria feminina.

De resto, vale ver – para nós que somos enganados tantas vezes na vida em assuntos sérios, decisivos, vitais para a existência do País, da nossa sociedade e de nossa reles existência cotidiana, é um bálsamo para a alma poder sucumbir às trapaças bem arquitetadas de um teatro bem feito. Um teatro que pretende nos enganar por um motivo nobre: a percepção da extrema beleza da vida, afinal uma obra de arte de encantamento, um fato que conhecíamos bem na nossa infância, mas que outros logros, sombrios, fizeram com que esquecêssemos.