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Brincadeira teatral transcendental

 
Viver e não saber para quê. Mas sabemos muito bem que a vida é coisa maluca, um vai-e-vem insano, jogo de joão-bobo alheio de si – parvos, todos, vivemos perdidos às tontas, perseguindo o nada, sem saber o que fazer para conquistar o que realmente queremos. A solução – pois somos seres racionais, apesar de tudo – é só uma: rir da nossa tolice, exemplo perfeito de miséria requintada.

 

Uma brincadeira teatral irresistível explora os meandros desta constatação. Em boa hora inicia as comemorações dos 25 de anos de existência da Cia Limite 151. Vaidades e tolices é um nome preciso para definir o espetáculo, cartaz do adorável Teatro Eva Herz até 6 de agosto. Para os amantes de teatro, vale correr para ver.

 

Trata-se de uma montagem de extrema importância na cena carioca atual por vários motivos. O primeiro, é a relevância histórica do fato em si, pois a produção registra a longevidade de um núcleo de trabalho sério, comprometido com a arte do palco no mais alto grau, a Cia Limite 151.

 

O segundo, uma decorrência lógica: o perfil dos textos escolhidos para a montagem. A proposta é um estudo de Tchekhov (1860-1904), do primeiro Tchekhov, das comédias em um ato, tema fundamental dos estudos iniciais de teatro, adensado aqui graças ao olhar maduro da companhia. Não é sempre que o teatro carioca de hoje se dispõe a assumir esta mistura de generosidade e elegância e nos oferece uma programação tão requintada.

 

Mas há mais – como núcleo pequeno de artistas, o grupo se permite incorporar a colaboração de personalidades experientes de diferentes origens, na atuação, direção, cenografia, concepção de arte em geral. A atitude garante uma interlocução forte com o meio de arte contemporâneo. Neste caso, houve a inclusão de atores, jovens e profissionais, de excelente perfil artístico, sob a direção de Sidnei Cruz, diretor convidado, pela quarta vez em atividade junto ao coletivo. E na cenografia se manteve a colaboração de Colmar Dinis.

 

O resultado alcançado fez com que a comemoração pudesse surgir como uma festa teatral. A partir de um estudo bastante cuidadoso do autor, o diretor propôs uma visão renovada, aguda, ousada mesmo, dos textos O Urso (1888) e O Pedido de Casamento (1889). A chave de leitura é a visão de que, para Tchekhov, a palavra gera o pensamento e, logo, as ações, as cenas. A definição foi construída a partir de um argumento de autoridade importante, uma afirmação de Maiakovski, que definiu Tchekhov como um potente artista verbal.

 

Para realizar em cena esta concepção do autor, Sidnei Cruz mesclou os dois textos ardilosamente, um grande desafio para os atores. E marcou a cena como um minucioso xadrez, em que a petulância, a cegueira diante do outro, a falsidade, o descontrole, a fúria, a obsessão, a superficialidade impregnam cada personagem numa espiral de sentimentos vertiginosa. A mecanização tola da vida a partir de formas rígidas de pensar transforma o palco numa selva humana, uma arena de permanente desentendimento. O fluxo da cena é um retrato acabado da estupidez coletiva cotidiana. É impagável, claro.

 

Além de hábil diretor de cena, Sidnei Cruz se impõe no espetáculo como sensível diretor de atores. O resultado é uma trama engenhosa de ação a serviço de uma visão ácida da humanidade, mas sempre muito divertida. A concepção reverbera no cenário e nos figurinos de Colmar Diniz. A cenografia despojada, povoada por cadeiras, favorece a movimentação febril sobre um fundo vermelho como os calores da vida. Os figurinos, delicadas sugestões de época, sublinham os lugares sociais e os traços de personalidade – inclusive as noções sociais de alto e baixo, produtivas para o desenho geral da cena. E sublinham também a ideia de romper, desfazer, rasgar.

 

Em tais condições, existe um trabalho de ator digno de nota, pois ninguém está em cena sob outro ritmo que não seja a devoção à arte do teatro. Edmundo Lippi, integrante da companhia, se encarregou dos dois papéis de idoso, Luká e Sptepan Tchubúkov, resolvidos com engenhosidade atoral a partir de requintada composição física. São personagens cuja função dramatúrgica é apoiar a ação central, acionar os desempenhos protagonistas. Além do apoio oportuno, a sua construção, calcada no desenho físico, sublinha a ideia de mecanicidade impressa à cena pela direção.

 

Marcelo Escorel, responsável por Grigóri Smirnov, o Urso, encanta a plateia desde o primeiro instante ao conciliar a intensa movimentação física com um sutil jogo de intenções e de expressões, uma intensidade interior muito bem traduzida em gestos eloquentes, mas desvairados. A contracena com Flávia Fafiães, atriz dedicada a uma eficiente materialização da dissimulada viúva Eliena Popova, permite uma espiral acelerada de meneios e trejeitos, curiosas amostras dos jogos de representação social. O casal representa, nas convenções tradicionais do teatro, os papéis centrais, a galanteria amadurecida – ainda que sejam protagonistas.

 

Completam o elenco dois jovens atores brilhantes, responsáveis pelos papéis tradicionais de enamorados jovens. É um prazer absoluto acompanhar a desenvoltura do casal em cena – e se a montagem não fosse ela toda irresistível, a intensidade destes trabalhos juvenis valeria a noite.

 

Isabella Dionísio, talvez em honra ao nome, apresenta-se em cena como se estivesse em casa, com extrema desenvoltura, domínio da cena, humor e elegância. A sua Natália Stepanovna, estúpida em sua precipitação, obstinada na cegueira, parece uma boneca humana de mecanismo enlouquecido, mas tem malícia, brejeirice e muito encanto.

 

Rafael Canedo, no Ivan Lomov, representa o mais puro furor teatral juvenil. Todos os seus movimentos são estruturados a partir de uma legítima vontade de representação, uma entrega interior plena, mas maliciosa, estudada. Assim, toda a sua pessoa serve ao desenho da cena, com muita intensidade.

 

Em suma, o conjunto é uma bela surpresa teatral neste ano de tantos desencontros. A cena revela um espetáculo acabado, bem resolvido, uma partitura teatral cujos contornos são sublinhados por uma luz, de Rogério Wiltgen, sensível ao andamento da ação cênica, regida por uma direção musical, de Wagner Campos, afinada com a proposta. Só resta à plateia a chance de se divertir muito, premiada com um grau elevado de entretenimento cultural.

 

Afinal, quando o nosso mundo ocidental urbano febril surgia, no fim do século XIX, Anton Tchekhov teve a genialidade de registrar, nestas duas pérolas teatrais em que ele próprio brinca com as convenções do teatro, a vaidade e a bobeira destes homens nascentes, ansiosos para reger os destinos do mundo. Recém libertos – ou quase – de antigos poderes aniquiladores, como o poder absoluto e o poder religioso, eles ensaiavam desfilar pela vida a sua arrogância, alheios ao fato de que viver é uma mecânica que nos governa, fruto de um motor desconhecido. Talvez saibamos um pouco mais hoje. Ou nem isso: continuamos perdidos. E, assim, podemos rir deliciosamente desta irmandade involuntária, que nos sustenta no ar bem próximos destes personagens. Como nós, eles não sabem nada da vida, rolam pelos dias entregues à ignorância do sentido de si e do mundo, imersos em vaidades e tolices.


Ficha Técnica
 
Texto: Anton Tchekhov
Direção geral: Sidnei Cruz
Elenco: “O Urso” – Marcelo Escorel – Grigóri Smirnov ; Flávia Fafiães – Eliena Popova; Edmundo Lippi – Luká
“O pedido de Casamento” – Rafael Canedo – Ivan Lomov; Isabella Dionísio – Natália Stepanovna; Edmundo Lippi – Sptepan Tchubúko
Cenários e figurinos: Colmar Diniz
Músicas e direção musical: Wagner Campos
Iluminação: Rogério Wiltgen
Programação visual: João Guedes
Fotos: Guga Melgar
Produção comercial: Helio Zacchi e Agnes Xavier
Produção executiva: Valéria Meirelles
Divulgação: Ana Gaio
Direção de produção: Edmundo Lippi

Serviço
Vaidades e Tolices
Temporada de 09 de junho a 06 de agosto
Local: TEATRO EVA HERZ – R. Sen. Dantas, 45 – Centro – Rio de Janeiro/RJ
Bilheteria: Tel.: (21) 3916-2600
Horário – 3ª a Sábado às 19,30 h
Ingressos – 3ª e 4ª feira (R$ 40,00) e 5ª a Sábado – R$ 50,00
Classificação Etária – Livre
Duração – 80 minutos
Lotação: 152 lugares