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A grande revolução das mulheres

 
Você sabe muito bem que existe um poder feminino, desde sempre, sinuoso, silencioso, capaz de mudar as formas do mundo. Sim, você pode dizer que ele não é silencioso, ele é amordaçado, silenciado, impedido de gritar e de se projetar. Vou concordar com você. Em especial depois de ver Para não morrer, um cartaz relâmpago que passou fulminando as sensibilidades ali no Teatro Poeirinha.

 

Você não viu? Pois aguarde, em breve a peça estará de volta ao Rio. Preste atenção e não perca – trata-se de uma experiência de arte única, rara, privilegiada. O centro do trabalho é um inventário rasante do poder feminino, da caverna aos nossos dias, por todo o mundo, mas, em especial,
na América Latina. O convite é objetivo: a imersão sensível nas tramas deste poder.

 

Em cena, está Nena Inoue, uma atriz dotada de excepcional capacidade histriônica – vale dizer, habilidade para materializar intenções e sentimentos com absoluta intensidade. Impressiona a sua aguda manipulação dos tons expressivos, sob uma construção física hierática. A quase imobilidade física se presta à emissão mais profunda de um redemoinho de sensações. As nuanças expressivas abarcam extensa paleta, da dor ao riso, da vergonha ao orgulho. A atriz, com muita justiça, é um dos nomes consagrados do Paraná, com uma carreira consolidada.

 

A partir da concepção da atriz, em pareceria com Babaya Morais, nasceu uma cena de saída muito impactante. O cenário de Ruy Almeida, o figurino e os adereços de Carmen Jorge surpreendem desde o primeiro momento. Sobre uma espécie de altar sacrificial, sentada numa cadeira-trono revestida por imensa toalha de mesa/colcha de cama manchada de sangue, cercada por delicados vasos, jarras, vidros e copos cheios de água, vestida por uma roupa de cabelos anelados e desenhada por uma luz preciosa de Beto Bruel, Nena Inoue materializa o próprio princípio feminino ancestral.

 

Como se fosse uma mulher-totem, transformada numa máscara esculpida em sabedoria e dor, o rosto e o pouco do corpo visível deformados pelo andamento da vida, a atriz relata histórias de lutas, feminicídios, massacres, atentados, consagrações e vitórias. O roteiro de impressionante voltagem dramática foi elaborado pelo jovem autor paranaense Francisco Mallmann, a partir do livro Mulheres, de Eduardo Galeano.

 

O texto em si arrebata por ser uma teia muito bem urdida de referências históricas e documentais, embebidas com um profundo sentimento do mundo. A solução obtida faz com que a narração se torne dinâmica, pulsante. Trata-se portanto de uma forma híbrida, propícia para a performance da atriz, eficiente para a percepção dos valores mais sublimes da existência.

 

Assim, o presente e a História se encontram, Marielle Franco e a guerreira anônima da pré-história desfilam ao lado de Joana D’Arc, Sherezade, Maria Bueno, Camille Claudel, Rosa de Luxemburgo, Olga Benário, para citar alguns dos incontáveis nomes reunidos. A carga sentimental faz com que o relato, mesmo quando aborda fatos de aparência remota, seja presentificado.

 

Senhora da cena, Nena Inoue não permite em nenhum momento que o fluxo de energia entre palco e plateia caia, esmoreça. Ela se apropria da respiração do público e, mágica, leva a todos a compreensão que falta a tantos no presente – a dimensão da revolução que as mulheres, caladas pelo poder, vêm tecendo desde sempre, para permitir que a vida se imponha como afirmação profunda da ideia de humanidade.

 

Como a água, capaz de contornar ou remover docemente tantos obstáculos, a mulher tem instaurado entre nós a mais necessária das revoluções. E esta cena, contundente, traz o novo disto tudo: a necessidade de saber, de sentir este saber como presença palpável, e a necessidade de mergulhar, libertos das arcaicas tiranias, nesta velha amada história.

 

Ficha Técnica
 
Dramaturgia: Francisco Mallmann (a partir da obra Mulheres, de Eduardo Galeano)
Criação, Direção e Atuação: Nena Inoue
Parceria de Criação: Babaya Morais
Iluminação: Beto Bruel
Criação de Figurinos/Adereços/Visagismo : Carmen Jorge
Cenário: Ruy Almeida
Técnico Operador: Vinicius Sant
Designer Gráfico: Martin Castro
Foto: Raquel Rizzo
Realização: Espaço Cênico
Colaboradores RJ: – Abílio Ramos, Doroti Jablonski, Paula Rollo, Spectaculu – Escola de Arte e Tecnologia, Daniele do Rosario
Direção de produção: Nena Inoue
Produção local:Bloco Pi Produções – Damiana Guimarães e Isabel Gomide
Assistente de produção: Mariana Pantaleão
DAssessoria de Imprensa: Bruno Morais

Serviço:
Espetáculo:PARA NÃO MORRER
Temporada: 03 a 26 de agosto
Quinta, Sexta e Sábado às 21h, Domingo às 19h
Duração: 60 minutos
Classificação Etária – 14 anos
Teatro Poeirinha
Rua São João Batista, 104 – Botafogo
Tel.: (21) 2537-8053
Ingressos:
R$ 40 (inteira – 5a feira) / R$ 20 (meia-entrada – 5a feira)
R$ 60 (inteira – 6a a domingo) / R$ 30 (meia-entrada – 6a a domingo)