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A cena parece pacífica e doméstica. Um apartamento despojado, de traços modernos, envolve um cativante senhor idoso dedicado a uma sutil marcação do tempo com os pés. A abertura singela é uma armadilha: a plateia será delicadamente abduzida para um mundo surpreendente de divagação ao redor do ato de existir. Corra para ver: O Pai, de Florian Zeller, cartaz do Teatro Total Energies, Sala Adolpho Bloch, será um dos melhores espetáculos do ano teatral carioca e está no Rio em temporada breve.

O texto vale por si a noite. O autor jovem, bastante premiado e muito justamente aclamado, prova com letras incandescentes e cenas de impacto que a dramaturgia é uma arte imortal, queiram ou não aceitar o fato. Aqueles que vivem o ufanismo de dizer que o teatro, em especial o teatro da palavra e do ator, está morto, devem cessar as imprecações. Vale lembrar que a versão da peça para o cinema, dirigida pelo autor, chegou ao Oscar, em 2021 (Melhor Ator e Melhor Roteiro Adaptado). Mas o texto original, de 2012, já conquistara na França o Prêmio Molière, em 2014. Portanto, trata-se de um caso em que o teatro se revela forte o bastante para mover o mundo…

 O tema da peça é rascante – gira ao redor da fragilidade absoluta do ser humano, aquilo que todos nós somos. O pretexto para mergulhar nesta dor obrigatória é um giro ao redor de uma situação dramática bastante difundida hoje. Um velho senhor de oitenta anos, progressivamente devastado pela doença de Alzheimer ou uma doença senil comparável, põe em xeque a grandeza sentimental da filha que se dedica a cuidar dele. Os fios da lógica elementar se esgarçam, de forma implacável.

Não se trata de melodrama ou de novelão sentimental, é fundamental frisar. A aguda inteligência teatral de Florian Zeller faz do texto uma “farsa trágica” ou uma “comédia dramática” – e aqui já nasce um bom debate após a ida ao teatro. Uma sucessão ágil de cenas curtas desfila no palco envolta numa cenografia realista-minimalista; elas explodem a visão da plateia graças ao recurso permanente ao blackout. O autor não deixa qualquer brecha para que, na encenação, se possa tentar desenhar filigranas de passagem de cena. O efeito é fulminante: a plateia se vê envolvida na própria confusão mental do protagonista, uma pessoa comum que embarcou na perda da percepção do sentido da vida.  É chocante. E é, digamos, tão humano, que soa divertido em vários momentos. Como queria Bergson, o automatismo gerado pelo declínio do fluxo vital tem alcance cômico fulminante. Portanto, o autor não perde o fio da trama, sacode a percepção da plateia entre a lágrima e o riso sem piedade qualquer.

A encenação brasileira faz jus à dimensão do autor: a montagem é linda, exemplar. Na direção, Leo Stefanini honrou as grandezas do texto com extremo rigor – a marcação da cena se faz com inteligência sentimental, quer dizer, exposição de contracenas e movimentações inteiramente a serviço da clareza da trama. A curva de emoção, fundamental para o arrebatamento da plateia, acontece num crescendo perfeito.

A cenografia de André Cortez, estruturada a partir de elementos simples, com uma geometria límpida, materializa com sutileza o deslizamento discreto e constante entre realidade e divagação. Os figurinos, de Lelê Barbieri, são funcionais, assim como a luz, que segue um desenho simples, mas eficiente.

Mas há muito mais em cena: há Fulvo Stefanini. Difícil reunir palavras precisas para registrar o vendaval de emoções que o ator aciona no palco. Não há como não se emocionar profundamente diante da profusão de sentimentos que ele consegue explorar ao longo do texto. Fulvo Stefanini fala diretamente à alma de cada um, pois demonstra com generosidade comovente a efemeridade de que somos feitos. A cada gesto, a cada inflexão, a cada movimento, ele desloca as nossas certezas, derruba as nossas defesas e constrói um admirável vulcão teatral que é humanidade em estado puro.

Além disso, a sua força cênica é inspiração nítida para todo o elenco. Ela atinge diretamente Deo Patricio; com o seu desempenho, o ator provoca e questiona a dedicação da filha Ana, levando-a a momentos sublimes. A doce teimosia do patriarca senil abala as convicções das enfermeiras, tornando mais do que corretos os desempenhos de Carol Mariottini e Lara Cordula. E aciona forças corrosivas, mas humanas, no genro defendido com brilho discreto por Fulvo Stefanini Filho. 

Um outro valor da produção, importante para quem ama teatro, é a sua condição excepcional, nos tempos presentes, de teatro de repertório, uma prática essencial para o cultivo da arte. O Pai estreou em 2016 no Auditório do MASP, em São Paulo, e segue até hoje uma carreira nacional de sucesso, fato raro na realidade teatral brasileira contemporânea. A montagem original conquistou o Prêmio Shell e o Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Ator, em 2016.

Agora finalmente no Rio de Janeiro, a montagem vai conquistar o coração dos cariocas, pois apresenta uma visão de mundo e uma alquimia de sentimentos irresistível para o espírito da cidade: a chance de viver o riso envolvido em profunda delicadeza afetiva. Não duvide. Corra para ver, pois a temporada curta vai adensar o sucesso. Os amantes do teatro não perderão o programa, evidentemente. Está cada vez mais difícil a chance de abraçar este notável turbilhão humano que só existe no autêntico bom e velho teatro. 

FICHA TÉCNICA 

TEXTO: Florian Zeller 

TRADUÇÃO: Carol Gonzalez e Lenita Aghetoni 

ELENCO: Fulvio Stefanini, Lara Cordula, Fulvio Stefanini Filho, Deo Patricio, Carol Mariottini e Leo Stefanini. 

DIREÇÃO: Léo Stefanini 

CENOGRAFIA: André Cortez

Operação de luz e som: Diego Cortez 

TRILHA SONORA: Raul Teixeira e Renato Navarro 

FIGURINOS: Lelê Barbieri 

TÉCNICOS: Diego Cortez e Ronaldo Silva 

ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO: Dobbs Scarpa 

PRODUÇÃO: Foco3 Produções Artísticas 

REALIZAÇÃO: Cora Produções Artísticas 

Serviço: O Pai

Temporada: De 27 de fevereiro a 22 de março

Dias e horários: Sextas e sábados, às 20h / Domingos, às 17h

Valores

Plateia Central: R$ 150,00 Inteira / R$ 75,00 Meia

Plateia Lateral: R$ 50,00 Inteira / R$ 25,00 Meia

Ingressoshttps://www.ingresso.com/espetaculos/o-pai-TTE 

Duração: 70 minutos
Classificação: 12 anos

Teatro TotalEnergies – Sala Adolpho Bloch – Rua do Russel, 804 – Glória