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Alguém explica o teatro brasileiro?

O que se deve ler para entender o teatro brasileiro? A pergunta direta de um jovem candidato a artista me deixou embaraçada, confesso, por uma questão muito pessoal. Não, não foi por vaidade, pois afinal escrevo livros e acredito que tento explicar alguma coisa. Não fiquei constrangida se indicava os meus livros ou não.

Também não foi em virtude de uma irritação antiga, de professora. Antigamente, quando eu dava aulas para jovens da graduação, ficava aborrecida por que alguns alunos adoravam deixar claro o seu desamor  pela leitura. E, de verdade, eu nunca entendi como alguém que não gosta de ler decide cursar uma faculdade.

O embaraço, assim, nasceu um pouco deste fato: adoro ler. Leio muito. Não sei o que faria num mundo sem livros e repito este mantra para computadores, telefones, televisões e assemelhados, sempre que os encontro. É uma espécie de vingança de papel diante do poder deles…

Então, em resumo, o tremor interior nasceu daí. Diante da montanha de coisas que já li sobre teatro brasileiro, o que eu indicaria como leitura essencial para um jovem estudante?

O embaraço durou pouco tempo. Logo lembrei de um volume pequeno, delicado mesmo, pelo qual tenho profundo afeto. E, sim, asseguro, este livro é a pedra de toque para alguém desejoso de compreender o que é o palco brasileiro.

Trata-se do saboroso texto As Noites do Ginásio – teatro e tensões culturais na corte (1832-1868), de Silvia Cristina Martins de Souza.

A obra nasceu da tese de doutorado defendida pela autora na Universidade de Campinas, sob a direção do Prof. Sidney Chaloub. Mas, calma no Brasil, que ninguém se assuste: o texto, apesar de ser estudioso, não exala academicismo. A leitura é agradável, deliciosa para quem é de teatro. E muito reveladora.

Trata-se de um livro-alicerce, uma obra fundamental. Li há bastante tempo – a minha edição é de 2002 – e usei muito como fonte de estudo, sempre. Agora decidi reler, de fio a pavio, revendo antigas notas, velhas conclusões.

Pois, então, não tenho nenhuma dúvida: posso assegurar que o grande mistério capaz de explicar o teatro nacional está lá, naquelas páginas. O tom principal da época, que deve ser seguido na leitura, é a obsessão por civilização – quer dizer, a mania de fugir de si, negar as formas da vida e do ser locais, em prol de uma impossível europeização.

Se esta corrida, ditada pelo horror à realidade colonial, à miséria existencial tropical, conseguiu gerar grandes obras no romance e na literatura em geral, no teatro, o tiro saiu pela culatra, tudo o que ela promoveu foi a instauração de um impasse difícil de ultrapassar. Este nó original, que persiste vivo sob outras formas, está muito bem dimensionado no livro.

De um lado, figura o teatro nobre, de grandes ideias, desembarcado na Praça Tiradentes com o realismo, o teatro sublime capaz de envaidecer as mentes delicadas, o grande hóspede do Teatro Ginásio. Os que sabiam tudo. Do outro, a plebe ululante, ignara.

Quer dizer – tudo aquilo que fazia o público vibrar de prazer, ali onde as notas sentimentais e expressivas eram mais aguçadas, protagonizava o teatro a ser demolido. Nesta categoria, até João Caetano foi incluído, com seus rompantes cênicos bárbaros.

Mas não era só.  O balaio de gatos brabos quase nem tinha fundo – todas as formas humoradas, musicais, chistosas, salgadas e alegres ou lacrimosas, presas a formas reais de ser e de viver, dissociadas das formas ideais da vida, eram não só vistas com desconfiança, eram combatidas com violência.

Se olharmos o palco brasileiro atual, talvez tenhamos que concluir que os espíritos elegantes do século XIX venceram a batalha, muito embora, no seu tempo, eles próprios tenham se declarado derrotados. Apesar de seus esforços para polir os modos gerais e para esculpir a distinção social, a bilheteria não sorria para os seus projetos. A elite – que teria, assim, a sua imagem engrandecida na sociedade – não abraçou a causa.

Portanto, aquele teatro de grandes ideias e muita elevação espiritual, desabou. O segmento que, mal ou bem, conseguia contar com a bilheteria a seu favor, era o tal que os elegantes  batizaram como reino do “tró-ló-ló e pernas nuas”, ainda que grossas meias segurassem as carnes…  Mas, para usar uma expressão querida dos eruditos, a vitória do popular foi uma vitória de Pirro.

Quer dizer, todos perderam. E o pequeno poder deste ramo popular durou pouco. No século XX,  vieram outras batalhas e, afinal, este teatro desapareceu. Hoje, ele não existe mais, ao menos nos grandes centros.

Assim, a constatação parece obrigatória. Nas nossas cidades, vale frisar, o espírito aristocrático do século XIX venceu.  Ou será que não? Pois se hoje o que viceja em cena é a pura cena de espírito, conceito up-to-date e intrincada criação…

Sim, o teatro brasileiro de hoje vive distante da vida das pessoas comuns, vive divorciado do cotidiano da população. Quando muito, veste o macacão da classe média engajada para ditar lições de vida e de política aos menos esclarecidos, que precisam (assim acreditam os artistas) de arte engajada para aprender a pensar. A grande exceção – igualmente desprezada pelos espíritos requintados – é o musical, gênero que retornou reeditado com força no final do século XX e insiste em sacudir os tablados e as plateias.

Mas este texto aqui é curto, a argumentação tem pouco espaço: vale a pena ler o livro de Silvia Cristina Martins de Souza para atiçar o debate sobre teatro hoje. E lançar luz sobre dois fenômenos interessantes, capazes de eletrizar o pensamento a respeito do quadro dezenovista persistente.

Um deles, mais antigo, irrita profundamente a classe teatral convencional – é o fenômeno da stand up comedy. O outro é o que se poderia chamar de teatro jovem – por sinal, uma série de formas teatrais beneficiadas pela pandemia, próximas das linguagens queridas da juventude.

Não saberia dizer a idade da stand up comedy tupiniquim – cerca de vinte anos, mais ou menos? Talvez, para fazer justiça, seja possível remontar a sua origem ao… século XIX! Neste caso, seria justo considerar como seu padrinho o grande ator Francisco Corrêa Vasques, um pródigo inventor de formas  cômicas pessoais de apresentação.

Aliás, ao longo da história, na pobreza do teatro brasileiro, muitos atores criaram formas pessoais de apresentação para sobreviver: o monólogo não é de agora… Nada tão enxuto e direto quanto o formato da nossa atual stand up – que é muito mais uma contação solo de piadas.

Neste quadro, o teatro jovem de hoje merece ser destacado. De saída, ele tem um compromisso imediato e direto com o cotidiano dos jovens que o prestigiam. A pesquisa de linguagem, o vocabulário, as soluções formais e artísticas (gestos, corpos, figurinos, luz, cores) nascem diretamente do universo jovem, dialogam com o cotidiano juvenil.

Para quem não se situa claramente neste espaço de debate, vale ampliar a visão do tema com dois exemplos eloquentes. Uma encenação como Sigo de Volta, do Grupo Complementar Produções Artísticas, de São Paulo, com direção de Letícia Cannavale e Erik Vesch, um dos vencedores do último Prêmio APTR, ilustra o caso com rigor.

Apesar da trama sentimental simples – e aqui está a proximidade com a forma popular cotidiana universal – a peça, tanto no texto como na encenação, trabalha a linguagem dos games e da imersão no mundo virtual.  O resultado é muito curioso: sob um roteiro sentimental, a montagem concede ao público o conforto de viver/conviver com o desenho cotidiano mais avançado da vida, uma mistura em que arte antiga, de sentimento, se associa a uma arte avançada, de dispositivos.

Outro caso – e neste caso trata-se de uma volta ao cartaz on-line agora em novembro – é o espetáculo Descontrole Público, dramaturgia de Beatriz Silveira e Felipe Aidar, direção de Pedro Granato, trabalho do grupo Pequeno Ato. Aqui a pitada de ousadia é um tanto mais ácida.

Com o foco na pesquisa de novas relações com o público e de novas abordagens de temas urgentes, a equipe ensaiou durante o isolamento para obter um espetáculo on-line capaz de garantir a participação decisiva do público no andamento da trama. Na construção da cena, teatro, vídeo, games, performance, cinema surgem como recursos para desenhar a estrutura da linguagem.

A sinopse simples – uma festa com personagens fixos que podem ser seguidos e “dirigidos” pelo público – viabiliza a ampla participação do espectador, em especial o jovem, especialmente o engajado dos costumes, sensível aos temas em tela.  As ações envolvem o debate a respeito do racismo, da descoberta da sexualidade, da transfobia, do assédio sexual.

A proposta do Pequeno Ato traz à memória as pesquisas do grupo Os Dezequilibrados, em particular a montagem de Combinado, direção de Ivan Sugahara e texto de Daniela Pereira de Carvalho. Ali – ao lado da busca por rompimento do espaço convencional – também dominava a ação o interesse pela participação direta da plateia. Ainda que o público não mudasse o contorno da trama, ele era absorvido intensamente pela dinâmica da cena.

Em resumo, o mote é singelo, o debate, porém, é denso e importante. Interessa aqui dimensionar no jogo teatral de hoje os vetores acionados no século XIX: qual, afinal, é a função social do teatro? Algo mudou neste conceito, do Império para cá?

O teatro deve ser praticado em nome de quê? Deve ser um passatempo nobre, para burilar as formas elevadas do espírito e da cultura? Precisa acontecer para pequenos grupos ciosos do néctar maior da época?  Tem que funcionar como um emaranhado de casas temáticas, cada qual para o seu pequeno público?

Vale sublinhar uma curiosidade: o Ginásio Dramático dispunha apenas de 256 lugares e pretendia ser o teatro carioca de excelência num século em que os teatros costumavam ter mais de mil lugares. A população do Rio de Janeiro em 1870, época em que o projeto salvacionista do Ginásio já fracassara, atingia 235.381 habitantes.

Hoje, pensar os números dos pequenos teatros de invenção sob o pano de fundo do número de habitantes das grandes cidades teatrais alcança um efeito chocante. Se no século XIX se fazia teatro para um público que era um recorte significativo da população, hoje, se faz teatro para que recorte demográfico? Uma poeira humana? Consequentemente, o exercício pode não responder com objetividade à pergunta do aluno curioso.

Uma certeza, contudo, nasce da trajetória e acende uma luz vermelha – se o que mantém o teatro vivo é a  vontade obsessiva de explicar o humano, caminhamos para uma espécie de morte do teatro, quando a explicação abre mão de ser coletiva, se torna diálogo entre poucos, os iluminados da vez.

Este caminho dos iluminados foi a escolha do Ginásio Dramático e dos literatos de maior elevação acadêmica da época. Evidentemente, eles abriram mão de contemplar a cara do Brasil. Inauguraram uma estranha tradição, dominada por um desejo tropical peculiar, no qual se mistura a busca de atualidade, de sucesso no estrangeiro e de inteligência iluminada à la europeia.

Um coquetel suicida, que se sustenta graças à recusa  de encarar o país. Diante deste partido aristocrático, imperial, era muito difícil prosperar, mesmo quando se buscava sintonia com as graças do país. Foi a derrota de Martins Pena, João Caetano, Vasques, Artur Azevedo.

A cena dividida não dava alento permanente para ninguém. E então, como explicar o teatro feito hoje no Brasil? Os velhos teatros ruíram, mas, vagantes a ermo, continuamos, insistimos na mesma trilha? Será que temos alguma resposta, nas cenas ou nos livros?

Foto Victor Otsuka

Ficha técnica:

Concepção e direção: Pedro Granato.

Dramaturgia: Beatriz Silveira e Felipe Aidar.

Assistente de direção: Gustavo Bricks.

Elenco: Agnaldo Moreno, Álvaro Leonn, Andressa Lelli, Bea Carmo, Carolina Romano, Celina Vaz, Guilherme Trindade, Heloísa Pires, Julia Terron, Manfrin, Mariane Aguiar, Maysa Nanci, Natália Correa, Priscila Paes, Renata Xá, Taiguara Chagas, Talita Torrecillas e Victor Moretti.

Videomaker e Operador de Zoom: Gustavo Bricks. Iluminação: Taiguara Chagas.

Figurino: Isabella Melo.

Diretor de Arte: Renan Ramiro.

Confecção de figurinos: Ateliêles.

Fotos: Victor Otsuka.

Assistente de Fotografia: Letícia Cruz.

Identidade Gráfica: Lucas Sancho.

Design Gráfico: Carolina Romano.

Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli.

Midias Sociais: Álvaro Leonn, Carolina Romano, Guilherme Trindade E Julia Terron.

Produção: Contorno Produções.

Direção de Produção: Jessica Rodrigues e Victória Martinez.

Assistente de produção e comunicação: Carolina Henriques.

Realização: Pequeno Ato.

Apoio: Casa 8.

Serviço:
DESCONTROLE PÚBICO

De 6 a 21 de novembro – Sábados as 20h e 22h, domingos as 19h e 21h.

Duração: 30 minutos.
Classificação etária: 16 anos.

Ingressos: a partir de R$20.

Combo:  R$ 50,00 para assistir as 5 salas em um final de semana.

Capacidade: 90 espectadores.

Venda ingressos e acesso à transmissão: Sympla.com.br/pequenoato