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Madureira sorriu de alegria: na Glória, festa da APTR
“Quem não conheceu o subúrbio do Rio, passou pela vida e não viveu. Não, não falo do subúrbio de agora, mera trama periférica sofrida, poluída, abandonada por todos os governantes, um desafio para quem se aventurar por lá, ainda que recompensado com belezas raras, grandezas humanas surpreendentes, o autêntico tesouro suburbano. Falo de um subúrbio-subúrbio mesmo, bucólico, arredio, tingido de clima rural, com ruas de barro aqui e ali, tufos de capim, terrenos baldios, carroças de burro, cerâmicas vermelhas ou caquinho, varandas e jardins, santinhos nas fachadas, um lugar ainda alheio ao reinado do cimento e do asfalto.
O trânsito era gentil e resfolegante, os ladrões escassos, valia ir a pé a vários lugares, as compras sentiam a limitação do pequeno comércio, os mascates faziam festa com os carnês de prestações. Havia um tempo longo ao redor de tudo, a televisão da vizinha era a janela ou a gelosia para vigiar a vida alheia, em especial dos jovens, o rádio ainda era o grande soberano e as pipas, as bolas de gude e as correrias na rua disputavam as folgas escolares.
Sim, o lugar nevrálgico da cidade era o Centro. Ou a Cidade – com letra maiúscula. O resto era uma espécie de descampado ou deserdado urbano, ainda que romântico. Lá no Centro se resolvia tudo, do bom e do melhor, tanto fosse o documento oficial, a repartição importante, quanto o médico generalista ou o especialista, ou o comércio de verdade. Ir ao Centro era um evento de gala, com boas roupas e alguma pose.
A viagem longa dava motivo para um lanche numa leiteria, garçons engomados servindo café com leite, chá, chocolate. Para sublinhar o encanto da tarde, memoráveis sanduíches de pão francês estalando com queijo minas ou amarelo ou presunto… Mingau, não, nunca, nem coalhada – eram coisa de mãe, para comer em casa.
Não existia fast-food nem lanchonete. Mas o primeiro cachorro-quente também apareceu por lá, novidade das Lojas Americanas, versão popular da Mesbla. Aliás, a primeira escada rolante escandalizou a vida na Sears, monumental edifício na Praia de Botafogo, grandeza que ombreava a requintada Sloper, no Centro. Até os verbos de trânsito tinham imponência – descia-se para ir ao Centro, voltar para casa era subir, uma coreografia associada à proximidade do mar.
O mar, aliás, se impunha com autoridade bem mais nítida. Havia muito mais praia e mar por toda a cidade. Dava para banhar-se e ter prazer passeando em todos os meandros da Baía de Guanabara. A praia não era sinônimo de Zona Sul: os cariocas iam à praia, fossem suburbanos ou sulistas. Exemplos? Ah, prepare-se para ouvir.
O balneário suburbano de eleição para as férias era Sepetiba. Ia-se de carro, com todas as tralhas amadas pelos farofeiros, mas o grande barato mesmo era ir de trem, até Santa Cruz, e de lá pegar um lotação ou ônibus. Sepetiba era adorada pelos velhos, tinha fama de praia medicinal por causa da – argh – lama. E era um programa de longo curso, para alugar casa ou sítio e ficar por lá, longe da escola, com os adultos podendo ir e vir para a cidade.
No redemoinho da cidade mesmo, havia um paraíso chamado Ilha do Governador, secundado por outro um pouco mais longe, a Ilha de Paquetá. Acredite: eram balneáveis e agradabilíssimas. Na Ilha, a praia mais queridinha era a do Galeão, fato inacreditável para quem a vê hoje, quase um valão lixento.
E nem vou estender a lista para enumerar todas as praias do fundo da baia, hoje lugares para lá de deprimidos, sufocados de pobreza, miséria, baixa política, banditismo, poluição… Não, caro leitor, não peguei a praia de Santa Luzia, nem a do Caju – não sou tão velha assim – mas veja que houve uma história do mar que se perdeu. Perdemos praias. Confesso que ouvi falar alguma coisa a respeito de muitas delas, ainda que nada muito abonador, pois foram suprimidas quando já estavam decadentes. Somos tão selvagens que extinguimos praias, garroteando-as antes do golpe final.
Mas, prossigamos – para coroar o prazer praieiro, havia um grande areal selvagem verdadeiramente deslumbrante, alcançado por um caminho sinuoso de dar dó, a ensolarada Barra da Tijuca. Era fundamental ir de automóvel e com todo o farnel da farofa – nos primeiros tempos, não tinha nada por lá mesmo e, crianças, brincávamos que apareceriam índios. Um dia pelo caminho surgiu o histórico Rancho das Fantas, com um inacreditável pastel de siri, companhia perfeita para um guaraná gelado.
Não era só isto – com certeza encantava a todos mergulhar nas praias da Zona Sul. Naqueles tempos, as areias eleitas eram Copacabana, em especial o posto 6, e a sempre amada Urca, com a Praia Vermelha e a Praia da Urca. Sim, sempre houve o Flamengo, mas nunca estive nas águas de lá. E desconfio que Botafogo já vivia deserdado, talvez por causa do óleo dos barcos e iates. Ipanema e Leblon eram passeios muito raros, mais para a lenda urbana do que roteiro de vida: quem estava na zona sul não aceitava ir até o meio do nada, no mato, e deixar para trás o feitiço das praias urbanas civilizadas, em particular as pérolas de Copacabana.
O subúrbio, contudo, tinha vida própria pulsante, não funcionava como dormitório urbano ou roça fora do tempo. Alguns bairros se notabilizavam como pontos de efervescência citadina: Madureira e Méier em particular, já que a Tijuca se achava importante demais, acreditava ser um ponto errante da zona sul perdido no espaço florestal.
Apesar do poder mágico do Méier, confesso o meu fascínio por Madureira: o bairro conseguia unir uma variedade estonteante de referências humanas. Tinha um forte comércio, muito variado, cinemas, um mercadão para qualquer criança se perder, time de futebol, teatro, escola normal, maternidade…
E Madureira tinha muita macumba, candomblé, ciganos, protestantes, católicos, judeus, uma babel de almas borbulhantes em harmonia. Dizem que o acaso do destino fez com que o bairro nascesse num cruzamento de caminhos – ali, onde todos os caminhantes se esbarravam para descansar, só podia nascer um ponto de encontro forte.
Tão forte que não falta comemoração: este mês o bairro completou 406 anos e uma festança de levantar poeira se espalhou por vários dos seus recantos. Madureira tem brio e reage forte contra o astral de suburbanicídio que impera no Rio. Afinal, a Zona Norte é o celeiro mágico da sensibilidade carioca: enquanto a Zona Sul faz pose e boceja, a Zona Norte cria e se mexe.
Assim, vale destacar a alentada programação especial, com teatro, dança, música, artes visuais, literatura, esporte, cursos e oficinas, concebida pelo Sesc Madureira, que prosseguirá até o dia 31. Na realidade, como Madureira é sinônimo de festa, algumas atividades ficarão em cartaz até o fim do ano, pois o madureirense de fibra não comemora pouco.
Por falar em festa, vale destacar que o mês está bem no calendário, o ânimo comemorativo não vive só em Madureira. Não vai faltar festa para fechar o mês – amanhã, terça, será a noite de premiação da APTR, com a aclamação dos melhores do teatro em 2018. Basta examinar a lista e torcer.
Mais do que isto, na verdade. Vale lutar para que a festa, no recém inaugurado Teatro Prudential, uma casa de fina extração para sensibilidades requintadas, marque uma virada a favor do teatro. Quem sabe se, assim, a velha arte, tão maltratada, escape da síndrome recente, esta atmosfera sombria propícia a torná-la uma gata borralheira.
Pois, aqui entre nós, como diria uma velha fofoqueira suburbana, vamos combinar: o teatro anda mal. Anda combalido, sorumbático, caidaço mesmo, como se fosse uma espécie atual de ente suburbano, um deserdado do mundo das artes, ainda que, por ironia, a sua existência persista, hoje, confinada à Zona Sul… Brindemos, então, à sua saúde, na esperança de que o clima do teatro chique respingue grandeza na alma desanimada.Ou, então, que o teatro olhe para a garra de Madureira: pare de reclamar, levante, sacuda a poeira e dê a volta por cima.
SERVIÇO
Aniversário de Madureira – Rio de Madureira
Organização: Sesc Madureira
Programação: de 11 a 31 de maio/2019, lista completa no site http://www.sescrio.org.br.
Artes Cênicas: 31 de maio, às 19h, “O mar serenou: um conto de Clara”.
Poesia: 31 de maio, às 18h, segunda edição do Sarau “Coletivo Poesia de Esquina”, com repertório especialmente dedicado ao aniversário do bairro de Madureira.
Quintas-feiras até dezembro, das 17h às 19h: curso de circo, para maiores de 13 anos.
Sábados, até 14 de dezembro, das 14:30h às 16:30h, aulas de dança Charme.
28 de maio, das 14h às 18h, Feira de economia criativa, com empreendedores manuais de diversos segmentos, exposição e venda de produtos do universo “retrô”.
Foto Marcelo Reis – Madureira: O mar serenou
O mar serenou: um conto de Clara
Ficha Técnica:
Texto – Cazé Neto
Direção – Cazé Neto e Milton Filho
Direção de Movimento – Raphael Rodrigues
Direção e Supervisão Musical – Marcio Eduardo Mello
Elenco – Renata Tavares, Fernanda Sabot, Fernanda Misailidis, Dilene Prado, Zéza, Tyago Caetano, Robson Soares e Pablo Dutra
Músicos – Luizinho Croset – Di Lutgardes – China Show – Wallace
Cenário (Concepção) – Welington Leite
Iluminação – Jorge Raibott
Desenho e Operação de Som – André Cavalcanti
Figurino – Teresa Abreu
Aderecista – Bruna Santos
Costureira – Márcia Jackson
Fotografia – Luiz Paulo Silva
Produção Executiva – Mônica Lucas
13° Prêmio APTR
Homenagem: atriz Marieta Severo,
terça, 28 de maio, às 20h (abertura)
Teatro Prudential (antigo teatro Manchete)
Apresentadores: Drica Moraes e Marco Nanini.
Indicados:
MÚSICA
EGBERTO GISMONTI (MÚSICA) E DANY ROLAND (TRILHA SONORA): Grande Sertão: Veredas
FELIPE STORINO E FÁBIO STORINO: A Última Aventura é a Morte
FABIANO KRIEGER E GUSTAVO SALGADO (DIREÇÃO MUSICAL) E FABIANO KRIEGER E LEANDRO MUNIZ (MÚSICAS ORIGINAIS): A Vida não é um Musical – O Musical
PEDRO LUÍS, LARISSA LUZ E ANTÔNIA ADNET: Elza
THEREZA TINOCO (MÚSICA ORIGINAL) e TONY LUCCHESI (ARRANJOS e DIREÇÃO MUSICAL): Bibi, Uma Vida em Musical
ILUMINAÇÃO
BINHO SCHAEFER E BIA LESSA: Grande Sertão: Veredas
FELICIO MAFRA: Memórias do Esquecimento
MARCELO LAZZARATTO: Ilhada em Mim – Sylvia Plath
MONIQUE GARDENBERG E ADRIANA ORTIZ: Romeu e Julieta
RENATO MACHADO: Elza
FIGURINO
CLAUDIO TOVAR: O Homem de la Mancha
JOÃO PIMENTA: Dogville
JOÃO PIMENTA: Romeu e Julieta
MARIA DUARTE e MÁRCIA PITANGA: Um Tartufo
NEY MADEIRA E DANI VIDAL: Bibi, Uma Vida em Musical
CENOGRAFIA
BELI ARAÚJO E CESAR AUGUSTO: Insetos
CAMILA TOLEDO COM COLABORAÇÃO DE PAULO MENDES DA ROCHA: Grande Sertão: Veredas
DANIELA THOMAS: Romeu e Julieta
DÓRIS ROLEMBERG: A Última Aventura é a Morte
MATHIEU DUVIGNAUD: A Invenção do Nordeste
ATOR EM PAPEL COADJUVANTE
CLAUDIO GALVAN: Romeu e Julieta
MATEUS CARDOSO: A Invenção do Nordeste
NILTON BICUDO: Molière, Uma Comédia Musical de Sabina Berman
ROBSON MEDEIROS: A Invenção do Nordeste
VITOR THIRÉ: Vou Deixar de Ser Feliz por Medo de Ficar Triste?
ATRIZ EM PAPEL COADJUVANTE
ELENCO COADJUVANTE: (KÉSIA ESTÁCIO, JANAMÔ, KHRYSTAL, LAÍS LACORTE, VERÔNICA BONFIM, JÚLIA TIZUMBA) Elza
GEORGETTE FADEL: Molière, Uma Comédia Musical de Sabina Berman
LUISA ARRAES: Grande Sertão: Veredas
STELLA MARIA RODRIGUES: Romeu e Julieta
STELLA MIRANDA: Frenético Dancin Days
DIREÇÃO
BIA LESSA: Grande Sertão: Veredas
BRUCE GOMLEVSKY: Um Tartufo
DUDA MAIA: Elza
GUILHERME LEME GARCIA: Romeu e Julieta
QUITÉRIA KELLY: A Invenção do Nordeste
TADEU AGUIAR: Bibi, Uma Vida em Musical
AUTOR
LEANDRO MUNIZ : A Vida Não é um Musical – O Musical
LEONARDO NETTO: A Ordem Natural das Coisas
MARIANA LIMA: Cérebrocoração
PABLO CAPISTRANO E HENRIQUE FONTES: A Invenção do Nordeste
PEDRO BRÍCIO: O Condomínio
ATOR EM PAPEL PROTAGONISTA
BRUCE GOMLEVSKY: Memórias do Esquecimento
CAIO BLAT: Grande Sertão: Veredas
DANIEL DANTAS: O Inoportuno
JOÃO VELHO: A Ordem Natural das Coisas
MATHEUS NACHTERGAELE: Molière, Uma Comédia Musical de Sabina Berman
ATRIZ EM PAPEL PROTAGONISTA
AMANDA ACOSTA: Bibi, Uma Vida em Musical
AMANDA LYRA: Quarto 19
GISELE FRÓES: O Imortal
LARISSA LUZ: Elza
MARIANA LIMA: Cérebrocoração
ESPECIAL
CIA DOS COMUNS pelos 18 anos de trabalho continuado, estimulando e valorizando o teatro negro brasileiro.
FIL- FESTIVAL INTERNACIONAL INTERCÂMBIO DE LINGUAGENS pela sua excelência e realização continuada ao longo de 16 anos
NICETTE BRUNO por sua participação em Pippim e trajetória artística no teatro.
REABERTURA DO TEATRO ADOLPHO BLOCH
ULYSSES RABELO pelo Visagismo de Bibi, uma vida em musical e seus 30 anos de carreira.
ESPETÁCULO
BIBI, UMA VIDA EM MUSICAL
ELZA
GRANDE SERTÃO: VEREDAS
A INVENÇÃO DO NORDESTE
A ÚLTIMA AVENTURA É A MORTE
PRODUÇÃO
AVENTURA ENTRETENIMENTO – Romeu e Julieta
NEGRI E TINOCO PRODUÇÕES ARTÍSTICAS – Bibi – Uma Vida em Musical
BRAIN + E QUARTA DIMENSÃO – 70? Doc. Musical Década do Divino Maravilhoso
2+3 PRODUÇÕES ARTÍSTICAS LTDA – Grande Sertão: Veredas
SARAU AGÊNCIA DE CULTURA BRASILEIRA – Elza
TEMA EVENTOS CULTURAIS – Elizeth, a Divina
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O Teatro no poder
“Um fato inegável merece o nosso reconhecimento – o Brasil é uma usina louca, permanente, de sentimentos inesperados. Surpreendentes, de verdade. Quando a criatura pensa que já sentiu tudo, lá vem o Brasil e derrama um tonel de sensações indescritíveis na alma do incauto. Haja ectoplasma, como diria o meu velho tio Raul, espírita mesa branca confesso, daqueles de não perder missa ou sessão de atabaque ou pregação de pastor. Todo verbo serve ao espírito, talvez ele dissesse, se obrigado a se explicar.
Mas não – o próprio deste inferno sentimental tropical é não ter explicação. A vida vai, arrasta o coração, se possível desenha um vale de lágrimas. Esta situação indefesa, desprotegida, típica de maiores abandonados, fala da solidão coletiva de uma terra em que não se resolveu a bravata colonial. Estamos ainda à mercê de donatários, devastando tudo o que aparece ao redor, às voltas com nativos incompreensíveis – é razoável que nesta altura da História ainda não tenhamos uma compreensão humana profunda sobre os nossos indígenas? Isto para não falarmos da causa negra. Nem das mulheres e dos gays. Somos senhores ferozes de uma solidão humana pobre, brutal. Cada um é menos um, pois não se reconhece em nenhum outro.
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A Caixinha de surpresas do vendaval
Parece um vendaval – para onde você olha, tudo vai pelos ares, esvoaça, como se dançar fosse o destino natural de tudo. Um alento, diante do freio de arrumação alucinado, bagunçando o coreto geral: dá para arejar as ideias, ousar pensar o novo, perguntar a sério a respeito do que desejamos para a vida. O vendaval na vida sacode a vida, mas é ótimo para pensar a vida. Quem sabe, rever tudo.
A notícia furacão da semana no Rio é o anúncio, ainda não confirmado oficialmente, de que os generosos espaços da Caixa Cultural RJ, no Centro, serão fechados até agosto. A unidade conta com um teatro de arena encantador, dois cinemas, quatro galerias de arte, além de espaços complementares para ensaios e oficinas. Em suma, um centro cultural dinâmico e de atuação reconhecida na cidade.
Segundo as informações sopradas por um funcionário anônimo, a bomba foi anunciada numa reunião interna. Na versão do disse-me-disse, a Caixa vai se mudar para um prédio mais modesto, em que não há espaço para a cultura, só para a contabilidade mesmo. Portanto, a Caixa estaria às vésperas de uma mudança radical. Pronta para encolher, mas só no Rio – a Caixa Cultural permaneceria intacta nas demais capitais, a saber Brasília, Curitiba, Fortaleza, Recife, Salvador e São Paulo.
O estopim teria sido o alto preço do aluguel do imóvel, uma surpresa para quem sempre pensou que a casa espaçosa da Caixa era própria ou, não sendo, que a entidade seria rica o bastante para bancar o teto chique no ponto nobre do Centro do Rio. Vamos combinar que o simples contorno do boato – se é que se trata de boato – já é estarrecedor. A Caixa sem dinheiro para pagar o aluguel?
A coisa vai mais além até: pululam os adjetivos de surpresa e medo. É muito preocupante, numa república que não tem feito outra coisa a não ser enriquecer os bancos, um banco estatal tradicional forte aventar dificuldades para pagar o aluguel. A poupança da alma de cada cidadão estremece. E, no Rio, mais adiante do cenário nacional ameaçador, o carioca urra.
Pois, em primeiro lugar, não existe mais aqui espaço sentimental para cogitar uma redução maior ainda da vida cultural da cidade, a tal que seria a capital cultural do país. A vida cultural carioca está enrodilhando ladeira abaixo e a expectativa de todos, em especial diante do poder público, é a do anúncio de medidas de reversão da crise. Anúncios de mais aperto e redução, não dá para aceitar não.
Dentro em breve, o Rio poderá se tornar, ao menos em termos relativos, a primeira megalópole do Ocidente sem teatro, pois a divisão do número de assentos teatrais pelo número de habitantes vai dar um número negativo espantoso. Os teatros fecham aqui num ritmo inadmissível – qualquer governo digno deste nome já teria tomado medidas eficientes a respeito, trataria de estancar a hemorragia.
Há muito tempo atrás, numa entrevista jornalística, perguntei a Fernanda Montenegro qual seria, no seu entender, o motivo para a não expansão da oferta de teatros no Rio. Ela argumentou com uma condição ditada por aqueles tempos, anos 1980, em que imperava o poder dos Sérgios Dourados: a especulação imobiliária tornava o teatro um investimento anacrônico. Em parte, ela estava com a razão – só em parte. Tudo indica que há uma engrenagem perversa, violenta, mais profunda, interessada em cultivar a sociedade de degradação humana que está se espalhando aqui.
O fato é que o teatro não interessa ao Estado, ao Poder bárbaro, pois ele é um dispositivo eficiente para a construção do cidadão sensível pleno. Para completar a nossa ruína, tampouco a classe conseguiu demonstrar, e consolidar, com ímpeto e fúria, a importância social da arte da cena. Por isto, o teatro só faz definhar. E a Caixa, como Eike Batista e tantos outros antes, pode insinuar o fim de uma importante casa de teatro – e de cultura – na certeza da impunidade. A lista dos teatros que foram abaixo no último século sem que nada acontecesse diante do crime de lesa-comunidade é revoltante.
Mas há um segundo problema a considerar, para dimensionar o absurdo que é, para a sensibilidade carioca, o fim das atividades da Caixa Cultural. A Caixa Cultural foi criada e instituída com dinheiro do povo. A Caixa é um banco público. Fechar a Caixa Cultural é crime contra a economia popular. E é uma estocada feroz na Lei Rouanet.
Não tenho dados, mas certamente a Caixa Cultural se valeu da isenção fiscal. Assim, é dinheiro público ao quadrado. A Lei da Isenção fiscal foi concebida, no Brasil, para tentar levar a elite, indiferente e desinteressada pelo país, a investir na produção de cultura brasileira. Colonizada, hipnotizada pelo mercado internacional, a elite brasileira nunca sentiu outro interesse cultural que não fosse a produção europeia ou norte-americana.
Uma frase brincalhona atribuída a uma grã-fina paulista de quatrocentos anos, mecenas das artes mais por obrigação do que por gosto, retrata bem a condição nacional. Segundo o folclore, ela costumava dizer: “Quando noto que sinto vontade de olhar as vitrines do Mappin, é porque está na hora de voltar para Paris.”
A hora, portanto é de perguntar se a Lei Rouanet foi para Paris, digamos. Ou ficou a ver navios. É escandaloso que este dispositivo legal de aplicação do dinheiro público na cultura tenha se tornado uma ferramenta de marketing de empresas, bancos, instituições financeiras, em lugar de ter gerado uma torrente de investimento privado a favor da cultura no país. O que aconteceu? A rigor, as leis de incentivo fiscal, ao menos teoricamente, viabilizaram a redução das verbas de marketing – ou a ampliação do marketing privado através do dinheiro público. Que os empreendimentos gerados por este meio, chancelados com o nome do possível mecenas, fechem as portas, é imoral, é um escândalo, exemplo de gestão pública nociva.
Portanto, se chocou a sensibilidade carioca o ato de Eike Batista fechar o Teatro Glória, se revolta hoje a todos a omissão do Estado do Rio diante da imponência do Teatro Villa-Lobos condenado às ruínas, o que sentir e dizer diante da possibilidade do fechamento da Caixa Cultural, um centro cultural de funcionamento exemplar, gerado e financiado pelo dinheiro público, fechado como se fosse um bem particular, de uma entidade privada? A Caixa pode fechar a Caixa Cultural no Rio à revelia dos interesses sociais e culturais da cidade?
Vale o debate amplo, geral e irrestrito destes fatos e deste vendaval de estranhas proporções. Um povo sem cultura é um risco que não se pode correr e a cultura nacional não tem mais para onde cair. Em boa hora, no olho do furacão, anuncia-se a reabertura do Teatro Adolpho Bloch, prenda nobre da cidade maravilhosa. Este é o gesto que se espera: grandeza de realizações, mãos espalmadas para oferecer recursos de ativação da vida cultural, mãos que receberão os aplausos da cidadania ávida para ter de volta uma cidade de luz, uma pérola para encantar a vida de todos os que têm a graça de circular por aqui.
Diante dos fatos, ou dos boatos, é urgente afinar os mecanismos de articulação da classe teatral; não se trata de tentar fazer política partidária, usar a classe em função de jogos eleitorais, mas, antes, de reconhecer a urgência comum relativa à definição do campo de trabalho no seu sentido mais amplo. Um primeiro passo importante foi dado pela APTR, em carta à Caixa Econômica Federal. Maturidade, equilíbrio, visão da arte e do papel social da arte em si, parece ser este o convite expresso no vendaval. Que possamos nos tornar senhores dos ventos, para criarmos juntos, na nossa sociedade, a possibilidade do teatro futuro.
Rio de Janeiro, 20 de abril de 2018.
À Caixa Econômica Federal
A/C – Sr. Nelson de Souza – Presidência
Brasília – DF
Prezado Sr. Nelson de Souza,
Primeiramente, felicitações pelo novo cargo. Desejamos sucesso em sua gestão.
A APTR – Associação de Produtores de Teatro gostaria de solicitar esclarecimentos a respeito de notícia recentemente veiculada em que se dá como certo o fechamento de um dos mais importantes equipamentos culturais do país, a Caixa Cultural Rio de Janeiro / unidade Almirante Barroso.
Aproveitamos a oportunidade para ressaltar que em seus 12 anos de funcionamento, a Caixa Cultural Rio tornou-se uma grande referência para artistas de todas as linguagens e estéticas, atraindo e fomentando a visitação do grande público. O prédio da Almirante Barroso compõe o tradicional corredor cultural do centro da cidade, abrindo democraticamente espaço para os novos talentos da arte contemporânea; o teatro de pesquisa de linguagem; o cinema experimental e independente; e também os consagrados artistas de todas as áreas.
A Caixa Cultural tem impulsionado a cultura do Rio de Janeiro com uma programação pautada na diversidade e qualidade.
Constatando o impacto positivo que a Caixa Cultural exerce, e acreditando no seu potencial, fazemos um apelo para que tal decisão, se verdadeira, seja revertida. O estado do Rio de Janeiro vive e sobrevive a um momento de falência econômica e de intervenção federal na segurança. Acreditamos que a sensibilidade de um novo gestor poderá reverter o quadro e manter, em pleno funcionamento, o importante prédio da Almirante Barroso, que abriga a Caixa Cultural Rio, com tanta pluralidade artística, ingressos gratuitos ou populares e com grande repercussão para o público carioca e fluminense.
O fim da Caixa Cultural Rio seria uma grande perda para a cultura brasileira e também para a Caixa Econômica Federal, instituição que realiza importante trabalho e tem sua marca associada ao desenvolvimento da cultura brasileira e do próprio país.
“A CAIXA Cultural Rio de Janeiro está localizada no edifício-sede da CAIXA, na Av. Almirante Barroso, 25, junto à Estação Carioca do metrô e do VLT. Inaugurada em 2006, abriga em seus mais de 6.000m² um teatro de arena, dois cinemas, quatro galerias de arte, além de salas de oficinas e ensaios.”
“Rica e diversificada, a cultura brasileira é fruto do grande potencial humano e estético de nosso povo, refletindo as tradições e os valores de todas as regiões. Pensando nisso, a Caixa mantém um diálogo constante com as nossas raízes culturais e busca consolidar sua imagem de grande apoiadora da cultura brasileira.
Diante desse comprometimento em disseminar a cultura em todos os cantos do país, a Caixa instalou unidades da Caixa Cultural em sete capitais: Brasília, Curitiba, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, onde proporciona aos brasileiros, o acesso a uma diversidade de manifestações da arte e da cultura nacionais, e também estimula o intercâmbio cultural e a troca de experiências, patrocinando eventos de artistas de outros países. Tudo isso com uma programação plural e de qualidade, gratuita ou a preços acessíveis.”
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Os finalistas do Prêmio APTR e a alma do teatro carioca
Bate forte o coração, acelera diante da luta da vida, os prêmios estão na ordem do dia e vão recompensar a batalha árdua que é, hoje, aqui, fazer teatro no Rio de Janeiro. Será? Ou não? Quem sabe? Lá vai suspense!
A lista dos indicados ao Prêmio APTR 2015 está completa, na segunda-feira saiu o bloco dos finalistas do segundo semestre, vale conferir abaixo os nomes. Intrigante: apesar da composição dos júris ser bastante variada, o resultado obtido nas diversas votações se aproxima. O que isto significa?
Tagged: APTR, Finalistas do Prêmio APTR 2015, Imperator
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Estrelas mudam de lugar: a noite de festa do Prêmio APTR
Uma noite teatral inesquecível: a opinião foi unânime a respeito da cerimônia de entrega do prêmio APTR 2014, anteontem, no Imperator. A festa viu desfilar uma constelação de estrelas de fazer inveja ao céu. E contou com apresentadores ágeis, sensíveis, pródigos na arte de divertir. Claudia Raia foi a dama de honra exemplar, impactante já por seu vestido longo, vamp, vermelho. Ney Latorraca brilhou como mestre de cerimônias por sua extrema elegância e humor refinado.