Às vezes, há um prazer enorme em ser enganado: a tapeação soa como um convite para retornar à infância e ser feliz, graças a algumas palavras e a um convite ao sonho. Esta leveza é a matéria-prima de “Por Pouco”, de Samuel Benchetrit, autor francês de atuação maior no cinema pouco divulgado aqui, cartaz do Teatro Poeira. Mas é uma leveza enganadora, um tanto rascante, pois a evasão feliz proposta significa optar por um estado de alegria diante da condenação iminente à morte e, no caso, uma morte dolorosa. Este tom curioso do texto, escapista lírico, foi reproduzido em todo o desenho do espetáculo, uma proposta de teatro comercial agradável, bem resolvido e bom de ver. Trata-se de diversão de padrão elevado, adequada ao espectador interessado em uma noite divertida, porém elegante, afinada com uma mente que se preocupa com os valores mais respeitáveis do ato de existir.
A trama é um ato de ficção completo, deliberado e descabelado, um legítimo caso de inverossímil crível. Revela dois senhores bastante vividos condenados a morrer em poucos dias, daqueles que a senhora do além já começou a visitar com suaves carícias; subitamente, eles decidem que não vão partir sem aprontar algumas travessuras. E fogem do hospital de pijamas, partem para a aventura; logo na estrada na noite escura fracassam para conseguir uma carona, mas encontram uma grávida às voltas com a hora decisiva, abandonada pelo pai do bebê.
O fato, de óbvio eco simbólico, serve como ponto de partida para uma série de andanças, todas surpreendentes para um par de heróis de pijamas e com um tripé de soro, mas sempre oportunas para a revelação de suas personalidades, histórias de vida, dramas pessoais. Ainda que o sumário sugira uma tessitura bizarra, o autor tem um bom domínio da escritura dramática; ao final, soa agradável perceber a materialização de uma fábula,
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