A aldeia e o mundo, o cotidiano e o sonho: a oposição dilacera a alma de cada pessoa, define o espírito da espécie, assombra a vida do cidadão moderno. Se a vontade de partir acompanha o homem desde o primeiro nomadismo, quando era condição de sobrevivência, ela se tornou, após séculos de civilização e sedentarismo, indício de libertação, passaporte para uma vida de outra qualidade, manifestação de poesia essencial, existencial. O tema, referência preciosa para a arte moderna, é a mola propulsora da ação no novo texto de Walter Daguerre, A Mecânica das borboletas, uma fábula inspirada, dedicada a este impulso humano para buscar a transcendência, longe e além da terra, da origem. A peça é linda, emocionante, tão delicada quanto a vontade sublime de abraçar o mundo, o frisson interior que nos define como seres culturais. O desejo de falar deste turbilhão existencial histórico levou o autor a pontilhar o texto com referências sutis à História e à História da Literatura, em especial ao Ulisses, de Joyce. Sob o foco, está a arte.
Para atingir o conceito sofisticado, comunicar a todos uma visão nítida do eterno enredamento, o autor fez escolhas simples. O ponto de partida da trama é a relação entre dois irmãos gêmeos, Rômulo e Remo, filhos de um modesto mecânico ateu provinciano. Por influência a um só tempo do espírito libertário do pai comunista e de um forasteiro hippie que acampou na cidade, um dos gêmeos fugiu de casa, ganhou o mundo. Para o outro, restou a aldeia, a sucessão na gerência da família, em especial após a morte do pai. A ação começa com o retorno do filho nômade, transformado em escritor de sucesso no exterior, carente de suas referências de formação.

