High-res version
O coração do teatro: Ruth de Souza
De repente as palavras correm, se escondem, somem. Mesmo uma pessoa cheia de palavras pode, um belo dia, acordar e, em vão, tentar encontrá-las. Qual o remédio? Não sei. Quem sabe existe um país das palavras, um lugar no qual elas se exilam quando ficam cansadas de nós. E elas voltam, mas só quando a voltagem do querer se torna mágica.
Eu entendo – quem é que não se cansa, de vez em quando, da humanidade? Enfadonho, tanto palavrório oco, cínico, discursos de falseanos. Quem é que não se surpreende com a leviandade corriqueira dos seres humanos diante das palavras?
Sim, certamente desde Sócrates – o grego que calou as próprias palavras com cicuta para libertar as nossas – existe o compromisso de casar palavras com o pensamento e com a verdade. Mas, vamos combinar: se ele impôs este compromisso, foi para que muitos andassem… longe dele! E aí… palavras ao vento, estranhas ao pensamento.
Pois somos descendentes traiçoeiros de Sócrates e herdeiros de outras práticas, contraditórias, dissimuladas. Há um outro par, também grego, cuja existência contribui também para implodir nosso uso das palavras: as gêmeas siamesas democracia e demagogia.
Elas nasceram juntas, no mesmo bercinho, uma não vive sem a outra. Mas uma é venenosa, é aquela irmã que nasceu só para derrubar a gêmea. A palavra séria de uma é o engodo, na outra. É preciso estar atento e forte, portanto.
Quem sabe um outro figurão da grande família grega, hábil esgrimista do verbo, possa ser um caminho para dissolver o embate, liquidar o vazio da alma? Saída fácil? Ah, que ele venha, rápido. Será?
Talvez o impasse histórico que nos cerca não tenha qualquer solução, mas, convenhamos, o costume deste moço, de confrontar opostos, expor antagonismos e contradições, bem pode acalmar – sim, apenas acalmar – a sensação humana de que a vida é pequena e nada vale a pena. Quem sabe?
Sim, o teatro, caro leitor, pode ser este anjo protetor do eterno vazio. Se ele não traz a chave para o céu, com certeza permite aos seus fiéis flutuar livres, por instantes, no caudaloso fluxo humano de ser. É quando nos vemos ali, diante da cena, e acreditamos num mundo outro, pura invenção, para sentirmos e pensarmos de outra forma.
Pois bem. Há um teatro antigo, por aqui cada vez mais raro, aquele que poderíamos chamar de grande teatro, o teatrão, senhor das chaves da imaginação, primo do sonho. Hoje, há o teatro-realidade, teatro-documento, parente bastardo do velhusco, pois para este aqui o que interessa mesmo é brincar de dar a palavra à realidade.
Sinceramente, não sei se a palavra gosta disto ou mesmo se ela, convidada a desfilar no antigo lugar devotado à mais descarada representação, se ela funciona de verdade neste figurino e para quê, nele, ela funciona. Segundo algumas más línguas, quem vai ao teatro da verdade vai lá ouvir o que já sabe, portanto, vai espanar a roupa velha, disfarçar os rasgadinhos e remendos.
Mas a festa não para por aí: teatro da ilusão, teatro da verdade são opostos simplórios para dar conta do desvario de nosso tempo. O pior é que a quebra da ilusão cênica antiga e a brincadeira com a verdade se esfacelaram em múltiplas vertentes. Pois é, teatro, teatro do teatro, teatro teatralizado, anti-teatro e teatro de ruptura. Pós-moderno, pós-dramático, pós-pós. De toda forma, seja como for, um dado salta aos olhos de todos: múltiplas são as formas do teatro do nosso tempo. Mais por aqui do que em qualquer outro lugar do mundo…
O motivo? Ah, o Brasil precisa ser vanguarda mundial. E aqui, inventaram de apostar no estado de invenção absoluta, portanto rejeição do teatro convencional. Existe texto? – sou contra, brada o palco. Em breve teremos dificuldade para entender o que vem a ser mesmo teatro no sentido formal do termo.
Seremos, dentre as grandes cidades do mundo, os únicos lugares impossíveis para ver Shakespeare ou Molière ou Tchekhov ou Shaw ou Pirandello ou Jorge Andrade… Mas, mesmo sem relação próxima com a grande tradição, teremos viscerais encenações, demolidoras ou críticas, dos tais belos textos bolorentos. Teatro do teatro do teatro ou menos.
Logo, teremos um outro grande enigma: como entender as pessoas loucas que apostaram o ser e a alma para dar vida aos grandes textos de dramaturgos magistrais? Como explicar atores que não se formaram no cultivo do improviso, da cena desconstruída, da performance-puro-ato-de-criação?
Muitos aprenderam bastante na velha escola, deram o melhor de suas vidas por isto, se transformaram, transformaram as gentes ao redor, defenderam a ideia de que o fundamental é iluminar a aventura humana, para se surpreender diante de sua riqueza, contemplar tramas de vida emaranhadas.
Como entender a dimensão histórica de Ruth de Souza (1921-2019) sem termos a noção clara do que é o grande teatro e sem reconhecermos o sentido do grande teatro para a existência humana? Há um sentido do teatro enquanto estrutura profunda da vida que não se pode perder.
Nas entrevistas sobre a sua origem e sua formação, Ruth de Souza gostava de contar que aprendeu a ir ao teatro e a amar a cena graças aos ingressos que a sua mãe, lavadeira, ganhava das patroas. Assim, pode ver óperas e grandes espetáculos no Theatro Municipal – ia com o melhor vestido, toda arrumadinha.
Assim, se tornou, em 1945, a primeira artista negra brasileira a representar no palco do Theatro Municipal, como atriz do Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias do Nascimento e Agnaldo Camargo. A peça era O Imperador Jones, de Eugene O’Neill. Ou seja: grande teatro de absoluta qualidade dramatúrgica.
Sob a influência de Paschoal Carlos Magno, considerado por ela como um grande mentor, recebeu uma bolsa de estudos da Rockfeller Foundation, para fazer um curso de teatro na Karamu House, grupo fundado em 1941, o mais antigo teatro afro-americano dos Estados Unidos, e um estágio na Haward University, uma chance para mergulhar nas referencias do teatrão de alto coturno.
A carreira de Ruth de Souza no teatro brasileiro – além de sua extensa atuação no cinema e na televisão – revela o perfil de uma grande dama. Além da devoção ao TEN e do trabalho intenso com a equipe, ela foi dirigida por nomes históricos tais como Ziembinski, Turkov, Dulcina de Moraes, Sergio Cardoso, Nydia Licia, Amir Haddad, Antunes Filho, Ulysses Cruz. A dramaturgia encenada por ela reúne autores de impacto para a história do teatro, de O’Neill a novos autores nacionais, de Camus a Nelson Rodrigues e Jorge Andrade.
Dotada de aguda inteligência cênica, Ruth de Souza percebeu cedo, no início da crise do teatro moderno, uma crise objetiva de linguagem, algo da falência do teatro nacional. Trata-se da mesma velha crise, hoje assustadora, inclinada a reduzir tudo a jogo de invenção, ainda que pueril.
Ao comentar, em entrevista para a Série Aplauso, a concepção de Antunes Filho para Vereda da Salvação, de Jorge Andrade, cartaz do final da história do TBC em 1964, ela observou, entre lúcida e ácida:
“Era um elenco numeroso, com mais de 20 atores, encabeçado por Cleyde Yaconis, Raul Cortez e Lélia Abramo. Eu não estava cogitada para fazer a peça. Jorge Andrade foi à minha casa e me disse: “Ruth, a atriz que estava fazendo a Germana não consegue suportar a dureza dos ensaios e pediu para sair da peça. Vim aqui te convidar para o lugar dela”. Aceitei, claro, mas realmente trabalhar com Antunes Filho não é brincadeira. Foram seis meses de ensaios exaustivos. A pobre da Cleyde Yaconis ficava tentando se libertar de umas correntes que a aprisionavam; Aracy Balabanian andava no palco, de um lado para o outro, com uma expressão estranha, imitando um urso polar. Stênio Garcia tinha de levar todo o elenco para o sítio da Cleyde e se escondia no mato para assustar os demais. Cada ator fazia um animal. Cheguei para os ensaios resolvi interpretar um gato. Ficava andando de leve, quase na ponta dos pés, soltando miados suaves. Enquanto isso, o Antunes Filho estava lá, sentado e fumando. O resultado é que Vereda da Salvação foi um dos maiores fracassos do teatro brasileiro.”(Aplauso, p. 73)
Apesar de ser apenas uma fonte, ela é eloquente e permite sustentar um ponto de vista contundente – a crise atual do teatro brasileiro ainda é a crise do teatro moderno. Nasceu da incapacidade da classe de assumir sem constrangimento a singeleza do moderno, ato mínimo delicado como uma canção com João Gilberto.
Há, portanto, uma lógica implacável no processo histórico. Homenagear Ruth de Souza parece um ato simples – basta honrar o grande teatro, aquele que ela percebeu como um caminho para a libertação social, política, cultural, étnica e moral.
Consequentemente, o Rio de Janeiro deveria finalmente construir um teatro, num daqueles belíssimos casarões incendiados do Centro, para sediar o Teatro Experimental do Negro. Isto seria uma verdadeira homenagem.
O TEN erguido em memória à atriz seria um centro cultural no sentido maior do termo. Teria aulas de cultura geral e de cultura afro-brasileira, de teatro e de dramaturgia. Assinaria convênios com instituições congêneres do mundo, a Karamu House, por exemplo. Teria uma grande sala de espetáculos – Sala Ruth de Souza.
Duas madrinhas presidiriam o processo – a belíssima jovem IZA, um exemplo sublime de encanto brasileiro, e a irresistível dama da cena negra mais palpitante, Tais Araújo. IZA é de Olaria, Tais é do Méier, Ruth de Souza era do Engenho de Dentro – a magia suburbana precisa assumir o seu poder, para mudar a cidade.
E mudar o teatro. Inaceitável a inexistência de um teatro negro regular no Rio. Inaceitável a inexistência de um teatro negro carioca pródigo em palavras, pleno poder de pensar e dizer.
Talvez as palavras fujam quando as grandes damas partem e, no seu lugar, não vemos a permanência de seus nobres gestos. De que adianta louvarmos a grandeza absoluta de Ruth de Souza apenas com palavras, se as tais palavras são apenas sons fugidios vazios, não trazem obra elevada?
Evoé, Ruth – que tenhamos em breve um teto para, irmanados, falarmos da grandeza que foi ter, um dia, entre nós, junto do coração do teatro, você.
SERVIÇO
Cronologia básica de Ruth de Souza (1921-2019)
Teatro
TEN
o 1945 – O Imperador Jones
o 1946 – Todos os Filhos de Deus têm Asas
o 1946 – O Moleque Sonhador
o 1947 – O Filho Pródigo
o 1947 – Terras do Sem-Fim
o 1948 – Recital Castro Alves
o 1948 – A Família e a Festa na Roça
o 1949 – Aruanda
o 1949 – Filhos de Santo
o 1949 – Calígula
TEATRO DE CAMARA
o 1949 – Mensagem sem Rumo
CIA NYDIA LICIA – SERGIO CARDOSO
o 1952 – Vestido de Noiva
o 1959/1960 – Oração Para uma Negra
o 1961 – Quarto de Despejo
TEATRO BRASILEIRO DE COMEDIA
o 1964 – Vereda da Salvação
TEATRO POPULAR DO SESI
o 1967 – O Milagre de Anne Sullivan
MONTAGENS INDEPENDENTES
o 1978 – A Revolução dos Patos
o 1980 – Passageiros da Estrela
o 1983 – Requiém para uma Negra
o 1994 – Anjo Negro
o 1999 – 8 Mulheres
High-res version
Paris: de todas as almas, de todas as missas
Talvez algum dia, por um feliz acaso da sorte, você tenha tido a chance de estar num lugar de sonho. Um lugar daqueles em que as suas melhores expectativas estiveram alertas, para serem, com felicidade, atendidas.
Ou pode ser que isto tenha sido sempre só um sonho: o gostinho de passear por um lugar do mundo apaziguado, dominado pela alegria de viver, um cantinho para curtir como um aconchego seu. Enfim, um lugar ideal para a sua alma.
Seja lá como for, aproveite e celebre a vida. Está em cartaz no horário alternativo do Teatro Maison de France um acontecimento teatral adequado para reviver este tipo de sentimento, a busca do momento em que o melhor de si esteve livre, amando o seu ao redor, em comunhão com o mundo… Formidable!
A proposta é irresistível, em especial se alguma vez na vida você se encantou com o charme de viver tipicamente francês. Pois o espetáculo honra esta vertigem de sensações positivas, faiscante como uma taça de champanhe, um momento refinado de evocação sentimental. Sim, aproveite, a temporada será curta, repito: vá ver… Formidable. Na cena, as memórias, a voz e a elegância de Mauricio Baduh. Na plateia, você, envolto numa seleção refinada de canções francesas.
High-res version
Madureira sorriu de alegria: na Glória, festa da APTR
“Quem não conheceu o subúrbio do Rio, passou pela vida e não viveu. Não, não falo do subúrbio de agora, mera trama periférica sofrida, poluída, abandonada por todos os governantes, um desafio para quem se aventurar por lá, ainda que recompensado com belezas raras, grandezas humanas surpreendentes, o autêntico tesouro suburbano. Falo de um subúrbio-subúrbio mesmo, bucólico, arredio, tingido de clima rural, com ruas de barro aqui e ali, tufos de capim, terrenos baldios, carroças de burro, cerâmicas vermelhas ou caquinho, varandas e jardins, santinhos nas fachadas, um lugar ainda alheio ao reinado do cimento e do asfalto.
O trânsito era gentil e resfolegante, os ladrões escassos, valia ir a pé a vários lugares, as compras sentiam a limitação do pequeno comércio, os mascates faziam festa com os carnês de prestações. Havia um tempo longo ao redor de tudo, a televisão da vizinha era a janela ou a gelosia para vigiar a vida alheia, em especial dos jovens, o rádio ainda era o grande soberano e as pipas, as bolas de gude e as correrias na rua disputavam as folgas escolares.
Sim, o lugar nevrálgico da cidade era o Centro. Ou a Cidade – com letra maiúscula. O resto era uma espécie de descampado ou deserdado urbano, ainda que romântico. Lá no Centro se resolvia tudo, do bom e do melhor, tanto fosse o documento oficial, a repartição importante, quanto o médico generalista ou o especialista, ou o comércio de verdade. Ir ao Centro era um evento de gala, com boas roupas e alguma pose.
A viagem longa dava motivo para um lanche numa leiteria, garçons engomados servindo café com leite, chá, chocolate. Para sublinhar o encanto da tarde, memoráveis sanduíches de pão francês estalando com queijo minas ou amarelo ou presunto… Mingau, não, nunca, nem coalhada – eram coisa de mãe, para comer em casa.
Não existia fast-food nem lanchonete. Mas o primeiro cachorro-quente também apareceu por lá, novidade das Lojas Americanas, versão popular da Mesbla. Aliás, a primeira escada rolante escandalizou a vida na Sears, monumental edifício na Praia de Botafogo, grandeza que ombreava a requintada Sloper, no Centro. Até os verbos de trânsito tinham imponência – descia-se para ir ao Centro, voltar para casa era subir, uma coreografia associada à proximidade do mar.
O mar, aliás, se impunha com autoridade bem mais nítida. Havia muito mais praia e mar por toda a cidade. Dava para banhar-se e ter prazer passeando em todos os meandros da Baía de Guanabara. A praia não era sinônimo de Zona Sul: os cariocas iam à praia, fossem suburbanos ou sulistas. Exemplos? Ah, prepare-se para ouvir.
O balneário suburbano de eleição para as férias era Sepetiba. Ia-se de carro, com todas as tralhas amadas pelos farofeiros, mas o grande barato mesmo era ir de trem, até Santa Cruz, e de lá pegar um lotação ou ônibus. Sepetiba era adorada pelos velhos, tinha fama de praia medicinal por causa da – argh – lama. E era um programa de longo curso, para alugar casa ou sítio e ficar por lá, longe da escola, com os adultos podendo ir e vir para a cidade.
No redemoinho da cidade mesmo, havia um paraíso chamado Ilha do Governador, secundado por outro um pouco mais longe, a Ilha de Paquetá. Acredite: eram balneáveis e agradabilíssimas. Na Ilha, a praia mais queridinha era a do Galeão, fato inacreditável para quem a vê hoje, quase um valão lixento.
E nem vou estender a lista para enumerar todas as praias do fundo da baia, hoje lugares para lá de deprimidos, sufocados de pobreza, miséria, baixa política, banditismo, poluição… Não, caro leitor, não peguei a praia de Santa Luzia, nem a do Caju – não sou tão velha assim – mas veja que houve uma história do mar que se perdeu. Perdemos praias. Confesso que ouvi falar alguma coisa a respeito de muitas delas, ainda que nada muito abonador, pois foram suprimidas quando já estavam decadentes. Somos tão selvagens que extinguimos praias, garroteando-as antes do golpe final.
Mas, prossigamos – para coroar o prazer praieiro, havia um grande areal selvagem verdadeiramente deslumbrante, alcançado por um caminho sinuoso de dar dó, a ensolarada Barra da Tijuca. Era fundamental ir de automóvel e com todo o farnel da farofa – nos primeiros tempos, não tinha nada por lá mesmo e, crianças, brincávamos que apareceriam índios. Um dia pelo caminho surgiu o histórico Rancho das Fantas, com um inacreditável pastel de siri, companhia perfeita para um guaraná gelado.
Não era só isto – com certeza encantava a todos mergulhar nas praias da Zona Sul. Naqueles tempos, as areias eleitas eram Copacabana, em especial o posto 6, e a sempre amada Urca, com a Praia Vermelha e a Praia da Urca. Sim, sempre houve o Flamengo, mas nunca estive nas águas de lá. E desconfio que Botafogo já vivia deserdado, talvez por causa do óleo dos barcos e iates. Ipanema e Leblon eram passeios muito raros, mais para a lenda urbana do que roteiro de vida: quem estava na zona sul não aceitava ir até o meio do nada, no mato, e deixar para trás o feitiço das praias urbanas civilizadas, em particular as pérolas de Copacabana.
O subúrbio, contudo, tinha vida própria pulsante, não funcionava como dormitório urbano ou roça fora do tempo. Alguns bairros se notabilizavam como pontos de efervescência citadina: Madureira e Méier em particular, já que a Tijuca se achava importante demais, acreditava ser um ponto errante da zona sul perdido no espaço florestal.
Apesar do poder mágico do Méier, confesso o meu fascínio por Madureira: o bairro conseguia unir uma variedade estonteante de referências humanas. Tinha um forte comércio, muito variado, cinemas, um mercadão para qualquer criança se perder, time de futebol, teatro, escola normal, maternidade…
E Madureira tinha muita macumba, candomblé, ciganos, protestantes, católicos, judeus, uma babel de almas borbulhantes em harmonia. Dizem que o acaso do destino fez com que o bairro nascesse num cruzamento de caminhos – ali, onde todos os caminhantes se esbarravam para descansar, só podia nascer um ponto de encontro forte.
Tão forte que não falta comemoração: este mês o bairro completou 406 anos e uma festança de levantar poeira se espalhou por vários dos seus recantos. Madureira tem brio e reage forte contra o astral de suburbanicídio que impera no Rio. Afinal, a Zona Norte é o celeiro mágico da sensibilidade carioca: enquanto a Zona Sul faz pose e boceja, a Zona Norte cria e se mexe.
Assim, vale destacar a alentada programação especial, com teatro, dança, música, artes visuais, literatura, esporte, cursos e oficinas, concebida pelo Sesc Madureira, que prosseguirá até o dia 31. Na realidade, como Madureira é sinônimo de festa, algumas atividades ficarão em cartaz até o fim do ano, pois o madureirense de fibra não comemora pouco.
Por falar em festa, vale destacar que o mês está bem no calendário, o ânimo comemorativo não vive só em Madureira. Não vai faltar festa para fechar o mês – amanhã, terça, será a noite de premiação da APTR, com a aclamação dos melhores do teatro em 2018. Basta examinar a lista e torcer.
Mais do que isto, na verdade. Vale lutar para que a festa, no recém inaugurado Teatro Prudential, uma casa de fina extração para sensibilidades requintadas, marque uma virada a favor do teatro. Quem sabe se, assim, a velha arte, tão maltratada, escape da síndrome recente, esta atmosfera sombria propícia a torná-la uma gata borralheira.
Pois, aqui entre nós, como diria uma velha fofoqueira suburbana, vamos combinar: o teatro anda mal. Anda combalido, sorumbático, caidaço mesmo, como se fosse uma espécie atual de ente suburbano, um deserdado do mundo das artes, ainda que, por ironia, a sua existência persista, hoje, confinada à Zona Sul… Brindemos, então, à sua saúde, na esperança de que o clima do teatro chique respingue grandeza na alma desanimada.Ou, então, que o teatro olhe para a garra de Madureira: pare de reclamar, levante, sacuda a poeira e dê a volta por cima.
SERVIÇO
Aniversário de Madureira – Rio de Madureira
Organização: Sesc Madureira
Programação: de 11 a 31 de maio/2019, lista completa no site http://www.sescrio.org.br.
Artes Cênicas: 31 de maio, às 19h, “O mar serenou: um conto de Clara”.
Poesia: 31 de maio, às 18h, segunda edição do Sarau “Coletivo Poesia de Esquina”, com repertório especialmente dedicado ao aniversário do bairro de Madureira.
Quintas-feiras até dezembro, das 17h às 19h: curso de circo, para maiores de 13 anos.
Sábados, até 14 de dezembro, das 14:30h às 16:30h, aulas de dança Charme.
28 de maio, das 14h às 18h, Feira de economia criativa, com empreendedores manuais de diversos segmentos, exposição e venda de produtos do universo “retrô”.
Foto Marcelo Reis – Madureira: O mar serenou
O mar serenou: um conto de Clara
Ficha Técnica:
Texto – Cazé Neto
Direção – Cazé Neto e Milton Filho
Direção de Movimento – Raphael Rodrigues
Direção e Supervisão Musical – Marcio Eduardo Mello
Elenco – Renata Tavares, Fernanda Sabot, Fernanda Misailidis, Dilene Prado, Zéza, Tyago Caetano, Robson Soares e Pablo Dutra
Músicos – Luizinho Croset – Di Lutgardes – China Show – Wallace
Cenário (Concepção) – Welington Leite
Iluminação – Jorge Raibott
Desenho e Operação de Som – André Cavalcanti
Figurino – Teresa Abreu
Aderecista – Bruna Santos
Costureira – Márcia Jackson
Fotografia – Luiz Paulo Silva
Produção Executiva – Mônica Lucas
13° Prêmio APTR
Homenagem: atriz Marieta Severo,
terça, 28 de maio, às 20h (abertura)
Teatro Prudential (antigo teatro Manchete)
Apresentadores: Drica Moraes e Marco Nanini.
Indicados:
MÚSICA
EGBERTO GISMONTI (MÚSICA) E DANY ROLAND (TRILHA SONORA): Grande Sertão: Veredas
FELIPE STORINO E FÁBIO STORINO: A Última Aventura é a Morte
FABIANO KRIEGER E GUSTAVO SALGADO (DIREÇÃO MUSICAL) E FABIANO KRIEGER E LEANDRO MUNIZ (MÚSICAS ORIGINAIS): A Vida não é um Musical – O Musical
PEDRO LUÍS, LARISSA LUZ E ANTÔNIA ADNET: Elza
THEREZA TINOCO (MÚSICA ORIGINAL) e TONY LUCCHESI (ARRANJOS e DIREÇÃO MUSICAL): Bibi, Uma Vida em Musical
ILUMINAÇÃO
BINHO SCHAEFER E BIA LESSA: Grande Sertão: Veredas
FELICIO MAFRA: Memórias do Esquecimento
MARCELO LAZZARATTO: Ilhada em Mim – Sylvia Plath
MONIQUE GARDENBERG E ADRIANA ORTIZ: Romeu e Julieta
RENATO MACHADO: Elza
FIGURINO
CLAUDIO TOVAR: O Homem de la Mancha
JOÃO PIMENTA: Dogville
JOÃO PIMENTA: Romeu e Julieta
MARIA DUARTE e MÁRCIA PITANGA: Um Tartufo
NEY MADEIRA E DANI VIDAL: Bibi, Uma Vida em Musical
CENOGRAFIA
BELI ARAÚJO E CESAR AUGUSTO: Insetos
CAMILA TOLEDO COM COLABORAÇÃO DE PAULO MENDES DA ROCHA: Grande Sertão: Veredas
DANIELA THOMAS: Romeu e Julieta
DÓRIS ROLEMBERG: A Última Aventura é a Morte
MATHIEU DUVIGNAUD: A Invenção do Nordeste
ATOR EM PAPEL COADJUVANTE
CLAUDIO GALVAN: Romeu e Julieta
MATEUS CARDOSO: A Invenção do Nordeste
NILTON BICUDO: Molière, Uma Comédia Musical de Sabina Berman
ROBSON MEDEIROS: A Invenção do Nordeste
VITOR THIRÉ: Vou Deixar de Ser Feliz por Medo de Ficar Triste?
ATRIZ EM PAPEL COADJUVANTE
ELENCO COADJUVANTE: (KÉSIA ESTÁCIO, JANAMÔ, KHRYSTAL, LAÍS LACORTE, VERÔNICA BONFIM, JÚLIA TIZUMBA) Elza
GEORGETTE FADEL: Molière, Uma Comédia Musical de Sabina Berman
LUISA ARRAES: Grande Sertão: Veredas
STELLA MARIA RODRIGUES: Romeu e Julieta
STELLA MIRANDA: Frenético Dancin Days
DIREÇÃO
BIA LESSA: Grande Sertão: Veredas
BRUCE GOMLEVSKY: Um Tartufo
DUDA MAIA: Elza
GUILHERME LEME GARCIA: Romeu e Julieta
QUITÉRIA KELLY: A Invenção do Nordeste
TADEU AGUIAR: Bibi, Uma Vida em Musical
AUTOR
LEANDRO MUNIZ : A Vida Não é um Musical – O Musical
LEONARDO NETTO: A Ordem Natural das Coisas
MARIANA LIMA: Cérebrocoração
PABLO CAPISTRANO E HENRIQUE FONTES: A Invenção do Nordeste
PEDRO BRÍCIO: O Condomínio
ATOR EM PAPEL PROTAGONISTA
BRUCE GOMLEVSKY: Memórias do Esquecimento
CAIO BLAT: Grande Sertão: Veredas
DANIEL DANTAS: O Inoportuno
JOÃO VELHO: A Ordem Natural das Coisas
MATHEUS NACHTERGAELE: Molière, Uma Comédia Musical de Sabina Berman
ATRIZ EM PAPEL PROTAGONISTA
AMANDA ACOSTA: Bibi, Uma Vida em Musical
AMANDA LYRA: Quarto 19
GISELE FRÓES: O Imortal
LARISSA LUZ: Elza
MARIANA LIMA: Cérebrocoração
ESPECIAL
CIA DOS COMUNS pelos 18 anos de trabalho continuado, estimulando e valorizando o teatro negro brasileiro.
FIL- FESTIVAL INTERNACIONAL INTERCÂMBIO DE LINGUAGENS pela sua excelência e realização continuada ao longo de 16 anos
NICETTE BRUNO por sua participação em Pippim e trajetória artística no teatro.
REABERTURA DO TEATRO ADOLPHO BLOCH
ULYSSES RABELO pelo Visagismo de Bibi, uma vida em musical e seus 30 anos de carreira.
ESPETÁCULO
BIBI, UMA VIDA EM MUSICAL
ELZA
GRANDE SERTÃO: VEREDAS
A INVENÇÃO DO NORDESTE
A ÚLTIMA AVENTURA É A MORTE
PRODUÇÃO
AVENTURA ENTRETENIMENTO – Romeu e Julieta
NEGRI E TINOCO PRODUÇÕES ARTÍSTICAS – Bibi – Uma Vida em Musical
BRAIN + E QUARTA DIMENSÃO – 70? Doc. Musical Década do Divino Maravilhoso
2+3 PRODUÇÕES ARTÍSTICAS LTDA – Grande Sertão: Veredas
SARAU AGÊNCIA DE CULTURA BRASILEIRA – Elza
TEMA EVENTOS CULTURAIS – Elizeth, a Divina
Tagged: APTR, História do Rio de Janeiro, História do Subúrbio, Madureira, Marieta Severo, Memórias do Rio, Prêmio APTR, Teatro 2018, Teatro Prudential
High-res version
O poder cultural do fogo
“Existem incêndios possíveis e incêndios impossíveis. Os primeiros, apesar de ruinosos, são explicáveis pela razão. Os segundos, mais devastadores, são aqueles diante dos quais o principio soberano da inteligência, sempre reinante, não consegue se afirmar. Diante do fogo impossível, permanecemos perplexos, congelados no ar, em suspenso, como gárgulas humanas.
Ainda assim, sempre vale tentar fazer valer a maior lei humana, a do pensamento. São muitas as lições do fogo: entre a ameaça, o perigo e a destruição, paira a ideia de renovação. Das cinzas, nasce o novo. A confirmação e a renovação se impõem. Ou não – com frequência, das cinzas não nasce nada, a não ser noções abstratas de que tudo deveria ter sido diferente. São os incêndios possíveis, aos quais a mente se dedica com muito êxito, mas nem sempre com resultado positivo, pois os incêndios possíveis possuem o dom de se repetir. Diante dos impossíveis, mesmo que haja a ressureição, a mente permanece no ar, atônita.
High-res version
Quando a cena é poesia
Dois símbolos absolutos da liberdade humana estão em cena: o trem e o teatro. A delicadeza do tratamento do tema, a insinuar que a liberdade é um bem maior ao alcance de todos, é obra da Argentina. Portanto, corra para ver, aproveite para estreitar as suas relações com o país irmão – Como se um trem passasse, de Lorena Romanin, autora e diretora argentina, está em cartaz no Teatro Poeirinha. É um espetáculo de excelência, teatro em tom maior.
Também, pudera, a Argentina conhece teatro tanto como qualquer hábil maquinista domina a sua locomotiva e governa os seus trilhos. Os hermanos não sofrem de preconceitos de arte, não acham que devem derrubar os teatros para se meter em galpões de pura pesquisa. Portanto, vale avisar de saída, dá para resumir a montagem em duas palavras – beleza irresistível. Do texto à cena, só há razão para ser feliz, saudar a crença no lado guerreiro da vida, aquele que o teatro ama mostrar.
High-res version
Conversa de festival: o corpo
Um dos grandes méritos dos festivais é o estímulo à conversa de arte. Neste campo, o Festival de Curitiba alcança um desempenho notável. A orientação do evento é esta, favorecer o encontro e a fala. Enquanto uma companhia, um elenco e um número de convidados está na cidade, tudo funciona para favorecer o encontro, a conversa, a troca de ideias.
Curioso observar que acontece até uma bela conversa sem palavras, a conversa contracena, quer dizer, o bate papo animado de uma cena com a outra. De repente, ver tal produção ao lado daquela outra promove um pensamento teatral novo, estimula a descoberta de ligações e rupturas que, de outra forma, na simples sucessão dos cartazes, não seriam perceptíveis.
Na edição de 2019, uma conversa interessante no primeiro bloco de montagens do festival, da estreia do evento até este fim de semana passado, diz respeito à performance e ao corpo em cena. O teatro brasileiro vive hoje uma intensidade física do ator bastante peculiar.
High-res version
Assustados do bem, no Rio de Janeiro
Confesse sem medo: você anda vivendo de sobressalto em sobressalto, no susto, se esgueirando na vida. E sabe muito bem que a chance de acabar logo com isso não está no horizonte, é imprevisível. Pois, então, o que não tem remédio, remediado está, reze para que Susto, o cartaz mais divertido da temporada, que esteve até este domingo de pré-carnaval no Teatro dos 4, volte ao palco.
Para o espírito carioca, amante da irreverência diante de si e diante de tudo, o hilário Susto, texto virtuoso de Saulo Sisnado, é imperdível de verdade, coisa para chorar de rir. Mas acabou, para a tristeza geral de todos. Então, fazer o quê? Só nos resta torcer para que esta oportunidade tão sintonizada com o espírito da cidade não nos abandone, reencarne, retorne do além-cena para nos ajudar a aliviar os horrores nossos da atualidade. A cidade merece!
High-res version
Roberto Carlos, o dono do tempo
Uma entidade – a expressão é a que melhor define Roberto Carlos hoje na sociedade brasileira. Isto significa, em linguagem mitológica, digamos, uma via láctea além da celebridade. A constatação é imediata a bordo do Projeto Emoções em Alto Mar 2019, que singra o oceano em direção a Santos, escala final, amanhã, dia 20, da viagem iniciada dia 16 de fevereiro. Lá, existe um universo sentimental único, um encontro de natureza bastante especial.
Dentro do navio Costa Favolosa, é possível ser simplesmente fã, viver Roberto Carlos vinte e quatro horas por dia. O som ambiente reproduz sem parar as canções que ele fez para todos nós, as atrações combinam a rotina usual dos cruzeiros com atividades de eleição do Rei e, cereja irresistível do bolo, há um show modelado para o ambiente, no teatro flutuante, muito mais aconchegante do que as apresentações habituais. De certa forma, o que acontece a bordo é um mergulho no universo do cantor.
High-res version
Roberto Carlos, o dono do tempo
Uma entidade – a expressão é a que melhor define Roberto Carlos hoje na sociedade brasileira. Isto significa, em linguagem mitológica, digamos, uma via láctea além da celebridade. A constatação é imediata a bordo do Projeto Emoções em Alto Mar 2019, que singra o oceano em direção a Santos, escala final, amanhã, dia 20, da viagem iniciada dia 16 de fevereiro. Lá, existe um universo sentimental único, um encontro de natureza bastante especial.
Dentro do navio Costa Favolosa, é possível ser simplesmente fã, viver Roberto Carlos vinte e quatro horas por dia. O som ambiente reproduz sem parar as canções que ele fez para todos nós, as atrações combinam a rotina usual dos cruzeiros com atividades de eleição do Rei e, cereja irresistível do bolo, há um show modelado para o ambiente, no teatro flutuante, muito mais aconchegante do que as apresentações habituais. De certa forma, o que acontece a bordo é um mergulho no universo do cantor.
A rigor, a proposta é exatamente esta, tornar mais próximo, palpável mesmo, o grande astro, ainda que não seja possível, com mais de 3000 passageiros, instaurar uma confraternização ampla, geral e irrestrita. O astro permanece à distância, mas está ali, magnético. Para muitos fãs – a maioria – a proximidade com Roberto Carlos se dá apenas num dos shows, num total de três, para atender ao contigente numeroso de viajantes. Com alguma sorte, existe a possibilidade fugidia de vislumbrá-lo no show de Tom Cavalcanti, acompanhar a sua participação no Karaokê, esbarrar com ele na boate ou no cassino.
High-res version
O teatro, o ser e o mundo
Às vezes o teatro nos explode, numa féerie de incertezas, como se fosse uma bomba atônita. Em estilhaços, tocamos o absoluto. É raro, mas acontece. Um exemplo? Corra para ver As Crianças, de Lucy Kirkwood, novo cartaz do Teatro Poeira. Você vai ver, em suspenso no ar, o mais arrebatador drama doméstico da sua vida.
Não, não se trata de passatempo vulgar, novelesco, descartável. O doméstico aqui significa algo humano maior, a nossa imensa irmandade, pois habitamos todos a mesma casa, a Terra. E drama, aqui, tem quase um alcance trágico, por causa da nossa cegueira, da nossa impossibilidade de entender o quê, afinal, nós somos.
Não se assuste: não há lição de moral, fala de professor, intelectualismo ou hermetismo. E esta condição é que torna o espetáculo absoluto. É tudo teatro, apenas teatro. A equipe construiu uma cena teatral no sentido pleno, total, uma cena de completa sedução, um lugar em que você viverá um banho de poesia, como se nas suas veias circulasse apenas arte e fosse possível, num átimo, mudar o seu olhar para o mundo.