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Teatroville
Alguma vez na sua vida você viveu a experiência luminosa de flutuar no espaço infinito, liberto de toda materialidade mesquinha, entregue ao mais requintado jogo de ideias? Não, não é bebida, nem droga, nem alucinação ou pancada na cabeça – é teatro, puro teatro, na sua quintessência mais etérea, o velho e bom teatro amante dos humanos, soberano absoluto das almas.
É Dogville, adaptação teatral do filme de Lars Von Trier, assinada pelo genial diretor Zé Henrique de Paula, cartaz do Teatro Clara Nunes. Corra para ver e leve a sua turma: pode ser a única experiência teatral absoluta da sua vida. Você não vai esquecer nunca mais. E vai sair do teatro aturdido, pensando no que é que você faz na sua vidinha miúda com você. É o velho teatro revisto e sintonizado com as ferramentas criativas do nosso tempo, um mergulho na cena envolto em imagens fugazes de vídeo e filmagem, música rascante, vertigem de luz.
A cena árida de saída vai conduzir a sua percepção para um lugar trevoso, apagado, um galpão abandonado, um vazio humano disfarçado de cidade pequena. Um jogo teatral requintado começa: o palco é um palco, está quase nu, mas apresenta e representa. Assim, diante da plateia há um espaço vazio que é mesmo um palco, marcado por estruturas móveis, telas, vai e vem de cadeiras: ele é uma cidade. Impressiona a textura das cores, sombrias, do cinza ao preto, cores sujas, uma espécie de lama original, sobra de incêndio, coisa de lixo.
Um jovem mestre de cerimônias, quase um oficiante de um ritual de iniciação, frio, calculista, distante, protagonista fantasma, narra a ação dramática, do prólogo aos nove quadros, e comanda a ação num sentido surpreendente, para o desenlace. Vestido de preto e sem cara de sujo, o narrador construído por Eric Lenate indica a excelência da direção de ator de Zé Henrique de Paula graças a uma nota comum a todo o grande elenco. O desenho físico e gestual combina corpo natural e corpo simbólico de uma forma muito ardilosa, num convite permanente para a passagem do real ao simbólico.
Eric Lenate explora uma sinuosidade de corpo – e de alma, vale acrescentar – adequada ao seu papel de orquestrador supremo da história, encarregado da sentença definitiva a respeito de tudo. O seu personagem é duplo – numa evocação dos coloridos diabólicos dos autos medievais, ele transita como uma figura em negro, com filigrana vermelho, para narrar, mas se torna um misterioso poder em vermelho-sangue sobre tom negro, para tecer os meandros do desfecho impactante.
A trama é simples. A rigor, trata-se de uma fábula, estruturada como um ato de teatralidade profunda, sob uma clara influência de Brecht e Pinter, com um alcance moral direto. A mistura é inusitada, pois o primeiro buscava mostrar a razão e a verdade em cena, o segundo banhou o palco em desrazão plausível. Aqui o foco é o sonho de felicidade do indivíduo-cidadão. Mas há algo mais: o texto é inegável texto do nosso tempo, deste novo século, tem um cálculo corrosivo nosso na sua construção, um tom de nihilismo e de ousadia intelectual – o sonho é impossível.
O formato determina um enfrentamento desabrido da ideia de humanidade, revelada como tecido corroído, como se a moralidade pudesse ser apenas patrimônio de cada um, portanto impossibilidade. No meio dos cachorros, a virtude é filha do gangster e, no fim, o poder acaba por ser um acordo entre os dois. Explosivo, nitroglicerina na alma.
A proposta, basicamente, é a de oferecer um caminho épico-dramático de deslumbramento para que você, afinal, pense o seu lugar na vida em relação aos valores mais nobres do mundo ocidental. Portanto, há uma lição, como soe ocorrer nas fábulas. Para chegar até ela, o narrador conta a história de uma cidade cachorra, perdida no mapa, povoada por uma gente lixo, cachorra, esquecida de si e do mundo. Uma gente simples que poderia ter alguma envergadura civilizada.
Ilhas humanas desgarradas no seu fim de mundo, estes seres tão pequenos precisam de um outro personagem para conduzir a ação, no oco da cidade: um escritor-cachorro, sem livros e sem certezas, interessado em demonstrar uma improvável grandeza humana do lugar, Tom Edson. A figura, esculpida em cena com roupa farfalhante de cortante colorido em tons de terra, combinação desconcertante de barro e lama, impacta graças ao desempenho estruturado por Rodrigo Caetano, uma mistura sutil de parvoíce e cinismo. Espécie de co-protagonista, também diabólico porque inconsequente, é ele quem aciona a imaginação da plateia no grau delirante necessário: deseja demonstrar como as pessoas de Dogville são, na sua essência, boas.
Para cumprir a sua obra, ele é contemplado com a divina aparição de Grace – a graça feminina de bondade e ponderação, manipulada em requintada alquimia por Mel Lisboa. Arrebatadora, a atriz se impõe como o anjo do bem, delicado emissário metafísico capaz de suportar as misérias terrestres mais brutais em favor da comprovação da grandeza humana. Irresponsável por si, no seu idealismo tonto.
Ela é uma fugitiva e, fugidia, busca abrigo contra misteriosos perseguidores. Não deseja voltar ao mundo lá de fora. A sua aparência é um híbrido, estopim para incendiar as almas pequenas. É tanto a imagem do desejo, latente na roupa alinhada provocante, no batom, no tom solar, dourado, no vermelho paixão. E é também a pureza da graça, na sua lourice de tranças. De certa maneira, a trama apresentada contém uma revisão de A Alma Boa de Setsuan, de Brecht, um exercício teatral para delinear os riscos da bondade, com a visita de deuses à Terra para procurar ao menos uma pessoa boa.
Denunciada por Moisés, o cachorro da cidade cachorra, justo o nome daquele que trouxe as tábuas da lei, Grace é aceita pela comunidade por interferência de Tom. Em troca, se presta a realizar pequenos serviços para todos, ainda que, de início, deles eles nem precisassem. Logo a bela moça inexperiente se transforma numa escrava branca barata, aviltada, torturada, massacrada, pois teria se tornado perigoso abriga-la graças à procura intensa da polícia. As maiores barbaridades são cometidas contra ela – e perdoadas por ela.
Cada habitante, mesmo o menino imberbe, representa um pecado contra a ordem humana. Desfilam em cena o egoísmo, a avareza, a mesquinharia, a inveja, a mentira, o autoritarismo, a luxúria, a ira, a preguiça, a vaidade… o cortejo das baixarias capazes de reduzir a humanidade ao mais sórdido pó é pródigo. Haveria uma fina fresta, totalmente pessoal, por onde esgueirar-se neste jogo para fugir, mas isto significaria retroceder diante das próprias certezas. Quer dizer, aceitar o jogo do poder, pois o poder, a ordem de comando, humana, não parte necessariamente de uma força do bem. O poder, ao olhar apenas o seu próprio interesse, é um tipo de gangster.
Trata-se de uma obra monumental de ourivesaria teatral. Para alcançar este feito, Zé Henrique de Paula, um dos maiores diretores brasileiros da atualidade, fino desenhista da ação em cena, desde a marcação, no espaço, até a configuração do rol das intenções, no fluxo etéreo, recorreu a um elenco capaz de transportar todo e qualquer mortal aos céus. São texturas preciosas de expressão, movimento, irradiação de aura, percepção de conjunto, doação pública.
Fábio Assunção, virgem de teatro, entrega toda a sua força expressiva para a arte e é de lamentar o tempo que perdemos com a sua distância do palco – o seu Chuck reúne brutalidade, ignorância, carência, inteligência perversa num jogo sutil e multifacetado. Bianca Byington concilia a sua característica delicadeza inefável com o desespero, o egoísmo, a ausência maternal e a cegueira existencial de Vera, num exercício exemplar de não ver o próximo. A força telúrica impressionante de Selma Egrei transmuda-se em impactante avareza, transubstancia-se no ícone perfeito da mulher má. A naturalidade do menino Dudu Ejchel, na construção de Jason, é uma ácida insinuação de que a má fé pode ser erguida desde cedo.
Enfim, não há qualquer possibilidade de lançar restrições ao trabalho do elenco. A direção, na condução de atores de fôlego, desenhou um elenco no pleno sentido da palavra. Todos (e cada um) se projetam na medida exata da fábula, na arquitetura precisa das cenas, no jogo com as projeções e o vídeo-mapping, como se não houvesse amanhã e o teatro maior do mundo fosse este, hoje.
Anna Toledo (Martha), Marcelo Villas Boas (Ben), Gustavo Trestini (Sr. Henson), Fernanda Thuran (Liz), Thales Cabral (Bill Henson), Chris Couto (Sra Henson), Blota Filho (Thomas pai), Munir Pedrosa (Jack McKay) e Fernanda Couto (Glória) transformam pequenos nadas em lâminas de fatiar almas. Integram uma máquina de emocionar e de fazer pensar muito requintada. No palco, espectadores omissos do mundo, cada personagem tem uma cadeira, explorada em múltiplos simbolismos. O movimento se amplia a partir da esfera corporal de cada um e, no palco vazio, como se o sórdido galpão fosse metáfora do mundo, eles sugerem pobres nichos para chamar de seus e se abrigar da verdade da vida.
A cenografia de Bruno Anselmo participa de forma muito integrada na armação deste jogo cênico – praticável, maleável, móvel, também de cores sujas, ela se presta para construir o espaço volátil e para as projeções. A luz de Fran Barros ultrapassa todas as exigências técnicas – dar visibilidade, desenhar climas, amparar as projeções – para contribuir de forma decisiva para a criação de uma comovente poesia do espaço. É arrebatador. Vale o aviso: prepare-se para voar.
Sim, poesia do espaço, importa frisar – dogville, cidade cachorra, é antes de tudo um lugar. Uma espacialidade adequada para dizer muito, alto e bom som, de uma humanidade nossa, de hoje, perdida de si, dos valores que deveriam ser a base de sua existência, deveriam ser a sua razão de ser. Isto se desejarmos de verdade preservar a vida, honrar o humano. A radical poesia cênica arrebata por falar de nós, homens sem Deus, ainda que religiosos, derrotados filhos do lixo e do plástico que nós próprios criamos, incompetentes diante do nosso mundo. Um tapa na cara, para crescer. Atenção, a temporada será curta, corra para ver. O velho e bom teatro vai te abraçar, vai te deixar voar livre, puro, num mundo de ideias interessadas em celebrar o humano, ideias teatrais essenciais.
P.S. – Depois que o teatro raptou a minha alma, nos anos oitenta, passei a ter muita dificuldade para me manter fiel à minha velha paixão cinéfila, cultivada desde a infância. Passei a trair sem dó o cinema. Perco todos os filmes. Não vi Dogville. Recomendado por uma aluna brilhante, Paula Sandroni, comprei o dvd – mas até hoje ele permanece virgem na estante. Portanto, fica a dica: esta crítica é um puro e simples olhar para o teatro.
Título Original: Dogville.
Autor: Lars Von Trier.
Direção: Zé Henrique de Paula.
Elenco: Mel Lisboa (Grace), Eric Lenate (Narrador), Fábio Assunção (Chuck), Bianca Byington (vera), Rodrigo Caetano (Tom Edison), Anna Toledo (Martha), Marcelo Villas Boas (Ben), Gustavo Trestini (Sr Henson), Fernanda Thuran (Liz), Thalles Cabral (Bill Henson), Chris Couto (Sra Henson), Blota Filho (Thomas Pai), Munir Pedrosa (Jack McKay), Selma Egrei Ma Ginger), Fernanda Couto (Glória) e Dudu Ejchel (Jason).
Idealização: Felipe Lima.
Cenário: Bruno Anselmo
Luz: Fran Barros
Figurino: João Pimenta
Visagismo: Wanderley Nunes
Trilha Sonora Original: Fernanda Maia
Realização: Sevenx Produções Artísticas.
Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli
Estreia dia 2 de novembro no Teatro Clara Nunes.
Temporada: De 2 de novembro a 16 de dezembro. Sextas e sábados, às 21h e Domingos, às 20h.
Duração: 120 minutos. Classificação: 16 anos. Ingressos: Sexta-feira Plateia: R$ 80,00 (inteira) / R$ 40,00 (meia). Balcão: R$ 50,00 (inteira) / R$ 25,00 (meia). Sábados e Domingos: Plateia: R$ 100,00 (inteira) / R$ 50,00 (meia). Balcão: R$ 70,00 (inteira) / R$ 35,00 (meia)
TEATRO CLARA NUNES – Shopping da Gávea, R. Marquês de São Vicente, 52 – Gávea, Rio de Janeiro – RJ. Tel.: (21) 2274-9696
Horários da bilheteria: Segunda a sábado, das 13h às 21h. Domingo, das 13h às 20h.
TEATRO PORTO SEGURO – SP
De 25 de janeiro e 31 de março de 2019 – Sextas e sábados às 21h e domingo às 19h.
Ingressos: Sextas-feiras R$ 80,00 plateia / R$ 50,00 balcão/frisas. Sábados e domingos R$ 90,00 plateia / R$ 60,00 balcão/frisas.
Classificação: 16 anos.
Duração: 100 minutos.
TEATRO PORTO SEGURO
Al. Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elíseos – São Paulo.
Telefone (11) 3226.7300.
Bilheteria: De terça a sábado, das 13h às 21h e domingos, das 12h às 19h.
Capacidade: 496 lugares.
Formas de pagamento: Cartão de crédito e débito (Visa, Mastercard, Elo e Diners).
Acessibilidade: 10 lugares para cadeirantes e 5 cadeiras para obesos.
Estacionamento no local: Estapar R$ 20,00 (self parking) – Clientes Porto Seguro têm 50% de desconto.
Serviço de Vans: TRANSPORTE GRATUITO ESTAÇÃO LUZ – TEATRO PORTO SEGURO – ESTAÇÃO LUZ. O Teatro Porto Seguro oferece vans gratuitas da Estação Luz até as dependências do Teatro. COMO PEGAR: Na Estação Luz, na saída Rua José Paulino/Praça da Luz/Pinacoteca, vans personalizadas passam em frente ao local indicado para pegar os espectadores. Para mais informações, contate a equipe do Teatro Porto Seguro.
Tagged: Anna Toledo, Bianca Byington, Blota Filho, Bruno Anselmo, Chris Couto, Dogville, Dudu Ejchel, Eric Lenate, Fábio Assunção, Felipe Lima, Fernanda Couto, Fernanda Maia, Fernanda Thuran, Fran Barros, Gustavo trestini, João Pimenta, Lars Von Trier, Marcelo Villas Boas, Mel Lisboa, Munir Pedrosa, Rodrigo Caetano, Selma Egrei, Thalles Cabral, Wanderley Nunes, Zé Henrique de Paula
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Corpos opacos, almas reluzentes
Mistérios femininos. Corpos Opacos, em final de temporada no Mezzanino do SESC Copacabana, traz para a cena teatral a delicadeza do olhar feminino e a aura radiosa dos mistérios. Abre uma fresta de seda, entre a onda engajada e os mantos de flores, para sugerir o pensamento a respeito deste abismo, interesse de todos. A pergunta antiga – o que é afinal a mulher? – desponta revisitada sob novas tonalidades surpreendentes.
Mistérios femininos – eles estruturam muito da vida do mundo. Impossível traduzir em língua cartesiana regular certas tramas de afeto e de pertencimento, volteios do espírito de matriz telúrica, alheamentos e ausências da obrigação gregária. Até que ponto ir para um convento é uma derrota, uma perda, uma castração? Pode ser uma conquista, a conquista de uma liberdade indizível, de um outro corpo, um corpo desejante absoluto, uma vitória contra o mundo banal?
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Fiapos de nada
Um oco cintilante nos mantém em suspenso: inventamos a civilização do vazio. Um espaço etéreo, alienado da chance de ser, intensamente branco, preenche o nosso olhar e nos une – eles, os atores, e nós, a plateia. A relação palco e plateia, contudo, não é rompida, estamos distantes, dentro de um teatro, para ver teatro, ainda que a ação comece como se estivéssemos dentro dela. A ação pretende lançar no espaço, em suspenso, as nossas almas, para nos levar a perguntar sobre a densidade do existir e do ser.
A função da noite é mais do que nobre – em cena, está esta joia de dramaturgia sublime, Nerium Park, de Josep Maria Miró, na concepção de um diretor poeta dotado de uma assinatura incandescente, Rodrigo Portella. A temporada acaba amanhã, no Teatro Glaucio Gill, corra para ver, não perca por nada deste mundo. É teatro em tom maior, com uma encenação brilhante de um daqueles textos em que há o propósito intenso de indagar sobre as razões do nosso tempo.
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A grande revolução das mulheres
Você sabe muito bem que existe um poder feminino, desde sempre, sinuoso, silencioso, capaz de mudar as formas do mundo. Sim, você pode dizer que ele não é silencioso, ele é amordaçado, silenciado, impedido de gritar e de se projetar. Vou concordar com você. Em especial depois de ver Para não morrer, um cartaz relâmpago que passou fulminando as sensibilidades ali no Teatro Poeirinha.
Você não viu? Pois aguarde, em breve a peça estará de volta ao Rio. Preste atenção e não perca – trata-se de uma experiência de arte única, rara, privilegiada. O centro do trabalho é um inventário rasante do poder feminino, da caverna aos nossos dias, por todo o mundo, mas, em especial,
na América Latina. O convite é objetivo: a imersão sensível nas tramas deste poder.
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A falha da ciência, a certeza do amor
A cena, em linhas delicadas de rara beleza, sugere ser uma lâmina de microscópio: ciência no palco, ciência do palco. Sob as lentes – o olhar do espectador – dois seres inusitados, pessoas de aparência estranha. Um homem sorumbático, perdido em si, uma moça desequilibrada, quase inconveniente, perdida no mundo. Para o pensamento corrente cotidiano, o saber miúdo de todos nós, duas pessoas descartáveis, desagradáveis, até. Impossíveis protagonistas de uma história de amor.
No entanto, a vida não pode ser tão simples. A antiga certeza aristocrática, preconceituosa e discriminadora, origem da nossa mania de rotular as pessoas, está sob nocaute no mundo de hoje. Esta constatação simples, iluminada, é o centro do delicioso texto Heisenberg – A Teoria da Incerteza, de Simon Stephens, cartaz do Teatro Poeira. Deseja saber do que se trata, numa palavra? Pois bem, lá vai: imperdível. Corra para ver. Trata-se de uma peça que parece simples, simula candura, mas é rascante, densa e, o melhor de tudo, divertida. A encenação, quase uma demonstração científica, vai fazer uma grande diferença na sua vida.
Elza: eu, mulher, agradeço e retribuo
Por você eu faço tudo: existem mulheres assim. Elas movem o mundo com a força do seu amor à existência, elas querem uma vida melhor e seguem adiante sempre, para chegar lá. Ou tentar, até o último limite de suas forças. Elas são Elza. E Elza está em cena num esplendor só, nunca pensado, num ato de justiça à grandeza deste monumento-mulher.
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A Desordem Artificial dos Seres
Séculos e séculos se passaram sobre a Terra: o homem, animal racional, deixou de ser reles coisa viva e se tornou sujeito. O longo caminho, contudo, não trouxe a libertação, pois este fugitivo da natureza mergulha, sempre que pode, no caos gerado por sua própria liberdade. A Ordem Natural das Coisas, de Leonardo Netto, também responsável pela direção, que esteve em cartaz até este domingo no Mezanino do Sesc Copacabana, joga o foco diretamente aí. A qualidade da peça fará com que a temporada seja prolongada, procure saber e, onde estiver, não perca, corra para ver.
Trata-se de uma encenação redonda, indicada para quem gosta de pensar o nosso tempo, a nossa sociedade, as intrincadas malhas afetivas atuais envoltas no caos nosso de cada dia. O espetáculo vale a noite – além do texto inteligente, antenado com a alma atual do mundo, você verá um ator memorável em cena – João Velho. A sua construção do papel principal é de uma humanidade arrebatadora, ourivesaria fina.
A trama tem uma aparência de simplicidade enganadora. A cena acontece num apartamento moderno, desestruturado, povoado por caixas de presentes e de mudança, um cenário de ambientação assinado por Elsa Romero. No meio do entulho doméstico, perdido de si, Lúcio (João Velho), um noivo abandonado na hora do casamento, é consolado por Emiliano (Cirillo Luna), o ex-futuro-cunhado. Logo uma vizinha, Cecília (Beatriz Bertu), desponta em cena, para tentar salvar o náufrago do coração, mas a situação vai rodar em círculo, para um desfecho impactante: não é fácil assumir o controle da própria vida, saber o que fazer com a imensa liberdade que nos cerca.
Em boa hora a peça foi lançada em livro: a leitura compensa, ela merece um debate denso. O ponto de partida da ação é a cartilha clássica, pois a situação dramática, como queriam os teóricos da velha escola francesa, está debruçada sobre o início de uma grande crise. Mas a ruptura com o padrão clássico se dá a seguir, no andamento da situação dramática, pois não há progressão no sentido de desenlace, resolução – o problema não só permanece, como é adensado, como se houvesse um círculo sem fim, sem saída, no qual cada um, herói impossível, se encontra perdido de si e sem chance de perceber de verdade quem é o outro. A liberdade de todos transforma o outro numa pergunta sem resposta.
Assim, tudo o que acontece funciona para lançar o herói num desamparo maior, numa solidão maior, numa rede de mentiras, uma ciranda humana obscura, cujo desfecho é apenas uma espera – um resultado imprevisível. Esta espiral cega, de engenharia muito precisa, não tem transparência para o público: também somos levados de roldão. Talvez o texto tenha alguns excessos, talvez pudesse ter uma velocidade mais acelerada, talvez recebesse bem alguns cortes, opções limitadas pela direção do autor, vítima natural de apego ao texto. Mas isto não chega a ser um problema, não ofusca o extremo prazer que nasce da oportunidade de ver uma peça nacional de bela carpintaria, densos conceitos e perfeita sintonia com a profunda crise humana de nosso tempo, nossa solidão transcendental: acredite, o deleite é absoluto.
A direção preserva o texto também ao apostar alto no ímpeto dos atores. E João Velho, neste turbilhão, alcança resultados impressionantes. Ele é o noivo abandonado, o ser afetivo aturdido, desnorteado, entre o perplexo e o atônito. Emparedado pela impossibilidade de entender os fatos ao seu redor e entregue ao abismo de si, o Lúcio de João Velho expõe um artesanato emocional comovente, da apatia à ira. Num percurso requintado, o ator chega ao gesto mais sublime, a homenagem ao pai, Paulo César Pereio. Para quem é de teatro, é para vibrar de emoção cênica total.
Dois papéis funcionam como apoios para a construção da escalada sentimental vazia de Lúcio, dois desafios interessantes, exercícios estimulantes para afinar o jogo de cena, obras que evidenciam o fato de que o autor é ator. Emiliano, o amigo dedicado, impõe a Cirillo Luna uma equação perigosa, uma ambiguidade imprevista, da qual ele cuida com elegante contenção. Beatriz Bertu, na enigmática Cecília, alcança resultados fortes e chega a surpreender as expectativas na virada sentimental bem desenhada.
De certa forma, as personagens criadas são seres completos no sentido da expectativa da sociedade. Todos estudaram, assumiram o chamado da vida para ir à luta, cuidam de sua projeção profissional. Este protagonismo social é bem explorado pelo autor nos diálogos e também nas modernas inserções narrativas, através das quais a plateia conhece um pouco mais de cada um. Há, contudo, um clima de fratura permanente – de alguma forma, as vidas são falhadas, fraturadas, passíveis de questionamentos, pois a resposta à demanda da sociedade não resolveu o oco interior de cada um. Quando não existe um vendaval de perguntas interiores, há o questionamento por parte do interlocutor. Em consequência, tanto o publicitário, quanto o consultor de feng-shui e a especialista em arte aparecem como arremedos de existência.
Peça do presente, documentário sentimental de nossas vidas aqui e agora, A Ordem Natural das Coisas conta com uma produção singela, despojada, capaz de resolver com limpidez o cenário e traduzir a ação em figurinos adequados, de Maureen Miranda. Um exemplo eloquente da grandeza da criação está na fina grade-parede que envolve a cena, sugestão de gaiola dourada ou prisão preciosa. A mesma sutileza aparece nos gestos, de inspirada poesia cotidiana, resultado da acertada direção de movimento de Marcia Rubin.
E assim flui a criação, puro jogo de achados delicados, prazer teatral. A iluminação de Aurélio de Simoni dimensiona a linha de ação, situa os tons afetivos e sublinha o clímax. A trilha sonora, do autor, incide diretamente sobre o tema central, a hipotética libertação do ser humano no nosso tempo, ao eleger joias dos anos 1960, a velha rebelião musical juvenil, como parte do eixo central da ação.
Num tempo de tantas perplexidades e de tanta dificuldade para reconhecer a fragilidade da pessoa humana, situar os seus limites e dimensionar a sua cegueira, a proposta é mais do que oportuna. O espetáculo é um convite generoso para saudar a nossa condição vulnerável, ínfima mesmo, à deriva de jogos afetivos sociais cuja veracidade não conseguimos controlar. Que este presente nasça de um ato de atores, do texto ao palco, eis o grande motivo para louvar a cena – afinal, a passagem de tantos séculos nos permitiu saber de verdades humanas mínimas, descartáveis, mas essenciais, dilacerantes. E aqui elas são ditas por aqueles que, diante da arte, fazem o gesto mais efêmero: são apenas meros atores.
Texto e Direção: Leonardo Netto
Elenco: Beatriz Bertu, Cirillo Luna e João Velho
Direção de Movimento: Márcia Rubin
Iluminação: Aurélio de Simoni
Cenário: Elsa Romero
Figurino: Maureen Miranda
Trilha Sonora: Leonardo Netto
Design Gráfico: Lê Mascarenhas
Fotos: Dalton Valério
Mídias Sociais: Rafael Teixeira
Direção de Produção:Luísa Barros
Produção Executiva: Alice Stepansky e Thaís Pinheiro
Mobilização de Recursos: Marcela Rosário
Realização: Sesc Rio e Fulminante Produções Culturais
Espetáculo: “A Ordem Natural das Coisas”
Local: Sesc Copacabana (Mezanino).
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana.
Dias e horários: Quinta a sábado, às 21h. Domingos, às 20h.
Ingressos: R$ 7,50 (associados. Sesc), R$ 15 (meia) R$ 30 (inteira)
Bilheteria: segunda-feira, das 9h às 17h. Terça a sexta, das 9h às 21h.
Sábados, das 13h às 21h. Domingos e feriados, das 13h às 20h.
Informações: (21) 2547-0156.
Capacidade: 70 lugares.
Classificação etária: 14 anos.
Duração: 90 min. Gênero: drama.
Lançamento do livro “A Ordem Natural das Coisas”
(Editora Livros Ilimitados)
Dia 7 de maio (segunda), às 19h, na livraria Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572).
Tagged: A Ordem Natural das Coisas, Beatriz Bertu, Cirillo Luna, João Velho, Leonardo Netto, Sesc Copacabana
Crítica: A Palavra Progresso na Boca da Minha Mãe Soava Terrivelmente Falsa
Tania Brandão
Posted on 28 de maio de 2018
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A estupidez absurda da guerra, a beleza absoluta do teatro
Talvez nada, entre nós, humanos, seja mais estúpido do que a guerra, ato puro de desamor à vida. A tristeza maior é a necessidade de reconhecer o óbvio: as formas da guerra são várias, não são simples, não são apenas aquelas tradicionais, em que a relação diplomática é abolida a favor de bombas e canhões. Esta dolorosa constatação está em cena só até hoje, no Espaço Cultural Sergio Porto, corra para ver. É imperdível.
A obra – A Palavra Progresso na Boca da Minha Mãe Soava Terrivelmente Falsa, de Mátei Visniec – é assinada por um grupo teatral surpreendente, o Multifoco Companhia de Teatro, fundado em 2010. Apesar de muito jovem, o coletivo revela em cena uma força poética espantosa, comovente mesmo, aquele tipo de turbilhão criativo típico de quem tem o que dizer e veio para ficar.
Assim, uma maturidade teatral comovente rege a performance da equipe. Há uma expressão coletiva orgânica, consciente de sua força, devotada ao trabalho de arte como instrumento de transformação humana sensível. O grupo apresenta uma assinatura, uma identidade artística nítida, se projeta como um autêntico coletivo de arte, algo que não é comum no meio cultural brasileiro.
O texto do autor romeno radicado em Paris foi criado sob encomenda do Teatro Nacional de Craiova, Romênia, dentro de um projeto intitulado Teatro da Europa, espelho das populações deslocadas. A estrutura é fragmentada, picotada como as saraivadas da fuzilaria, mas conta com uma espinha dorsal, uma ação dramática básica, o próprio sentido mais profundo do viver.
O original revela a sofrida tentativa de uma família para retomar a vida na sua velha casa após a guerra. No retorno, a casa está arruinada e a terra povoada por mortos. Os mortos compõem a paisagem histórica do lugar. A companhia fez ligeiras adaptações do original, em especial para incluir no entrecho a nossa guerra brasileira particular, não declarada, mas vivenciada a pleno vapor no cotidiano, nos corações e mentes desde sempre.
Sob a direção de Ricardo Rocha, um diretor dotado de aguda percepção plástica, a cena se torna uma criação visual de intensa sedução. Iluminador, ele domina os códigos de movimentação e de composição geométrica do espaço em sintonia orgânica com a potencialidade da luz. Artesão da palavra, ele instaura sob uma concepção poética muito precisa a comunhão entre o texto e a cena.
Desta forma, surgem quadros cênicos vibrantes, de extrema beleza visual, dotados de uma pulsação notável, com uma alquimia surpreendente de cores em que predomina a cor da terra e do incêndio, do sangue pisado e da guerra, o claro-escuro, aliada aos gestos, a musicalidades e intensidades corporais. A cena é com frequência arrebatadora. Importa observar em particular a forma de uso do foco e dos planos visuais – hábeis percepções do indivíduo, do coletivo e do abstrato. É lindo.
A articulação com a cenografia, de Nivea Faso e do diretor, e com os figurinos, de Nivea Faso, se dá como fluxo contínuo de criatividade cênica, concepção límpida, sem hesitação. A direção de movimento e as coreografias, de Palu Felipe, são marcadas pela inteligência e por uma aguda percepção do jogo cênico, situação também dominante na direção musical de Vinicius Mousinho.
A este conceito vivo de cena deve ser agregada a extrema disponibilidade física do elenco, devotado a uma linguagem teatral em que o corpo se impõe, em que há absoluta presença e performatividade dos atores. Predomina no palco o desejo bem sucedido de criar uma nova forma física emocionada, intensa e sinuosa, construída graças à incorporação da dança, da acrobacia, da imediatidade circense.
O resultado atingido tem um grande impacto – ainda que algumas partes interpretativas decisivas, de forte solução interior, por vezes soem superficiais ou mecânicas, por causa da demanda física. O limite é comum quando o efeito estético solicita ação física extrema, simultânea ao mergulho na interioridade. Há também uma extensão perigosa da ação, um namoro prolongado do grupo consigo próprio. Mesmo com estas ressalvas, não há como ficar indiferente ao jogo proposto pelo elenco. É arrebatador de verdade.E é histórico: nasce aqui um excelente diretor e um grupo original.
Luan Vieira, como Vibko e Travesti, impressiona ao apresentar uma organicidade de interpretação rara de encontrar – é físico e alma em pleno jogo poético, traz a potência de um grande ator. Bárbara Abi-Rihan arrebata a plateia em especial por sua excelente performance plástica, além de conseguir expor tons humanos patéticos verdadeiramente impressionantes.
Erick Tuller é uma escultura humana vívida,límpida; ele se divide com maestria em múltiplos papéis, explora notas densas impressionantes no Pralic e revela com aguda sutileza o cinismo desconcertante do Novo Vizinho. Fábio Lacerda demonstra profundo domínio do desenho das ações físicas, tem um fôlego emocional notável, mas hesita um tanto diante das necessidades do mergulho interior mais profundo.
Viviane Pereira tinge de desvario e de dor a mãe, com algum perigo de melodrama nas passagens mais delicadas. Camila Zampier colabora com muitos quadros pictóricos da cena e tem na figura de A Patroa o seu momento mais intenso.
Por mais um pouco, a cena poderia figurar uma procissão cênica de desvalidos, caricaturas tristes – mas a mão do diretor soube contornar todos os perigos. Na cena desenhada com rigor de estilete, além de alguns poucos apetrechos indicados pelo autor, há uma proposta teatral autêntica, entre o simbólico e o retrato realista das situações. Destaque-se, para este resultado, os grandes achados da cenografia – submetida a uma densa composição visual, ela materializa de forma direta, econômica, uma atmosfera alucinada de vida massacrada, dolorida, sobra de guerra, lixo urbano, restos de humanidade.
Seres destroçados pela guerra, pelo consumismo, pelo desamor, pela impossibilidade de valorizar a vida humana e de respeitar o próximo, desfilam pungentes na cena, demonstram a fragilidade do ser humano e a necessidade de novas percepções a respeito da vida no mundo. Um canto teatral lancinante paira no ar e advoga o triste mérito de criar no palco a atmosfera paralisante do nosso tempo.
Migalhas humanas, os atores se lançam ao nosso olhar surpreso e comovido como corpos poéticos líricos, acionam a palavra para expor os corpos da guerra, querem ser inteiros e são fragmentos, estilhaços humanos. À plateia, impregnada pelo mais aterrador sentido do humano, resta um convite sublime: a consciência profunda a respeito da estranheza deste nosso mundo, a percepção de que é urgente usar a vida para se dedicar à paz. A dúvida sacode a civilização: e a palavra progresso soa terrivelmente falsa, como desejou mostrar o autor.
Autor: Matéi Visniec
Direção e Iluminação: Ricardo Rocha
Elenco: Bárbara Abi-Rihan, Camila Zampier, Erick Tuller, Fábio Lacerda, Luan Vieira e Viviane Pereira
Direção de Movimento e Coreografias: Palu Felipe
Direção Musical e Preparação Vocal: Vinícius Mousinho
Cenografia: Nívea Faso e Ricardo Rocha
Figurino: Nívea Faso
Cenotécnico: Moisés
Imagens e Edições: Daniel Debortoli e Viviane Dias
Fotografia: Diogo Nunes
Realização: Multifoco Companhia de Teatro
Espetáculo: A palavra progresso na boca da minha mãe soava terrivelmente falsa
Ocupação Multifoco Companhia de Teatro
Duração: 100 minutos
Classificação: 18 anos
Temporada: 05 a 28 de maio
Local: Espaço Cultural Sérgio Porto
Endereço: Rua Humaitá, 163 – Humaitá
Telefone: (21) 2535-3846
Gênero: drama
Temporada: 19 a 28 de Maio.
Dia\horário: sábado a segunda, às 20h30
Ingresso: R$30\R$15
Bilheteria: de quinta a domingo das 17h às 21h
Tagged: A Palavra Progresso na Boca da Minha Mãe Soava Terrivelmente Falsa, árbara Abi-Rihan, Camila Zampier, Companhia Multifoco de Teatro, Erick Tuller, Espaço Cultural Sergio Porto, Fábio Lacerda, Luan Vieira, Matéi Visniec, Ricardo Rocha, Viviane Pereira
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A dúvida e o musical
Duvido, logo existo – eis um lema preciso para definir o homem do nosso tempo. Ele se instalou graças a dois vetores, o acesso universal à instrução e a longa tradição histórica de traição humana, a antiga prática do homem-lobo-do-homem, quer dizer, aquele velho conselho da mamãe: desconfie sempre, não confie em ninguém.
A capacidade de pensar e a habilidade para desconfiar resultaram na dúvida ambulante que somos. A expansão da habilidade fez surgir uma iconoclastia feroz, avessa às grandes ilusões e aos mitos dourados: a mania de parodiar e rir dos tradicionais contos infantis. O gosto demolidor é o eixo ao redor do qual se move A vida não é um musical – o musical, de Leandro Muniz, cartaz em fim de temporada no Teatro de Arena do Sesc Copacabana. Vale correr para ver, é muito divertido.
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Você e todo o amor deste mundo
Faz tempo, numa terra devastada por guerras, um jovem poeta inspirado buscou conceber uma poção para acabar com as dores do mundo. Conseguiu um resultado fascinante, exemplar, tão exemplar que persiste pulsando à disposição de todos os seres de boa vontade desejosos de mergulhar no lado iluminado da vida. O poeta, era William Shakespeare (1564-1616), a poção, Romeu e Julieta (1595?).
E agora, nós, varridos por guerras e ódios, desgovernados em meio ao náufragio do país, recebemos este presente do teatro, um bálsamo para acalmar tantas dores, mostrar um outro caminho de delicadeza neste momento de turbulência total. Aproveite, está bem aqui, no Rio, no Teatro Riachuelo. E a montagem, gente, é uma espiral ensandecida de beleza e de arte, para sair do teatro levitando, dançando na rua. Imperdível. Corra para ver.
Sob a direção inspirada de Guilherme Leme Garcia, você verá em cena uma montagem esplendorosa do texto clássico. A poção mágica descoberta pelo poeta – o amor, sim Romeu e Julieta é sinônimo de amor – está presente por todo o espaço, do saguão do teatro ao mais afastado recanto do palco. Uma trama inefável de beleza e de elevação estética passa por toda parte.
Para expor este jogo doce do amor, de bem querer e de se entregar, se anular, Guilherme Leme Garcia concebeu um espetáculo dotado de uma rígida convenção estética, absolutamente teatral – é só o puro amor ao teatro, sempre, nada de realismo, naturalismo, romantismo ou melodrama. Talvez se possa dizer que a direção de cena adotou um simbolismo pictórico, em que os humores, as formas, os desenhos e as cores seguem um código explícito, sempre estético, como numa pintura, voltado para falar de opostos, do eterno e do efêmero, do grande e do pequeno, do poder e do deserdado, do amor e do ódio.
A escolha é fiel à chave mais profunda do texto, feito de jogos de opostos, oxímoros. Trata-se de uma fórmula renascentista de explicação do mundo, dual. Segundo este pensamento, para traduzir o ímpeto vertiginoso do amor, devastador e inaugural, seria essencial vê-lo diante da força oposta, o ódio, também uma força devastadora, mas de destruição. O convite era muito oportuno, um sucesso, numa terra desolada diante das guerras de religião, promovidas por seitas irredutíveis, tão opostas como os Capuleto e os Montecchio, seitas que não ambicionavam apenas dominar as almas comuns, mas o trono inglês.
Opostos simétricos, amor e ódio são meios de cegueira do ser, formas de não ver – no amor, se tem apenas a bela visão, no ódio, apenas a visão do horror. Portanto, a bela visualidade da cena é a mais perfeita defesa do ato de amar. Como no amor, a cena nos arrasta e nos faz vagar assim, em sonho teatral, frágeis pedaços quentes de ser à deriva do mundo, o imenso e frio mundo lá de fora. Como o efeito de uma canção doce de Marisa Monte.
A opção surge já na cena de abertura, lírica, quando Romeu canta o seu amor sozinho sob o luar – no caso, o amor por Rosalina – e a praça de lutas, de rinhas permanentes, aparece povoada por jovens fervendo por sangue. Amor e ódio se apresentam loquazes nos corpos. Ao fundo, os volumes da cenografia falam de poderes objetivos, opressivos, formas cristalizadas da política na sociedade, que precisam do ódio, em algum momento, para governar.
A lição remota explorada em cena, sob um tom sutil, é de Gordon Craig (1872-1966): a verticalidade dos volumes em oposição à pequenice humana. Esta inspiração rege a cenografia majestosa de Daniela Thomas, uma criação genial – ela incorporou a ideia e transfigurou-a em torres simples, potentes, móveis e praticáveis, de uma textura entre o medievo e a renascença exposta na dureza da pedra varrida por alguma cor do tempo.
As cores da montagem, aliás, formam um espetáculo à parte, são um convite ao romance, remontam à história da pintura e à história do figurino. O seu impacto se torna maior graças aos preciosos efeitos de luz, de Monique Gardenberg e Adriana Ortiz, em diálogo criativo intenso com a direção, a concepção e a cenografia. Em alguns momentos chaves, o tratamento do espaço, a composição dos volumes, o jogo das luzes e o telão colorido criam um efeito plástico de extremo vigor, a cena se torna um quadro plástico de arrebatadora representação teatral.
Sim, é uma cena teatral total e o diálogo se estende aos figurinos, claro. Afinado com a chave de leitura proposta pela direção, João Pimenta concebeu roupas sem época, mas sempre eloquentes para identificar climas e situações, eficientes para expor personalidades fortes, bem definidas na sua função dramática. Desenham, também, uma corte rica, uma opulência interiorana, em que reina a ostentação e o bem comum não é um valor cotidiano. Para frisar o conflito central, os coloridos dos figurinos das duas famílias se opõem. As roupas do baile, com leves insinuações de absurdo, são eficientes retratos de uma sociedade engessada pela hierarquia e pelo desejo voraz de aparecer.
Mas não é só – a grandeza da encenação se faz com muitos outros ingredientes. Há o jogo de corpo, um fluxo intenso de representação, dramático e musical, mas despojado, ainda que fiel ao propósito de ser simbólico e poético, de Toni Rodrigues. Há a limpeza das lutas, sempre elegantes e convincentes, obra de Renato Rocha. Há o visagismo requintado de Fernando Torquatto. E há, afinal, a música.
Esta versão do famoso romance é um musical na plena acepção do têrmo, estruturado ao redor do repertório de Marisa Monte. O verbo estruturar é intencional: com texto adaptado e roteiro musical de Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche, autores experientes no gênero, foi feita uma escolha de músicas em função do rendilhado dramático, marcado, este, por uma tensão moderna, seca, mais objetiva e menos narrativa.
Quer dizer – mesmo quando as canções não registram ações efetivas, objetivas, são apenas declarações de sentimento ou exposições de estados da alma, elas aparecem tratadas sob o conceito de ação dramática. Assim, o fluxo da ação não esmorece, a música faz a peça caminhar, ativa a sensibilidade e a emoção do público, sempre em sintonia direta com a trama, abordada de maneira ágil.
O resultado é deslumbrante – é fundamental reconhecer. A direção musical de Apollo Nove e a direção vocal de Jules Vandystadt conseguiram traçar um desenho sonoro envolvente, um conjunto de sensações sentimentais que, além de arrebatar a plateia, é um hábil propulsor do jogo de cena. As vozes surgem em solos cristalinos, são apoiadas por soluções corais vibrantes, tecem climas, dialogam com a excelente orquestração. Vale destacar: a formação do conjunto musical garante momentos sentimentais intensos graças à sonoridade especial proporcionada pela harpa e pelo rico naipe de cordas.
É preciso, contudo, dizer algo mais, frisar que este é um espetáculo histórico, uma encenação espetacular de exceção. Trata-se de uma montagem obrigatória, para ir ver e rever. Além do olhar teatral plástico e poético de Guilherme Leme Garcia, a atriz Vera Holtz assina a ficha técnica como colaboradora artística, indício de que o projeto foi dominado pelo cálculo estético mais intenso que se possa imaginar, atendeu a um conceito teatral em que a cena é um olhar de arte, criação de fluxo de beleza solto no espaço, situação à qual os atores aderiram.
Várias cenas, em consequência, se projetam como momentos de teatralidade pungente, arrasadora mesmo, vertigem estética de emoção. Vão fazer parte da história do teatro brasileiro como momentos de criação absoluta, teatro total. Integram esta lista, no mínimo, a cena do balcão, com a arrebatadora chuva de rosas brancas, a cena do casamento, com a celebração celestial dos freis, a cena da despedida da noite de amor, com o vestido vertigem de luz, a cena do mausoléu e a cena final, da reconciliação, canto geral de amor de toda a companhia – ou de Verona, digamos.
Uma outra conquista da encenação é o equilíbrio do elenco, a afinação da equipe de atores. Uma sensação preciosa de amor ao teatro irradia do palco para a plateia, vale insistir. Há uma doação sincera dos intérpretes, a sala é inundada por um sentimento de crença profunda nos valores humanos mais nobres. Comentar os desempenhos é uma longa tarefa, é impossível focalizar todos os trabalhos. No entanto, muito do que é oferecido em cena é de uma qualidade tão exemplar que algum registro precisa ser feito.
Bárbara Sut é uma Julieta decidida e diáfana, garrida e inquieta, capaz de se lançar ao amor com ímpeto juvenil, sem medo, seguindo um impulso cego digno da jovem herdeira mimada. Prisioneira do amor, ela se entrega e se expõe sem reservas. Canta com segurança e beleza, domina a cena com naturalidade: a sua força cênica é tão desmedida que ela transforma a canção Amor I Love you, polêmica e discutível para muitos, em momento irresistível.
Thiago Machado é um Romeu boêmio, impulsivo, aventureiro, sonhador, coração aberto para o mundo, de porte altivo e destreza nobre, aura elegante, sedutor até nas canções, ingênuo na medida certa. Afirma-se de saída como galã romântico na canção de abertura, expõe com sinceridade o desespero do amor interdito e recebeu de presente a excelente versão de Ainda Bem.
Ícaro Silva estrutura Mercuccio sob tons transgressivos fortes, verdadeiro negro gato, com extrema plástica corporal. E encanta por sua malícia nas contracenas, por alguns toques certeiros de humor rasgado, além de se destacar em pequenas intervenções no canto.
Stella Maria Rodrigues é um fenômeno de empatia avassalador. Intérprete intensa, revela toda a sua excelência de atriz na Ama, jogando com o perfil materno e brincalhão da serviçal, explorando a malícia da criadagem, exalando a mais objetiva sentimentalidade popular. O gestual, as expressões, as intenções trabalhadas nas falas fazem com que ela acione mais um estágio sentimental da plateia, a forma de amor expressa por aquele que cuida do outro. Ao lado do Frei Lourenço de Claudio Galvan, a atriz participa de um dos números musicais arrebatadores da noite, o dueto O Que Você Quer Saber de Verdade. A dupla é irresistível.
No Cântico Gregoriano, na antológica cena do casamento, Claudio Galvan demonstra a intensidade de sua presença cênica e a beleza de sua voz. Na condução do desastre do caso de amor, ele é um perfeito conselheiro trágico, combina a boa intenção com o involuntário e o patético.
Kacau Gomes, na Senhora Capuleto, é o retrato da frivolidade, a expressão correta da mulher dominada e sem poder, objeto decorativo. Marcello Escorel, em contraponto, materializa no Senhor Capuleto a força massacrante do chefe de família autoritário, impõe o perfil do líder inflexível de facção política radical.
Pedro Caetano sugere para Teobaldo uma dimensão hierática prepotente, Bruno Narchi compõe Benvólio em sintonia com o o seu caráter conciliador. Nas cenas de conjunto e nos solos, os outros quinze atores que completam a ficha técnica se destacam pela devoção ao teatro e por um profissionalismo extremo, aquele necessário para definir a palavra elenco.
Enfim, o espetáculo é encerrado com uma cena painel de extrema beleza, de conciliação e celebração do amor, em lugar da longa cena trágico-dramática de relato dos fatos aos pais litigantes, da versão textual original. A morte por amor une as famílias inimigas e dilui o ódio em Verona, restabelece, na dor, o equilíbrio da vida na cidade: o amor cumpriu o seu ciclo de criação.
Afinal, a lição da peça, surpreendente como a poção de um mago iluminado, reza que o amor prevalece, o amor é sempre a razão da existência, é o segredo sublime do ser. Um ódio tão sólido, tão grande, só poderia gerar o amor mais delirante e absoluto, caminho para a pacificação.
Vale reconhecer, por fim, que não somos renascentistas, não acreditamos mais nestes jogos de opostos para explicar a vida, nossa vã filosofia seguiu outros caminhos, mas a beleza desta construção poética teatral é bem oportuna – sem dúvida, é deste clima que estamos precisando. Portanto, não perca de jeito nenhum, aproveite, tome um banho de amor, faça a sua alma cintilar sob uma nova humana luz. Você merece todo o amor deste mundo.
Autor: William Shakespeare
Músicas: Marisa Monte
Concepção e Direção: Guilherme Leme Garcia
Adaptação e roteiro musical: Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche
Colaboração Artística: Vera Holtz
Direção Musical: Apollo Nove
Direção Vocal: Jules Vandystadt
Coreografia: Toni Rodrigues
Lutas: Renato Rocha
Cenário: Daniela Thomas
Figurino: João Pimenta
Visagismo: Fernando Torquatto
Desenho de luz: Monique Gardenberg e Adriana Ortiz
Desenho de som: Carlos Esteves
Desenho gráficol:Victor Hugo
Produção de elenco: Marcela Altberg
Elenco: Bárbara Sut (Julieta), Thiago Machado (Romeu), Ícaro Silva (Mercuccio), Stella Maria Rodrigues (Ama), Claudio Galvan (Frei), Marcello Escorel (Sr. Capuleto), Kacau Gomes (Sra. Capuleto), Bruno Narchi (Benvoglio), Pedro Caetano (Teobaldo), Diego Luri, Kadu Veiga, Max Grácio, Neusa Romano, Franco Kuster, Gabriel Vicente, Laura Carolinah, Luci Salutes, Saulo Segreto, Thiago Lemmos, Vitor Moresco, Gabi Porto, Santiago Villalba, Daniel Haidar e Natália Glanz.
Músicos: Maestrina: Claudia Elizeu, Teclado: Gabriel Gravina, Violões e Bandolim: André Barros, Violino e Viola: Arthur Pontes, Cello Acústico: Fábio Meg, Percussão Orquestral: Gabriel Guenther, Harpa: Gelton Galvão.
Fotos: Felipe Panfili
Produção: Leme produções Artísticas e Aventura Entretenimento
Patrocínio: Circuito Cultural Bradesco Seguros
ROMEU & JULIETA
Local: Teatro Riachuelo Rio – Rua do Passeio, 40 – Cinelândia – Rio de Janeiro/RJ
Temporada: 9 de março a 27 de maio
Horários: sextas (20h), sábados (20h) e domingos (18h)
Vendas: www.ingressorapido.com.br
Preços (valores de entrada inteira):
SEXTA 20h
Plateia VIP – R$ 140,00
Plateia – R$ 120,00
Balcão Nobre – R$ 100,00
Balcão – R$ 50,00
SÁBADO 20h e DOMINGO 18h
Plateia VIP – R$ 160,00
Plateia – R$ 140,00
Balcão Nobre – R$ 120,00
Balcão – R$ 50,00
Capacidade: 1000
Duração: 2h
Classificação etária: Livre
*Cliente com cartão Pré-Pago do MetrôRio tem 50% de desconto na compra de ingressos
Informações para a imprensa
MNiemeyer Assessoria de Comunicação


