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Teatroville
Alguma vez na sua vida você viveu a experiência luminosa de flutuar no espaço infinito, liberto de toda materialidade mesquinha, entregue ao mais requintado jogo de ideias? Não, não é bebida, nem droga, nem alucinação ou pancada na cabeça – é teatro, puro teatro, na sua quintessência mais etérea, o velho e bom teatro amante dos humanos, soberano absoluto das almas.
É Dogville, adaptação teatral do filme de Lars Von Trier, assinada pelo genial diretor Zé Henrique de Paula, cartaz do Teatro Clara Nunes. Corra para ver e leve a sua turma: pode ser a única experiência teatral absoluta da sua vida. Você não vai esquecer nunca mais. E vai sair do teatro aturdido, pensando no que é que você faz na sua vidinha miúda com você. É o velho teatro revisto e sintonizado com as ferramentas criativas do nosso tempo, um mergulho na cena envolto em imagens fugazes de vídeo e filmagem, música rascante, vertigem de luz.
A cena árida de saída vai conduzir a sua percepção para um lugar trevoso, apagado, um galpão abandonado, um vazio humano disfarçado de cidade pequena. Um jogo teatral requintado começa: o palco é um palco, está quase nu, mas apresenta e representa. Assim, diante da plateia há um espaço vazio que é mesmo um palco, marcado por estruturas móveis, telas, vai e vem de cadeiras: ele é uma cidade. Impressiona a textura das cores, sombrias, do cinza ao preto, cores sujas, uma espécie de lama original, sobra de incêndio, coisa de lixo.
Um jovem mestre de cerimônias, quase um oficiante de um ritual de iniciação, frio, calculista, distante, protagonista fantasma, narra a ação dramática, do prólogo aos nove quadros, e comanda a ação num sentido surpreendente, para o desenlace. Vestido de preto e sem cara de sujo, o narrador construído por Eric Lenate indica a excelência da direção de ator de Zé Henrique de Paula graças a uma nota comum a todo o grande elenco. O desenho físico e gestual combina corpo natural e corpo simbólico de uma forma muito ardilosa, num convite permanente para a passagem do real ao simbólico.
Eric Lenate explora uma sinuosidade de corpo – e de alma, vale acrescentar – adequada ao seu papel de orquestrador supremo da história, encarregado da sentença definitiva a respeito de tudo. O seu personagem é duplo – numa evocação dos coloridos diabólicos dos autos medievais, ele transita como uma figura em negro, com filigrana vermelho, para narrar, mas se torna um misterioso poder em vermelho-sangue sobre tom negro, para tecer os meandros do desfecho impactante.
A trama é simples. A rigor, trata-se de uma fábula, estruturada como um ato de teatralidade profunda, sob uma clara influência de Brecht e Pinter, com um alcance moral direto. A mistura é inusitada, pois o primeiro buscava mostrar a razão e a verdade em cena, o segundo banhou o palco em desrazão plausível. Aqui o foco é o sonho de felicidade do indivíduo-cidadão. Mas há algo mais: o texto é inegável texto do nosso tempo, deste novo século, tem um cálculo corrosivo nosso na sua construção, um tom de nihilismo e de ousadia intelectual – o sonho é impossível.
O formato determina um enfrentamento desabrido da ideia de humanidade, revelada como tecido corroído, como se a moralidade pudesse ser apenas patrimônio de cada um, portanto impossibilidade. No meio dos cachorros, a virtude é filha do gangster e, no fim, o poder acaba por ser um acordo entre os dois. Explosivo, nitroglicerina na alma.
A proposta, basicamente, é a de oferecer um caminho épico-dramático de deslumbramento para que você, afinal, pense o seu lugar na vida em relação aos valores mais nobres do mundo ocidental. Portanto, há uma lição, como soe ocorrer nas fábulas. Para chegar até ela, o narrador conta a história de uma cidade cachorra, perdida no mapa, povoada por uma gente lixo, cachorra, esquecida de si e do mundo. Uma gente simples que poderia ter alguma envergadura civilizada.
Ilhas humanas desgarradas no seu fim de mundo, estes seres tão pequenos precisam de um outro personagem para conduzir a ação, no oco da cidade: um escritor-cachorro, sem livros e sem certezas, interessado em demonstrar uma improvável grandeza humana do lugar, Tom Edson. A figura, esculpida em cena com roupa farfalhante de cortante colorido em tons de terra, combinação desconcertante de barro e lama, impacta graças ao desempenho estruturado por Rodrigo Caetano, uma mistura sutil de parvoíce e cinismo. Espécie de co-protagonista, também diabólico porque inconsequente, é ele quem aciona a imaginação da plateia no grau delirante necessário: deseja demonstrar como as pessoas de Dogville são, na sua essência, boas.
Para cumprir a sua obra, ele é contemplado com a divina aparição de Grace – a graça feminina de bondade e ponderação, manipulada em requintada alquimia por Mel Lisboa. Arrebatadora, a atriz se impõe como o anjo do bem, delicado emissário metafísico capaz de suportar as misérias terrestres mais brutais em favor da comprovação da grandeza humana. Irresponsável por si, no seu idealismo tonto.
Ela é uma fugitiva e, fugidia, busca abrigo contra misteriosos perseguidores. Não deseja voltar ao mundo lá de fora. A sua aparência é um híbrido, estopim para incendiar as almas pequenas. É tanto a imagem do desejo, latente na roupa alinhada provocante, no batom, no tom solar, dourado, no vermelho paixão. E é também a pureza da graça, na sua lourice de tranças. De certa maneira, a trama apresentada contém uma revisão de A Alma Boa de Setsuan, de Brecht, um exercício teatral para delinear os riscos da bondade, com a visita de deuses à Terra para procurar ao menos uma pessoa boa.
Denunciada por Moisés, o cachorro da cidade cachorra, justo o nome daquele que trouxe as tábuas da lei, Grace é aceita pela comunidade por interferência de Tom. Em troca, se presta a realizar pequenos serviços para todos, ainda que, de início, deles eles nem precisassem. Logo a bela moça inexperiente se transforma numa escrava branca barata, aviltada, torturada, massacrada, pois teria se tornado perigoso abriga-la graças à procura intensa da polícia. As maiores barbaridades são cometidas contra ela – e perdoadas por ela.
Cada habitante, mesmo o menino imberbe, representa um pecado contra a ordem humana. Desfilam em cena o egoísmo, a avareza, a mesquinharia, a inveja, a mentira, o autoritarismo, a luxúria, a ira, a preguiça, a vaidade… o cortejo das baixarias capazes de reduzir a humanidade ao mais sórdido pó é pródigo. Haveria uma fina fresta, totalmente pessoal, por onde esgueirar-se neste jogo para fugir, mas isto significaria retroceder diante das próprias certezas. Quer dizer, aceitar o jogo do poder, pois o poder, a ordem de comando, humana, não parte necessariamente de uma força do bem. O poder, ao olhar apenas o seu próprio interesse, é um tipo de gangster.
Trata-se de uma obra monumental de ourivesaria teatral. Para alcançar este feito, Zé Henrique de Paula, um dos maiores diretores brasileiros da atualidade, fino desenhista da ação em cena, desde a marcação, no espaço, até a configuração do rol das intenções, no fluxo etéreo, recorreu a um elenco capaz de transportar todo e qualquer mortal aos céus. São texturas preciosas de expressão, movimento, irradiação de aura, percepção de conjunto, doação pública.
Fábio Assunção, virgem de teatro, entrega toda a sua força expressiva para a arte e é de lamentar o tempo que perdemos com a sua distância do palco – o seu Chuck reúne brutalidade, ignorância, carência, inteligência perversa num jogo sutil e multifacetado. Bianca Byington concilia a sua característica delicadeza inefável com o desespero, o egoísmo, a ausência maternal e a cegueira existencial de Vera, num exercício exemplar de não ver o próximo. A força telúrica impressionante de Selma Egrei transmuda-se em impactante avareza, transubstancia-se no ícone perfeito da mulher má. A naturalidade do menino Dudu Ejchel, na construção de Jason, é uma ácida insinuação de que a má fé pode ser erguida desde cedo.
Enfim, não há qualquer possibilidade de lançar restrições ao trabalho do elenco. A direção, na condução de atores de fôlego, desenhou um elenco no pleno sentido da palavra. Todos (e cada um) se projetam na medida exata da fábula, na arquitetura precisa das cenas, no jogo com as projeções e o vídeo-mapping, como se não houvesse amanhã e o teatro maior do mundo fosse este, hoje.
Anna Toledo (Martha), Marcelo Villas Boas (Ben), Gustavo Trestini (Sr. Henson), Fernanda Thuran (Liz), Thales Cabral (Bill Henson), Chris Couto (Sra Henson), Blota Filho (Thomas pai), Munir Pedrosa (Jack McKay) e Fernanda Couto (Glória) transformam pequenos nadas em lâminas de fatiar almas. Integram uma máquina de emocionar e de fazer pensar muito requintada. No palco, espectadores omissos do mundo, cada personagem tem uma cadeira, explorada em múltiplos simbolismos. O movimento se amplia a partir da esfera corporal de cada um e, no palco vazio, como se o sórdido galpão fosse metáfora do mundo, eles sugerem pobres nichos para chamar de seus e se abrigar da verdade da vida.
A cenografia de Bruno Anselmo participa de forma muito integrada na armação deste jogo cênico – praticável, maleável, móvel, também de cores sujas, ela se presta para construir o espaço volátil e para as projeções. A luz de Fran Barros ultrapassa todas as exigências técnicas – dar visibilidade, desenhar climas, amparar as projeções – para contribuir de forma decisiva para a criação de uma comovente poesia do espaço. É arrebatador. Vale o aviso: prepare-se para voar.
Sim, poesia do espaço, importa frisar – dogville, cidade cachorra, é antes de tudo um lugar. Uma espacialidade adequada para dizer muito, alto e bom som, de uma humanidade nossa, de hoje, perdida de si, dos valores que deveriam ser a base de sua existência, deveriam ser a sua razão de ser. Isto se desejarmos de verdade preservar a vida, honrar o humano. A radical poesia cênica arrebata por falar de nós, homens sem Deus, ainda que religiosos, derrotados filhos do lixo e do plástico que nós próprios criamos, incompetentes diante do nosso mundo. Um tapa na cara, para crescer. Atenção, a temporada será curta, corra para ver. O velho e bom teatro vai te abraçar, vai te deixar voar livre, puro, num mundo de ideias interessadas em celebrar o humano, ideias teatrais essenciais.
P.S. – Depois que o teatro raptou a minha alma, nos anos oitenta, passei a ter muita dificuldade para me manter fiel à minha velha paixão cinéfila, cultivada desde a infância. Passei a trair sem dó o cinema. Perco todos os filmes. Não vi Dogville. Recomendado por uma aluna brilhante, Paula Sandroni, comprei o dvd – mas até hoje ele permanece virgem na estante. Portanto, fica a dica: esta crítica é um puro e simples olhar para o teatro.
Título Original: Dogville.
Autor: Lars Von Trier.
Direção: Zé Henrique de Paula.
Elenco: Mel Lisboa (Grace), Eric Lenate (Narrador), Fábio Assunção (Chuck), Bianca Byington (vera), Rodrigo Caetano (Tom Edison), Anna Toledo (Martha), Marcelo Villas Boas (Ben), Gustavo Trestini (Sr Henson), Fernanda Thuran (Liz), Thalles Cabral (Bill Henson), Chris Couto (Sra Henson), Blota Filho (Thomas Pai), Munir Pedrosa (Jack McKay), Selma Egrei Ma Ginger), Fernanda Couto (Glória) e Dudu Ejchel (Jason).
Idealização: Felipe Lima.
Cenário: Bruno Anselmo
Luz: Fran Barros
Figurino: João Pimenta
Visagismo: Wanderley Nunes
Trilha Sonora Original: Fernanda Maia
Realização: Sevenx Produções Artísticas.
Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli
Estreia dia 2 de novembro no Teatro Clara Nunes.
Temporada: De 2 de novembro a 16 de dezembro. Sextas e sábados, às 21h e Domingos, às 20h.
Duração: 120 minutos. Classificação: 16 anos. Ingressos: Sexta-feira Plateia: R$ 80,00 (inteira) / R$ 40,00 (meia). Balcão: R$ 50,00 (inteira) / R$ 25,00 (meia). Sábados e Domingos: Plateia: R$ 100,00 (inteira) / R$ 50,00 (meia). Balcão: R$ 70,00 (inteira) / R$ 35,00 (meia)
TEATRO CLARA NUNES – Shopping da Gávea, R. Marquês de São Vicente, 52 – Gávea, Rio de Janeiro – RJ. Tel.: (21) 2274-9696
Horários da bilheteria: Segunda a sábado, das 13h às 21h. Domingo, das 13h às 20h.
TEATRO PORTO SEGURO – SP
De 25 de janeiro e 31 de março de 2019 – Sextas e sábados às 21h e domingo às 19h.
Ingressos: Sextas-feiras R$ 80,00 plateia / R$ 50,00 balcão/frisas. Sábados e domingos R$ 90,00 plateia / R$ 60,00 balcão/frisas.
Classificação: 16 anos.
Duração: 100 minutos.
TEATRO PORTO SEGURO
Al. Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elíseos – São Paulo.
Telefone (11) 3226.7300.
Bilheteria: De terça a sábado, das 13h às 21h e domingos, das 12h às 19h.
Capacidade: 496 lugares.
Formas de pagamento: Cartão de crédito e débito (Visa, Mastercard, Elo e Diners).
Acessibilidade: 10 lugares para cadeirantes e 5 cadeiras para obesos.
Estacionamento no local: Estapar R$ 20,00 (self parking) – Clientes Porto Seguro têm 50% de desconto.
Serviço de Vans: TRANSPORTE GRATUITO ESTAÇÃO LUZ – TEATRO PORTO SEGURO – ESTAÇÃO LUZ. O Teatro Porto Seguro oferece vans gratuitas da Estação Luz até as dependências do Teatro. COMO PEGAR: Na Estação Luz, na saída Rua José Paulino/Praça da Luz/Pinacoteca, vans personalizadas passam em frente ao local indicado para pegar os espectadores. Para mais informações, contate a equipe do Teatro Porto Seguro.
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Ei, Você aí! Um milionário chamado teatro
“Existe uma superstição teatral curiosa: ela reza que não se deve propalar a falta de sucesso. Para este modo de exorcizar a maré baixa quando ela já está acontecendo, vale sempre afirmar a potência da bilheteria. Por exemplo, falar que está dando meia casa, mais ou menos, algo por aí, ainda que a sala esteja às moscas.
Pois bem: gosto desta superstição e quero sugerir a criação de uma outra. O ponto a considerar é simples – toda obra de arte contem força para encontrar o seu público. A força está em latência na obra, irradia para o espaço ao redor e os que têm identidade seguem ao encontro, enfeitiçados, para conferir. Não estou desmerecendo a propaganda, ela ajuda, mas não é a alma do negócio. A alma do negócio-teatro é a força da obra, em potência e, em contato com o público, em estado de expressão.
A superstição que eu decidi criar é simples: toda obra de teatro, para acontecer, precisa ter dinheiro de teatro, ou então… a força da obra encrua, não acontece, não abraça o público. E, aí, adeus plateia. Não, não estou falando daquelas cédulas de mentirinha, adoradas pelas crianças. Estou falando de dinheiro vivo, de verdade, gerado pelo próprio teatro, pela bilheteria.
Para os iniciantes, marinheiros de primeira viagem, uma outra superstição seria criada, a dos padrinhos de camarins. Profissionais ou grupos mais experientes, felizes com a renovação da arte, investiriam um valor bom para viabilizar a produção de estreia de novatos, sem dinheiros de teatro ainda. Haveria até uma festa de batismo.
Qual o sentido desta superstição, os jovens mais inquietos logo perguntariam? Simples como água: tornar a classe mais definida enquanto categoria produtiva, mais unida e mais independente dos poderosos e dos donos do dinheiro social. Seria, de certa maneira, uma guinada para completar, afinal, a obra iniciada (e sonhada) por Mozart.
A prática já existe – em parte. Muita gente de teatro reinveste em teatro os lucros e mesmo a riqueza pessoal, as economias, a poupança. Já vi gente vender tudo – carro, apartamento, bens móveis – para conseguir a dotação necessária para uma produção. E existem as vaquinhas virtuais, crowdfounding, das quais participam a categoria, amigos, familiares.
Mas o que considero necessário é um outro foco. A ordem agora seria profissionalizar, profissionalizar a um ponto que passasse a existir, com expressão econômica forte, o dinheiro teatral. O tema não é local, exclusivamente brasileiro. E pelo andar da estrutura do showbiz, vale pensar a hipótese de que uma configuração internacional de mercado nova pode surgir.Um diálogo novo palco-plateia, em especial ali onde o Estado não faz caso da arte, como é tradição no Brasil
Na França, acabou de ser lançada a obra Financement participatif: une voie d’avenir pour la culture?, publicada pelo Departamento de Estudos da Previsão e das Estatísticas, do Ministério da Cultura da França, e Presses de Sciences Po. Vale assinalar a função deste departamento: a análise dos futuros globais possíveis, setoriais e temáticos, a partir de estudos e pesquisas, com o objetivo estratégico de determinar a ação pública. Vale dizer que o ministério não faz apenas contas para repartir mesadas, mas ele pensa a arte e planeja as estruturas essenciais para a sua prática.
A obra é muito oportuna. Ela parte da constatação de que o financiamento participativo não é novo, se for considerado o caso de Mozart. Já no século XVIII, reza a lenda, o compositor teria recorrido à prática, ansioso para ter o direito à livre expressão de sua arte, frente aos mecenas e patronos. Lenda ou verdade, de toda forma, o mercado de arte ocidental começou a se estruturar no século XVIII e, a partir do século XIX, efetivamente se constituiu como mercado.O artista se tornou livre para se vender na praça, para quem se dispuser a lhe dar um dinheiro em troca de sua arte. Em tese, o artista se libertou. Deveria se tornar realidade de mercado por sua capacidade de criar…
Hoje, com a internet e os computadores, o financiamento participativo se tornou uma força econômica respeitável, segundo os autores do livro. Tornou-se fácil colocar um projeto no ar, à disposição de uma comunidade de internautas, para ser analisado. Após um pouco mais do que um decênio, numerosos projetos artísticos e culturais foram beneficiados por este procedimento. Os fundos coletados por esta modalidade de produção reuniram, segundo os autores, para a cultura, 45 milhões de euros. Financiamento participativo e autoprodução são práticas em expansão, cresceram muito nos últimos dez anos.
Os autores, François Moreau e Yann Nicolas, se perguntam a respeito das modalidades e dos efeitos deste procedimento, a partir de dados apurados nos sites Ulule, KissKissBankBank e Touscoprod. Uma das surpresas proporcionadas pela análise do perfil dos contribuintes foi a revelação da conexão, talvez inesperada, entre proximidade geográfica e contribuição.
Uma das perguntas de importância no texto consiste em dimensionar o que, afinal,os produtores anônimos financiam – o tema importa para o planejamento cultural e para o pensamento a respeito do futuro da cultura. A preocupação, no caso, era definir se eles engrossam as mesmas tendências favorecidas pelos setores profissionais e institucionais, tradicionais, ou se contribuem para fazer surgir uma diversidade maior no mapa dos projetos artísticos.
Levando adiante o pensamento sugerido pelo livro, há um raciocínio provocativo importante.A linha de raciocínio conduz a duas constatações de impacto – em primeiro lugar, a necessidade vital de que cada arte assuma a sua potência econômica, governe a sua estrutura de produção. Urge, portanto, tomar iniciativas capazes de fazer com que o teatro constitua o seu capital – o controle do processo de produção precisa ser assumido pelos artistas, inclusive na geração do capital.
Em segundo lugar, é possível deduzir com muita clareza a função inteligente que um Ministério da Cultura pode – e deve – ter junto à sociedade. O Ministério da Cultura precisa pensar a cultura e se dedicar à estruturação do lugar social das práticas culturais. Isto se considerarmos, ao menos em parte, a experiência francesa – lá, em lugar da Revolução Industrial, aconteceu uma Revolução Cultural e a indústria da cultura francesa se tornou senhora do mundo. Se os ingleses dominavam os corpos, a França passou a dominar as almas.
No caso francês, se o ministério foi uma câmara normativa e produtiva, tal se deu até o século XVIII – daí o desespero de Mozart, ainda que ele não fosse francês. Para o bem e para o mal, o artista precisa escutar os mecenas e os gerentes da política da vez. A partir da estruturação progressiva do mercado, o ministério manteve instâncias de produção/criação, tais como a Comédie Française, mas a sua função de instância estruturante se revelou mais importante. A arte cresceu ao redor. Portanto, em lugar de financiar a produção, cabe ao estado contribuir para afiar a estrutura de produção.
A rigor, a percepção de que a cultura necessita ser instituição, de que valores clássicos, canônicos, precisam ser trabalhados para que sobrevivam como patrimônio comum e possam, assim, gerar o campo da cultura, integra a própria definição de ação cultural do Estado, ao menos no caso francês. Há, por exemplo, uma junção admirável de educação e cultura a favor do teatro na França.
É o caso da escola Théâtre Molière Sorbonne, fundada em 2017 sob a direção de Georges Forestier. Ligada à universidade e à academia de formação superior de professores e de profissionais da educação de Paris, a iniciativa promove um estudo histórico vivo de Molière. Em dezembro será apresentado o espetáculo Les Facheux, primeira comédia balé do autor, acompanhado com a música original e interpretação historicamente informada.
O projeto pretende pesquisar e divulgar o espetáculo teatral em sintonia com a sua historicidade. Seria um pouco como se, no Brasil, a Escola de Teatro da UNRIO criasse um Teatro Martins Pena. A partir de pesquisas históricas minuciosas, a instituição ofereceria, com a parceria do Instituto de Educação ou uma Faculdade de Educação pública, montagens dos textos de Martins Pena orientadas para a sua historicidade. Em Paris, os ingressos custam um preço acessível e são ainda mais baratos para estudantes abaixo dos 18 anos.
Estes casos ilustram um pouco o que se tenta falar aqui a respeito de estruturação do mercado. A suposição é a de que seria a fórmula ideal. De um lado, o capital, a prática, o teatro acontecendo, com bastante autonomia econômica e remota dependência do governo e do Capital Social. Do outro lado, o Estado e o seu cortejo de ações para garantir a infraestrutura produtiva, a formação de plateia, os alicerces da cena teatral maior. A construção de novos teatros, por exemplo, seria uma das prioridades deste formato do Estado.
Não é difícil definir um Estado estruturante, diferente do Estado paternalista que age nas intervenções imediatas. Uma política editorial consistente, por exemplo, precisa ser prática efetiva do Estado. Caso existisse esta concepção da cultura no Brasil, a carnavalesca Rosa Magalhães, cenógrafa, figurinista, diretora de arte, não teria esperado tanto tempo para publicar o livro E vai rolar a festa…, uma obra preciosa para a cena cultural brasileira.
Trata-se de um livro documentário, algo que se poderia chamar de doculivro. A obra reúne material da festa de encerramento das Olimpíadas Rio 2016 e das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Panamericanos de 2007, no Rio de Janeiro. A rigor, o projeto do livro surgiu lá atrás, no trabalho de arquivamento do material de 2007. Mas não houve chance qualquer de encontrar um patrocinador. A referência ilustra a dificuldade para a produção de livros de cultura no país, em particular no caso do teatro.
Mas, afinal, o resultado deste trabalho de tanto impacto pode ser reunido e publicado, para efetivar o registro histórico e para constituir fonte de pesquisa para estudiosos em geral. Foram selecionados e editados desenhos, plantas, croquis, perspectivas, fotos do making off e dos espetáculos. Uma festa para o olhar. Uma oportunidade para comemorar a imensa capacidade criativa do brasileiro, da qual Rosa Magalhães é prova inconteste.
Portanto, capacidade de criação, inventividade, garra, disposição estética e disposição contemplativa não faltam por aqui. Falta dinheiro. Não adianta chorar e querer colo quando a mãe, no caso brasileiro, é uma viúva alegre, que já abdicou faz tempo da gerência da prole. Então, não há dúvida, é preciso produzir o dinheiro. Vale arregaçar as mangas e partir para o trabalho, mas com um rumo diferente, capaz, quem sabe, de transformar os sucessos de retórica em sucessos efetivos, fazer nascer um teatro aclamado pelo público como ato sonante de cultura, no qual o público vê, em cena, o resultado emocional do seu dinheiro. Neste espaço, a arte do teatro se torna ato social pleno e efetivo.
Financement participatif : une voie d’avenir pour la culture ?
François Moreau, Yann Nicolas
Presses de Sciences Po | Coéditions
Brochura- 18,00 €
Les Fâcheux de Molière
Jeudi 20 décembre à 19h45
Amphithéâtre Richelieu, Sorbonne Université
(17 rue de la Sorbonne, 75005 Paris)
Entrée : 10 € / 5 € (étudiants et lycéens, moins de 18 ans)
Réservations uniquement en ligne, avant le 19 décembre (pas de vente sur place) : https://www.billetweb.fr/facheux
Rosa Magalhães
E vai rolar a festa… (Ed. Nova Terra, 180 pág., R$ 80)
Foto: Fernando Tribiño / Divulgação.
LANÇAMENTOS
Restaurante La Fiorentina
Endereço – Avenida Atlântica, 458 A, Leme.
Data – Terça-feira, 27 de novembro, 19h.
Telefone – 2543-8395.
Cidade do Samba
Endereço – Rua Rivadávia Correia 60, Gamboa, Zona Portuária.
Data – Terça-feira, 11 dezembro, 17h.
Tagged: Crowdfunding, E vai rolar a festa..., Financement Participatif, François Moreau e Yann Nicolas, Georges Forestier, Molière, Mozart, Rosa Magalhães, Théâtre Molière Sorbonne
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No país da cultura-lixo
“Muita gente acha que lixo é algo imprestável, podre, acabado – não serve para nada, pura tranqueira. Aliás, muitas destas pessoas que pensam assim, não pensam sequer um minuto no problema que arranjam, para a Terra e para a sociedade, quando produzem o seu lixo-tranqueira cotidiano. São pessoas que nunca se perguntaram para onde vai o seu lixo. Este é o lixo visto como infernal, maldito. O tema é vasto.
Para começar a questionar esta visão do mundo, é recomendável ver a peça Kondima – sobre Travessias, novo cartaz do Arena SESC Copacabana, trabalho impecável da Troupp Pas D’Argent. Lá pelas tantas, a inefável atriz Ruth Mariana surpreende a plateia com o seu depoimento contundente de refugiada: sobreviveu no Brasil muito tempo graças ao lixo brasileiro, ao seu ver um lixo ótimo. Este é o lixo celestial, abençoado.
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Corpos opacos, almas reluzentes
Mistérios femininos. Corpos Opacos, em final de temporada no Mezzanino do SESC Copacabana, traz para a cena teatral a delicadeza do olhar feminino e a aura radiosa dos mistérios. Abre uma fresta de seda, entre a onda engajada e os mantos de flores, para sugerir o pensamento a respeito deste abismo, interesse de todos. A pergunta antiga – o que é afinal a mulher? – desponta revisitada sob novas tonalidades surpreendentes.
Mistérios femininos – eles estruturam muito da vida do mundo. Impossível traduzir em língua cartesiana regular certas tramas de afeto e de pertencimento, volteios do espírito de matriz telúrica, alheamentos e ausências da obrigação gregária. Até que ponto ir para um convento é uma derrota, uma perda, uma castração? Pode ser uma conquista, a conquista de uma liberdade indizível, de um outro corpo, um corpo desejante absoluto, uma vitória contra o mundo banal?
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Sonhar com política: a revolução do presente
Vou confessar um segredo terrível: gosto de política. Desconfio de um contágio prematuro irreversível na infância, do qual não me recuperei. O meu pai era cabo eleitoral no subúrbio, cismava de incentivar os meus supostos dotes precoces para a redação e a oratória. Assim, aos nove anos me tornei locutora de comitê eleitoral e também aquela menina chatinha ocupada em recitar versos e discursar no palanque em louvor à pátria antes do candidato tomar a palavra.
Sim, tomava-se a palavra. Discursar era um ato de verter belas palavras vindas de uma fonte borbulhante de inspiração. Se a política é, em razoável grau, puro jogo de afeto e sedução, outrora tais sentimentos surgiam na fala para expor uma arte. A arte de demonstrar algum entendimento das necessidades sociais e, claro, de revelar capacidade para gerenciar a solução dos males inventariados.
O mundo mudou. A política se fez outra. Por isto sinto certo mal estar diante da política pós-dramática do nosso tempo, em que a ação verbal virou confronto pessoal – o jogo afetivo não é mais para levar o eleitor a acreditar na possível solução dos problemas, nem para expor problemas ou programas para enfrentá-los.
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O teatro carioca e a cidade da festa
O ano acabou: adeus, 2018. A população carioca festeira não terá, ao que tudo indica, muitos motivos para comemorar o fim do ano. O programa mais consagrado dos últimos tempos, a Árvore da Lagoa, não dará o ar de sua graça. Não que o ilustre cone de luz chegasse a ser um acontecimento monumental, chave de ouro para fechar o ano. Mas sempre seria alguma coisa, o povo adorava. Era lindo ver as famílias passeando. Devia continuar!
O foco é simples e objetivo: o Rio, cidade sem grandeza industrial, precisa de grandes marcos de calendário para se impor como destino obrigatório, para os seus moradores e visitantes, estes, se possível, dispostos a gastar dólares por aqui. O Rio de Janeiro precisa se projetar com muita força como cidade cultural e, em consequência, potência turística. Precisa de eventos.
Se o Bradesco recuou do projeto da árvore, contra a qual eu, pessoalmente, não tinha qualquer restrição, mesmo ficando refém dos engarrafamentos, de carros e de pedestres, o Bradesco, tão amante dos musicais, poderia muito bem oferecer uma outra atração reluzente, digna de uma cidade maravilhosa. Poderia ser um Auto de Natal musical, um presépio vivo com show de luz, uma encenação que falasse de viver o Natal no verão, com cajus, pitangas, goiabas e abacaxis…
Não consegui apurar se teremos o Auto dos Arcos da Lapa, as fontes consultadas não souberam responder. Mas, que me perdoem os amigos da Zona Sul defensores do privilégio de ter este paraíso praieiro só para eles, penso que seria ideal ter um Auto da Lagoa ou de Copacabana, um evento cheio de luz, com meninos cantores, gambiarras e tudo o mais, para celebrar a cidade e o encontro dos cidadãos. Podíamos ter Missa Solene, com Bach ou Villa-Lobos.
Talvez alguns queiram sugerir a quinta da Boa Vista – mas, desde o incêndio do Museu Nacional, inaceitável, parece ser um equívoco pensar num evento de massa por lá. E, convenhamos, para ser um evento chave num calendário turístico-cultural, a Zona Sul é o lugar. O objetivo seria algo na linha das luzes de Gramado ou de Curitiba, acontecimentos já transformados em agenda fixa retumbante.
Sim, o Rio precisa de fatos culturais retumbantes – não apenas réveillon e carnaval, é pouco. O calendário precisa de ampliação. Para não dizermos que nada acontece e, assim, com este truque, evitarmos registrar um clima próximo àquele das cidades fantasmas, vale destacar um agito importante programado para a Barra da Tijuca.
Ok, eu sei, muita gente boa pensa que a Barra não é Rio de Janeiro, é território estrangeiro. Mas, até o momento, a vontade não manda na geografia, a Barra é nossa, vamos nos consolar com a festa deles, é o que há. E ao que tudo indica será uma festança para ipanemense nenhum botar defeito.
Vai ser a inauguração festiva, sábado 27 de outubro, às 19h, da árvore de Natal do Barra Shopping! Vale ir ver, sobretudo quem é da classe e ama o Rio, deseja ativar o sucesso da cidade, pois a cereja da noite será uma companhia de teatro. Italiana, è vero, porém, de teatro. A julgar pelos releases e bochichos, a Companhia Studio Festi vai assinar um auto de Natal mirabolante, daqueles para não esquecer nunca. Vale chamar de auto, pois a coisa terá um tom épico bem moderno, como acontecia com Gil Vicente.
O conjunto, sediado em Varese, tem 38 anos e realiza algo ao redor de 40 espetáculos por ano, todos na linha do feérico-surpreendente-inusitado. As apresentações não se repetem, são performances únicas, combinam alegorias gigantescas, jogos e efeitos de luz, bailarinos acrobatas, projeções, fogos de artifícios, trilhas sonoras originais para o evento, figurinos impactantes.
Adaptado ao Rio – os espetáculos da companhia sempre buscam sintonizar a atmosfera local – o show evocará a cidade, mas vai contar uma história adequada ao Natal, contemplando tanto a criação do mundo como o nascimento de Cristo. O objetivo é impressionar a sensibilidade do público, como se ele estivesse diante de uma linguagem de sonho.
Assim, não haverá uma estrutura convencional de espetáculo – as alegorias se moverão no meio do público, sobrevoarão o espaço, surgirão sem que se saiba ao certo de onde ou como, numa engenharia de forte impacto sensível. O fundador e diretor do conjunto, Valerio Festi, defende a proposta como se ela fosse uma festa, com o sentido exato de provocar um efeito marcante em quem tenha a oportunidade de acompanhar o trabalho, não importando o nível cultural da plateia.
Ao final, um anjo anunciará a iluminação da árvore de Natal, de 65 metros de altura, localizada no estacionamento do Barra Shopping próximo à Avenida das Américas. A árvore, criação do cenógrafo Abel Gomes, foi construída em 45 dias com materiais brilhantes e luminosos, para não ficar pálida sob a luz do sol. Uma programação musical intensa será apresentada como parte do evento comemorativo do fim do ano.
Considerando-se os dados, o que se pode pensar é a oportunidade deste tipo de celebração numa cidade como o Rio de Janeiro. Afinal, antes que existisse teatro no Rio, lá nos tempos da colônia, já se delineava o DNA da cidade como matriz de centro urbano festeiro. A partir das sugestões ou das imposições portuguesas, comemorava-se tudo, das festas reais às celebrações religiosas. Uma festa de barraquinhas ou uma procissão encantavam o jovem povoado e a mania ficou no sangue dos nativos.
Quem sai aos seus, não degenera, reza a sabedoria popular – não há motivo para que não honremos a herança. Se os italianos contam com antigos saberes requintados, desde o Renascimento e o Barroco, para a construção de máquinas de desfilar, cortejos, apresentações voadoras, nós, aqui, temos nossas fortunas. Vale pesquisar as velhas cenografias de desfiles, sem falar no saber das escolas de samba.
Já que o Rio tem, em potência, um pródigo calendário de festas, apresenta disposição para o sarau, conta com a simpatia dos turistas, o amor dos visitantes e um solene desinteresse pela ruína dos seus edifícios teatrais, a solução parece bem clara. Afinal, mais um teatro acabou de ser fechado, sem aviso nem preparação – o simpático Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura – e nada aconteceu, nada se faz. Aliás, a livraria foi junto. E nada aconteceu, nada se faz.
Neste ritmo, a pegada está aí. Basta convencermos os políticos, as empresas e os mecenas de que o Rio tem uma solução fácil para a crise, deve se tornar a cidade das festas, sempre teatrais, para que sejam grandiosas, ofuscantes. Vários pontos podem receber tais celebrações – a Marina da Glória, a Copacabana alugada de sempre, a Barra da Tijuca, o Recreio, o Jardim do Méier, o Parque de Madureira.
Sob uma gestão rigorosa, artistas muito bem treinados, boa MPB, não vai sobrar para mais ninguém. O Rio de Janeiro de tornará a capital-festa do mundo. Que venha o Natal, o novo ano, por muitos e muitos anos – com uma visão assim otimista, temos um futuro nobre para o teatro e para a cidade, não precisamos ter medo do que pode vir por aí. Feliz 2019, portanto, e felizes todos os anos do belo porvir festivo que, se quisermos, se imporá.
Programação:
– Inauguração da Árvore de Natal do BarraShopping, 27/10/2018 – a partir das 18h.
– Atrações: DJ, a Banda Sinfônica do Corpo de Fuzileiros Navais, o balé aéreo da companhia italiana Studio Festi e queima de fogos.
– Domingos de novembro, às 19h, apresentações musicais.
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Lei Rouanet: a aflição e a urgência
Um enigma: o brasileiro fez do teatro a sua arte mais querida. Não sob o modelo rebuscado pregado pelos doutos, mas segundo uma cartilha buliçosa e brejeira, ditada das ruas para a cena. No século XIX, o teatro – em particular o teatro musical – conquistou os corações por aqui. Aclamou personalidades criativas irresistíveis, grandes mestres no texto, e o melhor exemplo é Artur Azevedo (1855-1908), ou na cena, com seres desmedidos tais como João Caetano (1808-1863) ou o Vasques (1839-1892).
Ainda que João Caetano tenha sido um ator dramático, portanto necessariamente ligado ao teatro dito sério, vale lembrar que o seu tom era mais sentimental, mais exaltado e fervilhante do que o paradigma recomendado pela tradição acadêmica de contenção. O brasileiro tem alma barroca, ama o excesso, transborda por um desmedido. Pois o teatro seguiu por este caminho.
De gargalhada em gargalhada, de lágrima em lágrima, um mercado surgiu. No início do século XX ele estava ali, na Praça Tiradentes. E foi como pôde, aos trancos e barrancos, caminhando pelo novo século, o século do furor industrial, da explosão do consumo. Logo a vertigem fabril chegaria à produção cultural, a bordo do radio, do cinema e da televisão. O teatro foi saindo da dianteira, passou para o reboque. Vai retroceder mais?
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Teatro, escola, educação: uma bela encruzilhada
O tema ecoa sempre no ar – para quê serve o teatro? Vale manter a pergunta em pauta? Ou é urgente oferecer alguma resposta, uma resposta evasiva, capaz de deixar a arte fugir, revelar sua impotência? Ou o caso exige uma resposta hábil o bastante para provar a necessidade de que se tenha teatro em escala ampla, geral e irrestrita? Será que o teatro serve apenas ao nada? É tão delicado que não importa?
Parece bem o momento de voltar ao assunto – alguns fatos solicitam a reflexão. Na verdade, a situação atual pede bem mais: pede alguma ação. Eu não tenho dúvida de que o teatro torna as pessoas melhores, ainda que elas não o percebam. Sim, ele é inefável – assim, neste caso, talvez sintonize com o nada. Acredito que ele faz parte das receitas ocidentais de cidadão e de ser humano, descritas lá em Aristóteles. Precisa, portanto, estar na escola desde as primeiras séries.
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Lágrimas amargas brasileiras
Chorei todas: chorei de secar a alma, para ver se ela vira múmia e, desidratada, suporto melhor este meu horrendo país. Desculpem, posso falar: sou jacaré com cobra d’água, como a elite local canhestra gosta de dizer daqueles nativos sem berço e brasão. Sim, sou verde-amarela, as cores escolhidas por D. Leopoldina para o país. Sou dessas pessoas.
Por isto, escrevo chorando. Sim, senhor Ministro de Estado e tantas Donas Marocas governamentais incompetentes, sou uma das viúvas apaixonadas do museu. E posso lhe informar: a sua batata está assando. O banquete de vocês, corvos do povo, está chegando, quentinho. Aproveitem, empanturrem-se.
Sou suburbana e, como todos os suburbanos nascidos na década de 1950, tive uma formação excelente em escola pública e fui impregnada por um nativismo pegajoso herdeiro do Varguismo. Fui guarda da bandeira, escrevi e recitei versos para a pátria mãe gentil e recebi muita educação cultural nos esplendorosos museus do Distrito Federal.
Meu pai, entre todas as amantes que cultivou com esmêro por toda a vida, tinha predileção por uma bronzeada e esguia senhorita, a mui heroica e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Ele não vivia sem carro e adorava enfiar os filhos no calhambeque da vez para flanar por toda a cidade. Um dos altares da pátria cidadã que comecei a frequentar bem cedo, levada por ele, foi a Quinta da Boa Vista e o Museu Nacional.
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As ondas longas do canto nacional
Ouvidos atentos, olhos conquistados. Muitos estudos precisam ser feitos a respeito da relação brasileira entre rádio e teatro. Ela está na ordem do dia. A aproximação entre os dois espaços de criação nasceu desde a implantação do rádio no país e nem sempre foi pura harmonia, muito pelo contrário… Assim como o cinema despertou temores de que, por causa dele, o palco iria se acabar, também as transmissões radiofônicas, em especial depois da eclosão da paixão pelas radionovelas, trouxeram a suspeita de que os dias da cena estariam contados.
O tema surge para o debate por várias razões. Em primeiro lugar, por causa da insinuação, agora, de novo, de que o teatro poderá morrer em função de ocupações domésticas, tais como a televisão, os filmes em casa, a dedicação ao parque de diversões contido nos celulares. Estive por estes dias conversando com amigos da Zona Norte do Rio e eles se declararam reclusos noturnos, quer dizer, eles não saem mais de casa à noite, por causa do medo da violência. Abdicaram de vez do prazer de ir ao teatro e se dedicam a outras artes e diversões, em casa. Optaram por se divertir entre quatro paredes familiares.
A razão da escolha de agora difere da situação passada, gerada quando o rádio despontou, que era de puro amor radiofônico. Registra, contudo, a mesma inclinação para a diversão doméstica desfavorável ao teatro. Dificilmente a maioria dos recolhidos atuais optará por ouvir rádio, mas, de toda a forma, eles elegeram a opção de se divertir no lar. Este novo recesso me fez lembrar o antigo, rememorar uma velha história importante para o teatro.
Pois existem outras razões para trazer à baila o tema da aproximação entre as duas searas de produção: o rádio, quando surgiu, decididamente enfeitiçou a população. O sucesso fez com que muita gente, artista, migrasse dos palcos para os microfones das estações. Vale assinalar um fato menosprezado, a ascensão do rádio coincidiu com o declínio progressivo do teatro de revista, tema bastante polêmico não pesquisado até hoje. Seria possível argumentar que a revista cumpriu um ciclo e sumiu por sua própria fraqueza.
Ela não teria conseguido se reinventar. Não conseguiu se estruturar com estabilidade como atividade de mercado, dentro de um jogo econômico mais competitivo do que o do século XIX, quando o palco era soberano. Só que a nascente música popular, que pulsava no teatro, nasceu nele para as plateias, se tornou uma fortaleza nas rádios. A partir deste trampolim, virou indústria, numa vertigem de capital distante da realidade teatral.
O trânsito atingiu também autores e atores. Alguns dramaturgos – e o maior exemplo é Oduvaldo Vianna, o pai (1892-1972) – se tornaram grandes personalidades do rádio, como autores de radionovela e como dirigentes de emissoras. Algumas vozes célebres de atores do teatro brasileiro só podem ser analisadas com propriedade se considerarmos a sua formação ou a sua aclamação nas rádios.
Mas é possível ir mais longe. Um dado curioso a observar é que hoje um movimento inverso, de retorno, marca a cena brasileira. A música, traidora, que abandonou a cena a favor dos estúdios, voltou a ocupar a velha casa em escala crescente, no ciclo de renascimento, de agora, do teatro musical. A pergunta mais importante do tema é a respeito do fluxo que preside este movimento. O quê move a sensibilidade brasileira neste jogo? O que torna a produção de música importante aqui, irresistível, uma atração capaz de abrir exceção na reclusão atual do carioca? Uma amiga da Zona Norte desistiu do teatro mas, pressionada, reconheceu – vai sair de casa sim, para ir ao Centro, mas para ver musical, suprema delícia, a seu ver.
Vale reler algumas páginas do final do século XIX, assinadas por Machado de Assis, ou do início do século XX, com Lima Barreto. Os dois acusam a existência de um forte gosto brasileiro pela música. Mas, se havia o retrato de uma devoção ao piano, no primeiro, o segundo já fala do violão e da impressão repulsiva que o instrumento, amado pelos marginais, causava nos chefes das famílias, autênticos caçadores de seresteiros. Os primeiros sucessos destes notáveis vadios aconteceram nas rodas de samba e de batuque. Para os palcos das revistas, foi um passo curto. E o violão acabou por se tornar um som nobre da vida brasileira.
Não se pode, entretanto, achar que o passo curto foi fácil, rápido e rasteiro: o processo de namoro foi lento. Não foi uma paixão imediata, fulminante. A música que veio do século XIX, mesmo no violão, era filha dileta do belcanto, amante do dó de peito. Apesar do remoto vínculo idealista, ela mexia com o corpo, com os quadris. O resultado é fácil de imaginar: a revista e o teatro musical do início do século aconteciam sob uma aura de transgressão. Causavam repulsa nos meios intelectuais elevados e nas famílias de qualidade, eram qualificados como terra do trolóló e pernas nuas. E o mais engraçado é que pode até ser que o corpo da roda de samba tenha sido contido para caber no palco. Ainda assim ele era uma facilidade expressiva, era tosco, excessivo, segundo as normas dos saraus à beira do piano. Aracy Côrtes (1904-1985) machucando um maxixe era uma visão obscena.
O que foi que provocou a mudança e fez surgir um tórrido caso de amor? Não há dúvida, para a boa música brasileira, a dissipação dos tabus, a popularidade e o gosto familiar foram conquistados graças ao rádio. E é do rádio que o teatro empresta, agora, os seus maiores sucessos, acontecimentos que podem fazer as pessoas saírem de casa, mesmo com a violência, pois os horários das sessões teatrais começam a se aproximar das tardes. Se antigas marchinhas ironizavam as fãs, vistas sob o rótulo pejorativo de macacas de auditório, hoje se pode ver nas plateias que macacas e madames compartilharam paixões. O caso de amor aconteceu e varreu tudo e todos.
É nesta abordagem que se pode entender a aclamação de vários sucessos da cena teatral musical recente. Olhar a cena carioca neste momento revela propostas de contorno bem nítido, cuja origem só pode ser explicitada se for considerado o sucesso do rádio, dos programas de auditório, a consagração do hábito de ouvir música em casa, na intimidade. E o prazer de ter a alma banhada por belas vozes brasileiras.
Vale destacar que o rádio foi a porta democrática capaz de viabilizar a aclamação de pessoas de origem muito humilde – Elza Soares e Elizeth Cardoso (1920-1990) chegaram ao estrelato absoluto, mais do que merecido, por este caminho. As ondas sonoras levaram para todo o território a arte das duas e o caminho de consagração foi mais eficiente do que o teatro poderia ser, pois era um caminho imediato e nacional. Por mais que o Rio de Janeiro, capital federal, falasse dos palcos para o país, esta repercussão possuía outro andamento.
O rádio proporcionou também o surgimento de possibilidades locais de projeção – novas estações foram criadas por todo o território. É importante observar como, até certa altura, estas manifestações locais não possuíam autonomia e seguiam o padrão ditado pelo Rio de Janeiro. Este jogo centro-periferia transparece no início da carreira de Isaurinha Garcia (1903-1973), uma voz privilegiada de São Paulo que iniciou a carreira na Rádio Cultura e na Rádio Record, de São Paulo, e se firmou como artista a partir de sua cidade.
No início de sua trajetória, as referências com que trabalhava eram Carmen Miranda (1909-1955) e Aracy de Almeida (1914-1988), consagradas cantoras sediadas no Rio de Janeiro. Contratada pelo rádio em São Paulo, Isaurinha construiu uma identidade forte, consolidada na sua cidade, com projeção nacional, graças à beleza de sua voz e ao poder do novo veículo. A sua carreira nacional projetada longe do Rio traduziu, portanto, o esboço de uma nova realidade geopolítica da arte no país.
Pois eis em sua integridade a questão. Por obra e graça do gosto popular por espetáculos musicais, as três grandes cantoras estão em cena no Rio de Janeiro em produções cuidadas e de grande densidade artística. Elizeth recebeu a graça divina do desempenho inspirado de Izabella Bicalho e faz enorme sucesso no Teatro Maison de France. A atriz consegue irradiar o encanto e o magnetismo da cantora, envolta numa aura de época muito bem desenhada.
Elza Soares recebeu a ousadia de ver a sua identidade plasmada através de um número cabalístico – sete atrizes representam o seu imenso poder artístico no palco do Teatro Riachuelo. Num redemoinho de canções, pulsações, corporeidades, cores, elas revelam a impressionante força de Elza, força humana e força artística.
Já Isaurinha Garcia retorna à cena numa nova encenação sob a luz da excelente Rosamaria Murtinho, criadora da personalidade em 2003. Nesta nova montagem, ela terá a companhia das radiosas Kiara Sasso e Soraya Ravenle. Trata-se de uma narrativa biográfica, dedicada à estrela paulista na época de ouro do rádio, novo cartaz do Teatro Oi Casa Grande. O que se pode dizer?
O encanto que o rádio espalhou em ondas curtas e frequência modulada está entre nós de novo, sob uma outra forma, a forma teatral. As atrizes, contudo, não fazem mais um teatro cabeça-pescoço, engessado como uma ópera velha – elas trazem uma idade nova do musical brasileiro, quente, vibrante, povoado por corpos expressivos, musicais.
Os primeiros musicais biográficos deste novo ciclo histórico – como Dolores ou mesmo Rádio Nacional, por exemplo – ainda possuíam atores em desempenhos quase radiofônicos, frontais, rígidos diante das canções. No início, o palco mimetizava um pouco a situação do estúdio, engessamento ainda presente em algumas montagens, esquecidas do fato de que se trata de uma outra poética.
No geral, contudo, o novo musical busca desenvolver uma forma cênica em sintonia com a vida atual – uma vida em que a intensidade do corpo é um valor de primeira grandeza. Mesmo falando do passado, o teatro descobriu que encenar não é apenas fazer fluir a voz, como se o físico fosse uma estaca alto-falante. A cena mudou e é importante conferir – a homenagem às estrelas fica ainda mais emocionante. Não dá para perder a chance de sintonizar com ondas profundas responsáveis por muito da nossa identidade.
Vale agradecer ao rádio, por ter sido incubadora e abrigo de talentos tão notáveis. E ao teatro, agora numa fase musical intensa, por gostar tanto de música e oferecer oportunidades preciosas para que se saia de casa, se levante a cabeça, e se vença o medo de morar no Rio. Importa usar a velha paixão por canções para lotar os teatros. Nada melhor se poderia oferecer ao sofrido povo carioca neste momento: olhos, ouvidos e corações em sintonia fina.
Elizeth, A Divina
ESTREIA: 04 de julho (4ªf), às 17h
LOCAL: Teatro Maison de France
Av. Presidente Antônio Carlos, 58 – Centro / RJ Tel: (21) 2544-2533
HORÁRIOS: quartas às 17h e quintas às 19h /
INGRESSOS: R$ 50,00 e R$25,00 (meia) / HORÁRIO
FUNCIONAMENTO DA BILHETERIA: 3ª a domingo, a partir das 14h
VENDAS POR INTERNET: www.tudus.com.br /
CAPACIDADE: 355 espectadores / DURAÇÃO: 120 min (com intervalo)
GÊNERO: Musical
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: Livre
TEMPORADA: até 16 de agosto (excepcionalmente nos dias 01 e 02 de agosto não haverá espetáculo, devido a compromissos do teatro previamente agendados)
Elza
Temporada de 19 de julho a 30 de setembro
Quintas, às 19h. Sextas e Sábados, às 20h. Domingos, às 18h
TEATRO RIACHUELO
Rua do Passeio, 38/40 – Centro
Vendas na bilheteria do teatro e site da Ingresso rápido.
Ingressos:
Quintas: R$ 40 (Balcão Superior), R$ 80 (Plateia e Balcão Nobre), R$ 100 (Plateia VIP).
Sextas: R$ 50 (Balcão Superior), R$ 100 (Plateia e Balcão Nobre), R$ 130 (Plateia VIP).
Sábados: R$ 50 (Balcão Superior), R$ 100 (Plateia e Balcão Nobre), R$ 150 (Plateia VIP).
Domingos: R$ 40 (Balcão Superior), R$ 80 (Plateia e Balcão Nobre), R$ 100 (Plateia VIP).
Classificação etária: 14 anos.
Duração: 120 minutos.
Isaura Garcia – O Musical
ESTREIA: 29 de Julho
Local: Teatro OiCasagrande, Av. Afrânio de Melo Franco 290 A, Leblon
Temporada: de 26 de julho a 14 de outubro
Horários: quinta-feira, às 20h; sexta-feira, às 20h; sábado, às 17h30 e às 21h; domingo, às 18hPreços: de R$ 50 (inteira) a R$ 150 (inteira)
Vendas: bilheteria do teatro e pelo site Tudus (https://www.tudus.com.br/evento/oi-casa-grande-isaura-garcia–o-musical)
Classificação etária: 12 anos