High-res version
Ei, Você aí! Um milionário chamado teatro
“Existe uma superstição teatral curiosa: ela reza que não se deve propalar a falta de sucesso. Para este modo de exorcizar a maré baixa quando ela já está acontecendo, vale sempre afirmar a potência da bilheteria. Por exemplo, falar que está dando meia casa, mais ou menos, algo por aí, ainda que a sala esteja às moscas.
Pois bem: gosto desta superstição e quero sugerir a criação de uma outra. O ponto a considerar é simples – toda obra de arte contem força para encontrar o seu público. A força está em latência na obra, irradia para o espaço ao redor e os que têm identidade seguem ao encontro, enfeitiçados, para conferir. Não estou desmerecendo a propaganda, ela ajuda, mas não é a alma do negócio. A alma do negócio-teatro é a força da obra, em potência e, em contato com o público, em estado de expressão.
A superstição que eu decidi criar é simples: toda obra de teatro, para acontecer, precisa ter dinheiro de teatro, ou então… a força da obra encrua, não acontece, não abraça o público. E, aí, adeus plateia. Não, não estou falando daquelas cédulas de mentirinha, adoradas pelas crianças. Estou falando de dinheiro vivo, de verdade, gerado pelo próprio teatro, pela bilheteria.
Para os iniciantes, marinheiros de primeira viagem, uma outra superstição seria criada, a dos padrinhos de camarins. Profissionais ou grupos mais experientes, felizes com a renovação da arte, investiriam um valor bom para viabilizar a produção de estreia de novatos, sem dinheiros de teatro ainda. Haveria até uma festa de batismo.
Qual o sentido desta superstição, os jovens mais inquietos logo perguntariam? Simples como água: tornar a classe mais definida enquanto categoria produtiva, mais unida e mais independente dos poderosos e dos donos do dinheiro social. Seria, de certa maneira, uma guinada para completar, afinal, a obra iniciada (e sonhada) por Mozart.
A prática já existe – em parte. Muita gente de teatro reinveste em teatro os lucros e mesmo a riqueza pessoal, as economias, a poupança. Já vi gente vender tudo – carro, apartamento, bens móveis – para conseguir a dotação necessária para uma produção. E existem as vaquinhas virtuais, crowdfounding, das quais participam a categoria, amigos, familiares.
Mas o que considero necessário é um outro foco. A ordem agora seria profissionalizar, profissionalizar a um ponto que passasse a existir, com expressão econômica forte, o dinheiro teatral. O tema não é local, exclusivamente brasileiro. E pelo andar da estrutura do showbiz, vale pensar a hipótese de que uma configuração internacional de mercado nova pode surgir.Um diálogo novo palco-plateia, em especial ali onde o Estado não faz caso da arte, como é tradição no Brasil
Na França, acabou de ser lançada a obra Financement participatif: une voie d’avenir pour la culture?, publicada pelo Departamento de Estudos da Previsão e das Estatísticas, do Ministério da Cultura da França, e Presses de Sciences Po. Vale assinalar a função deste departamento: a análise dos futuros globais possíveis, setoriais e temáticos, a partir de estudos e pesquisas, com o objetivo estratégico de determinar a ação pública. Vale dizer que o ministério não faz apenas contas para repartir mesadas, mas ele pensa a arte e planeja as estruturas essenciais para a sua prática.
A obra é muito oportuna. Ela parte da constatação de que o financiamento participativo não é novo, se for considerado o caso de Mozart. Já no século XVIII, reza a lenda, o compositor teria recorrido à prática, ansioso para ter o direito à livre expressão de sua arte, frente aos mecenas e patronos. Lenda ou verdade, de toda forma, o mercado de arte ocidental começou a se estruturar no século XVIII e, a partir do século XIX, efetivamente se constituiu como mercado.O artista se tornou livre para se vender na praça, para quem se dispuser a lhe dar um dinheiro em troca de sua arte. Em tese, o artista se libertou. Deveria se tornar realidade de mercado por sua capacidade de criar…
Hoje, com a internet e os computadores, o financiamento participativo se tornou uma força econômica respeitável, segundo os autores do livro. Tornou-se fácil colocar um projeto no ar, à disposição de uma comunidade de internautas, para ser analisado. Após um pouco mais do que um decênio, numerosos projetos artísticos e culturais foram beneficiados por este procedimento. Os fundos coletados por esta modalidade de produção reuniram, segundo os autores, para a cultura, 45 milhões de euros. Financiamento participativo e autoprodução são práticas em expansão, cresceram muito nos últimos dez anos.
Os autores, François Moreau e Yann Nicolas, se perguntam a respeito das modalidades e dos efeitos deste procedimento, a partir de dados apurados nos sites Ulule, KissKissBankBank e Touscoprod. Uma das surpresas proporcionadas pela análise do perfil dos contribuintes foi a revelação da conexão, talvez inesperada, entre proximidade geográfica e contribuição.
Uma das perguntas de importância no texto consiste em dimensionar o que, afinal,os produtores anônimos financiam – o tema importa para o planejamento cultural e para o pensamento a respeito do futuro da cultura. A preocupação, no caso, era definir se eles engrossam as mesmas tendências favorecidas pelos setores profissionais e institucionais, tradicionais, ou se contribuem para fazer surgir uma diversidade maior no mapa dos projetos artísticos.
Levando adiante o pensamento sugerido pelo livro, há um raciocínio provocativo importante.A linha de raciocínio conduz a duas constatações de impacto – em primeiro lugar, a necessidade vital de que cada arte assuma a sua potência econômica, governe a sua estrutura de produção. Urge, portanto, tomar iniciativas capazes de fazer com que o teatro constitua o seu capital – o controle do processo de produção precisa ser assumido pelos artistas, inclusive na geração do capital.
Em segundo lugar, é possível deduzir com muita clareza a função inteligente que um Ministério da Cultura pode – e deve – ter junto à sociedade. O Ministério da Cultura precisa pensar a cultura e se dedicar à estruturação do lugar social das práticas culturais. Isto se considerarmos, ao menos em parte, a experiência francesa – lá, em lugar da Revolução Industrial, aconteceu uma Revolução Cultural e a indústria da cultura francesa se tornou senhora do mundo. Se os ingleses dominavam os corpos, a França passou a dominar as almas.
No caso francês, se o ministério foi uma câmara normativa e produtiva, tal se deu até o século XVIII – daí o desespero de Mozart, ainda que ele não fosse francês. Para o bem e para o mal, o artista precisa escutar os mecenas e os gerentes da política da vez. A partir da estruturação progressiva do mercado, o ministério manteve instâncias de produção/criação, tais como a Comédie Française, mas a sua função de instância estruturante se revelou mais importante. A arte cresceu ao redor. Portanto, em lugar de financiar a produção, cabe ao estado contribuir para afiar a estrutura de produção.
A rigor, a percepção de que a cultura necessita ser instituição, de que valores clássicos, canônicos, precisam ser trabalhados para que sobrevivam como patrimônio comum e possam, assim, gerar o campo da cultura, integra a própria definição de ação cultural do Estado, ao menos no caso francês. Há, por exemplo, uma junção admirável de educação e cultura a favor do teatro na França.
É o caso da escola Théâtre Molière Sorbonne, fundada em 2017 sob a direção de Georges Forestier. Ligada à universidade e à academia de formação superior de professores e de profissionais da educação de Paris, a iniciativa promove um estudo histórico vivo de Molière. Em dezembro será apresentado o espetáculo Les Facheux, primeira comédia balé do autor, acompanhado com a música original e interpretação historicamente informada.
O projeto pretende pesquisar e divulgar o espetáculo teatral em sintonia com a sua historicidade. Seria um pouco como se, no Brasil, a Escola de Teatro da UNRIO criasse um Teatro Martins Pena. A partir de pesquisas históricas minuciosas, a instituição ofereceria, com a parceria do Instituto de Educação ou uma Faculdade de Educação pública, montagens dos textos de Martins Pena orientadas para a sua historicidade. Em Paris, os ingressos custam um preço acessível e são ainda mais baratos para estudantes abaixo dos 18 anos.
Estes casos ilustram um pouco o que se tenta falar aqui a respeito de estruturação do mercado. A suposição é a de que seria a fórmula ideal. De um lado, o capital, a prática, o teatro acontecendo, com bastante autonomia econômica e remota dependência do governo e do Capital Social. Do outro lado, o Estado e o seu cortejo de ações para garantir a infraestrutura produtiva, a formação de plateia, os alicerces da cena teatral maior. A construção de novos teatros, por exemplo, seria uma das prioridades deste formato do Estado.
Não é difícil definir um Estado estruturante, diferente do Estado paternalista que age nas intervenções imediatas. Uma política editorial consistente, por exemplo, precisa ser prática efetiva do Estado. Caso existisse esta concepção da cultura no Brasil, a carnavalesca Rosa Magalhães, cenógrafa, figurinista, diretora de arte, não teria esperado tanto tempo para publicar o livro E vai rolar a festa…, uma obra preciosa para a cena cultural brasileira.
Trata-se de um livro documentário, algo que se poderia chamar de doculivro. A obra reúne material da festa de encerramento das Olimpíadas Rio 2016 e das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Panamericanos de 2007, no Rio de Janeiro. A rigor, o projeto do livro surgiu lá atrás, no trabalho de arquivamento do material de 2007. Mas não houve chance qualquer de encontrar um patrocinador. A referência ilustra a dificuldade para a produção de livros de cultura no país, em particular no caso do teatro.
Mas, afinal, o resultado deste trabalho de tanto impacto pode ser reunido e publicado, para efetivar o registro histórico e para constituir fonte de pesquisa para estudiosos em geral. Foram selecionados e editados desenhos, plantas, croquis, perspectivas, fotos do making off e dos espetáculos. Uma festa para o olhar. Uma oportunidade para comemorar a imensa capacidade criativa do brasileiro, da qual Rosa Magalhães é prova inconteste.
Portanto, capacidade de criação, inventividade, garra, disposição estética e disposição contemplativa não faltam por aqui. Falta dinheiro. Não adianta chorar e querer colo quando a mãe, no caso brasileiro, é uma viúva alegre, que já abdicou faz tempo da gerência da prole. Então, não há dúvida, é preciso produzir o dinheiro. Vale arregaçar as mangas e partir para o trabalho, mas com um rumo diferente, capaz, quem sabe, de transformar os sucessos de retórica em sucessos efetivos, fazer nascer um teatro aclamado pelo público como ato sonante de cultura, no qual o público vê, em cena, o resultado emocional do seu dinheiro. Neste espaço, a arte do teatro se torna ato social pleno e efetivo.
Financement participatif : une voie d’avenir pour la culture ?
François Moreau, Yann Nicolas
Presses de Sciences Po | Coéditions
Brochura- 18,00 €
Les Fâcheux de Molière
Jeudi 20 décembre à 19h45
Amphithéâtre Richelieu, Sorbonne Université
(17 rue de la Sorbonne, 75005 Paris)
Entrée : 10 € / 5 € (étudiants et lycéens, moins de 18 ans)
Réservations uniquement en ligne, avant le 19 décembre (pas de vente sur place) : https://www.billetweb.fr/facheux
Rosa Magalhães
E vai rolar a festa… (Ed. Nova Terra, 180 pág., R$ 80)
Foto: Fernando Tribiño / Divulgação.
LANÇAMENTOS
Restaurante La Fiorentina
Endereço – Avenida Atlântica, 458 A, Leme.
Data – Terça-feira, 27 de novembro, 19h.
Telefone – 2543-8395.
Cidade do Samba
Endereço – Rua Rivadávia Correia 60, Gamboa, Zona Portuária.
Data – Terça-feira, 11 dezembro, 17h.
Tagged: Crowdfunding, E vai rolar a festa..., Financement Participatif, François Moreau e Yann Nicolas, Georges Forestier, Molière, Mozart, Rosa Magalhães, Théâtre Molière Sorbonne
High-res version
No país da cultura-lixo
“Muita gente acha que lixo é algo imprestável, podre, acabado – não serve para nada, pura tranqueira. Aliás, muitas destas pessoas que pensam assim, não pensam sequer um minuto no problema que arranjam, para a Terra e para a sociedade, quando produzem o seu lixo-tranqueira cotidiano. São pessoas que nunca se perguntaram para onde vai o seu lixo. Este é o lixo visto como infernal, maldito. O tema é vasto.
Para começar a questionar esta visão do mundo, é recomendável ver a peça Kondima – sobre Travessias, novo cartaz do Arena SESC Copacabana, trabalho impecável da Troupp Pas D’Argent. Lá pelas tantas, a inefável atriz Ruth Mariana surpreende a plateia com o seu depoimento contundente de refugiada: sobreviveu no Brasil muito tempo graças ao lixo brasileiro, ao seu ver um lixo ótimo. Este é o lixo celestial, abençoado.
High-res version
A melhor política: todo o poder para as mulheres
“Deus só criou as mulheres para domar os homens”, afirmou Voltaire. Então, se o filósofo francês está certo, é bom a rapaziada correr e se preparar para um treinamento intensivo, pois de 9 a 13 de novembro o Rio de Janeiro vai sediar o MULTICIDADE, Festival Internacional de Mulheres nas Artes Cênicas. Mas será que a tônica é esta mesmo, como diria Voltaire?
Importa dimensionar as características fundamentais do evento sob o foco. Nele, estarão reunidas mulheres artistas de 5 países – Alemanha, Dinamarca, Reino Unido, França e Brasil (RJ, SP e PE). O objetivo central será a busca do intercâmbio e da reflexão sobre o fazer artístico e o posicionamento da mulher na sociedade contemporânea. Portanto, as obras selecionadas possuem um viez comum, são trabalhos de excelência artística assinados por mulheres engajadas na ampliação dos espaços sociais de atuação da mulher.
A linha da programação – vale conferir a lista completa das atividades no site do evento – segue uma pegada século XXI muito nítida, capaz de provocar um êxtase mais do que absoluto em filósofos feministas. A multiplicidade é dedutível do perfil das responsáveis pelo festival, pois a direção geral e a curadoria contam com a assinatura da atriz e diretora italiana Paola Vellucci, da diretora sérvia Jadranka Andjelic e da dramaturga e cineasta brasileira Eveline Costa.
High-res version
Corpos opacos, almas reluzentes
Mistérios femininos. Corpos Opacos, em final de temporada no Mezzanino do SESC Copacabana, traz para a cena teatral a delicadeza do olhar feminino e a aura radiosa dos mistérios. Abre uma fresta de seda, entre a onda engajada e os mantos de flores, para sugerir o pensamento a respeito deste abismo, interesse de todos. A pergunta antiga – o que é afinal a mulher? – desponta revisitada sob novas tonalidades surpreendentes.
Mistérios femininos – eles estruturam muito da vida do mundo. Impossível traduzir em língua cartesiana regular certas tramas de afeto e de pertencimento, volteios do espírito de matriz telúrica, alheamentos e ausências da obrigação gregária. Até que ponto ir para um convento é uma derrota, uma perda, uma castração? Pode ser uma conquista, a conquista de uma liberdade indizível, de um outro corpo, um corpo desejante absoluto, uma vitória contra o mundo banal?
High-res version
Sonhar com política: a revolução do presente
Vou confessar um segredo terrível: gosto de política. Desconfio de um contágio prematuro irreversível na infância, do qual não me recuperei. O meu pai era cabo eleitoral no subúrbio, cismava de incentivar os meus supostos dotes precoces para a redação e a oratória. Assim, aos nove anos me tornei locutora de comitê eleitoral e também aquela menina chatinha ocupada em recitar versos e discursar no palanque em louvor à pátria antes do candidato tomar a palavra.
Sim, tomava-se a palavra. Discursar era um ato de verter belas palavras vindas de uma fonte borbulhante de inspiração. Se a política é, em razoável grau, puro jogo de afeto e sedução, outrora tais sentimentos surgiam na fala para expor uma arte. A arte de demonstrar algum entendimento das necessidades sociais e, claro, de revelar capacidade para gerenciar a solução dos males inventariados.
O mundo mudou. A política se fez outra. Por isto sinto certo mal estar diante da política pós-dramática do nosso tempo, em que a ação verbal virou confronto pessoal – o jogo afetivo não é mais para levar o eleitor a acreditar na possível solução dos problemas, nem para expor problemas ou programas para enfrentá-los.
High-res version
O teatro carioca e a cidade da festa
O ano acabou: adeus, 2018. A população carioca festeira não terá, ao que tudo indica, muitos motivos para comemorar o fim do ano. O programa mais consagrado dos últimos tempos, a Árvore da Lagoa, não dará o ar de sua graça. Não que o ilustre cone de luz chegasse a ser um acontecimento monumental, chave de ouro para fechar o ano. Mas sempre seria alguma coisa, o povo adorava. Era lindo ver as famílias passeando. Devia continuar!
O foco é simples e objetivo: o Rio, cidade sem grandeza industrial, precisa de grandes marcos de calendário para se impor como destino obrigatório, para os seus moradores e visitantes, estes, se possível, dispostos a gastar dólares por aqui. O Rio de Janeiro precisa se projetar com muita força como cidade cultural e, em consequência, potência turística. Precisa de eventos.
Se o Bradesco recuou do projeto da árvore, contra a qual eu, pessoalmente, não tinha qualquer restrição, mesmo ficando refém dos engarrafamentos, de carros e de pedestres, o Bradesco, tão amante dos musicais, poderia muito bem oferecer uma outra atração reluzente, digna de uma cidade maravilhosa. Poderia ser um Auto de Natal musical, um presépio vivo com show de luz, uma encenação que falasse de viver o Natal no verão, com cajus, pitangas, goiabas e abacaxis…
Não consegui apurar se teremos o Auto dos Arcos da Lapa, as fontes consultadas não souberam responder. Mas, que me perdoem os amigos da Zona Sul defensores do privilégio de ter este paraíso praieiro só para eles, penso que seria ideal ter um Auto da Lagoa ou de Copacabana, um evento cheio de luz, com meninos cantores, gambiarras e tudo o mais, para celebrar a cidade e o encontro dos cidadãos. Podíamos ter Missa Solene, com Bach ou Villa-Lobos.
Talvez alguns queiram sugerir a quinta da Boa Vista – mas, desde o incêndio do Museu Nacional, inaceitável, parece ser um equívoco pensar num evento de massa por lá. E, convenhamos, para ser um evento chave num calendário turístico-cultural, a Zona Sul é o lugar. O objetivo seria algo na linha das luzes de Gramado ou de Curitiba, acontecimentos já transformados em agenda fixa retumbante.
Sim, o Rio precisa de fatos culturais retumbantes – não apenas réveillon e carnaval, é pouco. O calendário precisa de ampliação. Para não dizermos que nada acontece e, assim, com este truque, evitarmos registrar um clima próximo àquele das cidades fantasmas, vale destacar um agito importante programado para a Barra da Tijuca.
Ok, eu sei, muita gente boa pensa que a Barra não é Rio de Janeiro, é território estrangeiro. Mas, até o momento, a vontade não manda na geografia, a Barra é nossa, vamos nos consolar com a festa deles, é o que há. E ao que tudo indica será uma festança para ipanemense nenhum botar defeito.
Vai ser a inauguração festiva, sábado 27 de outubro, às 19h, da árvore de Natal do Barra Shopping! Vale ir ver, sobretudo quem é da classe e ama o Rio, deseja ativar o sucesso da cidade, pois a cereja da noite será uma companhia de teatro. Italiana, è vero, porém, de teatro. A julgar pelos releases e bochichos, a Companhia Studio Festi vai assinar um auto de Natal mirabolante, daqueles para não esquecer nunca. Vale chamar de auto, pois a coisa terá um tom épico bem moderno, como acontecia com Gil Vicente.
O conjunto, sediado em Varese, tem 38 anos e realiza algo ao redor de 40 espetáculos por ano, todos na linha do feérico-surpreendente-inusitado. As apresentações não se repetem, são performances únicas, combinam alegorias gigantescas, jogos e efeitos de luz, bailarinos acrobatas, projeções, fogos de artifícios, trilhas sonoras originais para o evento, figurinos impactantes.
Adaptado ao Rio – os espetáculos da companhia sempre buscam sintonizar a atmosfera local – o show evocará a cidade, mas vai contar uma história adequada ao Natal, contemplando tanto a criação do mundo como o nascimento de Cristo. O objetivo é impressionar a sensibilidade do público, como se ele estivesse diante de uma linguagem de sonho.
Assim, não haverá uma estrutura convencional de espetáculo – as alegorias se moverão no meio do público, sobrevoarão o espaço, surgirão sem que se saiba ao certo de onde ou como, numa engenharia de forte impacto sensível. O fundador e diretor do conjunto, Valerio Festi, defende a proposta como se ela fosse uma festa, com o sentido exato de provocar um efeito marcante em quem tenha a oportunidade de acompanhar o trabalho, não importando o nível cultural da plateia.
Ao final, um anjo anunciará a iluminação da árvore de Natal, de 65 metros de altura, localizada no estacionamento do Barra Shopping próximo à Avenida das Américas. A árvore, criação do cenógrafo Abel Gomes, foi construída em 45 dias com materiais brilhantes e luminosos, para não ficar pálida sob a luz do sol. Uma programação musical intensa será apresentada como parte do evento comemorativo do fim do ano.
Considerando-se os dados, o que se pode pensar é a oportunidade deste tipo de celebração numa cidade como o Rio de Janeiro. Afinal, antes que existisse teatro no Rio, lá nos tempos da colônia, já se delineava o DNA da cidade como matriz de centro urbano festeiro. A partir das sugestões ou das imposições portuguesas, comemorava-se tudo, das festas reais às celebrações religiosas. Uma festa de barraquinhas ou uma procissão encantavam o jovem povoado e a mania ficou no sangue dos nativos.
Quem sai aos seus, não degenera, reza a sabedoria popular – não há motivo para que não honremos a herança. Se os italianos contam com antigos saberes requintados, desde o Renascimento e o Barroco, para a construção de máquinas de desfilar, cortejos, apresentações voadoras, nós, aqui, temos nossas fortunas. Vale pesquisar as velhas cenografias de desfiles, sem falar no saber das escolas de samba.
Já que o Rio tem, em potência, um pródigo calendário de festas, apresenta disposição para o sarau, conta com a simpatia dos turistas, o amor dos visitantes e um solene desinteresse pela ruína dos seus edifícios teatrais, a solução parece bem clara. Afinal, mais um teatro acabou de ser fechado, sem aviso nem preparação – o simpático Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura – e nada aconteceu, nada se faz. Aliás, a livraria foi junto. E nada aconteceu, nada se faz.
Neste ritmo, a pegada está aí. Basta convencermos os políticos, as empresas e os mecenas de que o Rio tem uma solução fácil para a crise, deve se tornar a cidade das festas, sempre teatrais, para que sejam grandiosas, ofuscantes. Vários pontos podem receber tais celebrações – a Marina da Glória, a Copacabana alugada de sempre, a Barra da Tijuca, o Recreio, o Jardim do Méier, o Parque de Madureira.
Sob uma gestão rigorosa, artistas muito bem treinados, boa MPB, não vai sobrar para mais ninguém. O Rio de Janeiro de tornará a capital-festa do mundo. Que venha o Natal, o novo ano, por muitos e muitos anos – com uma visão assim otimista, temos um futuro nobre para o teatro e para a cidade, não precisamos ter medo do que pode vir por aí. Feliz 2019, portanto, e felizes todos os anos do belo porvir festivo que, se quisermos, se imporá.
Programação:
– Inauguração da Árvore de Natal do BarraShopping, 27/10/2018 – a partir das 18h.
– Atrações: DJ, a Banda Sinfônica do Corpo de Fuzileiros Navais, o balé aéreo da companhia italiana Studio Festi e queima de fogos.
– Domingos de novembro, às 19h, apresentações musicais.
High-res version
Lei Rouanet: a aflição e a urgência
Um enigma: o brasileiro fez do teatro a sua arte mais querida. Não sob o modelo rebuscado pregado pelos doutos, mas segundo uma cartilha buliçosa e brejeira, ditada das ruas para a cena. No século XIX, o teatro – em particular o teatro musical – conquistou os corações por aqui. Aclamou personalidades criativas irresistíveis, grandes mestres no texto, e o melhor exemplo é Artur Azevedo (1855-1908), ou na cena, com seres desmedidos tais como João Caetano (1808-1863) ou o Vasques (1839-1892).
Ainda que João Caetano tenha sido um ator dramático, portanto necessariamente ligado ao teatro dito sério, vale lembrar que o seu tom era mais sentimental, mais exaltado e fervilhante do que o paradigma recomendado pela tradição acadêmica de contenção. O brasileiro tem alma barroca, ama o excesso, transborda por um desmedido. Pois o teatro seguiu por este caminho.
De gargalhada em gargalhada, de lágrima em lágrima, um mercado surgiu. No início do século XX ele estava ali, na Praça Tiradentes. E foi como pôde, aos trancos e barrancos, caminhando pelo novo século, o século do furor industrial, da explosão do consumo. Logo a vertigem fabril chegaria à produção cultural, a bordo do radio, do cinema e da televisão. O teatro foi saindo da dianteira, passou para o reboque. Vai retroceder mais?
High-res version
Teatro, escola, educação: uma bela encruzilhada
O tema ecoa sempre no ar – para quê serve o teatro? Vale manter a pergunta em pauta? Ou é urgente oferecer alguma resposta, uma resposta evasiva, capaz de deixar a arte fugir, revelar sua impotência? Ou o caso exige uma resposta hábil o bastante para provar a necessidade de que se tenha teatro em escala ampla, geral e irrestrita? Será que o teatro serve apenas ao nada? É tão delicado que não importa?
Parece bem o momento de voltar ao assunto – alguns fatos solicitam a reflexão. Na verdade, a situação atual pede bem mais: pede alguma ação. Eu não tenho dúvida de que o teatro torna as pessoas melhores, ainda que elas não o percebam. Sim, ele é inefável – assim, neste caso, talvez sintonize com o nada. Acredito que ele faz parte das receitas ocidentais de cidadão e de ser humano, descritas lá em Aristóteles. Precisa, portanto, estar na escola desde as primeiras séries.
High-res version
A hora do amor
Responda rápido: o amor existe? Você tem, dentro de você, este sentimento? Se a resposta é afirmativa, a quem você ama? Existem múltiplos amores dentro de você? Ou você pensa como uma parte farta da esquerda, segue a ideia objetiva de que o amor, ópio requintado, é só uma ideologia banal para enquadrar os seres em procedimentos sociais retrógrados? Ou para obter prazer com lábia barata e sem esforço?
Arrepiou? Você ama de verdade? E o seu amor conhece matizes – amor fraterno, amor filial, amor amante, amor ao próximo, amor à arte, amor à vida, amor ao mundo, amor ao amor…? Como está a sua lista? Você acredita que hoje, aqui e agora, existem pessoas que amam o Brasil? Quais são os grandes amantes da pátria?
Sim, dá para fazer um exercício crítico rigoroso e olhar o mundo de frente, com isenção: perguntar o quê move os políticos brasileiros. Eles amam de verdade a própria mãe, os filhos, os contemporâneos, o próximo, o cônjuge? Eles amam o Brasil? Para os nossos políticos, a miséria nacional é algo para capitalizar, produzir uma horda de zumbis fiéis, ou é algo para erradicar? E a ignorância nacional?
O pensamento é urgente, às vésperas de eleições fervilhantes. O país vive uma crise devastadora e assusta que uma catástrofe tão profunda não tenha pai e mãe. Chocante. ë um pouco assim como o incêndio do Museu Nacional, por exemplo: ele segue sem que aqueles que estavam na gerência façam um mea-culpa sincero e reconheçam a sua profunda incompetência para conduzir aquele tesouro nacional perdido. E internacional: muitas das relíquias destruídas eram patrimônio universal.
E os incendiários deitam e dormem o sono dos justos. Errar não é problema, é humano; o problema é não assumir de frente os erros cometidos. Não pedir desculpas. Destruir um vasto tesouro histórico coletivo e não se retirar da cena é algo estranho.
Somos um país de filhos sem pai – talvez a saída possa estar na entrega da gerência da casa às mulheres, mas a mulheres que tenham inteligência e competência, que não sejam exemplares patéticos da extrema idiotia que, aqui e ali, povoa o território nacional. É preciso encontrar uma solução, uma cabeça capaz de liderar o país. Penso que o teatro pode ajudar.
Proponho aqui um exercício rápido de reflexão, para você situar o candidato eleito de seu coração. Coração? Não, não pretendo mudar o seu voto – o meu desejo é apenas contribuir para um jogo político mais denso, mais distante do jogo afetivo, mais perto da razão. Por isto falo em candidato do coração, quando a escolha do candidato devia ser obra da cabeça.
Sim, exatamente isto: sugiro consultar os seus sentimentos, dimensionar os sentimentos irradiados por seu candidato e, a partir daí, revestir a sua escolha não com afeto, mas com um jogo racional mais puro. Política de verdade, destilada. Como no tabuleiro o xadrez.
O ponto de partida é, portanto, o teatro. Já perceberam que o teatro é o lugar do amor social? Poucos teóricos escreveram a respeito, mas precisamos ampliar estes estudos – o teatro é quase um filhote de Vinícius de Morais, eterno enquanto dura. Ele acontece. E quando acontece, une, abraça, envolve, arrasta, arrebata, inebria, eletriza. E se vai: a luz acende, acabou.
O que aconteceu ali, no escuro? Um encontro. A sua alma foi sequestrada para um outro lugar, do amor e do belo. Banhou-se na fonte das energias puras primeiras. Foi convidada a se reinventar. Para voltar, ser a mesma, sem ser a mesma. Uma revolução sensível impossível de descrever.
Qual a grande consequência deste fato? Simples: para que se possa viver em sociedade, o teatro é gênero de primeira necessidade. Precisamos dele. Uma prova? Existe uma muito evidente, ao alcance dos seus olhos, a violência hedionda da sociedade brasileira. Ela prova: somos carentes de teatro. O teatro é a escola de humanidade que envolve a vida social e move os seres para uma dinâmica comum de encontro – quer dizer – amor, amor ao próximo.
E então? Você sabe o que o seu candidato pensa a respeito do teatro? O que ele deseja fazer com o palco? Com a cultura brasileira? Com a presença essencial do teatro na educação? O que ele pensa do amor? Procure saber e honre a sua opção de viver em estado de amor, se este é o seu caso.
Hoje, no Brasil, temos apenas duas instituições que honram o teatro com o ímpeto que a arte exige. Sim, existe o SESC, ativo, dinâmico, maravilhoso. Existem as tramas requintadas de São Paulo. Mas, de verdade, apenas duas instituições atinaram com a urgência de institucionalizar o teatro na alma da sociedade brasileira, de cima abaixo, mais além da acontecência do mercado.
O fato é este, não basta produzir e montar peças. É preciso instalar o mecanismo do teatro no subterrâneo da sociedade. Como? Foi a escolha feliz do Centro Cultural Banco do Brasil e da Firjan, esta em pareceria com o SESI.
O que eles fazem para merecer esta avaliação? Eles formularam procedimentos revolucionários de expansão da dramaturgia na sociedade brasileira. Pois, senhores, sem dramaturgia consolidada, teatro não há. Este é o ponto zero.
Ok, a sua escolha pode ser a performance mais histérica e descabelada, aquela nociva mesmo, que confunde arte/linguagem com expressão pessoal imediata, pode ser o culto da arte-agora, do teatro invisível e do improviso. Mas, mesmo nestes casos que fingem abolir ou ignorar a tradição, os procedimentos elementares da dramaturgia estão presentes, são essenciais: personagem, situação dramática, conflito, ritmo dramático, progressão da ação… enfim, situação de representação.
Assim, importa nesta semana pré-eleição avaliar esta dinâmica e definir uma visão política clara do tema – talvez uma nova realidade política possa trazer o teatro efetivamente para o papel que ele precisa desempenhar, pois a velha política, até hoje, não fez nada de significativo a respeito de. Não puseram o teatro no mapa da sociedade brasileira.
No Centro Cultural Banco do Brasil, esta será a semana de encerramento do interessantíssimo concurso nacional de dramaturgia Seleção Brasil em Cena. O objetivo é o de revelar novos talentos em dramaturgia, mas com um viés de formação. Textos inéditos são selecionados, são apresentados em leituras dramatizadas peculiares, nas quais diretores profissionais trabalham com atores-estudantes das escolas representativas da cidade.
Nesta edição, o projeto recebeu 418 textos de 17 estados e do DF. Foram 12 autores finalistas, com leituras dirigidas por Miwa Yanagizawa, Vinicius Arneiro e Rodrigo Portella, e atores-alunos da CAL, da Martins Pena, da PUC-Rio e da UNIRIO. Na próxima segunda-feira, dia 8, será anunciado o vencedor.
Com a consagração, mais uma etapa profissional, bem articulada, de um trabalho denso de instituição das práticas dramatúrgicas no teatro brasileiro, estará sendo fechada – a conclusão acontecerá com a montagem profissional do vencedor. É essencial que a revelação deste novo dramaturgo repercuta na cena nacional.
Já a iniciativa da Firjan/SESI apresenta o mesmo foco na dramaturgia, mas o conceito se inclina mais decididamente para a formação de novos autores. Assim, a Segunda Semana do Núcleo de Dramaturgia, que acontecerá esta semana, de 2 a 6 de outubro, no Oi Futuro Flamengo, significará o encerramento do ciclo da turma 2018. O público poderá conhecer as dramaturgias formuladas pelos 14 autores da turma, graças a duas encenações, quatro leituras dramatizadas e quatro performances.
Os trabalhos passaram a ser coordenados, a partir da edição de 2017, pelo curador, diretor e dramaturgo Diogo Liberano. A linha de trabalho atual – voltada para o incentivo ao debate mais amplo a respeito do fazer teatral – engloba a abordagem da escrita para o palco diante dos diferentes desafios contemporâneos – além da cena e a partir da cena, vale dimensionar o vídeo, os desafios históricos, a leitura, a performance.
A ocasião vai permitir também o lançamento da edição dos textos de turma de 2017, publicação da Editora Cobogó. A força da iniciativa aparece com maior clareza se observarmos que ela já tem uma história mais longa – e bem sucedida – em São Paulo. Esta quarta turma, por sinal, manteve um diálogo mais próximo com o Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council, de SP, coordenado pela dramaturga Marici Salomão.
Lá, já se chegou à décima edição. Ainda este mês, do dia 16 ao dia 20, acontecerá o 10o. Ciclo do Núcleo de Dramaturgia SESI-British Council, no Centro Cultural Fiesp. Mas, para quem está no Rio e desejar participar, par obter mais informações sobre a oficina e seus procedimentos, vale acessar a página na internet ou fazer contato por e-mail (nucleodramaturgia@firjan.com.br).
Em resumo, o que importa é simples: se, para os poetas e para os homens sensíveis, ninguém vai chegar em lugar algum sem amor, providências urgentes precisam ser tomadas. Numa hora em que o país se perde num labirinto de autodestruição, vale espalhar o teatro por todo o solo, pois ele é a maior escola para cultivar o amor que a sociedade conseguiu inventar.
Seleção Brasil em Cena
site oficial é: www.selecaobrasilemcena.com.br
Ano de criação: 2006
Número de edições: 7
Espetáculos premiados com montagem (Rio, Brasília e Belo Horizonte): 11
Público (leituras, oficinas e espetáculos no Rio, Brasília e Belo Horizonte): 29 mil
Textos inscritos: 2018
Textos finalistas: 84
Leituras Dramatizadas (Rio, Brasília e Belo Horizonte): 132
Diretores: 31
Estudantes de teatro: 427
Oficinas de dramaturgia: 24
Dramaturgos ministrantes: 6
Cidades onde foram ministradas as oficinas: 23
Participantes das oficinas: 450
PROGRAMAÇÃO CCBB RIO
Local: Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro)
Informações: (21) 3808-2020.
Entrada franca. Distribuição de senhas uma hora antes.
Dia 06/10 (sábado)
Teatro I – Capacidade: 172 lugares.
18h – Florbela, de Regina Helena de Paiva Ramos. Direção de Rodrigo Portella. Classificação etária: livre.
20h – Vendaval, de Lucienne Guedes Fahrer. Direção de Rodrigo Portella. Classificação etária: 14 anos.
Dia 07/10 (domingo)
Teatro I – Capacidade: 172 lugares.
18h – Suindara, de Gilvan Balbino. Direção de Rodrigo Portella. Classificação etária: 14 anos.
20h – Final Feliz em Nova York, de Marcio Azevedo e Léo Nolasco. Direção de Rodrigo Portella. Classificação etária: 18 anos.
Segunda Semana do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI
OI FUTURO FLAMENGO
Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo | Rio de Janeiro.
Telefone: (21) 3131-3060.
Entrada franca com retirada de senhas uma hora antes de cada atração.
Sujeito a lotação.
Classificação indicativa: 14 anos.
Terça-feira, 2 de outubro
17h – Lançamento das publicações da turma 2017 e conversa de abertura com Roberto Guimarães, gestor de cultura OI FUTURO e Antenor Oliveira, gestor cultural FIRJAN/SESI. Convidados: Cecilia Ripoll, autora de “Rose”; Francisco Ohana, autor de “Escuta!”; Fernanda Paraguassu, editora da Cobogó; Olga Almeida, autora de “O enigma do bom dia”. Mediação: Diogo Liberano, coordenador do Núcleo de Dramaturgia SESI Rio de Janeiro. (Teatro Oi Futuro).
20h – Encenação: “Parto”, de Isadora S. K. (autora turma 2018), direção Mariah Valeiras e atuação Laura Nielsen e Paula Furtado. (Teatro Oi Futuro).
Quarta-feira, 3 de outubro
19h – Performance: ação performática itinerante do Mossa – Núcleo de Pesquisa em Performance a partir de quatro dramaturgias compostas por autores e autoras da turma 2018. (Oi Futuro Flamengo).
Quinta-feira, 4 de outubro
17h – Conversa: “Dramaturgia para teatro musical” com Eduardo Rieche, Gustavo Gasparini e João Fonseca. Mediação de Diogo Liberano. (Teatro Oi Futuro).
20h\22h30 – Leitura: “XG28” de Alexandre Braga e “O Mundo vai acabar em merda” de Clarice Rios com a Multifoco Companhia de Teatro. (Teatro Oi Futuro).
Sexta-feira, 5 de outubro
17h\19h – Conversa: “Dramaturgia para teatro infanto-juvenil” com Pedro Henrique Lopes e Renata Mizhari. Mediação de Diogo Liberano. (Teatro Oi Futuro).
20h\22h30 – Leitura: “O eclipse do rosto” de Jonatan Magella e “é um crime dormir tranquilo nessa cidade” de Lane Lopes com o Coletivo Errante. (Teatro Oi Futuro).
Sábado, 6 de outubro
18h\19h – Conversa: o coordenador do Núcleo de Dramaturgia, Diogo Liberano, junto a autores das turmas anteriores, realiza uma conversa para aquelas e aqueles interessados em participar das futuras turmas do Núcleo. (Oi Futuro Flamengo).
20h\22h – Encenação: “Pedro”, de Felipe Haiut (autor da turma 2018), direção de Andrêas Gatto e atuação de Teo Pasquini.
Durante toda a Segunda Semana
Vídeo-leituras: no café do teatro do Oi Futuro Flamengo, gravações de dramaturgias de autores da quarta turma em leituras feitas por atrizes e atores convidados estarão em exibição.
Stand de vendas da Editora Cobogó: também no café do Teatro do Oi Futuro Flamengo, haverá um stand com as publicações da coleção “Dramaturgia” da Editora Cobogó para venda.
Ficha técnica:
Curadoria e direção geral: Diogo Liberano
Direção de produção: Breno Motta
Assistência de produção: Bernardo Lorga
Técnico responsável: João Pedro Meirelles
Filmagem e edição “Vídeo-Leituras”: Paula Diniz
Registros fotográficos: Rebeca Dourado
Assessoria de imprensa: Lyvia Rodrigues (Aquela que divulga)
Realização: Firjan SESI
Parceria: Oi Futuro
Tagged: Amor, British Council, CCBB, Diogo Liberano, FIRJAN, Marici Salomão, Oi Futuro do Flamengo, Seleção Brasil em Cena, SESI
High-res version
A gripe e o pecado: longe do teatro
Dizem que tudo está escrito nos astros: não adianta espernear, pois na hora do nascimento cravaram um mapa e pronto. No entanto, o ser humano está longe de ser um mecanismo simples. Assim, dizem outros que não, não é nada disto – estava no céu uma disposição, mas, se você não prestar atenção nos caminhos, vai tropeçar e as estrelas vão mudar de lugar. Parece que as estrelas adoram mudar de lugar.
O que posso dizer? Não sou cigana – na infância, no subúrbio, aprendi a correr de ciganas até não mais poder, pois elas, segundo o conselho dos adultos, raptavam crianças, escondidas embaixo das saias lá não muito limpas. Depois da prisão nas roupas fedorentas, vendiam as presas – ninguém sabia para que rumo. Os cavalos, ao que diziam, viravam carne seca, mas a petizada, nunca souberam explicar. Na dúvida, pernas para que te quero: ciganas, não!
Assim, não entendo nada destas previsões, conjunções astrais, ainda que namore mapas, baralhos confusos, predições, sortilégios. Que graça teria a vida se não tentássemos supor que já está tudo decidido, é só virar a carta e pá? Uma cartomante aqui, um descarrego ali, vida que segue – e vai sempre surpreendendo.
Pensamentos dispersivos. Sempre acontece quando sou obrigada a ficar de cama. Peguei um livro, mas, o volume sensacional, excelente comparsaria para a gripe, não me livrou dos pensamentos saltitantes. Ao contrário. Piorou tudo. Pois no tal livro descobri que a data de nascimento do Rio de Janeiro é outra. E, portanto, a carta astrológica da cidade também é. Vivemos enganados sob estrelas falsas!
A descoberta, segundo este livrinho tinhoso que me pegou com mão de cigana fora de hora, seria do meu colega de Doutorado, o brilhante historiador da saga carioca, Nireu Cavalcanti. Infelizmente vejo pouco o velho colega de turma, distante dos saraus doutos da UFRJ. Felizmente, leio muito. E recomendo o colega, ele faz descobertas deliciosas. Mas não sei onde ele publicou – se é que já publicou – a nova certidão do Rio.
Enquanto procuro, para recomendar, vale indicar a leitura deste livro outro novidadeiro, sinuoso como os velhos caminhos da cidade maravilhosa. Trata-se do último romance de Alberto Mussa, A Biblioteca Elementar. Prepare-se: você vai ler de um sopro. Ou de um tiro. Sim, é um romance policial. E a graça é que se passa no Rio de Janeiro do século XVIII.
O livro é ardiloso como um contrabandista cigano, envolve a vítima por todos os lados, encena enganosas facilidades. Há um crime por desvendar – e o convite vem logo de saída. Há um passeio encantador pelas ruas, pelas paisagens humanas e sociais da pequena cidade do Rio de Janeiro. Há o misterioso mundo cigano acotovelado nos limites da cidade, logo ali na atual Rua da Carioca, a velha Rua do Egito, depois Rua do Piolho.
Mas há, em especial, um autor inteligente, preocupado em dividir o seu prazer com o leitor, como se a escrita fosse uma parceria inusitada. Assim como o cidadão contempla o seu mapa astral, assim ele pode e deve ter consciência de sua urdidura. O olhar inquieto também deve surgir diante das páginas escritas. Sinais da invenção literária afloram aqui e ali no texto, com muito humor. E várias perguntas ficam no ar.
Qual teria sido exatamente o destino traçado nos astros para esta bela cidade? Mussa afirma, a partir da aludida pesquisa de Nireu Cavalcanti, que a fundação do Rio aconteceu, na verdade, no dia 28 de fevereiro. A partir da voltagem erótico-sensual da trama, é para pensar que a cidade, para ele, nasceu destinada ao pecado. A Inquisição também pensava assim. Ou a linha bem sensual do romance significa apenas uma adesão a um gosto de hoje?
A galeria de tipos e de personagens presente no livro é sensacional – vários com razoável inspiração histórica, sempre coloridos pela notável capacidade inventiva do autor. As páginas, contudo, são poucas para uma gente tão sedutora e você leitor, ficará com a incomoda sensação de que eles pulam do texto e tentam passear um pouco ao seu redor, na sua vida – querem viver mais. No fundo, a a leitura do texto traz uma pergunta embutida numa queixa – por quê um esqueleto tão robusto para tão poucas carnes?
Sim, a história é seca, rápida, surpreendente e fulminante. E poderia se estender, se desdobrar por, ao menos, umas cinquenta ou cem páginas a mais. Como seria uma festa na Rua do Egito? Como era o cotidiano das casas, a vida miúda das mulheres? E o convento, com sua ordem terceira? Como segredos tão sombrios conseguiam ser guardados em casas de portas abertas? Quais eram os livros mais preciosos da biblioteca, preferidos pelas duas mulheres?… Como foram reunidos e ficaram juntos, numa época tão iletrada?
Como podem perceber, a obra é centelha no pavio, dispara o gatilho da curiosidade. De fato e de foco, uma circunstância me deixou maravilhada, condição bem adequada para uma cidadã devota da cidade maravilhosa ao ler um livro tesouro sobre o Rio. Foi o papel, na trama, da Igreja da Ordem Terceira da Penitência, a minha igreja de coração no Rio, muito embora considere uma graça a de Nossa Senhora do Brasil. Mas, a da ordem terceira…
Acontece que, no romance de Massa, a Igreja da Ordem Terceira tem um papel central. E que papel. Desconfio que, a bem da verdade, ela não era um emaranhado de ruínas em 1733, já estava edificada nas datas escolhidas para a ação. Basta uma consulta rápida à história da construção do templo publicada na página do convento. Mas literatura é liberdade, a hipótese sugerida pelo autor é saborosa e contém uma lógica cigana, transgressora, que capturou a minha atenção.
O que me deixou zonza de verdade foi o fato do terreno da igreja, ainda não completada para o olhar do autor, ser o palco de tórridos encontros sexuais. Encontros adúlteros bastante peculiares, impossíveis de detalhar para não revelar partes vibrantes da trama (alguns leitores se incomodam com isto e tudo o que eu desejo é que corram para ler o livro). E por que fiquei zonza?
Quem conhece a igreja, muito modestamente retratada na foto acima, sabe do que estou falando. Ela é um alucinante convite para o êxtase: conseguiram fazer uma obra de arte tão intensa que o efeito é arrebatador, dá ao corpo e à alma a sensação de levitar, como quis fazer Wagner com a sua música, ou Dante, com o fecho luminoso da Divina Comédia.
E o que tem isto? No meu entender, é de uma cortante inteligência transgressora fazer supor que um templo tão inefável possa ter brotado do solo dos desvarios mais descabelados, orgiásticos, dos sentidos. Há, por aí, uma questão pessoal, confesso. A história é rápida, mas interessante, para indicar o poder de mobilização sensível que a escrita de Mussa consegue acionar. Ao menos no meu desvario!
Acontece que eu conheci a igreja por volta dos meus doze anos. Eu era católica, bem devota, por livre escolha. Conheci no curso da minha mãe (minha mãe tinha um curso de artes femininas) uma jovem mulher deslumbrante, recém casada, mas muito desencantada com o casamento, ex-modelo-manequim. Casou com um funcionário mediano de alguma coisa, morava no subúrbio por causa disto, morria de tédio e era uma leitora compulsiva.
Eu achei a figura muito singular: maquiadíssima, sempre na moda, era bem extravagante. Como eu era leitora compulsiva, ficamos amigas. A diferença é que ela lia livros da biblioteca rosa para moças e eu lia José de Alencar – estava dedicada à leitura da obra completa (!!). Logo ela me emprestou livros muito agradáveis, esvoaçantes como borboletas, adoráveis para quem, menina ainda, brigava com as frases alencarinas.
Muito bem: um dia, depois de violenta noite de briga, a minha amiga ficou viúva. O marido morria de ciúmes insuportáveis, doentios, bateu muito nela, tentou matá-la com uma garrafa quebrada e se feriu. Ele era hemofílico, sangrou, morreu. No bairro correu o burburinho de que ela, de alguma forma, o matara. Mas nada foi provado contra ela, ela se mudou e, muito minha amiga, me convidou para uma missa em intenção da alma do morto.
Sim, a missa foi na Igreja da Ordem Terceira da Penitência. Eu já andava pelo Rio, fui sozinha e, quando passei a soleira, entrei numa das maiores crises de heresia de todas as crises vividas na minha vida. Esqueci morto, amiga, viúva, Deus, igreja, padre, o que fosse. Mergulhei na eternidade da celebração do absoluto flutuando, aérea, em suspenso naquela luz dourada, submersa num mundo de brocado de ouro. Não, não dá para traduzir em palavras. Foi a missa mais deslumbrante da minha vida, completamente sem missa.
Portanto, o que eu posso dizer esta semana nesta coluna, diante deste livro tão especial sobre o velho Rio brejeiro e pecador, diante de uma cidade que desaba e de um país que treme e hesita? Primeiro, atenção: a data de aniversário da polis mudou! Depois, lembrem bem, por aqui sempre estiveram todos dispostos para cair no pecado e para abraçar a traição. Mas, não mudou, a carta astrológica?!? Vamos entrar na linha e levar o pecado para a literatura?
Não, nada, disso aí. O que importa mesmo? Importa que eu fiquei de cama, traí o teatro e fiquei muito feliz. Portanto, comprem o livro, leiam, por favor. É uma excelente homenagem à cidade. E à literatura. E aos estudiosos e pesquisadores do Rio. E à igreja mais deslumbrante que quaisquer olhos já viram. E se você não estiver gripado, de cama, aproveite a primavera e suas brisas ainda amenas – vá até lá, visite a igreja. E construa a sua versão a respeito destas loucuras transgressoras: embarque na delícia que é a carioquice na literatura. Enquanto ainda deixam…
MUSSA, ALBERTO.
A Biblioteca Elementar. Editora Record, 192 páginas. Mapa e cartas celestes: Mayara Lista.
BREVE NOTA HISTÓRICA
Sobre a Igreja da Ordem Terceira, há registro de que em 1726 Manuel de Brito entalhou o retábulo e o revestimento das paredes da capela mor. Em 1732, fez os púlpitos e Manuel da Costa Coelho teria feito o douramento da capela-mor. Portanto, em 1733 não havia um refúgio em ruínas para noites vadias.
https://patrimonioespiritual.org/2015/07/25/igreja-da-ordem-3a-de-sao-francisco-da-penitencia-rio-de-janeiro-rj/