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Bibi Ferreira: o poder e o artista no Brasil
“A pauta do momento é fervilhante. O assunto é obrigatório. Talvez possa ser considerado um pouco desagradável. Mas não dá para contornar. O gancho imediato se impõe com extrema força, vai rasgando tudo – a partir da morte de Bibi Ferreira (1922-2019), brota a pergunta ácida: afinal, o que é o artista? O que é um artista?
Não tenho qualquer dúvida a respeito do lugar histórico de Bibi Ferreira. Considero que ela foi a maior atriz brasileira. Nem posso discutir. Para chegar a esta avaliação, considero o repertório trabalhado, o perfil artístico e técnico, a voltagem de sua comunicação com as plateias. Friso – é importante fazer a ressalva – que Bibi Ferreira, um talento múltiplo e de extrema luminosidade, foi injustiçada pela história.
O desencontro não é muito fácil de explicar, exigiria um tratado de História do Teatro Brasileiro ou uma tese de doutorado. Ficarei em poucas linhas, diretas. Na sua maturidade, quando ela estava na plenitude de seus recursos artísticos, o teatro brasileiro deu uma guinada contra o musical, o gênero de maior identidade com a atriz. Assim, Bibi Ferreira deixou de nos dar muitas obras exemplares, que ela estava apta para realizar. Fazer o quê?
Ainda assim, a sua herança teatral é um tesouro de densidade imensa. Ela brilhou tanto no teatro comercial de fina extração, infelizmente uma facção importante do mercado, em qualquer centro cultural sério, também aqui desaparecida, como em outras páginas. Exemplos? Ela arrasou as almas das plateias nos musicais, de perfil popular ou grandioso, da revista aos formatos clássicos. É possível não gostar de Gota d’água, por exemplo, mas o desempenho de Bibi Ferreira… valha-me, Dioniso!
Vale registrar um depoimento pessoal, além da avaliação objetiva da grande estrela, já que o rol de sucessos está exposto por todos os cantos deste mundo conversador de hoje. Conheci Bibi Ferreira pessoalmente da forma mais surpreendente do mundo. A rigor, eu era sua fã declarada e fervorosa desde ali pelos doze anos, quando tive o imenso prazer de ver My Fair Lady. Além disto, ela se tornou para mim uma espécie de mentora pessoal secreta, muito respeitada, a partir do dia em que li, numa entrevista, a sua declaração de que era capaz de encontrar um grampo de cabelo no escuro do próprio quarto. Para quem detestava bagunça no cotidiano e se esforçava para ter arrumação ao redor, foi um bálsamo ler o argumento da atriz.
Mas não foi assim que eu conheci Bibi Ferreira. Aconteceu que estreei na crítica teatral em 1982, no jornal Última Hora e na Revista Isto É. No jornal, muito sensacionalista, por volta de 1984, recebi um dia uma pauta que arrebatou todos os meus brios humanos. Araci Cortes (1904-1985), a inefável criadora de Ai, Ioiô no teatro de revista (1928), estava na mais completa miséria, passando fome num barraco precário. Apurei o caso, localizei o seu fiel protetor, J. Maia, e tratei de fazer o melhor que eu podia. Fiquei tocada com a situação, nem sabia para onde correr em busca de ajuda.
Em casa, o telefone tocou – naquela época não existia celular. Do outro lado, era Bibi Ferreira. Ela queria saber como poderia me ajudar a encontrar apoio para a velha estrela. Foi a única artista que se mobilizou e por seu intermédio, graças à pressão feita junto a Adolpho Bloch, chegamos ao ministro Jarbas Passarinho. Deu trabalho. Passei a sentir um respeito humano profundo pela atriz – mesmo que a aposentadoria que lutamos para fazer valer tenha chegado tarde, no dia seguinte da morte da veterana. Nossos políticos sabem fazer escolhas detestáveis. Aliás, cadê as homenagens do poder ao monstro de teatro Bibi Ferreira?
Todas estas pontas se unem num raciocínio urgente – o que é, afinal, para nós, na nossa sociedade, o artista? Nós entendemos de verdade quem é este personagem social? Nós sabemos no nosso cotidiano, na nossa pele, no nosso sentimento, o valor destas obras construídas por figuras afinal tão delicadas, tão frágeis, tão expostas aos fluxos profundos da vida? Nós prezamos e cultivamos os nossos artistas?
Olhando os debates correntes aqui e agora, parece que o conjunto da sociedade brasileira, infelizmente, não sabe o que é arte nem o que é o artista. Isto é péssimo – primeiro, porque temos um imenso potencial artístico natural como povo, possuímos um talento vigoroso para a criação. Segundo, porque esta cegueira denuncia com muito impacto a miséria das nossas escolas, incapazes de formar uma massa crítica minimamente adequada ao século XXI.
Para muitos brasileiros – e o pior: para muitos brasileiro que possuem poder político ou social – a arte é a pátria dos desocupados, dos preguiçosos, dos incapazes e dos que temem a luta séria pela existência. Quer dizer, temos uma visão da arte e dos artistas com razoável difusão na sociedade que sintoniza com a realidade histórica da primeira Revolução Industrial , do século XVIII, anterior ao mercado de arte, quando a economia e o mercado ainda não sabiam o que fazer com a arte.
Na época da máquina a vapor, prima da tração humana e animal, os espaços sociais da arte eram estreitos, reduziam-se aos lazeres castelãs e aos lampejos fugazes de invenção lírica das feiras. Sem luz elétrica, sem maquinismos, sob um ritmo de produzir-rezar-sobreviver, a arte se fazia em frestas muito estreitas, mais associada ao lazer do poder do que vinculada à saúde social do cidadão.
Acontece que o mundo mudou, queiram os desinformados tropicais ou não. O ser humano fundamental para a marcha da vida, hoje, não pode mais ser pura força física bruta ou maquinal ou manual, ferramenta humana controlada por seres, os ditos nobres, benzidos por alguma graça divina capaz de endossar o domínio dos seres por seres. O ser-besta-fera-boçal não serve mais ao ritmo do mundo.
O ser humano do nosso tempo precisa de arte como precisa de alimento, oxigênio, água. A sua inteligência criativa deve ser estimulada desde cedo, a sua formação deve conter uma alfabetização em arte, nas diferentes formas de arte. Saber ler, calcular, conhecer a situação do mundo, entender versos, cantar canções, representar uma cena, tocar instrumentos, dominar os processos tecnológicos mais atuais – todas são habilidades imprescindíveis para a vida moderna.
Portanto, é um absurdo que se desconheça hoje o que é exatamente um artista e o que significa tornar-se artista. Bibi Ferreira é o modelo perfeito da artista essencial para o mundo contemporâneo. Destaque – ela ocupa este lugar não exatamente por ser capaz de transitar com desenvoltura do drama para o musical, da interpretação para a direção, do palco para a TV. Ela ocupa este lugar por representar a primeira atriz de extensa formação artística e cultural da cena brasileira. Para ser a estrela que foi, Bibi estudou muito.
O quê isto revela? Revela que o artista, mesmo quando vira um magnata, com a sua arte, um milionário, o que não foi o caso de Bibi Ferreira, o artista não é um ocioso. Mesmo quando existe talento inato, o puro talento não move a sensibilidade do mundo – é fundamental estudar, trabalhar, manter o corpo e toda a forma expressiva em estado alfa. O talento bruto foi possibilidade no passado.
Trabalho com arte faz bastante tempo e posso garantir que não conheço artista vadio – os vadios desistem. Mesmo o artista ingênuo, deslumbrado, alheio ao ato de pensar a própria arte, sabe, no arrepio da pele, que presta um serviço social de primeira necessidade. Ele entende de alguma forma que possui uma missão e que esta missão torna as pessoas melhores. E que, para exercê-la bem, precisa estudar, ser comandante dos seus meios expressivos, para guiar os corações do mundo.
Assim como o padeiro sabe que o seu produto garante a sobrevivência das pessoas, mata a fome e preserva a vida, e deve saber que nós contamos que ele faça o melhor pão que souber fazer, assim o artista sabe ou intui que o seu trabalho move as engrenagens profundas da vida. E mais – a arte é e será cada vez mais uma máquina monumental de fazer dinheiro. Apesar da visão marxista tradicional, de tentar definir a arte em paralelo com a mercadoria e com o debate acerca da alienação, dá para considerar hoje uma outra visão, menos empobrecedora, nada reducionista, a aposta na certeza de que toda e qualquer forma de arte refina o estatuo humano no mundo.
Estes debates estão fervilhando agora aqui, em alta temperatura. A cena carioca se esfacela diante da omissão do poder público, a cena nacional hesita diante de conteúdos primários de desconhecimento da situação social da arte e da precariedade do universo institucional brasileiro para a arte. Resta saber qual o projeto dos poderes estabelecidos – querem vender carne brasileira descerebrada para os civilizados? Com quê sentido de mercado?
A interlocução com o presente move muito da cena brasileira. Os artistas sofrem, respondem na urgência, só pensam em mobilizar de imediato a sociedade para a força da arte. A ausência de visões culturais consolidadas da arte e de projetos culturais densos por parte dos poderes condena a produção de arte ao imediato, afasta os artistas de mergulhos na tradição, nos requintes de linguagem, no diálogo mais solto com a sociedade. Não parece estranho, neste país, que Araci Cortes tenha morrido na mais humilhante miséria, com falta de dinheiro para comer. Cantamos Ai, Ioiô, entre outros momentos sublimes de arte que ela projetou na sociedade e nem sabemos mais quem ela foi.
Chega disso, não? A hora é de agir. Mudam os governos e não muda a miséria da sensibilidade brasileira. É preciso lutar, para transformar a nossa capacidade de produzir arte no verdadeiro tesouro que efetivamente somos capazes de engendrar.
Para aquecer o debate, tecer questões sob um enfoque feminino, aí vem março e um ciclo interessante no Teatro Maria Clara Machado. Tudo a ver com as batalhadoras convictas, históricas, que foram Bibi Ferreira, Araci Cortes. Entre numa, se ligue: o assunto é quente e desagradável, pois está sob a mira a qualidade do seu viver.
MULHERES EM CENA 2019
Programação especial em homenagem as Mulheres no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher (8 de março). Curadoria de Antonio Gilberto e Felipe Prado
EQUIPAMENTO CULTURAL: TEATRO MUNICIPAL MARIA CLARA MACHADO
MÊS DA PROGRAMAÇÃO: MARÇO 2019
ENDEREÇO COMPLETO: Av. Padre Leonel Franca, 240 – Gávea
Rio de Janeiro/RJ – CEP: 22451-000
TELEFONE: (21) 2274 7722
HORÁRIOS DE FUNCIONAMENTO: De quarta a domingo de 14 às 22h
CAPACIDADE: 117 lugares (teatro de arena)
Evento: Os Últimos Dias de Gilda
Linguagem: Artes Cênicas
Data: 15 a 17 de março
Horário: sex e sáb as 21h / dom às 19h
Valor do Ingresso: R$40,00 inteira, R$20,00 meia
Público alvo: Moradores da região com idade entre 16 e 65
Público esperado: 300 pessoas
Local de venda: Ingressos à venda na bilheteria de 4a a domingo das 14h às 21h ou pela internet na plataforma ELEVEN TICKETS.
Classificação: 14 anos
Duração: 1h
Evento: Instabilidade perpétua
Linguagem: Artes Cênicas
Data: 22, 23 e 24 de março
Valor do Ingresso: R$ 40,00 inteira, R$20,00 meia
Público alvo: Moradores da região
Público esperado: 330 pessoas
Local de venda: Ingressos à venda na bilheteria de 4a a domingo das 14h às 21h ou pela internet na plataforma ELEVEN TICKET.
Classificação:12 anos
Duração: 60 min
Evento: Calango deu! – Os causos da Dona Zaninha,
Linguagem: Artes Cênicas
Data: 29, 30 E 31 de março
Horários: sexta e sábado às 21hs e no domingo 19hs
Valor do Ingresso: R$40,00 inteira, R$20,00 meia
Público alvo: Moradores da região com idade a partir de 12 anos
Público esperado: 117 pessoas
Local de venda: Ingressos à venda na bilheteria de 4a a domingo das 14h às 21h ou pela internet na plataforma ELEVEN TICKETS.
Classificação:12 anos
Duração: 90 minutos
Teatro negro, Rodrigo França e o BBB
“O teatro tem poderes, estranhos poderes. É inacreditável! Ainda agora mesmo, ele me obrigou a ver uma sequencia enorme do Big Brother Brasil, um programa que, para a minha personalidade, é invisível. Não, não estou fazendo julgamento moral ou intelectual. Bem sei que muita gente boa gosta e acompanha. Em contrapartida, muita gente boa defende a ideia de que o BBB é um evidente índice de atraso mental, um fruto estranho de um tempo em que a mercadoria saiu do espaço dos objetos e se tornou pessoa.
O BBB, para estes detratores do programa, seria a estupidez em estado puro. No meu caso, a questão é bem mais simples, o BBB me escapa, não consigo prestar atenção naquilo de jeito nenhum – portanto, difícil emitir julgamento ou opinião, sem ver a coisa em si. Para ser bem sincera, acho chatíssimo vigiar a vida alheia e a minha vocação para a fofoca é próxima do zero. Não rola.
Então, dirá o leitor atônito, como foi esta aproximação? Foi o teatro, já disse. Rodrigo França, em duas palavras. Aprendi a admirá-lo no palco, sobretudo em função de sua muito esclarecida luta a favor do movimento negro. Lúcido, estudioso, engajado, Rodrigo França consegue materializar em cena não apenas a emoção, a ação dramática, mas algo muito maior, quase impensável, o desenho analítico, intelectual, estruturador do humano muito humano, foco necessário para a definição cidadã em nosso tempo.
Sim, é claro que eu fiquei me perguntando que diabos este homem de luz, ativista teatral de primeira grandeza, foi fazer num programa em que o desejo dominante é vender pessoas vivas, em pedaços, como se fossem hóspedes de um zoológico? Para quem se esfalfa na luta para entender e definir as engrenagens sociais mais rudes, a escolha não seria um ato de adesão cega às trevas?
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O teatro, os livros e a revolução
“A arte do ator tem segredos infindáveis. Há uma magia e, ao mesmo tempo, uma racionalidade densa, ao redor de uma prática tão antiga quanto, provavelmente, a vida em sociedade dos primeiros bandos. Para deixarmos de ser selvagens, o teatro foi decisivo, não tenho dúvida. E diante das selvagerias de agora? Há algum poder do teatro? O que se pode fazer na cena para mudar os indivíduos?
Para quem lê um livro surpreendente como Sapiens, de Yuval Noah Harari, uma história da raça humana que esmiúça as condições de possibilidade para que chegássemos a nos tornar este sucesso atual, a possibilidade de pensar a importância do teatro para a vida parece ser etapa imediata. Ainda não terminei de ler o livro e, portanto, não fechei o raciocínio a respeito. Mas convido todos os que gostam do tema a embarcar na aventura e, quem sabe, daqui a um tempinho (o livro é grosso e denso) trocarmos figurinhas a respeito.
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O teatro, o ser e o mundo
Às vezes o teatro nos explode, numa féerie de incertezas, como se fosse uma bomba atônita. Em estilhaços, tocamos o absoluto. É raro, mas acontece. Um exemplo? Corra para ver As Crianças, de Lucy Kirkwood, novo cartaz do Teatro Poeira. Você vai ver, em suspenso no ar, o mais arrebatador drama doméstico da sua vida.
Não, não se trata de passatempo vulgar, novelesco, descartável. O doméstico aqui significa algo humano maior, a nossa imensa irmandade, pois habitamos todos a mesma casa, a Terra. E drama, aqui, tem quase um alcance trágico, por causa da nossa cegueira, da nossa impossibilidade de entender o quê, afinal, nós somos.
Não se assuste: não há lição de moral, fala de professor, intelectualismo ou hermetismo. E esta condição é que torna o espetáculo absoluto. É tudo teatro, apenas teatro. A equipe construiu uma cena teatral no sentido pleno, total, uma cena de completa sedução, um lugar em que você viverá um banho de poesia, como se nas suas veias circulasse apenas arte e fosse possível, num átimo, mudar o seu olhar para o mundo.
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Cultura tropical: ameaças do mesmo
“Sou carioca, nasci no Rio. Nasci numa época em que as maravilhas luminosas do Rio ainda pairavam nos cantos e nas falas. De verdade, elas começavam a evanescer, como se uma bela cidade pudesse ser volátil, deixar de ser encantadora por obra humana. Pois não foram os humanos que inventaram as cidades?… E os encantos? Sim, tínhamos encantos naturais – mas eles não foram descobertos – e destruídos – pelos humanos? Como se deu o mergulho no abismo?
Por ser carioca, considero que tenho carta branca para tratar do assunto. E insisto. O Rio precisa preservar o último tesouro que lhe resta, a capacidade de produzir arte e cultura, inventar, criar, impressionar as sensibilidades com volteios de corpo e de alma. Se a cidade se tornou decadente, a saída está na nossa mão. Prossigamos, lutemos, inventemos, saiamos do mesmo.
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Feliz Ano Novo
“Eis aqui, diante dos senhores, um ano novo por inteiro, pronto para ser vivido. Um ano especial, pois algumas datas de 2019 são motivos decididos para grandes festejos. Assim como os dias passam sem parar, indiferentes aos sentimentos humanos, assim a arte de reconhecer os feitos do tempo não deve ser negligenciada: comemoremos.
A primeira grande promessa de festa, mais do que justa, vem de uma instituição dedicada à arte que, aqui no Rio, encantou a cidade: o Centro Cultural Banco do Brasil estará comemorando os seus trinta anos de atividade – um trintenário. Como o tempo passa célere independente de nós, vale desejar que muitos outros possam ser comemorados, marcados por extensa lista de realizações.
Não consegui fazer a lista completa das peças apresentadas no CCBB desde 12 de outubro de 1989, a data de sua inauguração. Numa visão panorâmica, dá para garantir que foram mais de 500. Ao lado do teatro, muitas outras realizações culturais ocuparam o espaço acolhedor aqui do Rio de Janeiro: exposições de artes plásticas, apresentações de música e de cinema, cursos, seminários, aulas…
Além disso, o Banco do Brasil organizou centros culturais em São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, o que significa uma proposição de trabalho a favor da cultura brasileira de grande extensão. O mais curioso, nestes tempos tão tensos, é constatar que o CCBB atrai uma população muito ampla, muito variada, uma garantia de que a difusão cultural pretendida é uma prática efetiva, muito concreta.
Não sei se há no Rio um lugar de cultura com voltagem maior do que o CCBB. Sinto sempre um prazer imenso quando perambulo pela casa e constato a felicidade de famílias inteiras, suburbanas, extasiadas diante de obras de grande arte. Fico comovida quando vejo no teatro pessoas comuns – sim, é para elas que o teatro é feito – compenetradas diante das ousadias, novidades e visões de mundo doadas pelo palco. O CCBB sabe da sua missão.
Para comemorar o aniversário, a instituição já está divulgando três propostas teatrais mais do que dignas de atenção, projetos culturais densos, na extensão do conceito. São trabalhos em que predomina o pensamento sobre o humano e sobre a linguagem da arte.
O primeiro, Rio 2065, a estrear logo agora em janeiro no Teatro 1, é a mais nova montagem da Companhia Os Dezequilibrados, que completa 20 anos de existência. A escolha é uma comédia, o tema é a cidade no seu quinto centenário, mas o objetivo da trama é uma avaliação crítica do Rio, do século XVI ao presente e ao futuro. A direção é de Ivan Sugahara e o elenco conta com Ângela Câmara, Cristina Flores, Letícia Isnard e José Karini.
Também em janeiro, no Teatro 2, começará temporada um solo de Vinicius Piedade, Cárcere, depois de viajar pelo exterior e pelo país. A peça, com direção do ator, focaliza o impasse vivido por um pianista que, num cárcere, se torna refém de uma rebelião dos presos. A discussão parece ser bastante sintonizada com uma das crises humanas mais rascantes da nossa sociedade.
E no Teatro 3 chega ao público a montagem do texto Solo, vencedor da oitava edição do Seleção Brasil em Cena, o projeto do CCBB de incentivo à dramaturgia. O texto é de Fabrício Branco, com direção de Vinicius Arneiro. No elenco, Kadu Garcia, Jansen Castellar, Alliny Ulbricht e Barbara Abi-Rihan.
O resumo da trama desperta a curiosidade – sob o foco, está um homem, moldado pela morte, cujo único afeto que recebeu em vida foi o amor à terra. A sinopse por si só já anuncia um debate impactante – vale conferir.
Aliás, talvez este seja um bom momento para o CCBB batizar os teatros da casa em homenagem a grandes atores que colaboraram para escrever a história cultural do espaço. O Teatro 1 poderia se chamar Sergio Britto, o Teatro 2 poderia ser dedicado a Beatriz Segall. Para reconciliar o Rio com uma das suas maiores atrizes, o Teatro 3 poderia ser nomeado em homenagem a Marília Pêra, já que a casa com o seu nome fechou.
Em síntese, o novo ano deverá ter bem clara esta marca: gratidão, reconhecimento, homenagens. Nenhum outro tom pode ser mais propício quando a atmosfera de crise se torna o lugar em que se vive. O reconhecimento importa para destacar a importância da Lei Rouanet de incentivo à cultura. É urgente mostrar tudo o que de significativo já se construiu a partir dela. E tudo o que se poderá fazer. O mercado teatral brasileiro – e o carioca é prova inconteste – não tem densidade para sobreviver sem incentivo. Várias áreas são críticas.
Por exemplo – o ano mereceria um grande musical em honra a Jackson do Pandeiro, para celebrar o seu centenário e para ressaltar a sua incrível potência musical. Mas um espetáculo deste porte não acontece sem incentivo fiscal, pois a bilheteria é insuficiente para cobrir os custos. Alguém da dimensão de Jackson do Pandeiro não pode ser esquecido. A Lei deve ser usada para isto.
E muito mais, sem dúvida. Muitas outras festas também podem ser organizadas. Aliás, tudo indica que o Rio, hoje, só pode contar com a indústria das festas, as outras faliram. Então, festejemos. Há um outro centenário pretexto para uma festa borbulhante, que o Rio deveria bancar – logo agora em fevereiro – será o centenário do nascimento de Mara Rúbia, esfuziante vedete.
Aliás, na praia do musical, do rebolado e das pernas nuas, 2019 tem fôlego – em junho, será o centenário de nascimento de Offenbach, de certa forma o músico de teatro que inventou as francesas do Rio de Janeiro… Alemão, judeu, músico de sinagoga, ele se tornou músico dos teatros populares e dominou a França. Logo, suas canções, alicerces de operetas e revistas, ganharam o mundo.São irresistíveis: quem nunca ouviu Offenbach ou ouviu e não se encantou, corte as orelhas.
Tudo bem, há a oposição. Nem sempre a oposição é obtusa ou deve ser calada. Pessoalmente, acho que a oposição é uma luz, uma benção, duvidar é saudável. Ela deve ter acesso ao livre uso da palavra. Assim, quem ainda for contra o tro-ló-ló, não deve se afligir – será também o ano da Bauhaus, a arte construtiva, cerebral, escola que poderia ser bem oportuna por aqui. Conhecemos muito pouco do teatro da Bauhaus, algo bem distante do nosso barroquismo. Poderia vir da Alemanha uma celebração.
De mais, fica o bom humor: na certa ele será necessário este ano, em que cabeças raivosas e espíritos turvos andam soltos, dispostos a infernizar a vida dos alegres. Nós, os alegres, juntaremos energia para, em novembro, festejarmos o centenário de nascimento da doce Eva Todor, um exemplar de alegria de viver raro de se encontrar.
Portanto, eu desejo que o seu ano teatral 2019 seja assim: Eva Todor. Ou a certeza de que a vida é uma luz, deve iluminar os dias, combater as trevas e fazer a existência feliz. Vivida assim, ela vale a pena.
Feliz Ano Novo: Vá ao Teatro
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Os imortais de 2018
“Não existe na face do planeta azul uma pessoa sequer do nosso tempo que não tenha pensado alguma vez: afinal, para quê servem os prêmios? Qual o sentido de aclamar uma pessoa, reconhecê-la como um valor superior aos seus iguais? Quem passou pelo magistério e enfrentou o problema que é a avaliação dos alunos lidou inúmeras vezes com o fato. Deve-se estimular o aparecimento dos melhores, dos gênios? Quem avaliza de verdade a genialidade ou a mesmice dos contemporâneos?
O pensamento a respeito dos prêmios percorre caminhos curiosos. Nos anos 1970, por aqui em especial, o teatro conheceu um fenômeno histórico surpreendente, o endeusamento desvairado do modo de produção em grupo. Para o ar da época, o processo criativo ideal era a criação coletiva. Muitos conjuntos radicalizaram a busca, passaram a viver em comunidade e o supremo desafio – contam, não sei se é piada – consistia em aceitar o fato de que nem mesmo uma escova de dentes podia ser propriedade privada. A mulher ou o marido então, nem pensar: tudo era compartilhado. O amor era livre.
A mesma época conhecia o poder despótico militar e o jardim da infância das celebridades, o início do processo de aclamação de grandes mitos populares, ampliado pela televisão e pela recente rebelião jovem, uma onda capaz de provocar inacreditáveis comoções. Portanto, para que se pudesse pensar em fazer uma arte de impacto, autêntica, segundo o pensamento dos mais radicais, impunha-se fazer o oposto simétrico do gesto da indústria cultural. Em lugar do excesso de fama individual, o extremo grupal.
A arte devia ser um instrumento revolucionário direto, uma arma hábil para mudar o mundo. Neste cenário grandioso, o cultivo do apagamento do indivíduo, do eu, do sentido de propriedade, se tornou ponto de partida. O grupo era a roda de vida do teatro. Todos eram companheiros – mesmo que alguns companheiros decididos mandassem em todos, mais tímidos diante do poder. Aliás, longas discussões surgiam por causa das ações dos pretensos líderes que, no fundo, eram mesmo os líderes. Esta dinâmica, portanto, era avessa aos prêmios, vistos como práticas burguesas, claro.
A coisa adquiriu um tamanho de tal ordem que alguns acontecimentos corriqueiros atingiram naqueles tempos tons inacreditáveis, surreais. Na Escola de Teatro da Fefierj, atual UNIRIO, por exemplo, os alunos criaram uma rotina para implodir o projeto dos professores de procurar, descobrir e aclamar gênios teatrais. Ninguém desejava endeusar galãs e divas, mas sim produzir em equipe, consolidar as forças coletivas. Para detonar os professores, todos os trabalhos individuais de interpretação – formato dominante nas aulas – eram aplaudidos com frenesi pela turma, como se representassem sempre a quintessência da alma teatral. Cada um era galã inconteste dos seus minutos de fama.
Os professores ficaram desnorteados, a principio. Depois, acabaram entendendo o jogo – e a tendência humana natural para reconhecer os talentos natos triunfou, a prática se esgotou. Não dá para descolar o teatro do plano do subjetivo. E quando aparece uma Vera Holtz, atriz forte desde os bancos da escola, não há como impedir que o queixo da plateia caia. A estrela brilha por si, tem luz própria, rasga a noite, ilumina o céu.
As consequências do processo surgiram com naturalidade, afinal o teatro era feito dentro do mercado. Muito embora as divas intocáveis tenham sumido da cena, ou tenham se transformado em seres mais modestos, o mecanismo de época não chegou nem mesmo a criar um chão novo, grupal, para o palco brasileiro. Quer dizer, a arte da cena passou pela prova coletiva, sofreu uma baita pressão e voltou a ser o que sempre foi desde o século XVIII – ou XIX – cruzadismo personalizado, ato individual heróico.
Há um lugar histórico do teatro no qual todo este processo pode ser lido com muita clareza – o Grupo Oficina. A princípio, na sua fundação, no final dos anos 1950, a equipe pretendia apenas seguir de perto o desafio do Arena, mais velho: a atitude de fazer grande teatro, como o TBC, apenas com dez por cento ou menos do orçamento tebecista. Mas logo surgiu a identidade maior da equipe, a proposta de sondar (e, em seguida, sacudir) as tramas de estruturação do indivíduo, uma forma política contrastante com o engajamento direto do Arena. O Arena queria o social, o Oficina jogava o foco no individual.
Foi o caminho para o chamado “desbunde”, segundo a gíria da época. Ao mesmo tempo em que eram rompidos paradigmas considerados como reacionários, para dinamitar os limites burgueses das pessoas-atores, o grupo fazia enorme sucesso, se tornou célebre. Lutando contra a fama, o Oficina, perplexo diante da aclamação, decidiu varrer o lixo da sala de ensaio, empacotar e vender para os fãs, junto com o programa da peça: poeira, cabelos, cinzas de cigarro, guimbas… Lixo de celebridades. O teatro não podia se tornar um sucedâneo da Abril Cultural.
O tempo passou e toda a anarquia e o niilismo de Zé Celso não impediram que ele se tornasse uma estrela, uma celebridade. Quer dizer, por aqui, parece ainda longe o tempo em que o teatro será arte de amplo alcance social e institucional, coisa de anônimos esfuziantes. Ele persiste como furor bandeirante solitário, fruto da ação de indivíduos obstinados, decididos a viver de teatro, mas tributários de um sistema de celebrização, num jogo paradoxal. Para sobreviver, quem deseja fazer teatro precisa ser herói absoluto em cada minuto teatral vivido. Ou é celebridade, ainda que anônima, ou não aguenta o tranco.
O raciocínio tem alcance certeiro: atribuir prêmios a personalidades de destaque no teatro brasileiro é procurar palha no agulheiro, quer dizer, é deparar com personalidades notáveis por todos os lados, pois fazer teatro no Brasil não é para os fracos ou hesitantes. Só com uma imensa força de vontade e a crença num talento avassalador a criatura aqui consegue persistir na arte. A loucura deste sistema brasileiro aparece clara até nos nomes mais modestos: eles lamentam a sorte, se veem com modéstia. Não são estrelas solares, afirmam, mas nem sabem nem querem nem podem fazer outra coisa. E se jogam de cabeça no palco, sem medo de quebrar o coco.E volta e meio eles, pequenos atores modestos anônimos, nos doam jóias preciosas da mais delicada emoção.
A provocação mira o velho hábito de desqualificar o teatro nacional, ataca o ponto de vista negativo de sempre, de dizer que temos um teatro atrasado, ruim, mal feito e mal acabado, sustentado por pessoas de quinta categoria, atores incapazes de ter a mais vaga ideia do bem dizer e da bela palavra. Afinal, cada povo tem o teatro que consegue e merece ter, mas, no caso brasileiro, a turma do teatro é heróica. Importa falar sobre isto numa época de crise, um momento histórico difícil, em que manter os teatros abertos com peças parece ser um verdadeiro milagre. Aos trancos e barrancos, a classe teatral tem feito isto.
O panorama geral traçado pelo resultado do Prêmio Cesgranrio de Teatro revela esta condição essencial dos tablados nacionais. Na listagem figuram múltiplas vertentes da arte hoje. A variedade salta aos olhos na simples enumeração das peças indicadas no segundo semestre, ao lado daquelas escolhidas no primeiro semestre. Ainda que a premiação não contemple produções paulistas, ela situa nos cartazes eleitos uma variedade significativa de tendências, uma amplitude do fazer só explicável a partir do predomínio da força criativa de indivíduos-artistas solitários entregues à própria sorte.Que teatro é este que a história nos legou?
Não dá para olhar para o teatro brasileiro hoje – e sempre – e reconhecer forças institucionais, poderes econômicos, tradições e linhas abstratas de criação. Não há nenhuma força social comprometida com a estrutura da cena. Tudo passa pela ordem do sujeito e pelo esforço cego das personalidades. A evidencia, portanto, leva a avaliar os prêmios como ato sério – e justo – de reconhecimento da potência artística nacional. Em particular quando o prêmio consegue olhar para a extensão do panorama da arte. Uma arte que deveria ser totalmente coletiva, mas que é inteiramente individual no seu esforço fundador, só pode ser muito variada.
Assim, talvez se deva reconhecer que nenhum outro teatro do mundo mereça ganhar prêmios como o nosso. Aqui, o prêmio é um sinal de luz ao inverso: em lugar de reconhecer o mérito passado, ele alicerça a porta para o futuro, pois a obra construída se desfaz como se gravada em areia, por ser ato particular. Muitos fatores determinam o palco precário: a fragilidade, ainda hoje, do teatro nas escolas, a inexistência de programas de formação de plateia, a recusa eterna do Estado a ter um projeto cultural nacional (e muita gente boa acha ótimo o fato, pois não contamos com estadistas à altura desta proeza, os projetos seriam descalabros), a futilidade criminosa da classe dominante…
Importa, então, considerar os diferentes prêmios no interior destes limites. E talvez seja o caso de lamentar o fato de que sejam poucos prêmios: falta um grande prêmio federal, falta um prêmio dos governos estaduais (existem alguns, mas são perseguidos sempre por descontinuidades), faltam prêmios monumentais de dramaturgia. Faltam prêmios dos sindicatos. Faltam prêmios das academias e grêmios culturais.
Tais coordenadas acabam deixando o Prêmio Cesgranrio num lugar nobre. De saída, o montante da premiação envolve cifras altas, é o prêmio nacional com maiores valores envolvidos. O vencedor de cada categoria recebe R$ 25 mil reais, a soma das doze categorias atinge R$ 300 mil. A festa de aclamação dos vencedores é sempre um evento requintado, de fina categoria, no Golden Room do Copacabana Palace, oportunidade para confraternização elegante da classe teatral, pois nenhuma outra cerimônia atinge o mesmo grau de realização.
Então, comemoremos. A festa de 2018 está programada para o dia 21 de janeiro de 2019. A atriz Fernanda Montenegro será a grande homenageada e a apresentação da noite estará à cargo de Julia Lemmertz e Jonatas Faro. Se um significado preciso pode ser atribuído a este prêmio, sem dúvida se trata do desejo límpido de conferir ao teatro uma projeção institucional forte. Trata-se de uma obra de consolidação teatral. A obra tem sido arquitetada com extremo requinte. Diante dela, dá para pensar e ver claramente para quê serve o prêmio: o seu foco intenso está na defesa convicta da grandeza poética do sofrido teatro nacional.
LISTAGENS DOS INDICADOS AO PREMIO CESGRANRIO 2018
INDICADOS SEGUNDO SEMESTRE 2018
MELHOR FIGURINO
João Pimenta, por DOGVILLE
Maria Duarte e Márcia Pitanga, por UM TARTUFO
Kika Lopes e Rocio Moure, por ELZA
MELHOR CENOGRAFIA
Dóris Rollemberg, por A ÚLTIMA AVENTURA É A MORTE
Marcos Flaksman, por O INOPORTUNO
Mathieu Duvignaud, por A INVENÇÃO DO NORDESTE
MELHOR ILUMINAÇÃO
Russinho, por MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO
Renato Machado, por ELZA
Renato Machado, por A ÚLTIMA AVENTURA É A MORTE
MELHOR ATOR
Daniel Dantas, por O INOPORTUNO
Robson Torinni, por TEBAS LAND
Bruce Gomlevsky, por MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO
MELHOR ATOR EM TEATRO MUSICAL
Luiz Felipe Mello, por PIPPIN
Rodrigo Naice, por 70? DÉCADA DO DIVINO MARAVILHOSO – DOC. MUSICAL
Tauã Delmiro, por 70? DÉCADA DO DIVINO MARAVILHOSO – DOC. MUSICAL
CATEGORIA ESPECIAL
Elenco de “ELZA”
Henrique Fontes e Pablo Capistrano, pela adaptação teatral do livro “A Invenção do Nordeste e Outras Artes” de Durval Muniz de Albuquerque Jr.
Marcia Rubim, pela direção de movimento do espetáculo “TRAJETÓRIA SEXUAL”
MELHOR ATRIZ
Mel Lisboa, por DOGVILLE
Alice Borges, por IRMÃOZINHO QUERIDO
Ana Kfouri, por UMA FRASE PARA MINHA MÃE
MELHOR ATRIZ EM TEATRO MUSICAL
Nicette Bruno, por PIPPIN
Totia Meirelles, por PIPPIN
Izabella Bicalho, por ELIZETH – A DIVINA
MELHOR DIREÇÃO
Duda Maia, por ELZA
Victor Garcia Peralta, por TEBAS LAND
Ary Coslov, por O INOPORTUNO
MELHOR DIREÇÃO MUSICAL
Pedro Luís, Larissa Luz e Antônia Adnet, por ELZA
Jules Vandystadt, por 70? DÉCADA DO DIVINO MARAVILHOSO – DOC. MUSICAL
Jules Vandystadt, por PIPPIN
MELHOR TEXTO NACIONAL INÉDITO
Pedro Brício, por O CONDOMÍNIO
Miriam Halfim, por MEUS 200 FILHOS
Eduardo Moreira, Márcio Abreu e Paulo André, por OUTROS
MELHOR ESPETÁCULO
ELZA
A INVENÇÃO DO NORDESTE
DOGVILLE
LISTAGEM GERAL DOS INDICADOS – 2018:
MELHOR FIGURINO
Eduardo Giacomini, por NUON
João Pimenta, por DOGVILLE
João Pimenta, por ROMEU + JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
Kika Lopes e Rocio Moure, por ELZA
Maria Duarte e Márcia Pitanga, por UM TARTUFO
Ney Madeira e Dani Vidal, por BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
MELHOR CENOGRAFIA
Daniela Thomas, por ROMEU + JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
Dina Salem Levy, por CÉREBROCORAÇÃO
Dóris Rollemberg, por A ÚLTIMA AVENTURA É A MORTE
Marcos Flaksman, por O INOPORTUNO
Mathieu Duvignaud, por A INVENÇÃO DO NORDESTE
Natalia Lana, por BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
MELHOR ILUMINAÇÃO
Beto Bruel, por CÉREBROCORAÇÃO
Monique Gardenberg e Adriana Ortiz, por ROMEU + JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
Paulo César Medeiros, por MARIA!
Renato Machado, por A ÚLTIMA AVENTURA É A MORTE
Renato Machado, por ELZA
Russinho, por MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO
MELHOR ATOR
Bruce Gomlevsky, por MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO
Claudio Mendes, por MARIA!
Daniel Dantas, por O INOPORTUNO
João Velho, por A ORDEM NATURAL DAS COISAS
Marcelo Olinto, por INSETOS
Robson Torinni, por TEBAS LAND
MELHOR ATOR EM TEATRO MUSICAL
Chris Penna, por BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
Claudio Galvan, por ROMEU + JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
Leo Bahia, por BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
Luiz Felipe Mello, por PIPPIN
Rodrigo Naice, por 70? DÉCADA DO DIVINO MARAVILHOSO – DOC. MUSICAL
Tauã Delmiro, por 70? DÉCADA DO DIVINO MARAVILHOSO – DOC. MUSICAL
CATEGORIA ESPECIAL
Andrea Jabor, pela preparação corporal do espetáculo INSETOS
Cia. dos Bondrés, pelos 10 anos de atividade em pesquisa de máscaras balinesas
Elenco de “ELZA”
Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche, pela adaptação e roteiro musical de ROMEU + JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
Henrique Fontes e Pablo Capistrano, pela adaptação teatral do livro “A Invenção do Nordeste e Outras Artes” de Durval Muniz de Albuquerque Jr.
Marcia Rubim, pela direção de movimento do espetáculo “TRAJETÓRIA SEXUAL”
MELHOR ATRIZ
Alice Borges, por IRMÃOZINHO QUERIDO
Ana Kfouri, por UMA FRASE PARA MINHA MÃE
Beatriz Bertu, por A ORDEM NATURAL DAS COISAS
Gisele Fróes, por O IMORTAL
Mariana Lima, por CÉREBROCORAÇÃO
Mel Lisboa, por DOGVILLE
MELHOR ATRIZ EM TEATRO MUSICAL
Amanda Acosta, por BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
Daniela Fontan, por A VIDA NÃO É UM MUSICAL – O MUSICAL
Izabella Bicalho, por ELIZETH – A DIVINA
Nicette Bruno, por PIPPIN
Stella Maria Rodrigues, por ROMEU + JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
Totia Meirelles, por PIPPIN
MELHOR DIREÇÃO
Ary Coslov, por O INOPORTUNO
Duda Maia, por ELZA
Henrique Dias e Renato Linhares, por CÉREBROCORAÇÃO
Leonardo Netto, por A ORDEM NATURAL DAS COISAS
Tadeu Aguiar, por BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
Victor Garcia Peralta, por TEBAS LAND
MELHOR DIREÇÃO MUSICAL
Apollo Nove, por ROMEU + JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
Jules Vandystadt, por 70? DÉCADA DO DIVINO MARAVILHOSO – DOC. MUSICAL
Jules Vandystadt, por O HOMEM NO ESPELHO
Jules Vandystadt, por PIPPIN
Pedro Luís, Larissa Luz e Antônia Adnet, por ELZA
Tony Lucchesi, por BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
MELHOR TEXTO NACIONAL INÉDITO
Cristina Fagundes, por A VIDA AO LADO
Eduardo Moreira, Márcio Abreu e Paulo André, por OUTROS
Leandro Muniz, por A VIDA NÃO É UM MUSICAL – O MUSICAL
Leonardo Netto, por A ORDEM NATURAL DAS COISAS
Miriam Halfim, por MEUS 200 FILHOS
Pedro Brício, por O CONDOMÍNIO
MELHOR ESPETÁCULO
A INVENÇÃO DO NORDESTE
A ORDEM NATURAL DAS COISAS
BIBI – UMA VIDA EM MUSICAL
DOGVILLE
ELZA
ROMEU + JULIETA AO SOM DE MARISA MONTE
Comissão julgadora: Carolina Virgüez, Daniel Schenker, Jacqueline Laurence, Lionel Fischer, Macksen Luiz, Rafael Teixeira e Tania Brandão.
Foto: Fachada do Hotel Copacabana Palace, 1930.
Tagged: Arena, Copacabana Palace, Da utilidade dos prêmios, Fernanda Montenegro, Golden Room, Jonatas Faro, Julia Lemmertz, Oficina, Prêmio Cesgranrio de Teatro 2018, Vera Holtz, Zé Celso
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Sob a eterna benção do teatro
“Crise? Como assim? De teatro, de tudo? Ora, existe saída – não se angustie. A crise tem solução fácil, basta querer. A mais visível não é imediata, é de longo prazo. Mas, afinal, vale a solução. É bela. Importa identificar o caminho e juntar esforços, pois almas nobres estão reunidas batalhando a favor da mudança. Uma palavra resume o tema: educação.
Pois é, um grande eixo de força está em ação para acabar com a crise teatral. Quiçá mexer com a crise geral do país. O eixo tem enorme visibilidade aqui no Rio de Janeiro, ainda que pouco se fale nele. Mas começa a ter força por todo o país. Por todo o território existem histórias de sucesso, exemplos para seguir. Copiar, neste caso, soma a favor da mudança radical da estagnação e da decadência. Vamos ao exemplo aqui de casa: gente, ele é abismal, aterrador, tal a sua grandeza humana.É um caso de enorme desmedido, tipo o amor de Pedro e Inês. Lembra disto?
Ok, sejamos objetivos. Trata-se do ensino de teatro – ou de artes cênicas – na Rede Escolar. O Rio de Janeiro é revolucionário por ter implantado a atividade à frente de todo o país. A conquista carioca surgiu como parte (embora tardia) de um processo mundial de reconhecimento da importância do teatro para a formação cidadã. Por isto, assim, forçados pelo mundo e não apenas por influência do Rio, a prática ganhou o território brasileiro, como um rastilho de pólvora. Logo se tornará rotina importante da vida escolar. Quer dizer, esta condição já está em vigor aqui na cidade maravilhosa.
Falo da escola pública: a Rede Municipal do Rio de Janeiro possui uma estrutura escolar de perfil avançado, mais do que moderno. Nas escolas, existem aulas de teatro. Mas há um pouco mais. Em diferentes regiões escolares da cidade, existe um Núcleo de Arte, nove no total. Nele, após os estudos regulares diários em sua escola, no contra-turno, a criança pode ter aulas de artes à sua escolha – música, dança, artes plásticas, vídeo e animação e, claro, teatro.
Visitei sábado o sensacional Núcleo de Arte Prof. Albert Einstein, na Barra da Tijuca. E precisei disfarçar e recorrer àquela mulher férrea que às vezes mora dentro de mim para não chorar. Uma torrente cristalina de emoção varreu a minha alma. Disfarcei, fiz cara de contente e trouxe a emoção para estas palavras. Amigos, procurem conhecer o Núcleo de Arte do seu bairro ou aquele que está pertinho ou visitem o Albert Einstein. E contribuam com esta ideia.
Detalhe – contribuir aqui significa falar, disseminar o trabalho, comentar, divulgar. Espalhar a notícia na sociedade funciona como uma imensa dádiva. Várias empresas e instituições podem se engajar na proposta. Cada Núcleo de Arte apresenta um rol enorme de necessidades, muitas fáceis de sanar, para o grande capital ou a grande estrutura institucional. E o impacto não bate só nos contemplados.
Já no caminho aprendi que iria para uma escola diferenciada ao extremo. Ela fica no Novo Leblon, um lugar que pouco conheço, na Barra da Tijuca, um bairro em que sempre exercito a estranha arte de me perder – e não no sentido antigo, da minha adolescência, em que o areal deserto da Barra da Tijuca era, segundo as mães, um antro de perdição. Eu me perco mesmo, fácil, para desespero do GPS.
Pois bem, perdida, passei na porta de um clube de bombeiros – não posso explicar, não sei o que é isto, fiquei no espanto! – e pedi ajuda ao porteiro, um senhor já idoso, negro, bonachão, dono de um sorriso capaz de iluminar o universo. Pois quando ele ouviu o nome da escola, conseguiu ampliar ainda mais o imenso sorriso para exclamar: ah, a minha escola! Tem festa lá hoje? Dê um abraço apertado por mim no diretor…
A Escola Albert Einstein e o seu Núcleo de Arte são exatamente isto, lugares de humanidade absoluta, plena, uma atmosfera devotada à criação contagiante. O astral impressiona por sua positividade, são pessoas decididas, aquele tipo que acredita que vivemos num baile e que importa mesmo tirar a vida para dançar. E, no caso de faltar música, elas terão a música nos pés, no corpo, na alma. São pessoas alegres, iluminadas pelo próprio trabalho, gente que vive em sintonia com o seu ideal, fazendo tudo por ele. Quando mostram a escola ou o núcleo de arte ou descrevem o seu ofício ou relatam a trabalheira insana que enfrentam para manter tudo em forma, o olhar dessa gente brilha com fulgor. São estrelas guerreiras do trabalho. Nenhum obstáculo, diante delas, aparece como tal – se ele está ali, deve ser vencido.
E que gente é esta? Professores, claro. Professores de arte, professores de teatro. Os que me receberam foram os professores de teatro. Dentre eles, o perfil mais comum consiste naquele ator que, diante da profissão, percebeu a instabilidade radical da carreira e, para sobreviver, decidiu dar aulas. Mas, alto lá! – não se trata de gente mesquinha, frustrada, que fracassou na cena e foi dar aulas, nada disto. Alguns até têm carreira paralela no palco e na TV, outros decidiram se entregar de corpo e alma à magia que é formar gente com arte, mudar diretamente o mundo. São apaixonados. E apaixonantes. Na verdade, todos foram mordidos pela mosca-magister, um bicho contagioso, resistente a vacinas e sem remédio, capaz de virar a cabeça de todas as suas vítimas, para sempre entregues ao ofício de ensinar.
Estes atores-mestres logo perceberam, diante dos alunos e das escolas, que era necessário outra visão do ensino da arte, devotada ao trabalho com a expressão do ser humano, algo que não formará necessariamente um artista, mas dará plena potência, imensa dignidade à cada pessoa. Assim, se jogaram na batalha, inventando métodos, enfrentando imensas carências. A adesão ao fazer tornou o saber de cada professor algo muito vivo. A todo momento, as teorias se despem da distância e mergulham no cotidiano. Neste ritmo, o Núcleo de Arte se impõe como realidade viva, palpitante, uma usina de libertação da expressão humana.
A dinâmica seguida nestes espaços de arte obedece a uma estrutura muito ágil. Os alunos da Rede buscam o núcleo capaz de oferecer as habilitações em arte de sua preferência. A entrada e a saída são livres. Para os que chegam, existe o Módulo Básico, de alfabetização na arte escolhida. Para os que possuem alguma formação ou passaram pelo Básico, há o Módulo de Continuidade. E, afinal, há o Módulo de Montagem, uma oficina multidisciplinar em que diferentes professores se integram para que os processos criativos resultem num produto de arte.
A minha visita foi direcionada para ver o trabalho de montagem deste ano do Núcleo de Arte Prof Albert Einstein, o espetáculo O Amor de Pedro e Inês, texto de Rodrigo Rangel focado na história de D. Pedro e de Inês de Castro. No Albert Einstein, o professor Rodrigo Rangel conseguiu construir – ou adaptar – um gracioso teatro. O espaço singelo, equipado com refletores feitos de latas de tinta e muito material reaproveitado, logo se revela um lugar poético dominado pelos estudantes. Eles, ali, estão em casa. E felizes.
Seria bastante extenso descrever as qualidades impressionantes da montagem. Para aproximar os jovens estudantes de um tema árduo, com frequência tratado sob um português culto e até empolado, Rodrigo Rangel levou a trama para a realidade de tiroteio carioca. Em cena, um grupo de teatro escolar, de uma favela deflagrada, tenta ensaiar a história portuguesa, enquanto as balas chovem ao redor.
O aluno ator professor ensaiador volta e meia sai de cena, às voltas com o cotidiano fervilhante das escolas em áreas tensas, um meio para nos falar da realidade crua imediata. Enquanto isto, os alunos-elenco seguem ensaiando. E aí a ciranda da imaginação dá a melhor resposta aos tiros e aos seres truculentos. A peça acontece como construção humana pura, na mais impressionante garra de fazer.
Inventividade corporal, espacial, visual, musical, trabalho com vídeo, dança… A cena roda diante da plateia como um caleidoscópio de belas ideias, ideias aptas a inventar tudo – a pobreza de meios desagua numa imensa fortuna de imaginário. Caixotes compõem amuradas, torre, castelo. Pincel, brocha, vassoura viram bonecos-marionetes… Plástico preto surge como manto real. Capsulas de balas compõem a mão de um esqueleto precioso…
No caso do professor Rodrigo Rangel, não foi o primeiro texto nesta linha de trabalho. Em atividade no Município desde 1995, ele concebeu uma proposta genial para aproximar a fortuna cultural do ocidente de alunos da Rede que, com frequência, vivem distantes do universo mais denso do saber. O espírito empreendedor o levou a adaptar Cyrano de Bergerac, de Rostand, Medéia, de Eurípedes, Lisístrata, de Aristófanes, Sonho de uma Noite de Verão e Romeu e Julieta, de Shakespeare, A Aposta, de Tchekov.
Por conta da projeção conquistada, ele passou de uma escola da Rede para o Núcleo em 1999 e, no Núcleo, ganhou salas abandonadas para fazer o teatro. Mas não é só, o reconhecimento foi ainda mais longe – este ano, ele recebeu a Medalha Carioca de Educação, honraria concedida pela Prefeitura para as contribuições mais relevantes para a educação na cidade. A seleção é rigorosa, feita por uma comissão de especialistas. Foi a primeira vez que a láurea foi concedida a um professor de teatro.
E a hipótese de estarmos diante de uma crise sem precedentes no país fica esfumada diante da nobreza deste tipo de iniciativa. Quando o professor Rodrigo Rangel fala a respeito do seu trabalho, ele fala de arte em dois planos diferençados – o trabalho de ator, no qual sempre se destacou desde os bancos da Escola de Teatro da UNIRIO, e o trabalho do professor.
Ele comenta que cada arte traz a sua gratificação. Cada arte tem a sua engenhosidade. A solidão do ator no seu processo criativo implica na certeza de mover a sensibilidade do mundo em algum grau, ainda que ínfimo, exclusivamente a partir de si. A comunidade do processo de ensino da arte a escolares desencadeia a certeza não apenas de criar plateias e difundir a arte, mas de aflorar gente num sentido sensível novo ou renovado, como se o que é humano devesse tomar as rédeas do mundo. Diante deste oceano criativo de tamanha beleza, vamos dizer o quê? Obrigada, professor. E parabéns, por sua infinita grandeza de espírito.
NUCLEOS DE ARTE DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
Relação dos Núcleos de Arte
E/CRE Núcleo de Arte Endereço/Telefone(s)
1ª CRE NA Avenida dos Desfiles
nucleartdesf@rio.rj..gov.br
Rua Salvador de Sá, s/nº –Cidade Nova– Sambódromo –Setor 9
Tel. 2502- 5199
2ª CRE NA. Leblon
nucleartpfisterer@rio.rj.gov.br
Praça Nossa Auxiliadora, s/nº – Leblon Tel.. 2512-8666
NA Copacabana
ucleartguima@rio.rj.gov.br
Rua Toneleiros, 21 – Copacabana
Tel: 2236-0154
3ª CRE NA Nise da Silveira
Creo3artes@rio.rj.gov.br
Rua Ramiro Magalhães, 521 – Engenho de Dentro
Tel. 3276-7787 / 3111-7085
4ª CRE NA Grécia
nuclearte@rio.rj.gov.br
Avenida Brás de Pina, 1614 — Penha
Tel.: 3391-4682
5ª CRE NA Professor Souza da Silveira
nucleartsilveira@rio.rj.gov.br
Rua Amália, s/nº – Piedade
Tel.e Fax: 2597-2937
6ª CRE NA Grande Otelo
nuclearteotelo@rio.rj.gov.br
Rua Arnaldo Guinle s/n°- Coelho Neto Tel:
7ª CRE NA Silveira Sampaio
nucleartsilveira@rio.rj.gov.br
Rua José Perrota, 31 – Curicica – Jacarepaguá
Tel. e Fax: 2441-2550
NA. Albert Einstein
nuclearteae@rio.rj.gov.br
Rua Guimarães Rosa, 156 – Novo Leblon – Barra da Tijuca
Tel. e Fax: 2438-5144
9ª CRE NA Prof. João Fernandes Filho
ucleartdickens@rio.rj.gov.br
Rua Primeira Cruz, s/nº – Campo Grande
Tel. e Fax: 2415-2373
NÚMERO DE ALUNOS:
E/CRE Unidade de Extensão – Núcleo de Arte Nº Alunos
1ª Av. dos Desfiles 453
2ª Copacabana 608
Leblon 951
3ª Nise Da Silveira 347
4ª Grécia 773
5ª Prof. Souza da Silveira 467
6ª Grande Otelo *
7ª Silveira Sampaio 757
Albert Einstein 519
9ª Prof. Joaõ Fernandes Filho 511
Total 5.386
OBS: N A grande Otelo, criado em 2008, sito à Rua Arnaldo Guinle, s/nº – Coelho Neto (E/6ªCRE), em processo de implantação.
(Informações copiadas do site da SME/RJ)
FICHA TÉCNICA:
O Amor de Pedro e Inês
Texto, Direção e Músicas: Rodrigo Rangel
Direção de Movimentos e Vídeo: Diego Braga
Cenário e Adereços: Da Penha
Figurinos e Adereços: Carol Bianchi
Produção: Núcleo de Arte Prof. Albert Einstein – Prefeitura do Rio de Janeiro
Elenco:
Personagens/ Atores:
Professor Chico Caseira – Gabriel Magalhães
Rafael/Pedro – Renan Tavares
Léo/ Lobato – Matheus Linhares
Márcia/ Inês de Castro – Vitória Silveira
Bia- Adrielly Santos
Daniel/ aluno operador – Rayan Pretinho
Luana/ Constança – Mandy
aluna muda – Leilla Soares
Sara – Sarah Menezes
Tagged: A Aposta, Arte e Educação, Cyrano de Bergerac, Lisístrata, Medalha Carioca de Educação, Medéia, Núcleo de Arte Prof Albert Einstein, O Amor de Pedro e Inês, Rodrigo Rangel, Romeu e Julieta, Rostand, Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, Shakespeare, Sonho de uma Noite de Verão, Tchekov
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O Teatro do corpo
“Teatro não é literatura: a afirmação já rendeu bastante polêmica. Ainda rende. Mas ela aparece aqui sob uma outra veste – o que se quer dizer com ela é muito simples. No teatro, à diferença da literatura, a palavra é destituída de seus poderes próprios, ela vira corpo. Isto mesmo – ela corporifica. Palavra no palco é ação, portanto corpos em movimento.
No entanto, a coisa não é tão simples assim: dois caminhos complementares estão insinuados no parágrafo de cima. Um caminho é o da palavra, não está sob o foco agora. Vale observar apenas que a tal palavra é sirigaita, quer dizer, é uma palavra cheia de carne, não é uma palavra seca, perdida em si, como sonha a vã literatura.
O outro caminho, totalmente rebolativo, é o do corpo. Sim, o corpo: esta nossa parte perecível, que vai sumir um dia, para que as nossas palavras, eternas de alguma forma, tenham a razão, a fala final. Por ser perecível, o corpo só cabe em si, nada o preserva, muito embora as emoções elaboradas por ele possam chegar às palavras… Mas este seria o terceiro caminho, ali onde palavra e corpo caminham, não interessa agora.
Interessa apenas e exclusivamente o corpo, esta parte baixa oposta ao espírito. Ele tem uma história vasta na História do Teatro mas, choremos, ainda não se escreveu o precioso volume História do Corpo no Teatro. Valeria a pena, não tenho dúvida.
Para começo de conversa, o corpo não existe, existem os corpos. O corpo grego não é o corpo medieval, não é o corpo renascentista, não é o nosso corpo. Quando se aprende a olhar o corpo, é uma diversão analisar fotos antigas e perceber a linha do corpo de cada tempo. E em cada tempo, múltiplos corpos se comprimem – por idade, classe social, gênero… Há uma cadeia infinita de corpos ao nosso redor.
O curioso é que todos os corpos nascem livres. Nas crianças, apesar da ação rápida das exigências sociais, ainda se consegue ver vestígios da liberdade, gradualmente suprimida pelo jogo social. Para os artistas, na sua formação, é preciso treinar o corpo – contê-lo nos padrões estéticos da época, condicioná-lo ao espírito do tempo.
De toda forma, parece inegável o predomínio, na maior parte da história do corpo teatral, no ocidente, de uma submissão do corpo à palavra. A partir do texto, da ideia do autor, o ator desenha uma realidade física e esta realidade física obedecerá ao fluxo textual.
Direções como as de Debora Colker, em Dancing Days, ou de Duda Maia, em Elza, alcançam uma projeção enorme a partir deste debate. Pois não é que o corpo, nestes casos, insinua um estado de rebeldia, emancipação, voz própria? E é este o ponto principal aqui: em que grau se pode afirmar a existência de um processo novo, do nosso tempo, em que uma potência física desponta e aponta para uma outra construção do ator no palco?
A reflexão importa no drama, no teatrão (se é que ainda temos teatrão, nesta terra sem deus, na qual nem Dioniso emplaca…), na vanguarda e, em especial, no musical. Ao que tudo indica, a intensidade do corpo, plástico e comunicativo, se tornou ferramenta básica para a comunicabilidade da cena. Importa ter o corpo adestrado – e são muitas as ofertas de treinamento – mas, mais do que isto, é imprescindível trabalhar a “fala” do corpo. No musical, o corpo precisa ser música, precisa cantar (isto é um pouco mais do que dançar). Veja-se as coreografias de Victor Maia, agora mesmo nas cenas vibrantes de 70? Década do Divino Maravilhoso, no NET Rio.
No caso brasileiro, pois cada país hoje terá as suas amarras e solturas, vale perceber e dissolver os processos de mordaça e de enrijecimento corporal existentes para conduzir a estruturação do nosso corpo social. Penso nos trabalhos históricos de Angel e Klauss Vianna, Regina Miranda, Joana Ribeiro, Ana Bevilaqua, Suely Guerra – para citar de memória e de impulso. Para situar profissionais híbridos, que volteiam entre a sala de aula, a sala de ensaio e o palco.
Há uma tendência contemporânea para o apagamento de fronteiras, a aproximação das artes, a erosão dos limites dos fatos culturais. Em São Paulo, de 6 a 16 de dezembro, acontecerá um festival, o Risco Festival, em primeira edição, com atividades gratuitas e apoio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos. Segundo as organizadoras, estarão em pauta diversas expressões artísticas, “dança, performance, música, artes visuais e foto, que se fundem e complementam para provocar uma reflexão sobre a criação artística produzida por todxs e para todxs…”
Ou seja, há um palco em movimento, ainda que o release do festival não fale no teatro. Mas o teatro em estado pleno precisa ser chamado à arena. Penso em tudo o que se pode fazer nas salas de aulas, para a formação do cidadão, a partir do trabalho com teatro na escola, tema de infinita grandeza e imenso poder estratégico. Na rusticidade das escolas públicas de hoje, o trabalho com o corpo pode ser revolucionário, para famílias em que a opressão é o cotidiano. O cala-boca tem uma extensão inacreditável.
Esta semana um evento universitário, aqui no Rio, dimensiona bem a extensão do debate. Organizado por professores da UNIRIO e da UFRJ, aborda o trabalho de corpo para autistas, com a oferta de oficinas para autistas, psicóticos e acompanhantes e familiares. A iniciativa impactante revela como o corpo cresceu, transbordou da cena e começou a ser uma fala social. Portanto, vale associar os dois continentes, corpo e cidadania. Mas não apenas por causa de uma nova essência do teatro ou da expansão do corpo na sociedade contemporânea.
Na verdade, o teatro é necessidade urgente na sociedade brasileira porque estamos no meio de uma crise histórica sem precedentes, uma ruína dos sonhos de gerações. E de séculos. Basta ler alguns documentos a respeito da história da Inconfidência Mineira (1789) para avaliar como e quanto temos sonhado com estas terras daqui em estado de cidadania livre, ainda que tardia. O problema é que esta tarde não chega. Assim, quem é massacrado pelo edifício social arruinado é o cidadão, o homem comum, aquele que mal começou a ensaiar a sua fala para entrar em cena neste salão de barões e viscondes chamado Brasil.
Para o homem comum que precisa ir ao teatro e dimensionar com sensibilidade a sua existência, a maestria da palavra deve ser incitada. Corporificada, incorporada, encorpada. Portanto, uma palavra nova, plena, redonda de si, carregada de sentimentos e impregnada por um corpo que sente e vive Brasil, este gigante calado há mais de meio milênio. Palavra e corpo não são palavras ocas, oratórias, vazias. Não são apenas recursos teatrais. São sinais vitais de uma sociedade que está aí e precisa mostrar as garras para ser reconhecida. Que as suas garras sejam palavras e palavras bem fincadas na beleza do corpo é a nossa última esperança. Pois o resto, é o caos.
FOTO: Angel e Klauss Vianna.
RISCO Festival, SP – de 6 a 16 de dezembro
Locais e endereços:
Aparelha Luzia (Rua Apa, 78)
Biblioteca Mário de Andrade (Rua da Consolação, 94)
CCJ – Centro Cultural da Juventude (Av. Dep. Emílio Carlos, 3641)
Centro De Referência De Promoção da Igualdade Racial (Av. dos Metalúrgicos, 155 (Cidade Tiradentes)
CRD – Centro de Referência da Dança – Galeria Formosa (Baixos do Viaduto do Chá, s/n)
Espaço Público – Av. Paulista, altura do número 3000
Espaço Público – Vale do Anhangabaú
Itaú Cultural (Av. Paulista, 149)
Instituto Tomie Ohtake (Rua Coropé, 88)
MIS – Museu da Imagem e do Som (Av. Europa, 158)
SP Escola de Teatro (Praça Roosevelt, 210 – Centro)
Teatro de Contêiner (Rua dos Gusmões, 43)
Teatro Décio de Almeida Prado (Rua Cojuba, 45)
Vila Itororó (Rua Pedroso, 238)
Informações para Imprensa
Canal Aberto Assessoria de Imprensa
III Encontro Circulando: caminhos com o autismo”.
Dias 6 e 7 de dezembro . (UNIRIO e UFRJ)
Coordenação geral: Professores Adriana Bonfatti e Joana Tavares (UNIRIO) e Ana Beatriz Freire e Fábio Malcher (UFRJ)
“Projeto Circulando: Ateliê de teatro para jovens com transtornos mentais” – projeto cadastrado na PROExC, implantado em março de 2013 na Escola de Teatro do Centro de Letras e Artes da UNIRIO, através do oferecimento de ateliês de teatro para jovens que sofrem de transtornos mentais (autistas e psicóticos).
Em 2014 o projeto passou a oferecer ateliês para acompanhantes e familiares.
Desenvolvido em âmbito interinstitucional, o projeto estabelece parceria com o projeto “Circulando entre invenção: um novo dispositivo clínico para jovens autistas e psicóticos”, coordenado pela profa. Dra. Ana Beatriz Freire, do Instituto de Psicologia da UFRJ.
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Teatroville
Alguma vez na sua vida você viveu a experiência luminosa de flutuar no espaço infinito, liberto de toda materialidade mesquinha, entregue ao mais requintado jogo de ideias? Não, não é bebida, nem droga, nem alucinação ou pancada na cabeça – é teatro, puro teatro, na sua quintessência mais etérea, o velho e bom teatro amante dos humanos, soberano absoluto das almas.
É Dogville, adaptação teatral do filme de Lars Von Trier, assinada pelo genial diretor Zé Henrique de Paula, cartaz do Teatro Clara Nunes. Corra para ver e leve a sua turma: pode ser a única experiência teatral absoluta da sua vida. Você não vai esquecer nunca mais. E vai sair do teatro aturdido, pensando no que é que você faz na sua vidinha miúda com você. É o velho teatro revisto e sintonizado com as ferramentas criativas do nosso tempo, um mergulho na cena envolto em imagens fugazes de vídeo e filmagem, música rascante, vertigem de luz.
A cena árida de saída vai conduzir a sua percepção para um lugar trevoso, apagado, um galpão abandonado, um vazio humano disfarçado de cidade pequena. Um jogo teatral requintado começa: o palco é um palco, está quase nu, mas apresenta e representa. Assim, diante da plateia há um espaço vazio que é mesmo um palco, marcado por estruturas móveis, telas, vai e vem de cadeiras: ele é uma cidade. Impressiona a textura das cores, sombrias, do cinza ao preto, cores sujas, uma espécie de lama original, sobra de incêndio, coisa de lixo.
Um jovem mestre de cerimônias, quase um oficiante de um ritual de iniciação, frio, calculista, distante, protagonista fantasma, narra a ação dramática, do prólogo aos nove quadros, e comanda a ação num sentido surpreendente, para o desenlace. Vestido de preto e sem cara de sujo, o narrador construído por Eric Lenate indica a excelência da direção de ator de Zé Henrique de Paula graças a uma nota comum a todo o grande elenco. O desenho físico e gestual combina corpo natural e corpo simbólico de uma forma muito ardilosa, num convite permanente para a passagem do real ao simbólico.
Eric Lenate explora uma sinuosidade de corpo – e de alma, vale acrescentar – adequada ao seu papel de orquestrador supremo da história, encarregado da sentença definitiva a respeito de tudo. O seu personagem é duplo – numa evocação dos coloridos diabólicos dos autos medievais, ele transita como uma figura em negro, com filigrana vermelho, para narrar, mas se torna um misterioso poder em vermelho-sangue sobre tom negro, para tecer os meandros do desfecho impactante.
A trama é simples. A rigor, trata-se de uma fábula, estruturada como um ato de teatralidade profunda, sob uma clara influência de Brecht e Pinter, com um alcance moral direto. A mistura é inusitada, pois o primeiro buscava mostrar a razão e a verdade em cena, o segundo banhou o palco em desrazão plausível. Aqui o foco é o sonho de felicidade do indivíduo-cidadão. Mas há algo mais: o texto é inegável texto do nosso tempo, deste novo século, tem um cálculo corrosivo nosso na sua construção, um tom de nihilismo e de ousadia intelectual – o sonho é impossível.
O formato determina um enfrentamento desabrido da ideia de humanidade, revelada como tecido corroído, como se a moralidade pudesse ser apenas patrimônio de cada um, portanto impossibilidade. No meio dos cachorros, a virtude é filha do gangster e, no fim, o poder acaba por ser um acordo entre os dois. Explosivo, nitroglicerina na alma.
A proposta, basicamente, é a de oferecer um caminho épico-dramático de deslumbramento para que você, afinal, pense o seu lugar na vida em relação aos valores mais nobres do mundo ocidental. Portanto, há uma lição, como soe ocorrer nas fábulas. Para chegar até ela, o narrador conta a história de uma cidade cachorra, perdida no mapa, povoada por uma gente lixo, cachorra, esquecida de si e do mundo. Uma gente simples que poderia ter alguma envergadura civilizada.
Ilhas humanas desgarradas no seu fim de mundo, estes seres tão pequenos precisam de um outro personagem para conduzir a ação, no oco da cidade: um escritor-cachorro, sem livros e sem certezas, interessado em demonstrar uma improvável grandeza humana do lugar, Tom Edson. A figura, esculpida em cena com roupa farfalhante de cortante colorido em tons de terra, combinação desconcertante de barro e lama, impacta graças ao desempenho estruturado por Rodrigo Caetano, uma mistura sutil de parvoíce e cinismo. Espécie de co-protagonista, também diabólico porque inconsequente, é ele quem aciona a imaginação da plateia no grau delirante necessário: deseja demonstrar como as pessoas de Dogville são, na sua essência, boas.
Para cumprir a sua obra, ele é contemplado com a divina aparição de Grace – a graça feminina de bondade e ponderação, manipulada em requintada alquimia por Mel Lisboa. Arrebatadora, a atriz se impõe como o anjo do bem, delicado emissário metafísico capaz de suportar as misérias terrestres mais brutais em favor da comprovação da grandeza humana. Irresponsável por si, no seu idealismo tonto.
Ela é uma fugitiva e, fugidia, busca abrigo contra misteriosos perseguidores. Não deseja voltar ao mundo lá de fora. A sua aparência é um híbrido, estopim para incendiar as almas pequenas. É tanto a imagem do desejo, latente na roupa alinhada provocante, no batom, no tom solar, dourado, no vermelho paixão. E é também a pureza da graça, na sua lourice de tranças. De certa maneira, a trama apresentada contém uma revisão de A Alma Boa de Setsuan, de Brecht, um exercício teatral para delinear os riscos da bondade, com a visita de deuses à Terra para procurar ao menos uma pessoa boa.
Denunciada por Moisés, o cachorro da cidade cachorra, justo o nome daquele que trouxe as tábuas da lei, Grace é aceita pela comunidade por interferência de Tom. Em troca, se presta a realizar pequenos serviços para todos, ainda que, de início, deles eles nem precisassem. Logo a bela moça inexperiente se transforma numa escrava branca barata, aviltada, torturada, massacrada, pois teria se tornado perigoso abriga-la graças à procura intensa da polícia. As maiores barbaridades são cometidas contra ela – e perdoadas por ela.
Cada habitante, mesmo o menino imberbe, representa um pecado contra a ordem humana. Desfilam em cena o egoísmo, a avareza, a mesquinharia, a inveja, a mentira, o autoritarismo, a luxúria, a ira, a preguiça, a vaidade… o cortejo das baixarias capazes de reduzir a humanidade ao mais sórdido pó é pródigo. Haveria uma fina fresta, totalmente pessoal, por onde esgueirar-se neste jogo para fugir, mas isto significaria retroceder diante das próprias certezas. Quer dizer, aceitar o jogo do poder, pois o poder, a ordem de comando, humana, não parte necessariamente de uma força do bem. O poder, ao olhar apenas o seu próprio interesse, é um tipo de gangster.
Trata-se de uma obra monumental de ourivesaria teatral. Para alcançar este feito, Zé Henrique de Paula, um dos maiores diretores brasileiros da atualidade, fino desenhista da ação em cena, desde a marcação, no espaço, até a configuração do rol das intenções, no fluxo etéreo, recorreu a um elenco capaz de transportar todo e qualquer mortal aos céus. São texturas preciosas de expressão, movimento, irradiação de aura, percepção de conjunto, doação pública.
Fábio Assunção, virgem de teatro, entrega toda a sua força expressiva para a arte e é de lamentar o tempo que perdemos com a sua distância do palco – o seu Chuck reúne brutalidade, ignorância, carência, inteligência perversa num jogo sutil e multifacetado. Bianca Byington concilia a sua característica delicadeza inefável com o desespero, o egoísmo, a ausência maternal e a cegueira existencial de Vera, num exercício exemplar de não ver o próximo. A força telúrica impressionante de Selma Egrei transmuda-se em impactante avareza, transubstancia-se no ícone perfeito da mulher má. A naturalidade do menino Dudu Ejchel, na construção de Jason, é uma ácida insinuação de que a má fé pode ser erguida desde cedo.
Enfim, não há qualquer possibilidade de lançar restrições ao trabalho do elenco. A direção, na condução de atores de fôlego, desenhou um elenco no pleno sentido da palavra. Todos (e cada um) se projetam na medida exata da fábula, na arquitetura precisa das cenas, no jogo com as projeções e o vídeo-mapping, como se não houvesse amanhã e o teatro maior do mundo fosse este, hoje.
Anna Toledo (Martha), Marcelo Villas Boas (Ben), Gustavo Trestini (Sr. Henson), Fernanda Thuran (Liz), Thales Cabral (Bill Henson), Chris Couto (Sra Henson), Blota Filho (Thomas pai), Munir Pedrosa (Jack McKay) e Fernanda Couto (Glória) transformam pequenos nadas em lâminas de fatiar almas. Integram uma máquina de emocionar e de fazer pensar muito requintada. No palco, espectadores omissos do mundo, cada personagem tem uma cadeira, explorada em múltiplos simbolismos. O movimento se amplia a partir da esfera corporal de cada um e, no palco vazio, como se o sórdido galpão fosse metáfora do mundo, eles sugerem pobres nichos para chamar de seus e se abrigar da verdade da vida.
A cenografia de Bruno Anselmo participa de forma muito integrada na armação deste jogo cênico – praticável, maleável, móvel, também de cores sujas, ela se presta para construir o espaço volátil e para as projeções. A luz de Fran Barros ultrapassa todas as exigências técnicas – dar visibilidade, desenhar climas, amparar as projeções – para contribuir de forma decisiva para a criação de uma comovente poesia do espaço. É arrebatador. Vale o aviso: prepare-se para voar.
Sim, poesia do espaço, importa frisar – dogville, cidade cachorra, é antes de tudo um lugar. Uma espacialidade adequada para dizer muito, alto e bom som, de uma humanidade nossa, de hoje, perdida de si, dos valores que deveriam ser a base de sua existência, deveriam ser a sua razão de ser. Isto se desejarmos de verdade preservar a vida, honrar o humano. A radical poesia cênica arrebata por falar de nós, homens sem Deus, ainda que religiosos, derrotados filhos do lixo e do plástico que nós próprios criamos, incompetentes diante do nosso mundo. Um tapa na cara, para crescer. Atenção, a temporada será curta, corra para ver. O velho e bom teatro vai te abraçar, vai te deixar voar livre, puro, num mundo de ideias interessadas em celebrar o humano, ideias teatrais essenciais.
P.S. – Depois que o teatro raptou a minha alma, nos anos oitenta, passei a ter muita dificuldade para me manter fiel à minha velha paixão cinéfila, cultivada desde a infância. Passei a trair sem dó o cinema. Perco todos os filmes. Não vi Dogville. Recomendado por uma aluna brilhante, Paula Sandroni, comprei o dvd – mas até hoje ele permanece virgem na estante. Portanto, fica a dica: esta crítica é um puro e simples olhar para o teatro.
Título Original: Dogville.
Autor: Lars Von Trier.
Direção: Zé Henrique de Paula.
Elenco: Mel Lisboa (Grace), Eric Lenate (Narrador), Fábio Assunção (Chuck), Bianca Byington (vera), Rodrigo Caetano (Tom Edison), Anna Toledo (Martha), Marcelo Villas Boas (Ben), Gustavo Trestini (Sr Henson), Fernanda Thuran (Liz), Thalles Cabral (Bill Henson), Chris Couto (Sra Henson), Blota Filho (Thomas Pai), Munir Pedrosa (Jack McKay), Selma Egrei Ma Ginger), Fernanda Couto (Glória) e Dudu Ejchel (Jason).
Idealização: Felipe Lima.
Cenário: Bruno Anselmo
Luz: Fran Barros
Figurino: João Pimenta
Visagismo: Wanderley Nunes
Trilha Sonora Original: Fernanda Maia
Realização: Sevenx Produções Artísticas.
Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli
Estreia dia 2 de novembro no Teatro Clara Nunes.
Temporada: De 2 de novembro a 16 de dezembro. Sextas e sábados, às 21h e Domingos, às 20h.
Duração: 120 minutos. Classificação: 16 anos. Ingressos: Sexta-feira Plateia: R$ 80,00 (inteira) / R$ 40,00 (meia). Balcão: R$ 50,00 (inteira) / R$ 25,00 (meia). Sábados e Domingos: Plateia: R$ 100,00 (inteira) / R$ 50,00 (meia). Balcão: R$ 70,00 (inteira) / R$ 35,00 (meia)
TEATRO CLARA NUNES – Shopping da Gávea, R. Marquês de São Vicente, 52 – Gávea, Rio de Janeiro – RJ. Tel.: (21) 2274-9696
Horários da bilheteria: Segunda a sábado, das 13h às 21h. Domingo, das 13h às 20h.
TEATRO PORTO SEGURO – SP
De 25 de janeiro e 31 de março de 2019 – Sextas e sábados às 21h e domingo às 19h.
Ingressos: Sextas-feiras R$ 80,00 plateia / R$ 50,00 balcão/frisas. Sábados e domingos R$ 90,00 plateia / R$ 60,00 balcão/frisas.
Classificação: 16 anos.
Duração: 100 minutos.
TEATRO PORTO SEGURO
Al. Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elíseos – São Paulo.
Telefone (11) 3226.7300.
Bilheteria: De terça a sábado, das 13h às 21h e domingos, das 12h às 19h.
Capacidade: 496 lugares.
Formas de pagamento: Cartão de crédito e débito (Visa, Mastercard, Elo e Diners).
Acessibilidade: 10 lugares para cadeirantes e 5 cadeiras para obesos.
Estacionamento no local: Estapar R$ 20,00 (self parking) – Clientes Porto Seguro têm 50% de desconto.
Serviço de Vans: TRANSPORTE GRATUITO ESTAÇÃO LUZ – TEATRO PORTO SEGURO – ESTAÇÃO LUZ. O Teatro Porto Seguro oferece vans gratuitas da Estação Luz até as dependências do Teatro. COMO PEGAR: Na Estação Luz, na saída Rua José Paulino/Praça da Luz/Pinacoteca, vans personalizadas passam em frente ao local indicado para pegar os espectadores. Para mais informações, contate a equipe do Teatro Porto Seguro.
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