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O amor ao teatro e a paulicéia zampariana
Eu te amo, ó São Paulo! – e este amor é tão mais sincero do que tudo, por uma razão bem simples: sou carioca. Portanto, em nome de uma esquisita rivalidade incentivada por tantos há séculos, eu deveria espumar ódio, ranger os dentes e elencar um rol interminável de defeitos contra a enfumaçada megalópole. No entanto, a realidade é outra, o meu coração saltita feliz diante da agitação louca daqui. Ó, São Paulo! Que as suas luzes façam sempre a minha felicidade!
Confesso, sem medo: a minha vontade é bailar pelas ruas, como se doida eu fosse. Alguém pode perguntar, aflito, a razão de tamanha euforia. E eu direi que, por enquanto, é o teatro, sim, só o teatro, pois não tenho tido tempo na vida para averiguar se a cidade tem outros encantos tão irresistíveis quanto o teatro para oferecer. Deve ter, suponho, mas não quero nem saber, pois se eu conhecer algo mais assim tão arrebatador, vai ser um perigo, me mudo.
Recentemente, graças a uma aluna estudiosa, voltei mais uma vez as ideias para Franco Zampari (1898-1966). Não dá para pensar o teatro do Rio e o de São Paulo sem passar por ele, quer dizer, sem passar pelo TBC (1948-1966?). Zampari instituiu um modo novo, louco, absurdo, extemporâneo mesmo, de produzir teatro, com um padrão econômico delirante, dissociado do real. De certa forma, ele quebrou o padrão antigo, das velhas companhias dos primeiros atores, formulado no Rio, sem botar nada no lugar, pois o modelo que jogou na praça era inexequível. Uma via de exceção.
Este pode ser um debate longo, capaz de gerar uma forte controvérsia. E, quem sabe, pode ser até bem divertido. A Companhia Maria Della Costa (1948-1974), gerenciada por Sandro Polonio, seria um contraponto no exame do caso, ainda que o modelo proposto por Sandro, uma espécie de modernismo moreno, não tenha sido reconhecido na época. Bem ao contrário, até: Sandro e Maria apanharam muito, injustamente. Mas não é este o foco aqui. O que importa frisar é que, como herança do redemoinho de busca de um teatro precioso, de preço irreal, capitaneado por Zampari, surgiu uma carpintaria esmerada de trato da cena. Poderiam cogitar dizer aqui que a matriz foi a cabeça italiana, dos diretores italianos, mas eu discordo – defendo que a origem é a loucura absoluta de Zampari. A ostentação levou ao refinamento formal.
Esta forma cuidada se tornou o berço do teatro paulista. As produções paulistas surpreendem sempre: elas podem ter texto ruim, atores canastrões ou artificiais, direção pífia, mas a cena em que este todo precário se move… é sempre preciosa. O acabamento dos cenários, a qualidade dos figurinos, a geometria da luz, toda a cena, enfim, é, digamos, zampariana. Vale criar o novo adjetivo e honrar a origem.
No Rio, no entanto, o efeito foi outro. A partir da aventura tebecista, morreu o estilo preconcebido de cena e de solução de palco dos velhos atores, mas não se afirmou o esmero zampariano. A cena tendeu a se refugiar na exploração do encanto dos atores ou na inventividade dos diretores – palco nu, mal vestido e mal acabado não é coisa rara. O padrão zampariano não vingou na praia carioca. Despojamento e irreverência se tornaram rimas fáceis para descuido, desleixo, falta de acabamento. A consciência da cena como espaço de construção artística não se tornou uma constante, um a priori. Em alguns casos, a impressão que se tem é que os artistas pensam que a plateia vai olhar apenas para os atores e tudo ao redor pode ser descuidado.
Nestes dias agora, em São Paulo, rápidos demais, mesmo com baixo índice de espetáculos vistos, este diagnóstico, que me aparecera há algum tempo como intuição, se confirmou. Vi quatro espetáculos em três dias. Por total falta de ingresso e de acesso à produção, não consegui ver Chaplin, no Espaço Tomie Othake, montagem a respeito da qual eu teria interesse em escrever. Em compensação, fui ver um espetáculo muito ruim, fraco mesmo, tão fraco que não desejo me estender na sua abordagem. No entanto, vale a ressalva: apesar da cena ruim, o acabamento da produção era grandioso.
Os outros trabalhos vistos merecem destaque: obras admiráveis. Fui ver Anatol, de Arthur Schnitzler, direção Eduardo Tolentino, montagem do grupo Tapa, no excelente Teatro Paulo Eiró – uma casa de bairro de qualidade bastante boa, sem equivalente no Rio de Janeiro (aliás, os teatros de São Paulo merecem um estudo à parte). A oportunidade da encenação é surpreendente. O tema, tratado numa coleção de histórias, focaliza o universo das conquistas masculinas, o donjuanismo. Leva ao debate acerca da liberdade no afeto, a natureza verdadeira do amor, o direito ao uso e ao abuso das mulheres, enfim, à visão masculina do amor e à camaradagem entre os homens. A montagem apresenta o original num formato de painel teatral muito interessante.
As tramas passam em sequência progressiva, com o elenco armando e desarrumando os cenários, em composição sempre pontual, sugestiva, até chegar ao desenlace, à cena vazia e à solidão, no frio e na neve, na linha de Alphie (Como aprendi a amar as mulheres). Com ótimos desempenhos – a direção de ator de Tolentino é sempre um deslumbramento para quem gosta de teatro – a qualidade da cena estimula o pensamento a respeito de um tema quente atual, os limites do direito de cada um do uso do outro.
Uma outra encenação cortante materializa uma verdadeira celebração em grande estilo da arte do palco, em cartaz no SESC Vila Mariana. Deverá – vamos torcer – vir para o Rio, pois trata-se de um trabalho excepcional de arte e de contemporaneidade. Trata-se do icônico Vincent Rider, de Philip Ridley, encenação de Darson Ribeiro dotada de um grau de resolução cênica de tirar o ar. Não vou estender os comentários aqui, pois pretendo escrever uma crítica da peça. É preciso assinalar, contudo, que o cenário sufocante é varrido por uma interpretação de abalar a estrutura do mundo, de Sandra Corveloni, a mãe de um jovem assassinado de forma bárbara por ser homossexual.
Finalmente, fiz questão de ver Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812, de Dave Malloy, direção brasileira de Zé Henrique de Paula, espetáculo apresentado no 033 Rooftop, espaço alternativo do Teatro Santander. Colorido, dinâmico e divertido, O Grande Cometa tem o mérito de sugerir o debate a respeito da estrutura do espaço cênico teatral. De repente, é como se o Teatro de Arena casasse com o TBC e a união desse certo – fossem felizes para sempre.
O libreto apresenta uma linha de ação dramática bastante convencional, enquanto dramaturgia: é apenas uma história de amor. Mas, convenhamos, que amor… Em resumo, a partir de um recorte da trama de Guerra e Paz, de Tolstoi, narra-se com razoável humor e certa irreverência formal uma história de amor ousada para 1812, com a mocinha traindo o noivo e encantando, ao final, o melhor amigo do ex-noivo.
Brincando com a possibilidade de ser múltiplo, própria do teatro, o espetáculo aposta nesta visão inventiva do mundo – se o cometa pode mudar os seres humanos, por que os seres humanos não podem mudar o teatro? – a cena pergunta. E responde com euforia, através de muita dança, música, canto, dramatização cantada e dançada. O espaço ajuda, o jogo de cena se espalha por cinco áreas de representação e duas passarelas. A estrutura permite que as cenas aconteçam em diferentes cantos, sejam vistas por ângulos variados, ainda que o fio condutor permaneça claro e contínuo, progressivo. Isto significa que não há uma visão única do espetáculo. Um pouco como se o século XIX trouxesse uma forma caleidoscópica de ver o mundo, a forma que prevalece no nosso tempo, uma era de multiplicidade de visões e de opiniões.
Aliás, vale observar a dimensão do novo em cena – a ação dramática é praticamente toda cantada. Mas o canto dos atores, contudo, apresenta variações muito interessantes, oscila entre o dramático e narrativo. Em vários momentos, em especial na abertura e no encerramento, no Baile e em Balaga, o conjunto dos atores ganha a cena e instaura um reino feérico de luz e de plenitude estética humana, festa para o olhar. A sensação é inusitada, com palco e plateia se entrelaçando. A montagem vale uma ida a São Paulo, pois dificilmente poderá ser apresentada no Rio.
Nestes três casos, duas características são decisivas: o preciosismo cênico e a intensidade-densidade atoral. O preciosismo cênico deve e pode ser vinculado a Zampari, seria a sua grande herança positiva. Ele aparece até mesmo no seu esmero maior, a preocupação de trabalhar com grandes diretores, prática que instituiu um grau de exigência sério, no mercado paulista, para a definição da função de diretor.
Já a qualidade dos atores, sua intensidade-densidade, tudo indica que precisamos reconhecer como coisa nossa, marca da identidade nacional. Na área da História do Teatro, ainda não sabemos explicar este fenômeno. Temos um teatro que foi inaugurado por um grande ator – pois nenhum autor do seu tempo alcançou a força artística de João Caetano (1808-1863). Talvez a garra da alma brasileira tenha um papel neste campo. E, afinal, a força e o ímpeto dos atores viabilizou, ao que tudo indica, a sobrevivência do palco nacional, após o encontro da cena com o extremo desmedido que foi, exatamente, a figura de Zampari.
Há, então, um subtexto caudaloso sob as palavras, sob as letras. O subtexto diz de uma força paulista peculiar, a capacidade de gerar um teatro de impacto, importante mesmo para a sensibilidade do país, desmedido como o jeito de ser-Brasil, um jeito comum a todos da terra. Só que, diante de teatros oscilantes por todo o território, São Paulo construiu um mercado de teatro de alta voltagem. Lado a lado, há o teatro-diversão, bem comercial, o teatro cultural, o teatro de arte, o teatro de invenção. Todos os gêneros desfilam na cena, ainda que a velha ala intelectual tacanha torça o nariz para certas linhas: até isto há por lá.
Na sala de espera de uma das montagens, presenciei pessoas comuns debatendo entre si as peças que viram recentemente com extrema propriedade e um interesse comovente. Nos diferentes teatros, mesmo na tal peça ruim, não falta público. Em consequência, nós, forasteiros, deixamos de ser sedentários e nos transformamos numa espécie de inversão dos velhos bandeirantes, agora em busca do ouro da alma de São Paulo. Como se contemplássemos minas faiscantes, ficamos extasiados diante de palcos paulistas, tão prodigiosos. Corações na mão, não existe saída: só nos resta amar São Paulo.
Anatol
Teatro Paulo Eiró
Sextas e aos sábados, às 21h
Domingos, às 19h
Ingressos: R$ 20,00/R$ 10,00 (meia entrada)
Ingressos somente na bilheteria do teatro
(aberta com uma hora de antecedência)
Até 30 de setembro
Avenida Adolfo Pinheiro, 765 – Santo Amaro
Duração: 110 minutos
Classificação: 14 anos
Vincent River
Teatro SESC Vila Mariana
Categoria: Drama
Classificação: 12 anos
Duração: 1h 30m
SESC Vila Mariana
R. Pelotas, 141 – Vila Mariana – Tel: 5080-3000 Apresentações: Sex 20h30, R$20 | Sáb 18h, R$20 Temporada: A partir de 17/08/2018 até 29/09/2018
O Grande Cometa
Teatro Santander – 033 Roof Topper
Sexta 21h30, Sábado às 16h00 e 21h30, Domingo às 19h30
Classificação: Não recomendado para menores de doze anos
Duração: 2h30 (com 20 minutos de intervalo)
Ingressos: De R$ 65,00 a R$ 160,00
Experiência Gastronômica Russa (cardápio com entrada + prato principal + sobremesa): R$ 130,00 (compra exclusiva pelo site)
Tagged: Companhia Maria Della Costa, Darson Ribeiro, Eduardo Tolentino de Araújo, Franco Zampari, Grupo Tapa, Sandra Corveloni, Sandro Polônio, Sesc Vila Mariana, Teatro Paulista, Teatro Paulo Eiró, Teatro Santander, Zé Henrique de Paula
A inutilidade dos atores, a eternidade do sensível
Os atores não servem para nada. São poeiras de arte descartáveis, miudezas que se perdem no tempo, desaparecem. Existem, pulsam, criam, arrebatam, sacodem os humores e puff!, para nada. O seu destino é ser esquecido. Logo, são inúteis.
Não, não acenem com a ilusão de que o cinema, a foto ou a televisão mudaram este jogo, pois mesmo quando impressos em imagens etéreas em movimento, o fim de todos será, de verdade, desparecer. O ator filmado está ali, mas fica ultrapassado – espere passar um tempo para olhar outra vez e verá – o danado sumiu. Quem é esta criatura? A resposta: ninguém. O ator filmado é tão volátil como o álcool canforado.
Injeção de álcool canforado foi um remédio – nem sei se é correto chamar de remédio – famoso no século XX. Não é do meu tempo e gastei horas de trabalho para descobrir do que se tratava. Ao que parece, existiam aplicações de álcool canforado, como injeção, para levantar o ânimo caído de uma pessoa. Algo semelhante à Coca-Cola com café, na minha geração, tão intragável que a criatura não dormia.
Vi uma citação do produto numa declaração pessimista de Procópio Ferreira (1898-1979). O grande ator dizia que o teatro, lá pelos idos de 1940, estava morto. Tão morto que mesmo injeções de álcool canforado seriam insuficientes para reanimá-lo. Parece que a nota ferina era para acertar Sergio Cardoso (1925-1972), a grande revelação do momento, que teria o hábito de se espetar para ter a energia incandescente, furiosa, despejada por ele no palco a cada noite.
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Fiapos de nada
Um oco cintilante nos mantém em suspenso: inventamos a civilização do vazio. Um espaço etéreo, alienado da chance de ser, intensamente branco, preenche o nosso olhar e nos une – eles, os atores, e nós, a plateia. A relação palco e plateia, contudo, não é rompida, estamos distantes, dentro de um teatro, para ver teatro, ainda que a ação comece como se estivéssemos dentro dela. A ação pretende lançar no espaço, em suspenso, as nossas almas, para nos levar a perguntar sobre a densidade do existir e do ser.
A função da noite é mais do que nobre – em cena, está esta joia de dramaturgia sublime, Nerium Park, de Josep Maria Miró, na concepção de um diretor poeta dotado de uma assinatura incandescente, Rodrigo Portella. A temporada acaba amanhã, no Teatro Glaucio Gill, corra para ver, não perca por nada deste mundo. É teatro em tom maior, com uma encenação brilhante de um daqueles textos em que há o propósito intenso de indagar sobre as razões do nosso tempo.
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Lágrimas amargas brasileiras
Chorei todas: chorei de secar a alma, para ver se ela vira múmia e, desidratada, suporto melhor este meu horrendo país. Desculpem, posso falar: sou jacaré com cobra d’água, como a elite local canhestra gosta de dizer daqueles nativos sem berço e brasão. Sim, sou verde-amarela, as cores escolhidas por D. Leopoldina para o país. Sou dessas pessoas.
Por isto, escrevo chorando. Sim, senhor Ministro de Estado e tantas Donas Marocas governamentais incompetentes, sou uma das viúvas apaixonadas do museu. E posso lhe informar: a sua batata está assando. O banquete de vocês, corvos do povo, está chegando, quentinho. Aproveitem, empanturrem-se.
Sou suburbana e, como todos os suburbanos nascidos na década de 1950, tive uma formação excelente em escola pública e fui impregnada por um nativismo pegajoso herdeiro do Varguismo. Fui guarda da bandeira, escrevi e recitei versos para a pátria mãe gentil e recebi muita educação cultural nos esplendorosos museus do Distrito Federal.
Meu pai, entre todas as amantes que cultivou com esmêro por toda a vida, tinha predileção por uma bronzeada e esguia senhorita, a mui heroica e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Ele não vivia sem carro e adorava enfiar os filhos no calhambeque da vez para flanar por toda a cidade. Um dos altares da pátria cidadã que comecei a frequentar bem cedo, levada por ele, foi a Quinta da Boa Vista e o Museu Nacional.
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A grande revolução das mulheres
Você sabe muito bem que existe um poder feminino, desde sempre, sinuoso, silencioso, capaz de mudar as formas do mundo. Sim, você pode dizer que ele não é silencioso, ele é amordaçado, silenciado, impedido de gritar e de se projetar. Vou concordar com você. Em especial depois de ver Para não morrer, um cartaz relâmpago que passou fulminando as sensibilidades ali no Teatro Poeirinha.
Você não viu? Pois aguarde, em breve a peça estará de volta ao Rio. Preste atenção e não perca – trata-se de uma experiência de arte única, rara, privilegiada. O centro do trabalho é um inventário rasante do poder feminino, da caverna aos nossos dias, por todo o mundo, mas, em especial,
na América Latina. O convite é objetivo: a imersão sensível nas tramas deste poder.
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Chuva de ideias, torrente de livros
As ideias despencam dos céus sobre as nossas cabeças. Portanto, qualquer um pode ser atingido. A pessoa está distraída, olhando para ontem, vendo passarinho verde e, de súbito, uma ideia tomba com violência sobre o seu indefeso ser. Neste raciocínio, uma constatação: as ideias são de todos e de ninguém. Andam soltas pelo ar.
Com certeza, este não é o direito autoral do nosso tempo, zeloso por cifras, propriedades e autorias. Mas, ressalte-se, nem sempre foi assim e provavelmente esta situação explica bastante todas as controvérsias a respeito de certos escritores, como Shakespeare. São muitos os que perguntam se notáveis autores passados foram com certeza autores dos textos que lhes são atribuídos. Alguns vão até mais longe: ousam sustentar, a respeito de certas figuras, que elas não existiram – Shakespeare inclusive. Seriam, como os textos, pura ficção. O autor verdadeiro estaria perdido nas dobras do tempo, apagado para sempre, como se fosse um anônimo escultor de um ateliê medieval.
Compreende-se: mal existiam os livros e os leitores. A sociedade pensava, mas era analfabeta.Nem sombra de empresas arrecadadoras de direitos autorais! Já no século XVIII, avançado nas ideias, povoado por florescentes bibliotecas, fiquei atônita ao descobrir que Bocage (1765-1805) teve à sua cabeceira na hora da morte o infeliz padre José Agostinho de Macedo (1761-1831). Apesar da batina, ele seria bem capaz de roubar ou destruir versos e escritos do grande poeta. O padre foi uma figura aterradora em matéria de transgressão.
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A volta da velha senhora
Eatenção, atenção! Ela voltou – e, quem sabe, parece que voltou para ficar. Sim, a comédia leve, airosa, divertida e inteligente, aquele teatro que os intelectuais empolados odeiam, a cara do Rio de Janeiro, saúda a cidade e pede passagem. O que vamos dizer à velha dama elegante? Seja muito bem vinda, fique à vontade, o Rio de Janeiro é seu, a nossa cena é sua. Já na saudação, vários problemas. Vale ir por partes.
Alguns sustentam que o alarido carece de motivo – a comédia não teria sumido nunca por aqui. Outros, mais atentos, sustentam que não é bem assim, nuanças delicadas bailam no ar: ela vegetava, lutava para sobreviver, cercada de desprezo por todos os lados.
De toda forma, vale passar os olhos e a inteligência pelos cartazes, pensar um pouco a sua dinâmica e decidir se é teatro o que queremos. Se a resposta é positiva, vamos lá: senhora, seja bem vinda, o teatro não pode viver sem a sua nobre presença, por favor fique por aqui – e bem instalada.
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A falha da ciência, a certeza do amor
A cena, em linhas delicadas de rara beleza, sugere ser uma lâmina de microscópio: ciência no palco, ciência do palco. Sob as lentes – o olhar do espectador – dois seres inusitados, pessoas de aparência estranha. Um homem sorumbático, perdido em si, uma moça desequilibrada, quase inconveniente, perdida no mundo. Para o pensamento corrente cotidiano, o saber miúdo de todos nós, duas pessoas descartáveis, desagradáveis, até. Impossíveis protagonistas de uma história de amor.
No entanto, a vida não pode ser tão simples. A antiga certeza aristocrática, preconceituosa e discriminadora, origem da nossa mania de rotular as pessoas, está sob nocaute no mundo de hoje. Esta constatação simples, iluminada, é o centro do delicioso texto Heisenberg – A Teoria da Incerteza, de Simon Stephens, cartaz do Teatro Poeira. Deseja saber do que se trata, numa palavra? Pois bem, lá vai: imperdível. Corra para ver. Trata-se de uma peça que parece simples, simula candura, mas é rascante, densa e, o melhor de tudo, divertida. A encenação, quase uma demonstração científica, vai fazer uma grande diferença na sua vida.
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A cena, as letras e a revolução
Fui uma jovem rebelde – bastante rebelde, sou forçada a reconhecer. E, amante do teatro, acreditava que o mais importante a fazer no teatro era a demolição. Sim, fui adepta do Teatro Pereira Passos, digamos, o Teatro do Bota Abaixo, derruba tudo. Foi uma época fervilhante. Torcíamos o nariz para a tradição teatral em geral, gastávamos neurônios pensando em como fazer tabula rasa do palco.
Ou nem tanto – como escolhi e recebi uma formação razoável em humanidades, não conseguia deixar de admirar a grandeza da herança cultural do Ocidente. O cânone, como se passou a nomear as grandes obras clássicas a partir de certo momento, sempre recebeu o meu louvor, mesmo que eu não pensasse que as soluções passadas pudessem cimentar o presente ou o futuro.
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O amanhã e o teatro: um encontro ou o vazio?
O que será o amanhã? Às vezes tento pensar o amanhã, ainda que o exercício seja arbitrário, apenas ato puro de imaginação. No entanto, parece inevitável recair no caminho tentador, em especial quando vemos a FIRJAN inaugurar no Rio um luxuoso centro cultural, num dos mais belos palacetes de Botafogo, a Casa FIRJAN. Qual a relação? Total – a Casa vai se dedicar à cultura, mas o foco será o futuro, através da exploração dos caminhos da economia criativa. Quer dizer, inauguraram uma casa para o amanhã.



