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A arte do ator: teatro não se aprende na escola
Muitas vezes já me vi na situação embaraçosa de tentar explicar uma das minhas profissões mais estranhas – são várias – para pessoas descrentes do potencial humano para arranjar coisas bizarras para fazer. É quando comento que dou aula em escola de teatro e o interlocutor, cidadão do mundo comum, exclama – Mas que diferente! O que você faz lá? E para quê serve uma escola de teatro? Você forma atores?…
Trabalho em escolas de teatro desde 1982 e não, não sei se eu formo atores – ou mesmo se alguma escola de teatro consegue formar atores. Quanto tempo leva um ator para se formar? Reparem bem na estrutura da pergunta, pois acredito que é o ator quem se forma, quem cuida de si, quem batalha dia a dia para ser ator. A rigor, de verdade, ninguém forma um ator, o ator é que se forma. E a grande dúvida reside aí – um curso de 2, 3 ou 4 anos não leva um ator a se formar. O ofício é denso.
A história está povoada por multidões de atores – a imensa maioria – que nunca estiveram numa escola de teatro. Como eles se formaram, se as escolas de teatro são tão recentes? Na vida. Muitos não tiveram escolha: nasceram em famílias de teatro e, como as profissões, até há bem pouco tempo, passavam obrigatoriamente de pai para filho, foram forçados a seguir no tablado. Neste mundo histórico, a escola era o ato mesmo de fazer – e eu penso que isto, na arte, significa muito. O artista nasce na arte. Nenhuma teoria pode ensinar um ator a fazer uma cena, seja de puro corpo, de riso ou de dor.
Na encantadora Escola de Teatro Martins Pena, uma usina de arte fabulosa, conheci um senhor, o Seu Arthur, patriarca da escola, conselheiro da comunidade, um destes sábios cotidianos, um dos meus ídolos secretos. Ele namorava a secretaria da escola, Claudinete, fora comerciante ali na rua e se acostumou a apadrinhar a casa. Um dia, numa conversa distraída na secretaria, ele sentenciou: aqui nesta escola não são formados atores, são formadas pessoas melhores. Depois de formados, os alunos decidem se querem seguir a arte, mas, se não seguirem, terão uma vida mais feliz. Serão bancários melhores, motoristas melhores, comerciantes melhores.
Adotei este pensamento singelo, direto: o teatro torna as pessoas mais felizes, melhores, ninguém passa impune por uma experiência teatral. Mas, formar um ator, um artista de teatro, na plena expressão do termo, eis uma tarefa difícil. Ensinar teatro é ensinar tudo: é ensinar a viver com arte no próprio corpo, ensinar a irradiar e a exalar arte. Gestos, palavras, sentimentos, pensamentos – tudo, enfim, precisa ser sintonizado com uma dimensão poética explícita.
A questão é muito profunda. E é muito séria. A pessoa pode passar a vida fingindo ser ator, pode simular um domínio da expressão que, de fato, não tem. E ainda assim pode ter sucesso, encantar um público, conquistar uma plateia para chamar de sua. São os canastrões, os malandros da arte, que fingem com sinceridade ser o que efetivamente não são – e, vamos combinar, que mal há nesta farsa em que farsante e farseados se sentem felizes, compartilhando um lugar sentimental reconfortante, de uma mentira rasteira?
Existe, contudo, o ator pleno, íntegro, verdadeiro, vertiginoso. A pessoa doa a alma ao que faz e irradia uma energia de vida pura, cristalina. Usa-se com frequência a palavra sacerdócio para falar destes celebrantes, que conseguem dominar um código de comunicação, uma linguagem, em que a vida está ausente e a arte se faz dominante. Como é isto? Como se pode ensinar isto?
Sim, eu não sei se formo atores por que trabalho sempre com teoria, sempre dei aulas de teoria do teatro, estética, história do teatro, crítica teatral e metodologia da pesquisa. Vale insistir que eu nunca quis ser atriz. Sou historiadora de formação, escolhi estudar História muito cedo e sou encantada por seu estudo. Decidi me especializar em História do Teatro quando o campo era um terreno baldio e, ciente da minha ignorância a respeito do teatro, fui estudar a arte. Sim, passei pelo palco nas escolas de teatro, quase conclui o curso de direção, adoro dirigir, mas a minha praia é mesmo a teoria.
Vi coisas inacreditáveis em aulas de interpretação ao longo da minha vida nas escolas. Ausência de método, empirismo, impressionismo, improvisação canhestra, superficialidade, arrogância, ignorância e má fé não faltaram. E sempre bateu forte a percepção de que vivemos num meio teatral muito instável, muito irregular, muito frágil. Os saberes são muito difusos. Qualquer aventureiro que chega, como se fosse um colonizador europeu com seus espelhinhos, faz a praça, vira deus. Já vi professor de interpretação empurrar o aluno do palco para que o aluno caísse lá de cima e… perdesse o medo da cena…!
Penso que é fundamental a organização de uma rotina de congressos de ensino de teatro, para que as diferentes escolas se encontrem e exponham seus métodos e processos. Para debatermos o que é formar um ator. Hoje, no Brasil, vivemos uma realidade muito engraçada: temos mais escolas de teatro do que teatro. Formamos por todo o país uma quantidade enorme de atores e de diretores de teatro – e até de críticos – sem que estes jovens tenham qualquer perspectiva de mercado. As escolas trabalham por si e para si, visam um mercado inexistente. Formam atores?
Muitos professores destas tantas escolas de teatro raramente vão ao teatro e vários ignoram os grandes trabalhos teatrais do momento. Ao mesmo tempo, nas escolas regulares, os currículos de formação dos professores de Português ignoram os autores dramáticos, os dramaturgos. E todo este povo, salvo exceções muito localizadas, segue a vida sem ter tido teatro na formação escolar. Neste quadro, o aluno pode chegar à escola de teatro, universitária, sem nunca ter feito teatro e tampouco ter visto uma peça.
A profundidade do debate a respeito do teatro no Brasil hoje, portanto, é abissal. E a pergunta de fundo é rascante – que tipo de país se pretende construir no qual a própria instituição do teatro tende a ser uma farsa patética? Vale, então, destacar as iniciativas fortes, os pontos de tensão e de inquietude que podem sacudir a pasmaceira. Nesta semana, uma iniciativa acadêmica louvável estará à disposição de todos os que amam teatro e estão verdadeiramente interessados em debater a formação dos atores.
Trata-se de uma montagem escolar realizada na Escola de Teatro da UNIRIO. O projeto mobiliza a capacidade de produção da escola e identifica com muita clareza o contorno institucional e as condições de realização da escola. A estreia será na quinta-feira, dia 28, e as apresentações seguirão até o domingo. O texto escolhido é Em Alto Mar, de Slawomir Mrozek (1930-2013), obra lançada em 1961 e de impactante atualidade.
A sinopse diz tudo – três náufragos perdidos no meio do oceano, numa jangada improvisada, sem comida, decidem que precisam fazer uma eleição vital, para escolher alguém “daquela sociedade” para ser devorado e, assim, garantir a sobrevivência dos outros. A direção é do professor encenador Ewald Hackler. E a pergunta impertinente surge clara: qual a novidade que transforma uma simples montagem escolar em evento importante da temporada, sonante para uma reflexão a respeito da estrutura do teatro brasileiro hoje?
O primeiro ponto a destacar é a densidade artística do trabalho de Ewald Hackler. Professor, ele é, antes de tudo, um diretor, um grande especialista na arte da encenação. Nascido na Alemanha, na década de 1960 ele trabalhou com atores do Berliner Ensemble, o teatro estruturado por Bertolt Brecht (1898-1956).
Estes atores fugiram da Alemanha Oriental e se radicaram na cidade de Colônia, onde Hackler vivia. Leonard Steckel (1901-1971), o ator criador do papel do Sr. Puntilla, foi um destes atores. Hackler desempenhou ainda a função de cenógrafo-assistente de Caspar Neher (1897-1962), o grande cenógrafo de Brecht, e se projetou como figurinista e cenógrafo.
Radicado no Brasil há cinquenta anos, professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, Ewald Hackler veio ao Rio convidado pelo Instituto Martim Gonçalves e pelo PPGAC da Escola de Teatro da UNIRIO. O projeto tem uma densidade profissional admirável. É a terceira vez que o diretor dirige o texto e, neste projeto, o diretor se concentrou no método da montagem, na leitura de mesa e na compreensão da estrutura da peça.Quer dizer, extensa aplicação de um método, calcado na formação do ator para a encenação.
Assim, a discussão central do trabalho é a formação do ator segundo as regras mais nobres da arte no nosso tempo. Em Alto Mar pretende ser uma montagem didática, uma encenação que nasce de um seminário especializado, realizado na disciplina Prática de Montagem Teatral, ministrada pela Professora Jussilene Santana, produtora executiva do espetáculo e diretora do Instituto Martim Gonçalves. O processo foi acompanhado por uma equipe de filmagem, para o registro do trabalho e para a realização de um documentário. Ou seja – o método de direção de Hackler ficará documentado.
Para o tema da formação do ator, há um mérito absoluto na montagem: o texto escolhido, uma peça do gênero didático, apresenta uma estrutura formal composta por cenas autônomas, independentes entre si, mas articuladas em profundidade. A intencionalidade e a intensidade do trabalho do ator precisam ser focalizadas com rigor para que esta estrutura apareça com impacto, entre a sensação e a razão. Da fala ao menor gesto, é preciso contar com uma abordagem técnica muito precisa, sem espontaneísmo, sem apoio em truques de colete ou em vícios expressivos.
Portanto, a encenação recorre ao efeito épico para a apresentação das cenas. Vale acrescentar algo a esta concepção do épico, na qual o intérprete tem protagonismo decisivo em todo o processo. A concepção geral da proposta nasce do diretor, mas é profundamente elaborada junto à equipe, segundo aquilo que se poderia chamar de contracena inteligente. A solução poderá ser vista com muita clareza no ensaio aberto do dia 27 próximo, quarta-feira, no qual o diretor trabalhará os procedimentos com o pano aberto, expondo para a plateia o mecanismo de montagem – o ensaio aberto será, portanto, uma aula-ensaio.
A partir da dinâmica ácida do texto, uma combinação requintada de representação, farsa e mordacidade, crítica aguda ao Estado e aos poderes de aniquilamento do sujeito, é possível encontrar um desafio forte para o trabalho do ator, em especial do jovem ator, inquieto, louco para sacudir as estruturas do mundo. Para que a opressão se torne palpável, alvo nítido para a plateia, vale mostrar e desmontar, digamos – e a potência para fazê-lo dirá da extensão do intérprete.
Como se pode constatar, é uma tarefa árdua explicar o trabalho que deve acontecer dentro de uma escola de teatro. Pois as escolas se tornaram necessárias em razão desta arte atual, de alta voltagem crítica. Trabalhar com o ator para que ele se torne capaz de materializar esta força a um só tempo criadora e questionadora, lúdica e racional, é a tarefa que se atribui, hoje, às escolas de atores. Sim, em lugar de formar, elas indicam caminhos. Não se trata mais de mera repetição de um arsenal de truques e padrões, mas de invenção da sensibilidade e da percepção. Como dar conta do encargo? Não há resposta teórica. Mas, sim, há uma chance para tentar explicar tudo ao vivo: é ver a montagem e dimensionar o quê, afinal, se pode conseguir fazer numa escola tão tradicional como a UNIRIO.
EM ALTO MAR
Apresentações:
27 de junho – quarta-feira – 19h (ensaio aberto e didático)
28 de junho – quinta-feira – 18h (estreia para público e convidados)
29 de junho – sexta-feira – 19h
30 de junho – sábado – 19h
01 de junho – domingo – 19h
Local: UNIRIO – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
Palcão da UNIRIO
Endereço: Av. Pasteur, 436 – Urca, Rio de Janeiro – RJ
Duração: 60 minutos
Gênero: comédia
Lotação: 80 lugares
Classificação: 14 anos
Entrada gratuita – distribuição de senhas 30 minutos antes da sessão.
Dramaturgia: Slawomir Mrozek
Tradução: Roberto Lage
Direção: Ewald Hackler
Assistente de Direção: Jussilene Santana
Preparadora de voz: Jussilene Santana
Elenco: Guedes, Osvaldo Baraúna, Vanessa Rocha, Venâncio Cruz e Virgínia Bravo
Assistentes de produção: Maria Clara Migliora, Raphael D´Arc, Stace Mayka e Úlli de Oliveira
Figurino: Ewald Hackler e elenco.
Caracterização: Mona Magalhães (monitorada pelo aluno Everton Cherpinski)
Assistência de cenografia: Adler Franco
Iluminação: Raphael Cassou
Design e Ilustrações: Yuri Barreto
Assessoria de Imprensa: Duetto Comunicação
Produção Executiva: Jussilene Santana
Produção: Escola de Teatro da UNIRIO e PPGAC
Apoio: Instituto Martim Gonçalves
Site https://institutomartimgoncalves.com.br
Tagged: Atores, Em Alto Mar, escola de teatro, Escola de Teatro da UNIRIO, Escola de Teatro Martins Pena, Ewald Hackler, Instituto Martim Gonçalves, Jussilene Santana, Slamowir Mrozek, UFBA
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Teatro e futebol: formas do saber humano
Já conheci várias pessoas com uma característica espantosa: o ódio ao teatro. Algumas tinham o coração entregue ao futebol, arte mais verdadeira e intensa, na sua opinião. No conjunto, os motivos do ódio são vários. Impossível elencar todos – vão desde a convicção de que o teatro é velho, superado, passam pela certeza de que a cena explora apenas a vaidade e o exibicionismo rasteiros e chegam até o mais puro desencanto com a arte. Para este ponto de vista desencantado, o teatro estaria devotado mais à materialidade fútil do que à intensidade ideal da poesia. Algo assim como se um craque se preocupasse mais com os volteios do seu penteado do que com a qualidade dos seus chutes, digamos.
A lista das queixas é longa. Já sai de uma peça de vanguarda obscura com duas senhoras devotadas ao teatro, desconhecidas, indignadas com a cena apresentada. Exaltadas, elas declararam com veemência que iriam abandonar o teatro em favor do cinema, pois, amantes da velha arte, enfrentaram naquela semana uma sequência de peças experimentais no seu entender inúteis, equivocadas mesmo, como estudo da humanidade. Elas estavam furiosas e chegaram até a zoar o elevador canhestro do velho prédio: já que o foco da casa era a invenção, qual o motivo de ter um elevador modesto, trôpego pelos andares?, proclamaram.
Ouvi em silêncio. Mas entendi que existe uma falta, um abismo, entre o palco e a sociedade brasileira. Depois do jogo da seleção, ao andar a pé no meu bairro, na universidade em que trabalho e por diferentes recantos da cidade, o que eu ouvi em todas as bocas era a discussão, às vezes bem exaltada, a respeito dos rumos do futebol brasileiro – vale topete, pose, maquiagem ou o importante é o pé, o cérebro de par com a bola…? Foi jogo ruim ou roubo? O futebol fez vários gols estes dias e disparou os corações. O teatro com frequência não consegue nada parecido, mesmo com aqueles que o amam com intensidade. A norma é o tédio e não há nem mesmo a vontade de xingar o juiz.
Podem ser ciclos da sociedade humana – no século XIX, a vida não era assim. Não existia o futebol, nem o cinema, ou a TV. O teatro era o rei do pedaço. Sim, tinha a concorrência da ópera e da música, mas, desde a função de ser a escola de costumes, até o nobre papel de apontar a definição requintada do ser, tudo era próprio do gramado do teatro. Neste século XXI, quem sabe o futebol esteja com os seus dias contados, prestes a morrer, a favor de uma nova arte, a arte de viver virtual, um casamento da internet com a performance? Não, não será uma forma de teatro, será outra coisa, ainda sem nome. E o teatro?
Sobreviveremos – vale a resposta curta, histórica, emprestada por Tchekhov. Impossível saber para onde andará o teatro: sempre usamos um edifício velho no nosso tempo novo, pois, quando as paredes teatrais se erguem, registram, a rigor, o teatro que passou. Sempre usamos fiapos do que fomos e fizemos e da arte cristalizada no ar, sempre recorremos ao público fiel – portanto, passados, todos passados. Ansiamos o futuro, mas vivemos ancorados no passado. Como dimensionar o futuro? Impossível saber. Porém, a necessidade de aprender com a presença humana, de ouvir o outro e se encantar, sempre existiu e sempre existirá – sobreviveremos.
Vale buscar, olhar e avaliar a cena que consegue pulsar no meio da Copa do Mundo. Vale tentar entender o que faz com que tantos percam o seu tempo, sem lamentar, com os olhos pregados nos pés dos atletas e rejeitem, sem piscar, a dedicada energia de tantos artistas da cena. Há um saber humano aí? Há sentimento bruto, de um lado, refinamento de emoção, do outro? Qual o caminho?
De longe, chegam aqui atestados da grandeza do teatro brasileiro. De Portugal, do FITEI, um festival de teatro que sobrevive há 41 anos, chegam notícias do sucesso das apresentações no Porto do nosso celebrado Caranguejo Overdrive, da Aquela Cia. Além do tema, o descompasso profundo entre poder e sociedade que dilacera o país desde sempre, indicador da não superação aqui da condição colonial, alcançou impacto lá a forma da linguagem. Entre o documentário e o drama, alicerçado a um só tempo na narração, na representação, na performance e na apresentação, o trabalho despontou como eloquente registro da expansão da sensibilidade individual no nosso tempo. A forma da cena não fala mais apenas de sensibilidades conduzidas, integradas, como quer a linguagem teatral convencional, o velho drama, mas também de sensibilidades que pleiteiam a maestria da própria expressão.
O FITEI – Festival de Teatro de Expressão Ibérica – oferece uma gama variada de atividades – além da apresentação de peças nacionais e internacionais, conta com oficinas, concertos, debates, encontros, festas. Esta edição acontecerá de 12 a 22 de junho, contemplando não só o Porto, mas Vila de Gaia, Matosinhos, Felgueiras e Viana do Castelo e a presença brasileira está bastante forte.
Não se pense, contudo, na existência de facilidades para a arte em Portugal. Na semana passada, outro festival de projeção, de Almada, promoveu o lançamento de sua 35A., a ser realizada de 4 a 18 de Julho. No lançamento, além da definição da programação, foi reafirmado o compromisso público de manutenção do festival, apesar dos cortes de verbas anunciados. A expectativa é a de que a redução do financiamento público, divulgada em março, seja revista em prol da sobrevivência do encontro cultural importante.
Enquanto isto, lá como cá e por várias partes do mundo o dinheiro jorra nos gramados e a favor das chuteiras. Ninguém fala em corte de verbas para o futebol. Ele figura como necessidade primeira. Apesar dos escândalos de corrupção, do roubo e do vedetismo consumista exaltado dos craques – com frequência mergulhando no ridículo – nada leva a crer na possibilidade de falta de capital para o futebol nos próximos tempos. E, se tal acontece, uma coisa é certa: multidões apaixonadas garantem a sobrevivência da atlética ocupação.
O diagnóstico do caso, visto do lado do teatro, pode ser preciso. Talvez seja o caso ululante de uma unanimidade burra, como diria Nelson Rodrigues, ele próprio louco por futebol, ainda que não pudesse ver claramente qualquer jogo, por problemas sérios de visão. Mas ia aos estádios e simulava bem um domínio perfeito das artes da bola no campo, para atiçar os ânimos, como deseja o jogo. Ou o teatro. Teatro, futebol, Nelson Rodrigues: quem sabe se misturar tudo permita que se chegue a algum novo entendimento da espécie humana?
Pois, nesta semana de copa, paixões acirradas, torcidas histéricas e descabelamentos atléticos, uma sensacional montagem de Nelson Rodrigues estará à disposição do distinto público. E de graça. O Espaço Furnas Cultural, em Botafogo, vai apresentar a irresistível Perdoa-me Por Me Traíres, de Nelson Rodrigues, de 16 a 24 de junho, às 19h.
A peça é um clássico do autor e exala aquele sentimentalismo transgressivo exaltado do grande torcedor do Fluminense. A direção de Daniel Herz alcançou um efeito potencializador da dinâmica do texto, graças a uma cena límpida, geométrica, marcada por desempenhos intensos, realçados pela cenografia cirúrgica de Fernando Mello da Costa e pela luz diabólica de Aurélio di Simoni.
A oportunidade é de ouro, como a falecida taça Jules Rimet – ela permite pensar algo a respeito de um encontro improvável, mas desejável, entre teatro e futebol. Ao escavar o subterrâneo das almas, o autor fala da estrutura de sombra, paixão e dilaceramento que ergue o homem, talvez os mesmos engenhos que o futebol aciona, numa outra voltagem, quando instaura no estádio o urro coletivo. Quem sabe se este tipo de programa desperte a necessidade de teatro que sobrevive em todas as almas, ajude a diluir o ódio equivocado ao teatro, o ódio estranho que grassa por aí e impede a arte de revelar democraticamente as belezas que pode oferecer, em benefício da iluminação da vida?
Perdoa-me por me traíres
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Daniel Herz
Elenco: Bebel Ambrosio, Bob Neri, Clarissa Kahane, Ernani Moraes, Gabriela Rosas, João Marcelo Pallottino, Rose Lima, Tatiana Infante e Wendell Bendelack
Espaço Furnas Cultural
R. Real Grandeza, 219 – Botafogo, Rio de Janeiro
Temporada: 16 e 17, 23 e 24 junho
Entrada franca
Horário: 19h
Classificação: 14 anos
Duração: 80 minutos
Tagged: Aquela Cia, Caranguejo Overdrive, Copa do Mundo, Festival de Almada, FITEI, Futebol, Nelson Rodrigues, Perdoa-me Por Me Traíres, Teatro
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A ordem é: vamos namorar São Paulo
São Paulo é outro mundo, é um lugar muito longe. Duvida? Pois reconsidere sua visão. Nem sempre a distância se faz por quilômetros ou por tempo gasto para chegar. Às vezes, o lugar é logo ali, mas é como se lá o mundo estivesse virado de cabeça para baixo, fosse outro planeta. Um pouco como, no Rio, a relação Zona Norte- Zona Sul. Um tempinho de viagem e zás – entramos numa relação civilização-mundo de outra ordem, quase irreconhecível, uma espécie de espiral etérea de deslumbramento com a diferença abissal do outro.
O.K., para muita gente boa São Paulo não é longe, é logo ali. E parte desta gente acha também que os paulistas ainda estão apegados à equação Brasil-século XIX. Mas eu, que embatuco sempre com avião, eu discordo, penso que qualquer ponte-aérea é arremedo do caminho para Tóquio – e olha que eu desconfio que jamais irei a Tóquio, ainda que eu ame o Japão. É muito longe! Pois São Paulo, hoje, é uma espécie de tóquiodoriodejaneiro, um lugar no qual a vida anda de cabeça para baixo. É muito longe. O século XIX, por lá, se foi – e, sorry, gente bronzeada distraída, despencou decidido por aqui.
O leitor há de implicar: mas que equação Brasil-século XIX é esta? Explico. O século XIX tem seus mistérios e seu poder é monumental. Acredito que foi o único período da História – e vejam, foi por um pequeno lapso de tempo – no qual o Brasil andou em sintonia com o tempo do mundo. Antes, na colônia, estivemos no esgarçamento humano total, infinitas temporalidades dispersas pelo vasto território. Inaugurado o novo século, por sugestão de D. João, empurrão de Napoleão e obra da inefável e pouco lembrada D. Leopoldina, ingressamos no século com torque de motor a vapor (mas sem os motores, pois cá não os tínhamos…).
Mas o que digo? Mentira! Este Brasil do século XIX que era puro e intenso século XIX, sintonia perfeita com o melhor da época, era, na verdade, o Rio de Janeiro, ainda nada maravilhoso, embora resplandecente à beira mar plantado… O resto do país, do pobre país, decaído o ouro e arruinadas as Gerais, era a roça! E São Paulo era a roça mais braba da terra, a roça dos aventureiros inquietos, humilhados bandeirantes transformados em plantadores de marmelo. Esta foi a equação Brasil-século XIX: as luzes do Rio tentando iluminar as trevas do país-roça, luzes sangrentas movidas à escravidão, um crime no pensamento porém legalidade naquela vida. O país vivia a reboque de sua capital federal pura luz e sentia intensa admiração por ela, o resto era caipirada e matutice.
Algumas peças teatrais da época ilustram bem este Brasil – basta passar os olhos nas comédias do século XIX, marcadas pela oposição Corte-Roça. Na vida, contudo, logo a equação se revelou uma dissintonia com o tempo: veio a indústria, instaurou-se a igualdade e a liberdade humana, mas o Brasil não viu. Foi o furor bandeirante quem assumiu tais bandeiras, mas no século XX. E foi então que São Paulo começou a se tornar um lugar longe… cada vez mais longe.
É inegável que persiste em São Paulo algo do século XIX – quer dizer, da velha equação Brasil-século XIX. Esfumado no ar, paira aqui e ali um cheiro de estofo caipira. Consigo perceber a equação ao circular pela cidade e, com o meu s litorâneo carregado, logo ouvir a velha pergunta-cumprimento, entre a admiração e o elogio: “Você é… carioca?” É quase uma declaração de amor eterno, pois a frase vem seguida por um suspiro de devaneio, como se a pessoa dissesse: “Ah, o Rio!…” E, acreditem, às vezes elas dizem.
Ao andar pelas ruas de São Paulo, mesmo naquelas ruas em que a fortuna impera e em que é preciso romper a custo a atmosfera impregnada de ectoplasma capitalista, sempre há a deselegância discreta das meninas nativas. O fato também é corriqueiro em shoppings de luxo dignos de Miami ou de principados árabes – a vida de corte não impregnou o jeito de ser da cidade, a roça segue envolvendo muitas almas…
No entanto, a imensa fortuna borbulhante da cidade projeta-a, para aprisioná-la, no coração do redemoinho consumista do século XXI. São Paulo é chique e é cafona. São Paulo é rica. São Paulo é um shopping febril. E surpreenda-se: é muito civilizada. Mas é Brasil, portanto, mestiço selvagem, tem lá a sua grosseria nativa, coisa bem nossa, mas sem comparação, contudo, com as trevas humanas que vivemos hoje, por exemplo, na bronzeada vida maravilhosa.
A coisa fica mais séria se olhamos a Pauliceia com bastante atenção. O que se vê? Ah, há os teatros – ah, os teatros de São Paulo, maravilhas da civilização perdidas nos trópicos! O prefeito do Rio devia organizar excursões escolares regulares para os burgueses cariocas (projeto barato, na atualidade eles caberiam numa modesta van!) para que eles conhecessem o que é teatro e empreendessem aqui, como queria a Lei Rouanet. Alfa, Santander, Itau Cultural, Folha, Novo, Procópio Ferreira, Frei Caneca, MASP, VIVO, Sérgio Cardoso, FAAP, Porto Seguro, Itália… a lista não tem fim. E o colosso do SESC SP? Desconfio que é impossível, hoje, saber quantos teatros existem em atividade em São Paulo. E o melhor de tudo: ocupados com teatro. Com espetáculos deslumbrantes, marcados por uma seriedade de produção desconcertante, uma capacidade de execução notável.
Ah, São Paulo, como não te amar se você tem esta generosidade com a alma humana desvalida do presente, tão necessitada de teatro, este colo quentinho da humanidade? Mas importa ficar alerta – com o fígado preso no século XIX, São Paulo padece de uma vergonha do seu dinheiro que é estarrecedora, intrigante, uma forma de culpa cultural estranhíssima, uma coisa que faz o rico viver o seu dinheiro com vergonha de ser rico e o pobre chafurdar na pobreza com vergonha de querer ser rico enquanto faz tudo para ficar rico. Se a aristocracia francesa inventou o nouveau riche, São Paulo inventou o nouveau pauvre. O lema é: pode-se ter dinheiro, mas urge fazer como que se não o tivéssemos, soframos… Pode ser que seja praga da fundação jesuíta, vai saber?
Assim, há por lá um vago preconceito contra o teatro de grande produção, incorporando-se neste rol o teatro musical, pois a pobreza mental do país ainda vê o musical como alienante, apesar de Brecht, dos cabarés alemães, etc – mas vamos pular esta outra discussão, muito longa e pouco oportuna aqui. De certa forma, apesar do panorama impressionante da vida teatral paulista, vigora na comunidade teatral deles uma espécie de raça teatral, como se estivéssemos nos estádios dos clubes, em que o que conta é a coisa visceral, subterrânea, de invenção, para iniciados. É preciso transcender, afundar o dedo nas dores mais estranhas da alma, mesmo que a maioria nem tenha ideia do que isto possa ser.
Este clima materializa atmosferas loucas. Além da relação tortuosa com o dinheiro, o odiado capital, maldito objeto de desejo e de repulsa, vigora um amor estranho ao despedaçamento, aos fragmentos, farrapos. E um amor doido à conversa íntima. Vale ter no máximo trinta pessoas na plateia – trezentas já é quase o caminho da excomunhão. Na tabela, o único teatrão aceitável é o TBC, porque histórico, fracassado, acabado, morto, enterrado. Se algum zumbi-Zampari sair da tumba agora e ousar fazer um novo TBC, vai levar ovo, no mínimo. Os paulistas sabem com excelência fazer um teatrão único, arrebatador, mas eles têm vergonha disto, acham que é algo velho, para ser visto por pessoas lobotomizadas.
Esquizofrênicos, distantes de si, teatros e mais teatros vicejam pela cidade de São Paulo, portanto. As formas teatrais são várias, de extrema riqueza. Quem pula a cerca do experimentalismo nobre e cai na vala do comercialismo espúrio perde o prestígio – mas o caminho inverso até pode ser celebrado, mesmo que o herói seja recebido com nariz torcido, pois o cheiro de dinheiro fica pregado para sempre em quem transita no palco comercial. Entretanto, para quem passeia por São Paulo e adora teatro, que prazer é mergulhar na Broadway paulista, a verdadeira Broadway brasileira – vai, que é linda!
Talvez por causa do TBC, os paulistas fazem teatro com um acabamento que, no Rio, só vigorava de verdade no finado Teatro Mesbla, aquele bem comercial de comédias rasgadas. Aqui, no Rio, as paredes trepidam com qualquer movimento de porta, as taças de cristal são de eloquente plástico, as sedas são tão sintéticas quanto os cabelos da Barbie… Para o teatro carioca, esta indigência é normal e deve ser contornada pela verve, pela imaginação, o tal do espírito de corte. E se o ator ri do fiasco, a plateia aplaude em cena aberta, em especial se for plateia da classe. O vexame vira criatividade. E pensar que os paulistas de teatro se envergonham de viver o oposto disto, desprezam a carpintaria nobre? Ô xente, que injustiça…
A longa reflexão nasceu após uma voltinha rápida de fim de semana por São Paulo. E também por uma lufada de alento, após a alvissareira notícia da estreia no Rio, afinal, da grande montagem paulista de O Homem de La Mancha, de Miguel Falabella, agora no Teatro Bradesco – um dos raros grandes teatros do Rio hoje. Um teatro que merece o século XXI.
A encenação é deslumbrante, imperdível, atesta o padrão de produção paulista com rigor. E o pior de tudo: ela revela por que São Paulo convenceu Miguel Falabella, carioca de quatro costados, a mudar de CEP. Miguel como Cervantes, sonhador como Quixote, Falabella, a histórica loura má do palco do Rio, não economizou talento ou força de trabalho para obter uma cena teatral poética triunfal. E a cidade não foi mesquinha com o seu novo filho. O resultado é digno de todos os louvores recebidos: deslumbrou já na estreia. Garanto, é imprescindível ver a montagem.
A fantástica produção é mais do que benvinda. A cidade foi a capital cultural do país, foi o berço do teatro profissional brasileiro, mas apresenta, hoje, uma cena tímida – são apenas cerca de dez musicais agora em cartaz no Rio, a maior parte formada por produções modestas locais. Neste quadro, é imprescindível receber as grandes montagens de São Paulo, sobretudo a fortuna musical.
Entre as duas cidades, surgiu um descompasso histórico de tal ordem que a maioria das produções paulistas não vem ao Rio. Aliás, a cartelera carioca de musicais é tão pouco louvada que não chega a merecer uma coluna de destaque, especializada, no principal informativo teatral carioca, o suplemento Rio Show, do Jornal O Globo. E o gênero, convenhamos, é bem típico do Rio, essencial para a saúde da cidade.
Uma pena. Um mercado teatral menos anêmico no Rio seria fortalecedor também para São Paulo, destaque-se. A praça teatral nobre ficaria dobrada. No momento, este é um grande passo que importa conquistar – um passo de gigante, vale reconhecer, agora que São Paulo ficou tão longe, se perdeu no horizonte. Talvez seja missão para bandeirante, quem sabe.
Mas a esperança move o mundo quando o amor ao teatro é verdadeiro: depois de tantas rusgas, de uma falsa inimizade histórica, chegou a hora de começar o namoro tão adiado entre Rio e SP. Que a fumaça das fábricas se una à espuma do mar e os deuses do tablado sejam louvados de forma ampla, geral e irrestrita, estejam eles dançando e cantando o amor aos homens, recitando dramas e risos cotidianos ou procurando fígados para esboçar estudos sobre a matéria de que são feitos os seres. Será que chegou a hora estimular vivamente o diálogo cênico interurbano, fazer São Paulo ficar mais perto, bem mais perto, de todos nós? A sorte esta lançada, torcemos.
O Homem de La Mancha
Temporada: 9 de junho a 27 de julho de 2018
Horário: quintas e sextas às 21h, sábados às 17h e 21h, e domingos às 20h
Local: Teatro Bradesco – Shopping Village Mall
Endereço: Avenida das Américas, 3900 – Barra da Tijuca – Rio de Janeiro – RJ
Classificação: 10 anos
Duração: 105 minutos
Gênero: Musical
Ingressos: R$75,00 até R$190,00
Informações: 21 3431-0100
Capacidade: 1060 lugares
Tagged: Cervantes, D. Quijote de La Mancha, Miguel Falabella, Teatro Bradesco, Teatro Carioca, Teatro Paulista, teatros de São Paulo
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A Desordem Artificial dos Seres
Séculos e séculos se passaram sobre a Terra: o homem, animal racional, deixou de ser reles coisa viva e se tornou sujeito. O longo caminho, contudo, não trouxe a libertação, pois este fugitivo da natureza mergulha, sempre que pode, no caos gerado por sua própria liberdade. A Ordem Natural das Coisas, de Leonardo Netto, também responsável pela direção, que esteve em cartaz até este domingo no Mezanino do Sesc Copacabana, joga o foco diretamente aí. A qualidade da peça fará com que a temporada seja prolongada, procure saber e, onde estiver, não perca, corra para ver.
Trata-se de uma encenação redonda, indicada para quem gosta de pensar o nosso tempo, a nossa sociedade, as intrincadas malhas afetivas atuais envoltas no caos nosso de cada dia. O espetáculo vale a noite – além do texto inteligente, antenado com a alma atual do mundo, você verá um ator memorável em cena – João Velho. A sua construção do papel principal é de uma humanidade arrebatadora, ourivesaria fina.
A trama tem uma aparência de simplicidade enganadora. A cena acontece num apartamento moderno, desestruturado, povoado por caixas de presentes e de mudança, um cenário de ambientação assinado por Elsa Romero. No meio do entulho doméstico, perdido de si, Lúcio (João Velho), um noivo abandonado na hora do casamento, é consolado por Emiliano (Cirillo Luna), o ex-futuro-cunhado. Logo uma vizinha, Cecília (Beatriz Bertu), desponta em cena, para tentar salvar o náufrago do coração, mas a situação vai rodar em círculo, para um desfecho impactante: não é fácil assumir o controle da própria vida, saber o que fazer com a imensa liberdade que nos cerca.
Em boa hora a peça foi lançada em livro: a leitura compensa, ela merece um debate denso. O ponto de partida da ação é a cartilha clássica, pois a situação dramática, como queriam os teóricos da velha escola francesa, está debruçada sobre o início de uma grande crise. Mas a ruptura com o padrão clássico se dá a seguir, no andamento da situação dramática, pois não há progressão no sentido de desenlace, resolução – o problema não só permanece, como é adensado, como se houvesse um círculo sem fim, sem saída, no qual cada um, herói impossível, se encontra perdido de si e sem chance de perceber de verdade quem é o outro. A liberdade de todos transforma o outro numa pergunta sem resposta.
Assim, tudo o que acontece funciona para lançar o herói num desamparo maior, numa solidão maior, numa rede de mentiras, uma ciranda humana obscura, cujo desfecho é apenas uma espera – um resultado imprevisível. Esta espiral cega, de engenharia muito precisa, não tem transparência para o público: também somos levados de roldão. Talvez o texto tenha alguns excessos, talvez pudesse ter uma velocidade mais acelerada, talvez recebesse bem alguns cortes, opções limitadas pela direção do autor, vítima natural de apego ao texto. Mas isto não chega a ser um problema, não ofusca o extremo prazer que nasce da oportunidade de ver uma peça nacional de bela carpintaria, densos conceitos e perfeita sintonia com a profunda crise humana de nosso tempo, nossa solidão transcendental: acredite, o deleite é absoluto.
A direção preserva o texto também ao apostar alto no ímpeto dos atores. E João Velho, neste turbilhão, alcança resultados impressionantes. Ele é o noivo abandonado, o ser afetivo aturdido, desnorteado, entre o perplexo e o atônito. Emparedado pela impossibilidade de entender os fatos ao seu redor e entregue ao abismo de si, o Lúcio de João Velho expõe um artesanato emocional comovente, da apatia à ira. Num percurso requintado, o ator chega ao gesto mais sublime, a homenagem ao pai, Paulo César Pereio. Para quem é de teatro, é para vibrar de emoção cênica total.
Dois papéis funcionam como apoios para a construção da escalada sentimental vazia de Lúcio, dois desafios interessantes, exercícios estimulantes para afinar o jogo de cena, obras que evidenciam o fato de que o autor é ator. Emiliano, o amigo dedicado, impõe a Cirillo Luna uma equação perigosa, uma ambiguidade imprevista, da qual ele cuida com elegante contenção. Beatriz Bertu, na enigmática Cecília, alcança resultados fortes e chega a surpreender as expectativas na virada sentimental bem desenhada.
De certa forma, as personagens criadas são seres completos no sentido da expectativa da sociedade. Todos estudaram, assumiram o chamado da vida para ir à luta, cuidam de sua projeção profissional. Este protagonismo social é bem explorado pelo autor nos diálogos e também nas modernas inserções narrativas, através das quais a plateia conhece um pouco mais de cada um. Há, contudo, um clima de fratura permanente – de alguma forma, as vidas são falhadas, fraturadas, passíveis de questionamentos, pois a resposta à demanda da sociedade não resolveu o oco interior de cada um. Quando não existe um vendaval de perguntas interiores, há o questionamento por parte do interlocutor. Em consequência, tanto o publicitário, quanto o consultor de feng-shui e a especialista em arte aparecem como arremedos de existência.
Peça do presente, documentário sentimental de nossas vidas aqui e agora, A Ordem Natural das Coisas conta com uma produção singela, despojada, capaz de resolver com limpidez o cenário e traduzir a ação em figurinos adequados, de Maureen Miranda. Um exemplo eloquente da grandeza da criação está na fina grade-parede que envolve a cena, sugestão de gaiola dourada ou prisão preciosa. A mesma sutileza aparece nos gestos, de inspirada poesia cotidiana, resultado da acertada direção de movimento de Marcia Rubin.
E assim flui a criação, puro jogo de achados delicados, prazer teatral. A iluminação de Aurélio de Simoni dimensiona a linha de ação, situa os tons afetivos e sublinha o clímax. A trilha sonora, do autor, incide diretamente sobre o tema central, a hipotética libertação do ser humano no nosso tempo, ao eleger joias dos anos 1960, a velha rebelião musical juvenil, como parte do eixo central da ação.
Num tempo de tantas perplexidades e de tanta dificuldade para reconhecer a fragilidade da pessoa humana, situar os seus limites e dimensionar a sua cegueira, a proposta é mais do que oportuna. O espetáculo é um convite generoso para saudar a nossa condição vulnerável, ínfima mesmo, à deriva de jogos afetivos sociais cuja veracidade não conseguimos controlar. Que este presente nasça de um ato de atores, do texto ao palco, eis o grande motivo para louvar a cena – afinal, a passagem de tantos séculos nos permitiu saber de verdades humanas mínimas, descartáveis, mas essenciais, dilacerantes. E aqui elas são ditas por aqueles que, diante da arte, fazem o gesto mais efêmero: são apenas meros atores.
Texto e Direção: Leonardo Netto
Elenco: Beatriz Bertu, Cirillo Luna e João Velho
Direção de Movimento: Márcia Rubin
Iluminação: Aurélio de Simoni
Cenário: Elsa Romero
Figurino: Maureen Miranda
Trilha Sonora: Leonardo Netto
Design Gráfico: Lê Mascarenhas
Fotos: Dalton Valério
Mídias Sociais: Rafael Teixeira
Direção de Produção:Luísa Barros
Produção Executiva: Alice Stepansky e Thaís Pinheiro
Mobilização de Recursos: Marcela Rosário
Realização: Sesc Rio e Fulminante Produções Culturais
Espetáculo: “A Ordem Natural das Coisas”
Local: Sesc Copacabana (Mezanino).
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana.
Dias e horários: Quinta a sábado, às 21h. Domingos, às 20h.
Ingressos: R$ 7,50 (associados. Sesc), R$ 15 (meia) R$ 30 (inteira)
Bilheteria: segunda-feira, das 9h às 17h. Terça a sexta, das 9h às 21h.
Sábados, das 13h às 21h. Domingos e feriados, das 13h às 20h.
Informações: (21) 2547-0156.
Capacidade: 70 lugares.
Classificação etária: 14 anos.
Duração: 90 min. Gênero: drama.
Lançamento do livro “A Ordem Natural das Coisas”
(Editora Livros Ilimitados)
Dia 7 de maio (segunda), às 19h, na livraria Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572).
Tagged: A Ordem Natural das Coisas, Beatriz Bertu, Cirillo Luna, João Velho, Leonardo Netto, Sesc Copacabana
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Bia Lessa, a crise e o teatro nosso de cada dia
O país em crise, sob um estresse violento. E eu aqui, para sempre um ser fora da linha, obcecada por teatro, como se o palco persistisse, sob este vendaval de agora, com a mesma importância festeira dos dias de calmaria social. Quer dizer, vale perguntar se, na sociedade brasileira, existe a chance de atribuir uma importância festeira ao teatro, sob qualquer clima que seja. A festa nasce apenas do olhar dos que amam a cena, desconfio.
Mas, rápida, afasto a dúvida – acredito no teatro, no poder do teatro, na sua importância. Com sinceridade. Tenho a certeza cristalina, inabalável, de que o teatro importa para a vida, para a felicidade do indivíduo e para a felicidade social. Está fora de discussão, a meu ver, o imenso poder do palco para transformar o ser humano. No fim das contas, resta perguntar se a nossa sociedade conhece mesmo calmaria. Tirando aquela lá longe, na costa da África, que serviu de álibi para o Cabral, o velho, o saldo parece duvidoso.
Sim, lamento, mas é assim. Fiz o meu balanço pessoal e cheguei à conclusão de que, na minha rotina, ao longo da minha vida, a exceção foi, de verdade, toda esta época recente, desde os anos 1980, em que simulávamos singrar um mar de almirante, planar num céu de brigadeiro. Não uso uma imagem de general porque, para eles, parece que não existe esta necessária metáfora. Marchar num campo de general? Um campo de general, seria o quê? Repleto de margaridas? Alheio a minas e bombas? Desconfio que a imagem não funcione, talvez o exército esteja sempre nas agruras.
Pois bem – pode parecer estranho para alguns, mas herdamos um momento histórico tranquilo dos militares, exatamente. Depois do horror que foi a vida sob os governos militares, veio a restauração democrática e se instalou este clima de sociedade estável, que nem na minha infância, nos conturbados anos 1950, não vivenciei. Fui uma menina muito preocupada com travessuras, brincadeiras e livros, mas, ainda assim, lembro que havia uma atmosfera de sobressalto constante. Pelo menos uma vez arrumei uma trouxinha de tralhas para fugir de casa, para diversão dos adultos. Ameaça de instabilidade, por ar, terra e mar.
Portanto, tudo como antes, no quartel d’Abrantes. E se estamos condenados a existir em desassossego, que ao menos tenhamos o teatro para nortear o descaminho. Esta possibilidade de ver o rumo, por mais esgarçado que seja, em meio ao caos, já nos visitou este ano no mínimo uma vez, com a belíssima montagem de Grande Sertão, Veredas, de Bia Lessa, no Centro Cultural Banco do Brasil.
A inventividade plena da encenadora sacudiu o espaço, reinventou com olhar certeiro o texto, expôs uma forma sinuosa de atuação entre multifacetadas formas do humano e conduziu o público a um impressionante mergulho-Brasil. Um dos pontos mais curiosos, momento muito denso, foi o uso dos cobertores de feltro, aqueles usados pela população de rua, para fazer figuras humanas, evocações dos soldados chineses de terracota, numa época em que a China integra o nosso pesadelo para definir o país.
Pois bem, Bia Lessa está de volta, em São Paulo. Agora a proposta vai ainda mais longe, vai questionar os limites concretos e abstratos da vida, do ser, da representação. O espetáculo PI, Panorâmica Insana, conta com dramaturgia de Bia Lessa, Júlia Spadacini e Jô Bilac. Um mosaico, um caleidoscópio, um painel do indivíduo no nosso tempo vai inaugurar um espaço cênico em São Paulo, o Teatro Novo.
O processo de criação foi todo ele marcado pela busca da trama complexa que enreda o contemporâneo – quer dizer, em cena, estão em jogo formas plenas, amplas, uma combinação de procedimentos que justifica o recurso ao substantivo panorâmica. A própria dramaturgia foi desenhada a seis mãos a partir de textos de Júlia Spadacini, Jô Bilac e André Sant’anna, com citações de Kafka e Auster.
No elenco, os nomes de Claudia Abreu, Leandra Leal, Luiz Henrique Nogueira e Rodrigo Pandolfo atestam a excelência pretendida na representação. Representação? Aí começa o debate. A fluidez da linguagem é o cálculo primeiro – a cena pretende vagar entre o teatro, a dança e as artes plásticas. O cálculo foi pensado para alcançar um objetivo claro: olhar para a sociedade contemporânea nos seus meandros e descaminhos. Mas não está em vista a produção de um simulacro.
A partir de dados e de pessoas reais, a cena focaliza o indivíduo, a política, a riqueza, a miséria, a violência, a nação, a civilização, o desejo, o gênero. A observação da vida aqui e agora está sob o foco, mas para buscar atingir o atemporal, um tempo de humanidade em que há lugar para o reconhecimento, a dúvida e a ironia.
O espaço usado participa da ideia – o teatro, em obras, foi preparado para receber a montagem, mas está inacabado, entre a ruína e a obra concluída. Na área de representação, 8 mil peças de roupas serão usadas pelos atores em suas performances, uma insinuação de seres múltiplos e transitórios – ao final da temporada, as roupas serão doadas para instituições de caridade. E o flerte com o transitório se faz ainda na paisagem sonora, construída em camadas de música, ruídos, sons, vozes, como aconteceu em Grandes Sertões.
Portanto, há um sinal a propósito do em trânsito, da passagem, da hesitação – um pouco como se a humanidade estivesse neste hiato de tempo, necessitando de um teatro de invenção. O que se aponta, aqui, é a necessidade do novo, da ousadia, do corte e da ruptura com velhas formas, mas sem perder o molde e o fôlego.
Que cálculo é este? Se olhamos com atenção a História, vemos bem claramente que é impossível falar na existência do teatro. Nunca existiu o teatro, um teatro, a mesma e repetida arte. Cada tempo faz o seu palco, faz nascer a cena de que precisa para lidar com as mazelas de sua alma. O teatro é cria do seu tempo. Na História, o máximo que podemos encontrar é a pluralidade, os teatros dos diferentes homens no mundo.
Vivemos num tempo múltiplo, instável, contraditório, dilacerado, multifacetado. Temporalidades estilhaçadas, antagônicas, contraditórias, fragmentárias varrem a vida, coexistem e buscam arregimentar fiéis. O ser humano precisa cuidar de si e de sua independência, do seu direito pleno de ser. Haverá um teatro adequado para cada uma das forças em jogo? Ou só recorre ao teatro quem percebe os abismos da vida?
Agora, então, no Brasil, é preciso serenar a mente e os afetos para tentar entender verdadeiramente o que acontece, fora dos interesses cristalizados espalhados por toda a parte, desde Cabral – o velho. Para cada inquietação, seria importante ter uma cena. E cenas arrebatadoras, vertiginosas, universais, aptas para falar a todos, libertas de qualquer calmaria.
Um belo exemplo? Talvez Bia Lessa trafegue por este caminho. Não sei: vou a São Paulo ver. E vai ser divertido reconhecer justamente em São Paulo uma bela panaceia, concebida por uma carioca de quatro costados, para o dolorido momento nacional. O país está em profunda crise – mas talvez nenhum ponto do vasto território esteja tão dilacerado como o meu velho Rio, que afunda em mar revolto: esperemos contar com o abrigo de um afável porto, a estabilidade de preciosa âncora, nenhum Cabral aventureiro de novo por aqui. Ou ao menos um bom teatro forte, para amortecer, na queda, nossos delicados corações.
Pi
Panorâmica insana
Teatro Novo (320 lugares)
Rua Domingos de Moraes, 348 – Vila Mariana
Informações: (11) 3542-4680
Bilheteria: terça a quinta, das 14h às 19h; sexta a domingo a partir das 14h. Acessibilidade para cadeirantes. Estacionamento conveniado(em frente ao teatro).
Vendas: www.ingressorapido.com.br
Sexta e Sábado às 21h | Domingo às 18h
Ingressos: Sexta R$ 50 | Sábado e Domingo R$ 70
Duração: 90 minutos
Recomendação: 16 anos
Gênero: Drama
Estreia dia 01 de Junho de 2018
Temporada: até 29 de Julho
Tagged: Bia Lessa, crise e teatro, Grande Sertão: Veredas, História e teatro, PI Panorâmica Insana, São Paulo, Teatro Novo
Crítica: A Palavra Progresso na Boca da Minha Mãe Soava Terrivelmente Falsa
Tania Brandão
Posted on 28 de maio de 2018
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A estupidez absurda da guerra, a beleza absoluta do teatro
Talvez nada, entre nós, humanos, seja mais estúpido do que a guerra, ato puro de desamor à vida. A tristeza maior é a necessidade de reconhecer o óbvio: as formas da guerra são várias, não são simples, não são apenas aquelas tradicionais, em que a relação diplomática é abolida a favor de bombas e canhões. Esta dolorosa constatação está em cena só até hoje, no Espaço Cultural Sergio Porto, corra para ver. É imperdível.
A obra – A Palavra Progresso na Boca da Minha Mãe Soava Terrivelmente Falsa, de Mátei Visniec – é assinada por um grupo teatral surpreendente, o Multifoco Companhia de Teatro, fundado em 2010. Apesar de muito jovem, o coletivo revela em cena uma força poética espantosa, comovente mesmo, aquele tipo de turbilhão criativo típico de quem tem o que dizer e veio para ficar.
Assim, uma maturidade teatral comovente rege a performance da equipe. Há uma expressão coletiva orgânica, consciente de sua força, devotada ao trabalho de arte como instrumento de transformação humana sensível. O grupo apresenta uma assinatura, uma identidade artística nítida, se projeta como um autêntico coletivo de arte, algo que não é comum no meio cultural brasileiro.
O texto do autor romeno radicado em Paris foi criado sob encomenda do Teatro Nacional de Craiova, Romênia, dentro de um projeto intitulado Teatro da Europa, espelho das populações deslocadas. A estrutura é fragmentada, picotada como as saraivadas da fuzilaria, mas conta com uma espinha dorsal, uma ação dramática básica, o próprio sentido mais profundo do viver.
O original revela a sofrida tentativa de uma família para retomar a vida na sua velha casa após a guerra. No retorno, a casa está arruinada e a terra povoada por mortos. Os mortos compõem a paisagem histórica do lugar. A companhia fez ligeiras adaptações do original, em especial para incluir no entrecho a nossa guerra brasileira particular, não declarada, mas vivenciada a pleno vapor no cotidiano, nos corações e mentes desde sempre.
Sob a direção de Ricardo Rocha, um diretor dotado de aguda percepção plástica, a cena se torna uma criação visual de intensa sedução. Iluminador, ele domina os códigos de movimentação e de composição geométrica do espaço em sintonia orgânica com a potencialidade da luz. Artesão da palavra, ele instaura sob uma concepção poética muito precisa a comunhão entre o texto e a cena.
Desta forma, surgem quadros cênicos vibrantes, de extrema beleza visual, dotados de uma pulsação notável, com uma alquimia surpreendente de cores em que predomina a cor da terra e do incêndio, do sangue pisado e da guerra, o claro-escuro, aliada aos gestos, a musicalidades e intensidades corporais. A cena é com frequência arrebatadora. Importa observar em particular a forma de uso do foco e dos planos visuais – hábeis percepções do indivíduo, do coletivo e do abstrato. É lindo.
A articulação com a cenografia, de Nivea Faso e do diretor, e com os figurinos, de Nivea Faso, se dá como fluxo contínuo de criatividade cênica, concepção límpida, sem hesitação. A direção de movimento e as coreografias, de Palu Felipe, são marcadas pela inteligência e por uma aguda percepção do jogo cênico, situação também dominante na direção musical de Vinicius Mousinho.
A este conceito vivo de cena deve ser agregada a extrema disponibilidade física do elenco, devotado a uma linguagem teatral em que o corpo se impõe, em que há absoluta presença e performatividade dos atores. Predomina no palco o desejo bem sucedido de criar uma nova forma física emocionada, intensa e sinuosa, construída graças à incorporação da dança, da acrobacia, da imediatidade circense.
O resultado atingido tem um grande impacto – ainda que algumas partes interpretativas decisivas, de forte solução interior, por vezes soem superficiais ou mecânicas, por causa da demanda física. O limite é comum quando o efeito estético solicita ação física extrema, simultânea ao mergulho na interioridade. Há também uma extensão perigosa da ação, um namoro prolongado do grupo consigo próprio. Mesmo com estas ressalvas, não há como ficar indiferente ao jogo proposto pelo elenco. É arrebatador de verdade.E é histórico: nasce aqui um excelente diretor e um grupo original.
Luan Vieira, como Vibko e Travesti, impressiona ao apresentar uma organicidade de interpretação rara de encontrar – é físico e alma em pleno jogo poético, traz a potência de um grande ator. Bárbara Abi-Rihan arrebata a plateia em especial por sua excelente performance plástica, além de conseguir expor tons humanos patéticos verdadeiramente impressionantes.
Erick Tuller é uma escultura humana vívida,límpida; ele se divide com maestria em múltiplos papéis, explora notas densas impressionantes no Pralic e revela com aguda sutileza o cinismo desconcertante do Novo Vizinho. Fábio Lacerda demonstra profundo domínio do desenho das ações físicas, tem um fôlego emocional notável, mas hesita um tanto diante das necessidades do mergulho interior mais profundo.
Viviane Pereira tinge de desvario e de dor a mãe, com algum perigo de melodrama nas passagens mais delicadas. Camila Zampier colabora com muitos quadros pictóricos da cena e tem na figura de A Patroa o seu momento mais intenso.
Por mais um pouco, a cena poderia figurar uma procissão cênica de desvalidos, caricaturas tristes – mas a mão do diretor soube contornar todos os perigos. Na cena desenhada com rigor de estilete, além de alguns poucos apetrechos indicados pelo autor, há uma proposta teatral autêntica, entre o simbólico e o retrato realista das situações. Destaque-se, para este resultado, os grandes achados da cenografia – submetida a uma densa composição visual, ela materializa de forma direta, econômica, uma atmosfera alucinada de vida massacrada, dolorida, sobra de guerra, lixo urbano, restos de humanidade.
Seres destroçados pela guerra, pelo consumismo, pelo desamor, pela impossibilidade de valorizar a vida humana e de respeitar o próximo, desfilam pungentes na cena, demonstram a fragilidade do ser humano e a necessidade de novas percepções a respeito da vida no mundo. Um canto teatral lancinante paira no ar e advoga o triste mérito de criar no palco a atmosfera paralisante do nosso tempo.
Migalhas humanas, os atores se lançam ao nosso olhar surpreso e comovido como corpos poéticos líricos, acionam a palavra para expor os corpos da guerra, querem ser inteiros e são fragmentos, estilhaços humanos. À plateia, impregnada pelo mais aterrador sentido do humano, resta um convite sublime: a consciência profunda a respeito da estranheza deste nosso mundo, a percepção de que é urgente usar a vida para se dedicar à paz. A dúvida sacode a civilização: e a palavra progresso soa terrivelmente falsa, como desejou mostrar o autor.
Autor: Matéi Visniec
Direção e Iluminação: Ricardo Rocha
Elenco: Bárbara Abi-Rihan, Camila Zampier, Erick Tuller, Fábio Lacerda, Luan Vieira e Viviane Pereira
Direção de Movimento e Coreografias: Palu Felipe
Direção Musical e Preparação Vocal: Vinícius Mousinho
Cenografia: Nívea Faso e Ricardo Rocha
Figurino: Nívea Faso
Cenotécnico: Moisés
Imagens e Edições: Daniel Debortoli e Viviane Dias
Fotografia: Diogo Nunes
Realização: Multifoco Companhia de Teatro
Espetáculo: A palavra progresso na boca da minha mãe soava terrivelmente falsa
Ocupação Multifoco Companhia de Teatro
Duração: 100 minutos
Classificação: 18 anos
Temporada: 05 a 28 de maio
Local: Espaço Cultural Sérgio Porto
Endereço: Rua Humaitá, 163 – Humaitá
Telefone: (21) 2535-3846
Gênero: drama
Temporada: 19 a 28 de Maio.
Dia\horário: sábado a segunda, às 20h30
Ingresso: R$30\R$15
Bilheteria: de quinta a domingo das 17h às 21h
Tagged: A Palavra Progresso na Boca da Minha Mãe Soava Terrivelmente Falsa, árbara Abi-Rihan, Camila Zampier, Companhia Multifoco de Teatro, Erick Tuller, Espaço Cultural Sergio Porto, Fábio Lacerda, Luan Vieira, Matéi Visniec, Ricardo Rocha, Viviane Pereira
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A Praça Mauá é Nossa
Querem acabar com a Praça Mauá – quer dizer, querem acabar com a Praça Mauá que reina na alma da muy leal e histórica cidade de São Sebastião que habitamos. Cidade-poesia, cidade-sonho, cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro lírico reconhece na velha praça, agora em transe para o futuro, um lugar mítico, berço histórico da cidade-lenda.
Muito desta atmosfera de inefável carioquice nasceu do porto, sem dúvida. Mas, reconheçamos, o Edifício A Noite, abrigo célebre da Rádio Nacional, assina a autoria de boa parte da trama de sedução que enredou a cidade, encantou o país e provocou o ciúme mais doentio de São Paulo, a capital febril fabril. Eles correram para fabricar algo mais alto! Mas o Rio era o Rio.
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O teatro, o dinossauro e os seus cupins
Os cupins – tão pequenos – conseguiram derrubar um dinossauro: esta foi uma das notícias surpreendentes da semana. É certo que eles são vorazes e obstinados, digamos. Ou objetivos. E também é certo que o dinossauro, no caso, era um pobre simulacro, restos de ossos armados em poderosa estrutura de madeira. Ela foi eleita pelos devoradores, que puseram o monumento abaixo. Aconteceu no Museu da Quinta.
Talvez o Museu da Quinta, a antiga residência de D. João e dos imperadores brasileiros, possua uma secreta identidade com o teatro brasileiro. Por isto a notícia me arrebatou, além, claro, do fato de eu ser apaixonada pelo Museu da Quinta desde a infância.
Paixões de lado, dá para afirmar que muitas analogias podem ser traçadas entre o antigo lar dos imperadores e o antigo altar da alma nacional, o teatro. A mais evidente das analogias é retumbante como a pátria – depois da glória como centros do poder no século XIX, os dois estão caindo aos pedaços.
E – dói reconhecer a evidência cruel – a ruína é resultado direto da nossa ação, da ação humana, quer dizer, desinteresse, baixa mobilização, egoísmo, falta de visão do bem comum. Talvez tenhamos um jeito republicano torto, um tanto maligno, que nos impeça de abraçar metas favoráveis à saúde nacional. Tanto saúde física, como cidadã ou simbólica.
Não, não vou discutir aqui o que o teatro e o museu nacional significam para a saúde nacional. O foco é outro. Penso que é trabalhoso, mas é fácil banir (e erradicar!) os cupins. Segundo as minhas vivências, é essencial matar a rainha. Quer dizer, banir o núcleo gerador do problema. Então, no caso do museu, como não frequento a casa, vou abdicar de formular sugestões objetivas.
Sim, já decidi, estou fora da Quinta da Boa Vista. Só volto por lá quando estiver bem espanada, pois a última vez em que lá estive, a múmia, a preciosa múmia estimada do imperador, uma peça ilustre de preço estratosférico, estava passando pela gloriosa experiência tropical de tomar banho de chuva! Fiquei com medo de deparar com a cena dantesca, de tanta intimidade, a cena de ver uma múmia egípcia arquimilionária tomando banho, e abdiquei, larguei a Quinta, como se inspirada por D. Pedro I fosse.
Portanto, a boa espanada por lá não seria coisa leve, tipo tirar pó de múmia, até porque a nossa múmia não tem pó, ela toma banho. A coisa seria pesada, tipo suspender o dinossauro. Ou indo mais longe: arranjar una escada eficiente para consertar o telhado… O espanador começaria bem lá em cima, portanto, para ir até o subsolo. Abdico. De folga, vou para o teatro. Abaixo os cupins, viva a cena.
E o que fazer com os cupins do teatro? Em primeiro lugar, reformar, limpar, consertar os teatros da cidade. Depois, construir uns cinco teatros de grande porte, para abrigar grandes espetáculos, inclusive grandes musicais, e permitir uma política sólida de interação entre educação e teatro. Sim, levar as escolas ao teatro, aos magotes.
Além dos grandes teatros, legítimos altares da cidade, faria os “teatros de bairro” – pequenos oratórios comunitários para peças mais delicadas, pontuais, onde haveria agenda para programações locais significativas. Também abriria uma linha de crédito para que cada escola pública construísse ou reformasse o seu teatro, um teatro para chamar de seu, onde os alunos fariam apresentações e receberiam visitas teatrais de peças profissionais adequadas aos seus estudos.
Todo artista interessado em descascar abacaxi e provido de uma faca afiada o bastante para tal fim teria direito a um financiamento amigável, liquidável, para construir o seu próprio teatro. Nenhum shopping seria autorizado a funcionar sem teatro. Uma rede de galpões espalhada pela cidade ofereceria apoio para depósito de materiais cênicos, de uso privado ou comum.
Mas teatro se faz com gente. Assim, todo ano haveria a escolha municipal do artista do ano – um dramaturgo (vivo ou morto), um ator, uma figura relevante do palco, algum ser teatral com dimensão histórica. Uma agenda de eventos celebratórios convocaria a coletividade para louvar, analisar, pensar, debater a figura. Uma grande montagem em sua honra seria o centro do ritual.
Algumas outras iniciativas seriam estratégicas para assegurar a barreira de contenção ao redor da arte, capaz de libertá-la de nova infestação de cupins. A primeira seria uma política permanente e consequente de edições teatrais – peças, programas, almanaques, revistas, livros de pesquisa e de estudos, dissertações e teses. A estante teatral largaria a anemia e ficaria bem robusta.
A segunda, coisa do espírito, implicaria na organização de seminários, simpósios e oficinas de formação, atualização ou reciclagem profissional, eventos para encontro e debates, trocas de ideias. Aconteceriam também concursos, prêmios e uma política séria permanente de bolsas para aperfeiçoamento de jovens talentos, com intercâmbio internacional.
Parte da formação escolar e cívica, o teatro contaria com um incentivo oficial direto do governo para a encenação de peças estruturadas no interior de projetos culturais. Em consequência, o ingresso seria subsidiado, poderia ter um preço mais barato do que o custo bruto da produção determinaria. Quem não desejasse este formato, poderia sim explorar todos os meandros do teatro comercial.
Penso que esta ciranda de ideias e de projetos culturais imunizaria o teatro, do subsolo ao urdimento. E esta é apenas uma singela sugestão pessoal. A sua divulgação social acarretará, se ocorrer, a multiplicação da espanada em infinitas fórmulas, o fim dos cupins. A atitude é urgente, estamos em ano eleitoral. O dinheiro público para esta virada só vai existir se o patamar de roubo e de corrupção for zerado… Portanto, liberte os seus sonhos, ponha para fora os seus desejos, cobre soluções. Venha para o espanador você também! O tempo pede.
Sim, o terreno é muito propício para ações de saneamento bem radicais. Veja-se, por exemplo, a linda escolha jovem que estreia esta semana no Teatro Serrador – um dos textos mais impressionantes de Ibsen, Um Inimigo do Povo, direção de Bruce Gomlevsky. A montagem marcará a formatura de uma turma do primeiro semestre de 2018,da CAL, do curso profissionalizante de ator. E denuncia uma vontade de mudar vigorosa.
O debate proposto pelo texto é um nó atravessado na alma carioca desde o Império – a salubridade das águas urbanas. Inferno dos trópicos, o Rio teve um longo tempo de fama de pestilência, em especial em algumas regiões ao redor da Baia de Guanabara, sem que se chegasse a debater francamente o assunto.
Outras montagens aptas para sacudir a madeira dos palcos e ajudar o movimento espanta-cupim podem encantar o público, com um banho de carioquice, como a esperada homenagem a Martinho da Vila. E podem ser teatro em estado puro e alta voltagem, caso de Contracapa, texto original de Suzana Nascimento, direção de Priscila Vidca. A peça propõe uma discussão coerente com a necessidade humana geral de faxina: aborda as relações familiares, avaliadas através de escolhas feitas no passado, e de suas consequências. No elenco, José Karini, Roberto Frota, Rocio Durán (idealizadora do espetáculo) e Saulo Rodrigues.
A rigor, a empreitada de sacudir tudo, arejar, espanar e espantar cupins tem uma utilidade complementar importante: impede que os seus promotores, os protagonistas, imóveis, inativos, virem múmias, situação perigosa no Brasil, pois a chance de uma múmia ser condenada a banho de chuva é enorme. Dizem alguns que o teatro brasileiro não sofre este risco: mesmo infestado de cupins, ameaçando cair, ele persiste jovem e de bom humor. Pode cair e sobreviver. É atlético. Mas o ideal, de verdade, é que fosse uma realidade cultural fervilhante e que o fervilhar não fosse a ação destrutiva dos cupins.
“Contracapa”
Temporada: de 18/5 a 10/6 – sexta e sábado, às 20h; domingo, às 19h.
Local: Casa de Cultura Laura Alvim. Av. Vieira Souto 176. Tel.: 2232-2015
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia).
Lista amiga: contracapaapeca@gmail.com
Capacidade: 190 lugares. Duração: 70 min. Classificação etária: 14 anos.
Tagged: Bruce Gomlevisky, MÚmia egípcia, Museu da Quinta da Boa Vista, Priscila Vidca, saúde do Teatro Brasileiro
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Ora, para quê afinal servem os atores?
Atores são descartáveis. São perecíveis. O teatro acontece, o prédio e a peça ficam, o resto vai embora. Às vezes, nem o prédio nem peça sobrevivem. Mas, de imediato, o resto morto sempre é o ator e o seu baú de truques e disfarces. Portanto, para quê servem os atores, este exagero vadio de humanidade? Para esquecer? Servem apenas para sumir nas voltas do tempo? Quem se interessa por essas pequenas partículas de sentimento e escassa razão?
Resumo com as minhas palavras delirantes a queixa de um aluno ator diante de uma velha crítica teatral, documento amarelado inscrito com rigor colegial num papel velho, fonte para o estudo de uma peça esquecida. O tempo arrastou todos para um porão mofado em ruínas – a peça, os atores, a intervenção crítica, por sinal muito malvada, cujo objetivo era este mesmo, apagar a obra.
Nas críticas, me dizia triste uma jovem amiga ainda outro dia, existe um formato congelado, velho. O ator fica dependurado lá no fim, em palavras rápidas, às vezes só citação, às vezes engolido na constatação lacônica de que o elenco estava bem, mal, péssimo.
E, no entanto, quem faz a força, a beleza e a magia do teatro brasileiro é o ator. Nas nossas críticas, não devíamos copiar o velho modelo francês, consagrado no século XIX, de origem acadêmica explícita. A fonte desta crítica-modelo era o résume, a apresentação condensada da intriga da peça. Ao redor deste coração, razão de ser do texto, orbitava a qualificação do autor, a fortuna de sua obra e do seu perfil. O espetáculo existia só para que as letras adquirissem vida.
A academia, olimpo das letras poderoso, paraíso desejado pelos jornalistas enredados nas miudezas da imprensa, devia ser vista como um padrão de qualidade normativo para os textos críticos. O jogo do mercado, o gosto do público, a capacidade artística específica de cada ator, nada disto podia contar para a análise da peça.
Ou melhor – contavam sim, contavam para que se apontasse como estes sensacionalismos esfumavam ou não a obra, quando ela possuía méritos acadêmicos de monta. Se a obra fosse um produto de ocasião, moldado para as correntes do mercado, para o perfil de um artista ou de um elenco, ou – a pior de todas as perfídias contra a arte – fosse um arranjo para cortejar o gosto do público, a saraivada do crítico era para derrubar o equívoco, o conjunto.
Não existe, assim, na tradição franco-lusitana que seguimos na crítica desde o século XIX, qualquer chance de valorização do trabalho do ator ou de destaque do jogo de cena. O que governa o olhar crítico neste filão acomodado é o fluxo ditado pelas letras, pelo texto. E se a cena rompe o texto, o defeito é da cena, ela está errada – a via é de mão única.
O mais notável na História do Teatro Brasileiro é a persistência deste modelo mesmo depois do advento do “teatro moderno”. Esta revolução teatral tão especial, consagradora da encenação como pedra de toque da arte do palco, obra do diretor capaz de moldar o trabalho de um elenco, não foi capaz de mover a chave de leitura crítica, do texto para a cena.
O paradoxo se torna ainda maior se atentarmos para um fato bastante prosaico: o teatro brasileiro tem ator, aliás foi iniciado, no século XIX, por um grande ator, João Caetano (1808-1863), mas não tem autor. O dramaturgo não existe no Brasil. Não é respeitado, não é reconhecido.
Bem, na verdade, é bem pior do que isto. A literatura dramática não existe no Brasil. Na escola, os brasileiros não estudam literatura dramática. Se os alunos chegam a saber da existência de José de Alencar ou Machado de Assis, por exemplo, eles não sabem que eles foram dramaturgos. Os professores de Português se formam sem ter aulas de Literatura Dramática. Aqui, Gil Vicente é um ilustre anônimo.
Portanto, é hilário pensar que a densidade do palco brasileiro é medida, nas críticas teatrais, através da aferição da voltagem literária da cena. O que isto significa? Significa ignorar a identidade da cena nacional, de saída. E significa também desconhecer a grande força produtiva, a extrema energia criativa que sustenta de pé o teatro do país – a força do ator.
Hoje, na cena brasileira, existe uma variedade impressionante de estilos, vertentes de trabalho, orientações profissionais, no que se refere à presença dos atores. Há uma força histórica original vibrante, minoritária, quase extinta, que ecoa em grandes atores como Ary Fontoura. Ou em Ana Lúcia Torres.
O texto é rápido, não permite grandes detalhamentos, ficará na observação geral. Sem considerar a grandeza histórica do ator nacional, é impossível pensar a força cênica deste ator no palco – temas como presença, percepção espaço-afetiva, expansão da aura são estratégicos e remontam à grande tradição.
Vale percorrer os tijolinhos de anúncio das peças e garimpar os valores expressivos correntes na cena brasileira hoje. Se os cartazes da temporada são considerados, o ponto de partida para pensar o ator pode ser estruturado ao redor de três vertentes independentes, além daquela acima, que se poderia definir como tradicional ou universal, por sua grande extensão estético-artística.Ela reune os atores absolutos, dedicados à abolição de si em cena, mas sintonizados com a imensidão histórica. Seria a vertente de Ary Fontoura, já citado, de monstros sagrados absolutos, como Antonio Fagundes.
As três vertentes que descrevo aqui são simples: o histrionismo imediato, a dimensão plástica e o ator sem corpo. É possível encontrar seres híbridos, cujos trabalhos mesclam as diferentes linhas. Mas sempre um tom define ou predomina em cada personalidade.
Há uma graduação técnica de uma para a outra vertente, mas tal não significa inferioridade ou superioridade, apenas diferença de procedimento. De certa forma, na primeira definição, o histrionismo imediato, devem ser situados atores de orientação racionalista, brechtianos, portanto, performers e “narratores”, contadores de histórias. São atores que se fazem conduzir pela palavra e por seus efeitos automáticos, ou por suas habilidades pessoais expressivas primárias: charme, bem dizer, empatia, simpatia.
Nesta primeira vertente estão situados também os atores mais jovens, menos experientes, e os profissionais que não conseguem, mesmo aclamados, sair de si, de sua forma pessoal, seu jeito de ser. São atores declamadores, ventríloquos, ainda que nem sempre senhores do texto apresentado. São sinceros e entregues, esforçados, mas contidos por sua incapacidade para vencer a sua própria forma pessoal, limite gerado por escolha, por vaidade ou por limitação de seu ímpeto interior. Isto não significa a apresentação de trabalhos ruins, mal teatro, mas um feitio específico de ocupar a cena. Em geral, os cômicos são filhos desta categoria.
Na segunda categoria, a dimensão plástica, concentram-se os atores de filiação moderna e pós-moderna, intérpretes dotados de aguda percepção do quadro da cena, senhores zelosos dos efeitos que podem acionar com o seu corpo. São atores de forte carisma, preocupados com a plasticidade física, atentos à sua integração ao conjunto da obra teatral.
Estes atores plásticos surpreendem graças à percepção aguda de sua aura: cuidam de sua dimensão, percebem o seu alcance e tecem um diálogo vigoroso entre o espaço, o conjunto da obra e o próprio corpo. Eles expandem a aura. Há pouco, um exemplo notável desta linha esteve em cena no CCBB, com a Cia dos Atores e o intrigante Insetos, trabalho em que a dimensão da construção física chegava a alcançar um impacto perturbador.
Finalmente, sobre a terceira vertente, a do ator sem corpo, se poderia observar que se trata de uma visão artaudiana e, portanto, de resto, inexistente. Não é verdade: ela está aí, mesmo que surja com frequência em fiapos, ocasião em que só pode ser denominada ator sem corpo por uma opção paradoxal. Pois o ator sem corpo é justamente aquele que consegue tornar o seu corpo metafísico, imaterial, apagado a favor da arte. É um corpo pungente e sublime, doado para transportar a plateia para um outro lugar que não o aqui-agora.
Não, não há malabarismo, acrobacia, contorcionismo – o ator constrói um fluxo de emoções em si, não apenas nas palavras e nos gestos, mas na totalidade da sua pessoa. Magnetiza, contamina a cena, um pouco como Rubens Corrêa conseguia fazer, José Wilker quando liberto de certos maneirismos. Ary Fontoura parte da grande tradição para chegar neste lugar em que o corpo é só instrumento, abolição de si. A palavra é um gatilho, usada para desencadear uma construção imaginária envolvente, induzir um estado de suspensão.
Muito do trabalho das jovens companhias – como o Armazém, com Patricia Selonk e Elisa Eiras – transita por esta busca. Diversas montagens da Cia dos Atores propuseram este lugar. Caio Blat, na montagem de Grandes Sertões – Veredas, direção de Bia Lessa, se afirmou com potencia absoluta no lugar do ator sem corpo, subsunção requintada do fluxo interior da literatura no espaço.
Um espetáculo em cartaz, singelo no seu despojamento, virulento na sua espiral de arte, exemplifica com rigor o debate – A vida ao lado, de Cristina Fagundes. Vale conferir – e rir muito. A montagem exige mais do que este comentário apressado, mas precisa ser citada por tudo o que representa em função do assunto da coluna. É para conferir como o corpo dos atores se torna trama, espaço, afeto e tempo.
A julgar por depoimentos, críticas, reportagens, Itália Fausta (1878?-1951) foi precisamente uma atriz sem corpo. Nunca vi um trabalho seu; até onde pesquisei, ela nunca foi filmada, e ela morreu antes do meu nascimento.
Alguns contemporâneos gostavam de falar do seu potente vozeirão, que estremecia as paredes dos velhos teatros ou se projetava ao redor do Campo de Santana no teatro ao ar livre. Nas fotos, mesmo quando ela está num conjunto, sua pose solene sempre catalisa a atenção, atrai o olhar; a dimensão dos gestos insinua conter em si a percepção do tamanho do palco.
E, no entanto, é difícil encontrar, mesmo na classe teatral, quem saiba quem foi Itália Fausta, a grande trágica brasileira, a dama absoluta da cena que sacudiu a República Velha. A conclusão é cristalina, como os brilhantes valiosos doados às grandes atrizes, no tempo em que elas eram rainhas fugazes: o ator é opaco para a posteridade, ele só é revelado ao mundo por terceiros, pelos seus contemporâneos.
Falar em brilhantes é falar em prêmios e hoje, no nosso jogo teatral, buscamos compensar a falta de projeção dos atores no tempo com as premiações. Vem aí nesta quarta a entrega dos Prêmios APTR de teatro 2017, no Teatro NET Rio, e o centro da festa será, como sempre, a celebração dos atores, estes mesmos que, embora laureados, vão morrer para a História. Assim como são transparentes nos textos críticos, pois devem deixar ver outra coisa que não eles próprios ou o seu trabalho.
Ao passar ao largo do trabalho do ator, ao não lançar um foco mais intenso sobre o seu trabalho, a crítica teatral presta um grande desserviço ao país – deixa de reconhecer os méritos, para o bem e para o mal, dos artistas responsáveis pela existência do teatro aqui. A maioria dos projetos encenados nos palcos do país é obra de atores.
Portanto, perguntar sobre a utilidade dos atores, perguntar para quê servem estes seres tão dependentes do outro, é perguntar francamente sobre a nossa ignorância. Está na tela algo simples, mas muito doloroso, o nosso fracasso para reconhecer os seres raros que trabalham para a nossa maior grandeza, a percepção do outro. quem não reconhece o outro, é indigente histórico: somos carentes de civilização.
A VIDA AO LADO – (COMÉDIA)
Duração: 1h30min
Temporada: 03 a 26 de maio de 2018
Local: Teatro Municipal Serrador
Endereço: Rua Senador Dantas – 13 / Centro
Telefone: (21) 2220-5033
Dias: Quintas / Sextas e Sábados, às 19h30min
Ingressos: R$40 (inteira) / R$ 20,00 (meia entrada)
Classificação: 14 anos.
Indicados ao Prêmio APTR -2017
ESPETÁCULO
ADEUS, PALHAÇOS MORTOS
HAMLET
LOVE, LOVE, LOVE
SUASSUNA – O AUTO DO REINO DO SOL
TOM NA FAZENDA
ATOR EM PAPEL PROTAGONISTA
ADRÉN ALVES – Suassuna – O Auto do Reino do Sol
ARMANDO BABAIOFF – Tom na Fazenda
ARY FONTOURA – Num Lago Dourado
GUSTAVO VAZ – Tom na Fazenda
RICARDO KOSOVSKI – Tripas
ATRIZ EM PAPEL PROTAGONISTA
ALINE DELUNA – Josephine Baker, A Vênus Negra
DÉBORA FALABELLA – Love, Love, Love
GUIDA VIANNA – Agosto
MONICA MARTELLI – Minha Vida em Marte
PATRÍCIA SELONK – Hamlet
YARA DE NOVAES – Love, Love, Love
ATOR EM PAPEL COADJUVANTE
CLAUDIO MENDES – Agosto
FÁBIO ENRIQUEZ – Suassuna – O Auto do Reino do Sol
MÁRIO BORGES – Doce Pássaro da Juventude
RENATO LUCIANO – Suassuna – O Auto do Reino do Sol
RODRIGO POCIDÔNIO – Adeus, Palhaços Mortos
ATRIZ EM PAPEL COADJUVANTE
CLAUDIA VENTURA – Agosto
HELOÍSA JORGE – O Jornal
KELZY ECARD – Tom na Fazenda
LETÍCIA ISNARD – Agosto
LISA EIRAS – Hamlet
AUTOR
BRÁULIO TAVARES – Suassuna – O Auto do Reino do Sol
GUSTAVO GASPARANI – Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba
LUÍS ALBERTO DE ABREU – Pagliacci
MONICA MARTELLI – Minha Vida em Marte
PEDRO KOSOVSKI – Tripas
DIREÇÃO
ERIC LENATE – Love, Love, Love
JOSÉ ROBERTO JARDIM – Adeus, Palhaços Mortos
LUIZ CARLOS VASCONCELOS – Suassuna – O Auto do Reino do Sol
PAULO DE MORAES – Hamlet
RODRIGO PORTELLA – Tom na Fazenda
CENOGRAFIA
AURORA DOS CAMPOS – Tom na Fazenda
BIJARI – Adeus, Palhaços Mortos
CARLA BERRI E PAULO DE MORAES – Hamlet
MARCOS ANDRÉ NUNES E MARCELO MARQUES – Guanabara Canibal
SÉRGIO MARIMBA – Monólogo Público
FIGURINO
ANTÔNIO GUEDES – Ubu Rei
JOÃO MARCELINO E CAROL LOBATO – Hamlet
KIKA LOPES E HELOISA STOCKLER – Suassuna – O Auto do Reino do Sol
MARCELO OLINTO – Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba
ILUMINAÇÃO
ADRIANA ORTIZ – Monólogo Público
MANECO QUINDERÉ – Hamlet
PAULO CÉSAR MEDEIROS – O Jornal
RENATO MACHADO – Guanabara Canibal
TOMÁS RIBAS – Tom na Fazenda
MÚSICA
ALFREDO DEL PENHO, BETO LEMOS E CHICO CÉSAR – Suassuna – O Auto do Reino do Sol
FELIPE STORINO – Guanabara Canibal
JOÃO CALLADO – Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba
MARCELO ALONSO NEVES – Dançando no Escuro
CATEGORIA ESPECIAL
ANIELA JORDAN – pela gestão e programação do Centro Cultural João Nogueira – Imperator
IVAN SUGAHARA – pela curadoria da Sede das Cias
RENATO VIEIRA – direção de movimento e coreografias de “Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba”
SERGIO SABOYA – pelo Festival Cena Brasil Internacional
VERÍSSIMO JÚNIOR – pelo trabalho no Teatro da Laje
PRODUÇÃO
AGOSTO
SUASSUNA – O AUTO DO REINO DO SOL
TOM NA FAZENDA
UBU REI
UM BONDE CHAMADO DESEJO
VAMP, O MUSICAL
HOMENAGEM
Amir Haddad
Comissão julgadora do Prêmio APTR:
Bia Radunsky, Daniel Schenker, Lionel Fischer, Luiz Felipe Reis, Macksen Luiz, Maria Siman, Rafael Teixeira, Rodrigo Fonseca, Tania Brandão e Wagner Correa de Araújo.
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A dúvida e o musical
Duvido, logo existo – eis um lema preciso para definir o homem do nosso tempo. Ele se instalou graças a dois vetores, o acesso universal à instrução e a longa tradição histórica de traição humana, a antiga prática do homem-lobo-do-homem, quer dizer, aquele velho conselho da mamãe: desconfie sempre, não confie em ninguém.
A capacidade de pensar e a habilidade para desconfiar resultaram na dúvida ambulante que somos. A expansão da habilidade fez surgir uma iconoclastia feroz, avessa às grandes ilusões e aos mitos dourados: a mania de parodiar e rir dos tradicionais contos infantis. O gosto demolidor é o eixo ao redor do qual se move A vida não é um musical – o musical, de Leandro Muniz, cartaz em fim de temporada no Teatro de Arena do Sesc Copacabana. Vale correr para ver, é muito divertido.