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Pelo direito de viver com dignidade
Apeça deveria ter um impacto devastador aqui: no Brasil, a vida humana não vale nada. Nunca valeu. A sociedade inteira, de cima abaixo, professa graus os mais variados de fria indiferença frente ao direito digno de existir. Convivemos todos, sem revolta, com multidões de crianças, o futuro do país, largadas nas ruas, no lixo, sem acesso à educação e na ausência completa de oportunidade social, entregues à violência mais brutal e à degradação. Assistimos impávidos a fuzilamentos diários truculentos por todo o país.
Gangues vorazes estão tomando o poder por toda a parte, em especial em bairros populares, diante da atitude de total alheamento das elites e do poder. Estamos gerando um país profundamente corrompido, mas isto não parece nos incomodar, como se a convivência com uma sociedade criminosa fosse uma banalidade, um fato irrelevante.
Portanto, importa ir ao teatro e levar o soco na boca do estômago, tentar pensar o problema na sua crueza. A Visita da Velha Senhora, de Dürrenmatt (1921-1990), é um dos melhores espetáculos em cartaz na cidade, no Teatro Ginástico. Será uma das grandes obras do ano, se tornará um destaque histórico e merece todos os prêmios. Corra para ver, a temporada vai ser muito curta.
O tema profundo, ácido, caro ao escritor suíço, é a cegueira do cidadão ocidental. A cegueira que cimentou a implantação do nazismo, testemunhou o holocausto, permite o genocídio cotidiano institucionalizado pelo mundo. A sua visão não tem a perspectiva redentora de Brecht: a revolução social não vai trazer uma saída, a indagação virulenta precisa por em xeque o próprio sujeito, desnudar a sua cumplicidade e a sua culpa, para cada um, na sua intimidade.
A pergunta nossa, de agora, séria, é como nós, colonos do ocidente, conseguimos levar esta lição perversa a uma potência extrema. Como conseguimos calar, em nome de estranhos pactos de poder, para a perpetuação destes poderes, diante do erro, da degradação, do aviltamento da dignidade.
O cartaz tem tradição no palco brasileiro, o teatro moderno nacional acompanhou o sucesso mundial da peça. O original foi lançado em Zurique em 1956, a versão americana estreou na Broadway, sob a direção de Peter Brook, em 1958, e a encenação brasileira, sob a direção de Walmor Chagas, de 1962, foi a maior produção da história da companhia da atriz Cacilda Becker, em cena ao lado de Sérgio Cardoso (Schill) e de Eugênio Kusnet (Mordomo).
Em 2002, o texto foi encenado por Tônia Carrero, sob a direção de Moacyr Goes, com a participação de Carlos Alberto (Schill), Cláudio Corrêa e Castro (prefeito) e André Valli (professor). Os cenários foram assinados por Helio Eichbauer e os figurinos por Guilherme Guimarães e Biza Vianna.
Salvo raras exceções, as críticas destas montagens impressionam, pois consideram desprezíveis ou equivocadas as criações apresentadas – tanto o trabalho de Cacilda Becker como o de Tônia Carrero foram alvos de restrições veementes, um pouco na linha professoral da velha crítica moderna. Vários críticos consideraram que os artistas – diretores e atrizes titulares – não tinham densidade profissional ou maturidade artística para entender o texto, cuja chave de compreensão, no entanto, eles consideravam que detinham.
Semelhante julgamento não pode ser associado ao cartaz atual. Denise Fraga cumpriu uma trajetória ousada, de enfrentamento recente de textos monumentais, com a encenação de A Alma Boa de Setsuan e A Vida de Galileu, de Bertolt Brecht. N’A Visita da Velha Senhora, o seu desempenho é marcado por um colorido surpreendente de técnica e emoção, inteligência e humor.
Em resumo, trata-se de um grande feito, uma realização difícil, passível de ser alcançada por uma atriz de grandes recursos expressivos, requintada por uma vivência artística intensa de Brecht. A compreensão da trágica mas humorada máquina de poder representada pela velha senhora transparece cristalina.Entre certo tom de distanciamento, certa atmosfera de entrega, com gestual largo e generoso, expressão carregada, a atriz desenha uma senhora monstruosa, um ser que talvez nem seja exatamente humano, tais as cirurgias e implantes por que passou. Não há caricatura, nenhum apelo à facilitação. Denise Fraga responde com garra ao texto, concilia o grotesco da alma de Claire Zahanassian com a condição de grande dama que o dinheiro lhe permitiu conquistar no mundo. Graças a esta combinação sutil, a ironia, o riso amargo e a estupidez cega se materializam com força.
Menos experiente em teatro, Luiz Villaça, diretor de cinema e de televisão, alcançou um belo resultado na direção de cena, nas marcações limpas e ousadas, mas oscilou um tanto no desenho da curva de clima do espetáculo, que declina um pouco logo que a situação dramática é apresentada. Contudo, a hesitação é discreta, não chega a afetar a contundência profunda do texto.
A adaptação do texto, aliás, de Christine Rohrig, Denise Fraga e Maristela Chelala, seguiu uma concepção funcional, sem prejuízo para a estrutura da obra. A trama é uma engrenagem diabólica, uma espécie de maquinismo perverso de relojoaria ensandecida, porém de colorido tristemente real. Apresenta um lugar miserável, Güllen, em franca decadência, aldeia de nascimento da Senhora Zahanassian, lugar afetivo em que ela foi uma jovem pobre irreverente, apaixonada por Schill, atual dono do modesto armazém.
Para casar-se com a filha do dono do armazém, ele abandonou em remorso a jovem Claire grávida. Contou com a ajuda de amigos locais, que prestaram falso testemunho, denegrindo a sua pessoa. Desmoralizada, ela saiu da cidade, perdeu a criança, se tornou prostituta, contraiu matrimônios milionários e se tornou uma potência internacional. No seu retorno, pretende restaurar o poder da vila decadente graças a uma polpuda doação e generosos investimentos, desde que Schill seja assassinado.
Tuca Andrada impõe a força humana de Schill com extremo vigor. A principio, confiante e gabola, ele se atribui e aceita desempenhar um imaginário poder de manipulação junto à milionária suficiente para figurar como herói do burgo. Aos poucos, apesar da confiança explícita nos conterrâneos, cada vez mais hesitantes, ele vai se acinzentando, aniquilado sutilmente pelo poder do dinheiro, que exige a sua morte.
Seguindo uma ótica atual, despojada, apoiada pela direção de arte de Ronaldo Fraga, responsável pela cenografia e pelos figurinos, o espetáculo valoriza o desempenho dos atores, cercados por sugestões e insinuações simbólicas dos espaços urbanos e do tempo. Barraquinhas discretas, inspiradas nas feiras e brechós – quase um camelódromo – denunciam a humildade do vilarejo e são movidas pelos atores para compor os diferentes lugares de ação. A luz de Nadja Naira pontua o andamento da representação com rigor, desenha os diferentes momentos da cena, com atmosferas dramáticas e de abertura do espaço espetacular para a participação da plateia.
Os atores seguem, também, uma concepção dinâmica de interpretação, muito contemporânea, a um tempo coral e épica – sem prejuízo para desempenhos marcantes individuais. Na concepção de Luiz Villaça, o público integra a população da cidade. Assim, os espectadores são recebidos pelo elenco e convidados a uma discreta porém potente participação, uma reiteração de que, afinal, o autor está falando de todos nós, para cada um de nós.
Além dos protagonistas, são onze atores em cena – Fábio Herford, Romis Ferreira, Eduardo Estrela, Maristela Chelala, Renato Caldas, Beto Matos, David Taiyu, Luiz Ramalho, Fernando Neves, Fábio Nassar e Rafael Faustino – e alguns precisam dobrar papéis para cobrir a longa lista de personagens. Além da função dramática, eles executam com rigor a bela trilha sonora original, de Dimi Kireeff e Rafael Faustino.
Na liderança da comunidade, Fábio Herford, no prefeito, se destaca por sua maestria para traduzir o político de caráter sinuoso, até mesmo repulsivo. Romis Ferreira expõe com brilho extremo no professor a crueza da corrosão moral provocada pela chantagem da velha senhora e oferece um belo contraponto ao padre, construído por Eduardo Estrela como uma espécie de virtuoso cínico. Rafael Faustino se projeta como músico e como o desprezível personal-assassino.
Raras são as oportunidades, hoje, no teatro brasileiro, de contar com a encenação de textos tão significativos para a cultura e para o pensamento ocidentais, impactantes para o momento histórico enfrentado pelo país. Ressalte-se que a produção é generosa, grandiosa mesmo. Talvez nenhuma outra instituição nacional esteja no momento, em grau comparável, investindo tanto para sacudir as sensibilidades e pôr em questão os valores e a ética de cada um.
A importância decisiva do texto para a reinvenção do ser humano ocidental é de tal ordem que ele deveria ser apresentado rotineiramente em circuitos estudantis. Quem sabe o velho suíço lúcido possa contribuir para que, na sociedade brasileira, se consolide um pensamento contra a banalização da vida. Já passou da hora para que as vidas humanas, aqui, deixem de ser descartáveis. Urge unir esforços para que a fuzilaria pare de nos fazer sentir horrendas figuras sociais, monstros de carne, maquinismo e sangue nas mãos.
Autor:Friedrich Dürrenmatt
Stage rights by Diogenes Verlag AG Zürich
Tradução:Christine Röhrig
Adaptação:Christine Röhrig, Denise Fraga e Maristela Chelala
Direção Geral:Luiz Villaça
Direção de Produção:José Maria
Elenco: Denise Fraga, Tuca Andrada, Fábio Herford, Romis Ferreira, Eduardo Estrela, Maristela Chelala, Renato Caldas, Beto Matos, David Taiyu, Luiz Ramalho, Fernando Neves, Fábio Nassar e Rafael Faustino
Direção Musical:Dimi Kireeff
Direção Visual:Ronaldo Fraga
Trilha Sonora Original: Dimi Kireeff e Rafael Faustino
Desenho de Luz: Nadja Naira
Preparação corporal e coreografias: Keila Bueno
Direção Vocal: Lucia Gayotto
Preparação Vocal: Andrea Drigo
Visagismo: Simone Batata
Fotografia:Cacá Bernardes
Assessoria Imprensa Rio:Barata Comunicações | Eduardo Barata
Projeto realizado através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Produção Original: SESI-SP | FIESP
Patrocínio Exclusivo:Bradesco
Realização: Sesc Rio de Janeiro, NIA Teatro, Ministério da Cultura e Governo Federal
Teatro Sesc Ginástico
Av. Graça Aranha, 187, Centro
De 01o a 25 de março de 2018
De quinta a sábado às 19h, e domingo às 18h
Sessões extras dias 23 e 24 de março às 15h
Estreia dia 01o de Março às 20h.
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) | R$ 15,00 (meia-entrada) | R$ 7,50 (associados Sesc)
Horário de funcionamento da bilheteria:
de terça a domingo das 13h às 20h
Informações: (21) 2279-4027
Recomendação: 14 anos | Duração: 120 minutos | Gênero: Comédia Trágica
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Com quantas pedras se faz um bom teatro?
No meio do caminho, sempre tem uma pedra – e não, não são só os poetas que esbarram com a coisa. É a vida. Não dá para andar sem tropeço. Passa o carnaval e vem a ladainha: como alguém pode celebrar as escolas de samba? Como alguém ousa dizer algo positivo a respeito destes antros de perdição, que vicejam por aqui sem freio desde o início do século XX? Curioso notar que poderia ser fala do Prefeito desequilibrado do Rio, preocupado em afundar a cidade. Mas não, gente lúcida e bem intencionada anda com a fala perto da garganta desafinada do alcaide.
A primeira vez que li sobre as hordas de capoeiras no século XIX, fiquei pasma. Os relatos falavam de negros libertos ou quilombolas, arruaceiros, que assaltavam as procissões ostentação, com os seus fiéis cobertos de joias. Resultado: acabaram com as procissões por um tempo e quando voltaram eram cortejos de gente despojada. As primeiras vezes que vi desfiles de escolas de samba, na Praça XI, eu era criança – e o problema dos adultos era proteger os infantes, quando a polícia chegava para pegar os bandidos sambistas! Voava pancadaria para todos os lados e eram engraçados os relatos da confusão.
Cresci vendo todo o mundo adulto ao redor jogar no jogo do bicho. Tive uma grande amiga na primeira série ginasial, que perdi de vista, muito tímida, que era filha de um banqueiro de bicho – mas era a família dois, a filial, e moravam numa casa digna do Boca de Ouro: um coreto-ostentação. Uma amiga relatou há umas semanas que no condomínio dela, na Barra, ninguém teme assalto – a maioria dos moradores é de milicianos e de bandidos mesmo. E todos convivem de maneira muito civilizada.
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Salve, Carnaval – Salve, Teatro!
Se você pensa que o Carnaval significa “adeus, teatro”, você está muito enganado – o caldeirão de Dioniso ferve sem parar, mesmo sob a folia nossa de todo ano. Mas, veja lá, a fervura brota de múltiplos ingredientes, surge de várias direções.
Sabemos que o nosso palco não tem mais uma programação carnavalesca ou de Semana Santa, como antigamente. Nem bailes carnavalescos. Ainda que a maioria das peças tenha recesso, tem muita faina teatral ao seu dispor, para que você não se esqueça da danada da arte e não desapareça da vida da cena. Ou para que o teatro não saia da sua vida. A estante de livros segue próspera, não falta o que ler. E a oferta de cursos, oficinas, leituras é tanta que você corre o risco de ficar tonto, mesmo se deixar as garrafas cheias.
Sim, muita água vai rolar. Além das peças estreadas este ano, de saída você pode comprar ingressos para peças muito cotadas que estão de volta ao cartaz. Uma lista breve inclui uma diversidade de títulos admirável, atestado da vitalidade do teatro carioca. As novidades vão de Grande Sertão: Veredas, a volta de Bia Lessa à direção, ao espetáculo Eri Pinta Johnson Borda dedicado à arte tradicional do ator performer brasileiro.
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O tempo não dá tempo: dá teatro
Otempo não dá tempo: passou o Natal, aterrissou o Ano Novo e o Carnaval está na soleira da porta. E o teatro? Muitas carpideiras cênicas esbravejam e lamentam viver em tempos sombrios de pura decadência da arte. Não sou deste bloco. Francamente, o ano de 2017, apesar de todos os revezes, deixou de herança um teatro denso, inquieto, multifacetado, fruto de muito trabalho e de dedicação. Não, não foi um ano podre. E 2018 promete.
Apesar dos pessimistas, pródigos em cantos elegíacos e lamentações, pessoalmente vi muita garra, muita força e muito trabalho de qualidade no palco que passou. Incontáveis vezes saí do teatro feliz. E foram tantas vezes, tantas e tantas, que a memória sombria das peças ruins acabou esfumada. Nos debates para as premiações, penso que esta riqueza tem aparecido e se afirmado.
Pois chegou o tempo de comemorar: esta semana teremos a oportunidade de conhecer os melhores do ano para o Prêmio Cesgranrio de Teatro. Os nomes vencedores serão anunciados hoje, terça-feira, na festa da premiação, sempre bela e agradável, no Copacabana Palace. Uma noite de confraternização – tão breve tempo – fará a alegria de muitos batalhadores da cena.
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Chute o balde, por favor
Não sei a opinião do povo psi-pensante – mas defendo a existência da Síndrome de Gauguin. E o que seria? Bem, exatamente aquele sentimento decidido, bruto, em que a criatura fica saturada de tudo ao redor e decide chutar o balde. Vai, chuta e foi. Como, ao que tudo indica, não existe mais no mundo inteiro nenhum Taiti para refúgio dos afetados pela síndrome, o jeito é chutar o balde à pequena distância, por aqui mesmo ao redor.
Nestas horas, o teatro é um grande aliado – você chuta o balde, entra lá e se livra do balde, adeus mundo. Parte para uma outra realidade, nem sempre melhor, nem sempre pior, mas com certeza diferente. Para você que atingiu o ponto de saturação e está no vermelho, só pensa em chutar o seu balde, existem várias opções.
A primeira é bem completa e radical: você pode fazer um curso de teatro. Não, não precisa de vestibular, Enem, nem qualquer outro balde burocrático. Existe a CAL – a dinâmica escola de teatro, a mais dinâmica dentre todas, promove cursos livres, de férias, com especialistas e para várias aptidões. Tanto pode ser Interpretação, para TV e cinema e sob várias outras abordagens, como pode ser uma oficina de diálogos com a experiente autora Marcia Zanelatto ou um curso prático de roteiro para iniciantes, com Voya Wursch. Há ainda corpo com a notável Sueli Guerra, teatro musical com a dupla de excelência Mirna Rubim e Menelick de Carvalho. E mais – a inscrição pode ser feita online, sem nenhum balde, liberdade pura.
Mas, se o seu caso é mais direto e simples e basta, para a sua sensibilidade carente de emancipação, um bom e belo espetáculo, corra para ver Agosto, de Tracy Letts, direção exemplar de André Paes Leme. A cena se torna o lugar do chute no balde afetivo, o espaço poético de extravasamento de conflitos da vida inteira, oportunidade para interpretações históricas, absolutas, sob a liderança da magmática Guida Vianna, uma enxurrada de lama existencial que rompe devorando tudo. A contracena com a esplêndida Leticia Isnard é a apoteose do balde perdido – tudo aquilo que você pensou em dizer nas tramas sufocantes de afeto e não conseguiu.
E ainda tem no elenco cinco estrelas uma coleção de feras, impiedosos aliados no chute ao balde nosso de cada dia: Alexandre Dantas, Claudia Ventura, Claudio Mendes, Eliane Costa, Guilherme Siman, Isaac Bernat, Julia Schaeffer, Lorena Comparato e Marianna Mac Niven. Todavia, há um detalhe muito ruim – a temporada vai ser curta. Nesta reestreia deste enorme sucesso de 2017, o cartaz ficará apenas até 4 de agosto no Teatro SESI.
É interessante este dado: a reestreia. O passado, assim, contribui com mais uma chance para os distraídos chutarem o balde com classe. Vale destacar que não é só Agosto que permite este feito. Um outro trabalho arrebatador de 2017 decidiu ajudar aos chutadores de balde contemplativos, que precisam muito entrar em ação no teatro. Está em cartaz apenas até este fim de semana o belíssimo Tom na Fazenda, um dos mais pungentes gritos de defesa da liberdade humana vistos em tempos recentes no teatro brasileiro.
Trata-se de um chute no balde sideral, a favor da beleza integral de ser e do ato pleno de viver, a favor da plenitude do amor, texto de Michel Marc Bouchar. A direção de Rodrigo Portella é de tirar o ar e sacudir a alma, o cenário de Aurora dos Campos, devastado como as pessoas da cena, é uma joia da cenografia, o elenco desgoverna o infinito com a força telúrica de Armando Babaioff, Analu Prestes, Gustavo Rodrigues e Camila Nhary. A peça voltou no Teatro Dulcina e neste sábado o pensamento sobre a cena vai ferver com um debate entre Armando Babaioff, o diretor Rodrigo Portella e Isabel Diegues, da Editora Cobogó – que lançou o texto da peça em português.
Aliás, sim, ler pode ser uma forma elegante de chutar o balde – e até bem discreta. A poesia pode estar num livro ou em cena. Neste último caso, será preciso ler o livro-ator. De certa forma, este chute no balde tão especial é garantido por Matheus Nachtergaele, com a peça Processo de Conscerto do Desejo, dirigida e interpretada por ele em homenagem à sua mãe, a poetisa Maria Cecília Nachtergaele, falecida em 1968. O ator não apenas representa, mas incorpora a figura materna, e recita os textos da poetisa acompanhado dos músicos Luã Belik e Henrique Rohrmann/Bryan Diaz. A volta ao cartaz acontece no Teatro da Caixa Nelson Rodrigues, com temporada de 25 de janeiro a 4 de fevereiro.
Mas enfim tudo isto aí pode ser que seja café pequeno – ops – balde pequeno, para o seu caso. Se a coisa se avolumou, se é preciso pensar grande, voar alto, existem sugestões vindas lá de São Paulo exemplares. São Viagens Musicais, com apoio e divulgação da Cultura Artística, coordenação geral da Sociedade Chopin do Brasil. A coisa é para grupos pequenos, com lugares limitados e confirma que existe no país um público sofisticado para um mercado cultural de alto padrão – balde de ouro, digamos.
A programação faria até mesmo Gauguin exultar, se ele fosse nosso contemporâneo. Ela se estende de março até setembro. Integra este calendário de ofertas requintadas a felicidade de acompanhar os maiores festivais musicais mundiais e eventos top do top – Festival de Páscoa em Salzburg, Festival de Páscoa em Aix-en- Provence, Abril em Nova York no Metropolitan, a Toscana, Festival Stars of the White Nights, Festival de Verão em Baden Baden, Festival de Arena de Verona, Festival Bayreuth, Festival de Salzburg, Festival de Lucerna, Festival Enescu… Os nomes envolvidos – para citar alguns escolhidos a êsmo – demonstram porquê o nosso tempo será parte importante da História Cultural do mundo.
A lista rápida revela a presença da Staatskapelle Dresden, Martha Argerich e Daniel Barenboim, Nelson Freire, Marcelo Lehninger, Filarmônica de Nova York, Leonidas Kavakos, Yuri Termiokanov, Ballet do Bolshoi, Anna Netrebko, Franco Zefirelli, Roberto Alagna, Orquestra Filarmônioca de Viena, Ricardo Muti…
Bom, cansei. Não há balde que sobreviva a este time. Desconfio que ler os nomes já oferece uma trégua para o lado exaustivo do mundo. Então, veja bem, você nem precisa viajar tanto e para tão longe.
Basta ter a certeza de que a arte, esta estranha invenção humana, herança dos deuses, existe para aliviar o peso da vida e do mundo sobre as nossas cabeças – se procuramos com atenção, logo vemos que a arte está ali do nosso lado, ao nosso alcance, para nos ajudar a nos livrar dos baldes, preservar nossos pés e todo o resto. Afinal, convém lembrar, Guaguin chutou o balde e fugiu para o Taiti exatamente para fazer… arte!
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E os deuses nos deram Bibi
Um dia os deuses – todos os deuses – reunidos em assembleia olharam para a Terra de soslaio e sentiram uma pena absurda do Brasil. Rápidos, fizeram uma confraria, tomaram uma decisão fulminante, decidiram enfrentar nossos males e mandaram para cá, envolta na mais pura luz, uma deusa da humanidade absoluta. Bibi Ferreira nasceu.
De lá para cá, outra coisa ela não fez a não ser honrar a decisão dos deuses a nosso favor. Incansável, ela materializa a poesia, nos doa a crença no poder da arte, o amor aos valores mais sublimes da vida, o culto à delicadeza, a devoção ao belo, como se fosse obrigatório o gesto cotidiano de ser melhor, sempre.
Não foi em vão: agora, no Teatro Oi Casa Grande, temos todos a oportunidade áurea de celebrar a deusa. Bibi, uma vida em musical, é um espetáculo histórico, precioso, retumbante, um acontecimento exemplar na vida do palco do país. Em cena, há uma irresistível alquimia de história de vida, história, teatro, música, dança, circo, televisão. Tudo exposto no mais alto padrão teatral. Imperdível. Enfim, um alento oportuno para o nosso agora, quando estamos tão derrotados diante de nós.
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Lição de arte
Um raio de luz fulgurante varre o ambiente e ilumina a expressão de todos – Aracy Cardoso desponta no espaço, cria um fluxo de energia positiva capaz de magnetizar a sala. Não me peçam para explicar o fenômeno, não sei o segredo, só sei que era exatamente assim. E que era um prazer, sempre, contar com este banho de luz incandescente, pura humanidade. Agora, ela se foi.
Aracy Cardoso Fróes, nascida no Rio de Janeiro em 17 de junho de 1937, faleceu esta manhã no Rio de Janeiro, cercada pelo carinho da família. Reservada em relação à vida pessoal, a atriz deixa duas filhas, dois netos e um bisneto. Foi casada com Ibanez Filho e era viúva de Hemílcio Fróes.
Filha de uma cantora de ópera, desde cedo desejou seguir a carreira de atriz. Estudou piano, dança e canto. Estudou História da Arte e se manteve estudiosa durante toda a vida, pois defendia a ideia de que o ator precisava ter densidade intelectual.
A carreira foi iniciada nos anos 1950, no teatro, base da sua formação. Em 1953, participou da montagem de O Judas em Sábado de Aleluia, de Martins Pena, direção de Sergio Britto, ao lado de Eva Wilma, John Herbert, José Renato. Em 1954, sob direção de Ruggero Jacobbi, integrou a ficha técnica de A Filha de Iório, de D’Annunzio. Em rápida trajetória no TBC, participou em 1955 da montagem de O Profundo Mar Azul, de Terence Rattingan, direção de Adolfo Celi, no elenco titulado por Tonia Carrero e Paulo Autran.
Outra montagem de destaque da sua carreira foi a encenação de Tartufo, de Molière, de Abujamra, à frente do Grupo Decisão, no Teatro Miguel Lemos. Participaram da peça Jardel Filho e Glauce Rocha. Como diretora, assinou Histórias do Medo, em 2012, no Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim, trabalho de sofisticado artesanato de Priscila Camargo.
A carreira na televisão também foi iniciada nos anos 1950 e começou sob o ritmo do pioneirismo, antes do videoteipe, com as novelas transmitidas ao vivo exigindo dinâmica pessoal, extrema presença artística e capacidade de criação imediata. Na TV Tupi do Rio, protagonizou novelas que ainda não eram diárias e, com A Canção de Bernadete, de 1957, viveu o primeiro grande fenômeno de audiência das telenovelas nacionais.
Ainda na TV Tupi, esteve ao vivo em programações de forte impacto – o seriado O Falcão Negro, as novelas não diárias O Morro dos Ventos Uivantes e Só Resta o Silêncio, o teleteatro concebido por Jacy Campos Câmera Um, nos anos de 1957 e 1958.
Em 1965, na TV Excelsior de São Paulo, começou uma bem sucedida carreira de papéis de mocinha em várias novelas. O grande destaque foi A Indomável, de Irani Ribeiro, adaptação de A Megera Domada, de Shakespeare. A forte consagração nacional foi conquistada ainda nos anos 1960, na TV Globo, com Anastácia, a Mulher Sem destino (1967), Fogo Sobre Terra (1974), Vejo a Lua no Céu (1976), Água Viva (1980), A Gata Comeu (1985).
Profissional decidida, batalhadora, apaixonada artesã da arte, Aracy Cardoso deixou uma longa lista de trabalhos em diferentes canais de televisão – o seu último papel foi uma participação em Sol Nascente, este ano, na TV Globo. Também atuou no cinema, ainda que a sua filmografia não tenha o impacto alcançado por seu trabalho na televisão.
Divertida, elegante, gentil e graciosa, Aracy Cardoso era uma das grandes deusas delicadas da classe teatral carioca, uma presença adorável nas estreias e nos encontros sociais da categoria. Talvez o seu imenso brilho pessoal, a luz que irradiava ao redor quando chegava em qualquer lugar, nascesse do seu espírito inebriante, engajado na luta pela melhor expressão humana, sempre em sintonia profunda com a arte. Ela se foi. E, hoje, a festa será no céu.
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Festa de Teatro Tropical
Uma força une, sob laço estreito, oito países do mundo: o português. E um encontro artístico, o FESTLIP, sediado no Rio, promove a identidade do conjunto. Em sua nona edição, o festival este ano faz um verdadeiro turbilhão na história, muda coordenadas canônicas da arte do teatro, instaura novos processos de relacionamento internacional em arte e anuncia a possibilidade de se tornar um evento mais amplo, itinerante.Imperdível!
O centro da edição deste ano, que será encerrada neste domingo, é a montagem teatral do conto A terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa, dirigida por Paulo de Moraes. A encenação é de saída revolucionária por reunir oito atores dos oito países lusófonos, feito que se tornou possível graças aos ensaios realizados via internet. Foram 25 ensaios por meio digital e quatro presenciais. Com entrada grátis, as apresentações terminam neste domingo, na Casa de Cultura Laura Alvim.
Em janeiro, em Portugal, o festival terá continuidade. Numa coprodução com o Teatro da Garagem, será montada A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues. Nada mal para uma edição cujo tema é a Conectividade e que contou, na abertura solene para convidados, na última quarta-feira, com a presença virtual, em telão, em tempo real, dos diretores José Mena Abrantes, de Angola, Gilberto Mendes, de Moçambique, e da atriz Maria João Vicente, do Teatro da Garagem, de Portugal. A transmissão do festival pela televisão, pelas emissoras TPA Angola e TV Gungu Moçambique, também surgiu como uma novidade da programação.
Ainda na cerimônia de abertura, o momento áureo de emoção lusófona aconteceu com a homenagem do ano, dedicada ao diretor, ator, intelectual e gestor cultural João Branco, fundador do Festival Mindelact, há 23 anos ativando a vida cultural de Mindelo, Cabo Verde. No seu discurso emocionante, João Branco surpreendeu a plateia ao exaltar o ser crioulo, uma acepção nova e positiva do substantivo que, no Brasil, num sentido antigo carregado de preconceito, gera polêmica e tem alcance controvertido.
A programação do festival apresentou ainda a peça portuguesa Solange – uma conversa de cabeleireiro, da Cia Nómada Art & Public Space, e a peça Kiwi, direção de Lucianno Maza. Completaram a grade uma mostra gourmet, oficinas, debate, exposição e festa-show.
A peça central da edição deste ano do FESTLIP, A Terceira Margem do Rio, impressiona o espectador teatral pelo encontro lusófono – ao lado da beleza da encenação, colorida em tons terrosos banhados por jogos sutis da luz, sustentada por uma bem urdida estrutura coral, extasia ouvir o belo texto brasileiro ecoar em diferentes sotaques.
A harmonia do trabalho de Paulo Moraes e Ricco Viana se impõe de saída, tem impacto muito forte, estruturante, e faz da peça um musical. Transpondo a trama literária para a cena, Paulo de Moraes escolheu a narratividade como chave da representação, um caminho hábil para contornar o pequeno número de ensaios. Ao mesmo tempo, ao tecer com Ricco Viana um desenho musical vivo, intenso, conseguiu meio eficiente para aumentar o jogo sentimental e afetivo, necessariamente esfriado pela narração. Nasceu assim uma dinâmica forte, envolvente, de alcance arrebatador.
O resultado é definitivamente lindo. Emoções surpreendentes despontam a todo momento, graças ao impacto das cenas – tanto a vibração geral, coletiva, do elenco, como a dança afro, de Suelma Mario, ou a representação da noiva sem pai, de Lisa Reis, fazem aflorar um sentimento denso de pertencimento, coletividade, vida comum que, habitualmente, não vivenciamos. O principal objetivo da mostra, ressaltar o fluxo que nos une a partir do verbo comum, é amplamente atingido.
Resta desejar vida longa ao FESTLIP. E ressaltar a grandeza das ideias e dos sentimentos que estruturam este evento tão raro, tão precioso, tão importante e tão complexo, concebido pela dinâmica mulher de teatro Tânia Pires, uma liderança cultural lúcida, preocupada em desenhar o futuro. Alguém que é capaz de batalhar para atiçar em nós a nossa apagada consciência de coletividade, os nossos elos de pertencimento, ressaltar o nosso ser lusófono, apontar para a necessidade aguda de encontros de identidade, merece todo o nosso apoio. E mais, merece o nosso mais profundo respeito.
IX FESTLIP
CONCEPÇÃO: TALU PRODUÇÕES E MARKETING – Tânia Pires e Luciana Rodrigues
ESPETACULO: A TERCEIRA MARGEM DO RIO
DIREÇÃO: Paulo de Moraes
TEXTO: Guimarães Rosa
ELENCO: 08 (oito) atores, um de cada país da CPLP.
Leonardo Miranda – Brasil; Suelma Mario – Angola, Lisa Reis – Cabo Verde, Horácio Guiamba –Moçambique; Susana Vitorino – Portugal; William Ntchalá – Guiné Bissau; Rossana Prazeres – São Tomé e Príncipe e Carvarino Carvalho – Timor Leste
MUSICA: Ricco Viana
FIGURINO: Karol Lobato
ILUMINAÇÃO: Valmyr Ferreira
FOTO: Divulgação
PRODUÇÃO/IDEALIZAÇÃOTânia Pires E Luciana Rodriguez
REALIZAÇÃO: Talu Produções
DIVULGAÇÃO: Factoria Comunicação
TODA A PROGRAMAÇÃO TEM ENTRADA FRANCA –
Mais informações nos websites: www.festlip.comm
www.talu.com.br
Para malhar o coração e lavar a alma
Eu sei e você sabe que o coração precisa de exercício: é um músculo carente de malhação. Portanto, amigo, corra para o Sesc Ginástico – sim, o nome da casa é bem adequado ao caso. Lá, por um tempo breve, pois a temporada será curta, você poderá fazer uma imersão triunfal numa excelente oficina do coração. A revisão vai ser completa. O espetáculo Pagliacci, da Cia LaMinima, de São Paulo, vai espanar a sua alma, desenferrujar os seus sentimentos e reparar a vitalidade da sua engrenagem central.
É provável que você, amante de teatro, saiba do que eu estou falando, já tenha visto trabalhos da equipe. São vinte anos de atividade e – com licença de todos os palhaços teatrais magistrais brasileiros – este coletivo é o que foi mais longe na transgressão-cênico-lúdica, aquela arte radical tão atual, de embaralhar fronteiras. Dentre todos, eles conseguiram produzir a alquimia mais inefável das artes da representação.
Isto quer dizer que eles fizeram história na mistura apurada de teatro, circo, dança, música, performance e show. Agora, para ir ainda mais longe na ousadia, decidiram incorporar à função a ópera, o bel canto, a arte popular que acompanhou o nascimento do homem urbano ocidental moderno.
High-res version
O Jornal do amor e da dor
Um dia alguém decide o que você pode ou não pode ser. Desenha a arquitetura dos seus sentimentos, pensa a engenharia das suas crenças, sinaliza a geografia do seu coração. E pronto – você se torna prisioneiro de uma brutal escola de vida, tudo para o seu bem. Parece coisa do passado remoto. Mas não é: está bem aqui ao redor, você está ao alcance da camisa de força. E não é só: por suas escolhas de amor, você pode ser condenado à morte, trucidado. Ou pode perder alguém próximo, uma pessoa querida do seu coração.
Como estas tramas se armam para aprisionar as pessoas? São garras remotas, de poderes arcaicos, estranhos, ou partem de colos amorosos, braços fortes de apoio, familiares? As perguntas são incômodas, ácidas. E necessárias, urgentes. Elas constroem a estrutura dramática de O Jornal, de Chris Urch, cartaz precioso do Teatro Poeira, tradução esmerada de Diego Teza. Se você acha importante pensar o mundo em que vivemos, corra para ver. Por amor, apenas por amor, podemos ser varridos do mundo. Portanto, prepare-se para se emocionar profundamente com a constatação da precariedade humana nossa de todo o dia.

