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Teatro e futebol: formas do saber humano
Já conheci várias pessoas com uma característica espantosa: o ódio ao teatro. Algumas tinham o coração entregue ao futebol, arte mais verdadeira e intensa, na sua opinião. No conjunto, os motivos do ódio são vários. Impossível elencar todos – vão desde a convicção de que o teatro é velho, superado, passam pela certeza de que a cena explora apenas a vaidade e o exibicionismo rasteiros e chegam até o mais puro desencanto com a arte. Para este ponto de vista desencantado, o teatro estaria devotado mais à materialidade fútil do que à intensidade ideal da poesia. Algo assim como se um craque se preocupasse mais com os volteios do seu penteado do que com a qualidade dos seus chutes, digamos.
A lista das queixas é longa. Já sai de uma peça de vanguarda obscura com duas senhoras devotadas ao teatro, desconhecidas, indignadas com a cena apresentada. Exaltadas, elas declararam com veemência que iriam abandonar o teatro em favor do cinema, pois, amantes da velha arte, enfrentaram naquela semana uma sequência de peças experimentais no seu entender inúteis, equivocadas mesmo, como estudo da humanidade. Elas estavam furiosas e chegaram até a zoar o elevador canhestro do velho prédio: já que o foco da casa era a invenção, qual o motivo de ter um elevador modesto, trôpego pelos andares?, proclamaram.
Ouvi em silêncio. Mas entendi que existe uma falta, um abismo, entre o palco e a sociedade brasileira. Depois do jogo da seleção, ao andar a pé no meu bairro, na universidade em que trabalho e por diferentes recantos da cidade, o que eu ouvi em todas as bocas era a discussão, às vezes bem exaltada, a respeito dos rumos do futebol brasileiro – vale topete, pose, maquiagem ou o importante é o pé, o cérebro de par com a bola…? Foi jogo ruim ou roubo? O futebol fez vários gols estes dias e disparou os corações. O teatro com frequência não consegue nada parecido, mesmo com aqueles que o amam com intensidade. A norma é o tédio e não há nem mesmo a vontade de xingar o juiz.
Podem ser ciclos da sociedade humana – no século XIX, a vida não era assim. Não existia o futebol, nem o cinema, ou a TV. O teatro era o rei do pedaço. Sim, tinha a concorrência da ópera e da música, mas, desde a função de ser a escola de costumes, até o nobre papel de apontar a definição requintada do ser, tudo era próprio do gramado do teatro. Neste século XXI, quem sabe o futebol esteja com os seus dias contados, prestes a morrer, a favor de uma nova arte, a arte de viver virtual, um casamento da internet com a performance? Não, não será uma forma de teatro, será outra coisa, ainda sem nome. E o teatro?
Sobreviveremos – vale a resposta curta, histórica, emprestada por Tchekhov. Impossível saber para onde andará o teatro: sempre usamos um edifício velho no nosso tempo novo, pois, quando as paredes teatrais se erguem, registram, a rigor, o teatro que passou. Sempre usamos fiapos do que fomos e fizemos e da arte cristalizada no ar, sempre recorremos ao público fiel – portanto, passados, todos passados. Ansiamos o futuro, mas vivemos ancorados no passado. Como dimensionar o futuro? Impossível saber. Porém, a necessidade de aprender com a presença humana, de ouvir o outro e se encantar, sempre existiu e sempre existirá – sobreviveremos.
Vale buscar, olhar e avaliar a cena que consegue pulsar no meio da Copa do Mundo. Vale tentar entender o que faz com que tantos percam o seu tempo, sem lamentar, com os olhos pregados nos pés dos atletas e rejeitem, sem piscar, a dedicada energia de tantos artistas da cena. Há um saber humano aí? Há sentimento bruto, de um lado, refinamento de emoção, do outro? Qual o caminho?
De longe, chegam aqui atestados da grandeza do teatro brasileiro. De Portugal, do FITEI, um festival de teatro que sobrevive há 41 anos, chegam notícias do sucesso das apresentações no Porto do nosso celebrado Caranguejo Overdrive, da Aquela Cia. Além do tema, o descompasso profundo entre poder e sociedade que dilacera o país desde sempre, indicador da não superação aqui da condição colonial, alcançou impacto lá a forma da linguagem. Entre o documentário e o drama, alicerçado a um só tempo na narração, na representação, na performance e na apresentação, o trabalho despontou como eloquente registro da expansão da sensibilidade individual no nosso tempo. A forma da cena não fala mais apenas de sensibilidades conduzidas, integradas, como quer a linguagem teatral convencional, o velho drama, mas também de sensibilidades que pleiteiam a maestria da própria expressão.
O FITEI – Festival de Teatro de Expressão Ibérica – oferece uma gama variada de atividades – além da apresentação de peças nacionais e internacionais, conta com oficinas, concertos, debates, encontros, festas. Esta edição acontecerá de 12 a 22 de junho, contemplando não só o Porto, mas Vila de Gaia, Matosinhos, Felgueiras e Viana do Castelo e a presença brasileira está bastante forte.
Não se pense, contudo, na existência de facilidades para a arte em Portugal. Na semana passada, outro festival de projeção, de Almada, promoveu o lançamento de sua 35A., a ser realizada de 4 a 18 de Julho. No lançamento, além da definição da programação, foi reafirmado o compromisso público de manutenção do festival, apesar dos cortes de verbas anunciados. A expectativa é a de que a redução do financiamento público, divulgada em março, seja revista em prol da sobrevivência do encontro cultural importante.
Enquanto isto, lá como cá e por várias partes do mundo o dinheiro jorra nos gramados e a favor das chuteiras. Ninguém fala em corte de verbas para o futebol. Ele figura como necessidade primeira. Apesar dos escândalos de corrupção, do roubo e do vedetismo consumista exaltado dos craques – com frequência mergulhando no ridículo – nada leva a crer na possibilidade de falta de capital para o futebol nos próximos tempos. E, se tal acontece, uma coisa é certa: multidões apaixonadas garantem a sobrevivência da atlética ocupação.
O diagnóstico do caso, visto do lado do teatro, pode ser preciso. Talvez seja o caso ululante de uma unanimidade burra, como diria Nelson Rodrigues, ele próprio louco por futebol, ainda que não pudesse ver claramente qualquer jogo, por problemas sérios de visão. Mas ia aos estádios e simulava bem um domínio perfeito das artes da bola no campo, para atiçar os ânimos, como deseja o jogo. Ou o teatro. Teatro, futebol, Nelson Rodrigues: quem sabe se misturar tudo permita que se chegue a algum novo entendimento da espécie humana?
Pois, nesta semana de copa, paixões acirradas, torcidas histéricas e descabelamentos atléticos, uma sensacional montagem de Nelson Rodrigues estará à disposição do distinto público. E de graça. O Espaço Furnas Cultural, em Botafogo, vai apresentar a irresistível Perdoa-me Por Me Traíres, de Nelson Rodrigues, de 16 a 24 de junho, às 19h.
A peça é um clássico do autor e exala aquele sentimentalismo transgressivo exaltado do grande torcedor do Fluminense. A direção de Daniel Herz alcançou um efeito potencializador da dinâmica do texto, graças a uma cena límpida, geométrica, marcada por desempenhos intensos, realçados pela cenografia cirúrgica de Fernando Mello da Costa e pela luz diabólica de Aurélio di Simoni.
A oportunidade é de ouro, como a falecida taça Jules Rimet – ela permite pensar algo a respeito de um encontro improvável, mas desejável, entre teatro e futebol. Ao escavar o subterrâneo das almas, o autor fala da estrutura de sombra, paixão e dilaceramento que ergue o homem, talvez os mesmos engenhos que o futebol aciona, numa outra voltagem, quando instaura no estádio o urro coletivo. Quem sabe se este tipo de programa desperte a necessidade de teatro que sobrevive em todas as almas, ajude a diluir o ódio equivocado ao teatro, o ódio estranho que grassa por aí e impede a arte de revelar democraticamente as belezas que pode oferecer, em benefício da iluminação da vida?
Perdoa-me por me traíres
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Daniel Herz
Elenco: Bebel Ambrosio, Bob Neri, Clarissa Kahane, Ernani Moraes, Gabriela Rosas, João Marcelo Pallottino, Rose Lima, Tatiana Infante e Wendell Bendelack
Espaço Furnas Cultural
R. Real Grandeza, 219 – Botafogo, Rio de Janeiro
Temporada: 16 e 17, 23 e 24 junho
Entrada franca
Horário: 19h
Classificação: 14 anos
Duração: 80 minutos
Tagged: Aquela Cia, Caranguejo Overdrive, Copa do Mundo, Festival de Almada, FITEI, Futebol, Nelson Rodrigues, Perdoa-me Por Me Traíres, Teatro
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A ordem é: vamos namorar São Paulo
São Paulo é outro mundo, é um lugar muito longe. Duvida? Pois reconsidere sua visão. Nem sempre a distância se faz por quilômetros ou por tempo gasto para chegar. Às vezes, o lugar é logo ali, mas é como se lá o mundo estivesse virado de cabeça para baixo, fosse outro planeta. Um pouco como, no Rio, a relação Zona Norte- Zona Sul. Um tempinho de viagem e zás – entramos numa relação civilização-mundo de outra ordem, quase irreconhecível, uma espécie de espiral etérea de deslumbramento com a diferença abissal do outro.
O.K., para muita gente boa São Paulo não é longe, é logo ali. E parte desta gente acha também que os paulistas ainda estão apegados à equação Brasil-século XIX. Mas eu, que embatuco sempre com avião, eu discordo, penso que qualquer ponte-aérea é arremedo do caminho para Tóquio – e olha que eu desconfio que jamais irei a Tóquio, ainda que eu ame o Japão. É muito longe! Pois São Paulo, hoje, é uma espécie de tóquiodoriodejaneiro, um lugar no qual a vida anda de cabeça para baixo. É muito longe. O século XIX, por lá, se foi – e, sorry, gente bronzeada distraída, despencou decidido por aqui.
O leitor há de implicar: mas que equação Brasil-século XIX é esta? Explico. O século XIX tem seus mistérios e seu poder é monumental. Acredito que foi o único período da História – e vejam, foi por um pequeno lapso de tempo – no qual o Brasil andou em sintonia com o tempo do mundo. Antes, na colônia, estivemos no esgarçamento humano total, infinitas temporalidades dispersas pelo vasto território. Inaugurado o novo século, por sugestão de D. João, empurrão de Napoleão e obra da inefável e pouco lembrada D. Leopoldina, ingressamos no século com torque de motor a vapor (mas sem os motores, pois cá não os tínhamos…).
Mas o que digo? Mentira! Este Brasil do século XIX que era puro e intenso século XIX, sintonia perfeita com o melhor da época, era, na verdade, o Rio de Janeiro, ainda nada maravilhoso, embora resplandecente à beira mar plantado… O resto do país, do pobre país, decaído o ouro e arruinadas as Gerais, era a roça! E São Paulo era a roça mais braba da terra, a roça dos aventureiros inquietos, humilhados bandeirantes transformados em plantadores de marmelo. Esta foi a equação Brasil-século XIX: as luzes do Rio tentando iluminar as trevas do país-roça, luzes sangrentas movidas à escravidão, um crime no pensamento porém legalidade naquela vida. O país vivia a reboque de sua capital federal pura luz e sentia intensa admiração por ela, o resto era caipirada e matutice.
Algumas peças teatrais da época ilustram bem este Brasil – basta passar os olhos nas comédias do século XIX, marcadas pela oposição Corte-Roça. Na vida, contudo, logo a equação se revelou uma dissintonia com o tempo: veio a indústria, instaurou-se a igualdade e a liberdade humana, mas o Brasil não viu. Foi o furor bandeirante quem assumiu tais bandeiras, mas no século XX. E foi então que São Paulo começou a se tornar um lugar longe… cada vez mais longe.
É inegável que persiste em São Paulo algo do século XIX – quer dizer, da velha equação Brasil-século XIX. Esfumado no ar, paira aqui e ali um cheiro de estofo caipira. Consigo perceber a equação ao circular pela cidade e, com o meu s litorâneo carregado, logo ouvir a velha pergunta-cumprimento, entre a admiração e o elogio: “Você é… carioca?” É quase uma declaração de amor eterno, pois a frase vem seguida por um suspiro de devaneio, como se a pessoa dissesse: “Ah, o Rio!…” E, acreditem, às vezes elas dizem.
Ao andar pelas ruas de São Paulo, mesmo naquelas ruas em que a fortuna impera e em que é preciso romper a custo a atmosfera impregnada de ectoplasma capitalista, sempre há a deselegância discreta das meninas nativas. O fato também é corriqueiro em shoppings de luxo dignos de Miami ou de principados árabes – a vida de corte não impregnou o jeito de ser da cidade, a roça segue envolvendo muitas almas…
No entanto, a imensa fortuna borbulhante da cidade projeta-a, para aprisioná-la, no coração do redemoinho consumista do século XXI. São Paulo é chique e é cafona. São Paulo é rica. São Paulo é um shopping febril. E surpreenda-se: é muito civilizada. Mas é Brasil, portanto, mestiço selvagem, tem lá a sua grosseria nativa, coisa bem nossa, mas sem comparação, contudo, com as trevas humanas que vivemos hoje, por exemplo, na bronzeada vida maravilhosa.
A coisa fica mais séria se olhamos a Pauliceia com bastante atenção. O que se vê? Ah, há os teatros – ah, os teatros de São Paulo, maravilhas da civilização perdidas nos trópicos! O prefeito do Rio devia organizar excursões escolares regulares para os burgueses cariocas (projeto barato, na atualidade eles caberiam numa modesta van!) para que eles conhecessem o que é teatro e empreendessem aqui, como queria a Lei Rouanet. Alfa, Santander, Itau Cultural, Folha, Novo, Procópio Ferreira, Frei Caneca, MASP, VIVO, Sérgio Cardoso, FAAP, Porto Seguro, Itália… a lista não tem fim. E o colosso do SESC SP? Desconfio que é impossível, hoje, saber quantos teatros existem em atividade em São Paulo. E o melhor de tudo: ocupados com teatro. Com espetáculos deslumbrantes, marcados por uma seriedade de produção desconcertante, uma capacidade de execução notável.
Ah, São Paulo, como não te amar se você tem esta generosidade com a alma humana desvalida do presente, tão necessitada de teatro, este colo quentinho da humanidade? Mas importa ficar alerta – com o fígado preso no século XIX, São Paulo padece de uma vergonha do seu dinheiro que é estarrecedora, intrigante, uma forma de culpa cultural estranhíssima, uma coisa que faz o rico viver o seu dinheiro com vergonha de ser rico e o pobre chafurdar na pobreza com vergonha de querer ser rico enquanto faz tudo para ficar rico. Se a aristocracia francesa inventou o nouveau riche, São Paulo inventou o nouveau pauvre. O lema é: pode-se ter dinheiro, mas urge fazer como que se não o tivéssemos, soframos… Pode ser que seja praga da fundação jesuíta, vai saber?
Assim, há por lá um vago preconceito contra o teatro de grande produção, incorporando-se neste rol o teatro musical, pois a pobreza mental do país ainda vê o musical como alienante, apesar de Brecht, dos cabarés alemães, etc – mas vamos pular esta outra discussão, muito longa e pouco oportuna aqui. De certa forma, apesar do panorama impressionante da vida teatral paulista, vigora na comunidade teatral deles uma espécie de raça teatral, como se estivéssemos nos estádios dos clubes, em que o que conta é a coisa visceral, subterrânea, de invenção, para iniciados. É preciso transcender, afundar o dedo nas dores mais estranhas da alma, mesmo que a maioria nem tenha ideia do que isto possa ser.
Este clima materializa atmosferas loucas. Além da relação tortuosa com o dinheiro, o odiado capital, maldito objeto de desejo e de repulsa, vigora um amor estranho ao despedaçamento, aos fragmentos, farrapos. E um amor doido à conversa íntima. Vale ter no máximo trinta pessoas na plateia – trezentas já é quase o caminho da excomunhão. Na tabela, o único teatrão aceitável é o TBC, porque histórico, fracassado, acabado, morto, enterrado. Se algum zumbi-Zampari sair da tumba agora e ousar fazer um novo TBC, vai levar ovo, no mínimo. Os paulistas sabem com excelência fazer um teatrão único, arrebatador, mas eles têm vergonha disto, acham que é algo velho, para ser visto por pessoas lobotomizadas.
Esquizofrênicos, distantes de si, teatros e mais teatros vicejam pela cidade de São Paulo, portanto. As formas teatrais são várias, de extrema riqueza. Quem pula a cerca do experimentalismo nobre e cai na vala do comercialismo espúrio perde o prestígio – mas o caminho inverso até pode ser celebrado, mesmo que o herói seja recebido com nariz torcido, pois o cheiro de dinheiro fica pregado para sempre em quem transita no palco comercial. Entretanto, para quem passeia por São Paulo e adora teatro, que prazer é mergulhar na Broadway paulista, a verdadeira Broadway brasileira – vai, que é linda!
Talvez por causa do TBC, os paulistas fazem teatro com um acabamento que, no Rio, só vigorava de verdade no finado Teatro Mesbla, aquele bem comercial de comédias rasgadas. Aqui, no Rio, as paredes trepidam com qualquer movimento de porta, as taças de cristal são de eloquente plástico, as sedas são tão sintéticas quanto os cabelos da Barbie… Para o teatro carioca, esta indigência é normal e deve ser contornada pela verve, pela imaginação, o tal do espírito de corte. E se o ator ri do fiasco, a plateia aplaude em cena aberta, em especial se for plateia da classe. O vexame vira criatividade. E pensar que os paulistas de teatro se envergonham de viver o oposto disto, desprezam a carpintaria nobre? Ô xente, que injustiça…
A longa reflexão nasceu após uma voltinha rápida de fim de semana por São Paulo. E também por uma lufada de alento, após a alvissareira notícia da estreia no Rio, afinal, da grande montagem paulista de O Homem de La Mancha, de Miguel Falabella, agora no Teatro Bradesco – um dos raros grandes teatros do Rio hoje. Um teatro que merece o século XXI.
A encenação é deslumbrante, imperdível, atesta o padrão de produção paulista com rigor. E o pior de tudo: ela revela por que São Paulo convenceu Miguel Falabella, carioca de quatro costados, a mudar de CEP. Miguel como Cervantes, sonhador como Quixote, Falabella, a histórica loura má do palco do Rio, não economizou talento ou força de trabalho para obter uma cena teatral poética triunfal. E a cidade não foi mesquinha com o seu novo filho. O resultado é digno de todos os louvores recebidos: deslumbrou já na estreia. Garanto, é imprescindível ver a montagem.
A fantástica produção é mais do que benvinda. A cidade foi a capital cultural do país, foi o berço do teatro profissional brasileiro, mas apresenta, hoje, uma cena tímida – são apenas cerca de dez musicais agora em cartaz no Rio, a maior parte formada por produções modestas locais. Neste quadro, é imprescindível receber as grandes montagens de São Paulo, sobretudo a fortuna musical.
Entre as duas cidades, surgiu um descompasso histórico de tal ordem que a maioria das produções paulistas não vem ao Rio. Aliás, a cartelera carioca de musicais é tão pouco louvada que não chega a merecer uma coluna de destaque, especializada, no principal informativo teatral carioca, o suplemento Rio Show, do Jornal O Globo. E o gênero, convenhamos, é bem típico do Rio, essencial para a saúde da cidade.
Uma pena. Um mercado teatral menos anêmico no Rio seria fortalecedor também para São Paulo, destaque-se. A praça teatral nobre ficaria dobrada. No momento, este é um grande passo que importa conquistar – um passo de gigante, vale reconhecer, agora que São Paulo ficou tão longe, se perdeu no horizonte. Talvez seja missão para bandeirante, quem sabe.
Mas a esperança move o mundo quando o amor ao teatro é verdadeiro: depois de tantas rusgas, de uma falsa inimizade histórica, chegou a hora de começar o namoro tão adiado entre Rio e SP. Que a fumaça das fábricas se una à espuma do mar e os deuses do tablado sejam louvados de forma ampla, geral e irrestrita, estejam eles dançando e cantando o amor aos homens, recitando dramas e risos cotidianos ou procurando fígados para esboçar estudos sobre a matéria de que são feitos os seres. Será que chegou a hora estimular vivamente o diálogo cênico interurbano, fazer São Paulo ficar mais perto, bem mais perto, de todos nós? A sorte esta lançada, torcemos.
O Homem de La Mancha
Temporada: 9 de junho a 27 de julho de 2018
Horário: quintas e sextas às 21h, sábados às 17h e 21h, e domingos às 20h
Local: Teatro Bradesco – Shopping Village Mall
Endereço: Avenida das Américas, 3900 – Barra da Tijuca – Rio de Janeiro – RJ
Classificação: 10 anos
Duração: 105 minutos
Gênero: Musical
Ingressos: R$75,00 até R$190,00
Informações: 21 3431-0100
Capacidade: 1060 lugares
Tagged: Cervantes, D. Quijote de La Mancha, Miguel Falabella, Teatro Bradesco, Teatro Carioca, Teatro Paulista, teatros de São Paulo
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Bia Lessa, a crise e o teatro nosso de cada dia
O país em crise, sob um estresse violento. E eu aqui, para sempre um ser fora da linha, obcecada por teatro, como se o palco persistisse, sob este vendaval de agora, com a mesma importância festeira dos dias de calmaria social. Quer dizer, vale perguntar se, na sociedade brasileira, existe a chance de atribuir uma importância festeira ao teatro, sob qualquer clima que seja. A festa nasce apenas do olhar dos que amam a cena, desconfio.
Mas, rápida, afasto a dúvida – acredito no teatro, no poder do teatro, na sua importância. Com sinceridade. Tenho a certeza cristalina, inabalável, de que o teatro importa para a vida, para a felicidade do indivíduo e para a felicidade social. Está fora de discussão, a meu ver, o imenso poder do palco para transformar o ser humano. No fim das contas, resta perguntar se a nossa sociedade conhece mesmo calmaria. Tirando aquela lá longe, na costa da África, que serviu de álibi para o Cabral, o velho, o saldo parece duvidoso.
Sim, lamento, mas é assim. Fiz o meu balanço pessoal e cheguei à conclusão de que, na minha rotina, ao longo da minha vida, a exceção foi, de verdade, toda esta época recente, desde os anos 1980, em que simulávamos singrar um mar de almirante, planar num céu de brigadeiro. Não uso uma imagem de general porque, para eles, parece que não existe esta necessária metáfora. Marchar num campo de general? Um campo de general, seria o quê? Repleto de margaridas? Alheio a minas e bombas? Desconfio que a imagem não funcione, talvez o exército esteja sempre nas agruras.
Pois bem – pode parecer estranho para alguns, mas herdamos um momento histórico tranquilo dos militares, exatamente. Depois do horror que foi a vida sob os governos militares, veio a restauração democrática e se instalou este clima de sociedade estável, que nem na minha infância, nos conturbados anos 1950, não vivenciei. Fui uma menina muito preocupada com travessuras, brincadeiras e livros, mas, ainda assim, lembro que havia uma atmosfera de sobressalto constante. Pelo menos uma vez arrumei uma trouxinha de tralhas para fugir de casa, para diversão dos adultos. Ameaça de instabilidade, por ar, terra e mar.
Portanto, tudo como antes, no quartel d’Abrantes. E se estamos condenados a existir em desassossego, que ao menos tenhamos o teatro para nortear o descaminho. Esta possibilidade de ver o rumo, por mais esgarçado que seja, em meio ao caos, já nos visitou este ano no mínimo uma vez, com a belíssima montagem de Grande Sertão, Veredas, de Bia Lessa, no Centro Cultural Banco do Brasil.
A inventividade plena da encenadora sacudiu o espaço, reinventou com olhar certeiro o texto, expôs uma forma sinuosa de atuação entre multifacetadas formas do humano e conduziu o público a um impressionante mergulho-Brasil. Um dos pontos mais curiosos, momento muito denso, foi o uso dos cobertores de feltro, aqueles usados pela população de rua, para fazer figuras humanas, evocações dos soldados chineses de terracota, numa época em que a China integra o nosso pesadelo para definir o país.
Pois bem, Bia Lessa está de volta, em São Paulo. Agora a proposta vai ainda mais longe, vai questionar os limites concretos e abstratos da vida, do ser, da representação. O espetáculo PI, Panorâmica Insana, conta com dramaturgia de Bia Lessa, Júlia Spadacini e Jô Bilac. Um mosaico, um caleidoscópio, um painel do indivíduo no nosso tempo vai inaugurar um espaço cênico em São Paulo, o Teatro Novo.
O processo de criação foi todo ele marcado pela busca da trama complexa que enreda o contemporâneo – quer dizer, em cena, estão em jogo formas plenas, amplas, uma combinação de procedimentos que justifica o recurso ao substantivo panorâmica. A própria dramaturgia foi desenhada a seis mãos a partir de textos de Júlia Spadacini, Jô Bilac e André Sant’anna, com citações de Kafka e Auster.
No elenco, os nomes de Claudia Abreu, Leandra Leal, Luiz Henrique Nogueira e Rodrigo Pandolfo atestam a excelência pretendida na representação. Representação? Aí começa o debate. A fluidez da linguagem é o cálculo primeiro – a cena pretende vagar entre o teatro, a dança e as artes plásticas. O cálculo foi pensado para alcançar um objetivo claro: olhar para a sociedade contemporânea nos seus meandros e descaminhos. Mas não está em vista a produção de um simulacro.
A partir de dados e de pessoas reais, a cena focaliza o indivíduo, a política, a riqueza, a miséria, a violência, a nação, a civilização, o desejo, o gênero. A observação da vida aqui e agora está sob o foco, mas para buscar atingir o atemporal, um tempo de humanidade em que há lugar para o reconhecimento, a dúvida e a ironia.
O espaço usado participa da ideia – o teatro, em obras, foi preparado para receber a montagem, mas está inacabado, entre a ruína e a obra concluída. Na área de representação, 8 mil peças de roupas serão usadas pelos atores em suas performances, uma insinuação de seres múltiplos e transitórios – ao final da temporada, as roupas serão doadas para instituições de caridade. E o flerte com o transitório se faz ainda na paisagem sonora, construída em camadas de música, ruídos, sons, vozes, como aconteceu em Grandes Sertões.
Portanto, há um sinal a propósito do em trânsito, da passagem, da hesitação – um pouco como se a humanidade estivesse neste hiato de tempo, necessitando de um teatro de invenção. O que se aponta, aqui, é a necessidade do novo, da ousadia, do corte e da ruptura com velhas formas, mas sem perder o molde e o fôlego.
Que cálculo é este? Se olhamos com atenção a História, vemos bem claramente que é impossível falar na existência do teatro. Nunca existiu o teatro, um teatro, a mesma e repetida arte. Cada tempo faz o seu palco, faz nascer a cena de que precisa para lidar com as mazelas de sua alma. O teatro é cria do seu tempo. Na História, o máximo que podemos encontrar é a pluralidade, os teatros dos diferentes homens no mundo.
Vivemos num tempo múltiplo, instável, contraditório, dilacerado, multifacetado. Temporalidades estilhaçadas, antagônicas, contraditórias, fragmentárias varrem a vida, coexistem e buscam arregimentar fiéis. O ser humano precisa cuidar de si e de sua independência, do seu direito pleno de ser. Haverá um teatro adequado para cada uma das forças em jogo? Ou só recorre ao teatro quem percebe os abismos da vida?
Agora, então, no Brasil, é preciso serenar a mente e os afetos para tentar entender verdadeiramente o que acontece, fora dos interesses cristalizados espalhados por toda a parte, desde Cabral – o velho. Para cada inquietação, seria importante ter uma cena. E cenas arrebatadoras, vertiginosas, universais, aptas para falar a todos, libertas de qualquer calmaria.
Um belo exemplo? Talvez Bia Lessa trafegue por este caminho. Não sei: vou a São Paulo ver. E vai ser divertido reconhecer justamente em São Paulo uma bela panaceia, concebida por uma carioca de quatro costados, para o dolorido momento nacional. O país está em profunda crise – mas talvez nenhum ponto do vasto território esteja tão dilacerado como o meu velho Rio, que afunda em mar revolto: esperemos contar com o abrigo de um afável porto, a estabilidade de preciosa âncora, nenhum Cabral aventureiro de novo por aqui. Ou ao menos um bom teatro forte, para amortecer, na queda, nossos delicados corações.
Pi
Panorâmica insana
Teatro Novo (320 lugares)
Rua Domingos de Moraes, 348 – Vila Mariana
Informações: (11) 3542-4680
Bilheteria: terça a quinta, das 14h às 19h; sexta a domingo a partir das 14h. Acessibilidade para cadeirantes. Estacionamento conveniado(em frente ao teatro).
Vendas: www.ingressorapido.com.br
Sexta e Sábado às 21h | Domingo às 18h
Ingressos: Sexta R$ 50 | Sábado e Domingo R$ 70
Duração: 90 minutos
Recomendação: 16 anos
Gênero: Drama
Estreia dia 01 de Junho de 2018
Temporada: até 29 de Julho
Tagged: Bia Lessa, crise e teatro, Grande Sertão: Veredas, História e teatro, PI Panorâmica Insana, São Paulo, Teatro Novo
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A Praça Mauá é Nossa
Querem acabar com a Praça Mauá – quer dizer, querem acabar com a Praça Mauá que reina na alma da muy leal e histórica cidade de São Sebastião que habitamos. Cidade-poesia, cidade-sonho, cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro lírico reconhece na velha praça, agora em transe para o futuro, um lugar mítico, berço histórico da cidade-lenda.
Muito desta atmosfera de inefável carioquice nasceu do porto, sem dúvida. Mas, reconheçamos, o Edifício A Noite, abrigo célebre da Rádio Nacional, assina a autoria de boa parte da trama de sedução que enredou a cidade, encantou o país e provocou o ciúme mais doentio de São Paulo, a capital febril fabril. Eles correram para fabricar algo mais alto! Mas o Rio era o Rio.
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O teatro, o dinossauro e os seus cupins
Os cupins – tão pequenos – conseguiram derrubar um dinossauro: esta foi uma das notícias surpreendentes da semana. É certo que eles são vorazes e obstinados, digamos. Ou objetivos. E também é certo que o dinossauro, no caso, era um pobre simulacro, restos de ossos armados em poderosa estrutura de madeira. Ela foi eleita pelos devoradores, que puseram o monumento abaixo. Aconteceu no Museu da Quinta.
Talvez o Museu da Quinta, a antiga residência de D. João e dos imperadores brasileiros, possua uma secreta identidade com o teatro brasileiro. Por isto a notícia me arrebatou, além, claro, do fato de eu ser apaixonada pelo Museu da Quinta desde a infância.
Paixões de lado, dá para afirmar que muitas analogias podem ser traçadas entre o antigo lar dos imperadores e o antigo altar da alma nacional, o teatro. A mais evidente das analogias é retumbante como a pátria – depois da glória como centros do poder no século XIX, os dois estão caindo aos pedaços.
E – dói reconhecer a evidência cruel – a ruína é resultado direto da nossa ação, da ação humana, quer dizer, desinteresse, baixa mobilização, egoísmo, falta de visão do bem comum. Talvez tenhamos um jeito republicano torto, um tanto maligno, que nos impeça de abraçar metas favoráveis à saúde nacional. Tanto saúde física, como cidadã ou simbólica.
Não, não vou discutir aqui o que o teatro e o museu nacional significam para a saúde nacional. O foco é outro. Penso que é trabalhoso, mas é fácil banir (e erradicar!) os cupins. Segundo as minhas vivências, é essencial matar a rainha. Quer dizer, banir o núcleo gerador do problema. Então, no caso do museu, como não frequento a casa, vou abdicar de formular sugestões objetivas.
Sim, já decidi, estou fora da Quinta da Boa Vista. Só volto por lá quando estiver bem espanada, pois a última vez em que lá estive, a múmia, a preciosa múmia estimada do imperador, uma peça ilustre de preço estratosférico, estava passando pela gloriosa experiência tropical de tomar banho de chuva! Fiquei com medo de deparar com a cena dantesca, de tanta intimidade, a cena de ver uma múmia egípcia arquimilionária tomando banho, e abdiquei, larguei a Quinta, como se inspirada por D. Pedro I fosse.
Portanto, a boa espanada por lá não seria coisa leve, tipo tirar pó de múmia, até porque a nossa múmia não tem pó, ela toma banho. A coisa seria pesada, tipo suspender o dinossauro. Ou indo mais longe: arranjar una escada eficiente para consertar o telhado… O espanador começaria bem lá em cima, portanto, para ir até o subsolo. Abdico. De folga, vou para o teatro. Abaixo os cupins, viva a cena.
E o que fazer com os cupins do teatro? Em primeiro lugar, reformar, limpar, consertar os teatros da cidade. Depois, construir uns cinco teatros de grande porte, para abrigar grandes espetáculos, inclusive grandes musicais, e permitir uma política sólida de interação entre educação e teatro. Sim, levar as escolas ao teatro, aos magotes.
Além dos grandes teatros, legítimos altares da cidade, faria os “teatros de bairro” – pequenos oratórios comunitários para peças mais delicadas, pontuais, onde haveria agenda para programações locais significativas. Também abriria uma linha de crédito para que cada escola pública construísse ou reformasse o seu teatro, um teatro para chamar de seu, onde os alunos fariam apresentações e receberiam visitas teatrais de peças profissionais adequadas aos seus estudos.
Todo artista interessado em descascar abacaxi e provido de uma faca afiada o bastante para tal fim teria direito a um financiamento amigável, liquidável, para construir o seu próprio teatro. Nenhum shopping seria autorizado a funcionar sem teatro. Uma rede de galpões espalhada pela cidade ofereceria apoio para depósito de materiais cênicos, de uso privado ou comum.
Mas teatro se faz com gente. Assim, todo ano haveria a escolha municipal do artista do ano – um dramaturgo (vivo ou morto), um ator, uma figura relevante do palco, algum ser teatral com dimensão histórica. Uma agenda de eventos celebratórios convocaria a coletividade para louvar, analisar, pensar, debater a figura. Uma grande montagem em sua honra seria o centro do ritual.
Algumas outras iniciativas seriam estratégicas para assegurar a barreira de contenção ao redor da arte, capaz de libertá-la de nova infestação de cupins. A primeira seria uma política permanente e consequente de edições teatrais – peças, programas, almanaques, revistas, livros de pesquisa e de estudos, dissertações e teses. A estante teatral largaria a anemia e ficaria bem robusta.
A segunda, coisa do espírito, implicaria na organização de seminários, simpósios e oficinas de formação, atualização ou reciclagem profissional, eventos para encontro e debates, trocas de ideias. Aconteceriam também concursos, prêmios e uma política séria permanente de bolsas para aperfeiçoamento de jovens talentos, com intercâmbio internacional.
Parte da formação escolar e cívica, o teatro contaria com um incentivo oficial direto do governo para a encenação de peças estruturadas no interior de projetos culturais. Em consequência, o ingresso seria subsidiado, poderia ter um preço mais barato do que o custo bruto da produção determinaria. Quem não desejasse este formato, poderia sim explorar todos os meandros do teatro comercial.
Penso que esta ciranda de ideias e de projetos culturais imunizaria o teatro, do subsolo ao urdimento. E esta é apenas uma singela sugestão pessoal. A sua divulgação social acarretará, se ocorrer, a multiplicação da espanada em infinitas fórmulas, o fim dos cupins. A atitude é urgente, estamos em ano eleitoral. O dinheiro público para esta virada só vai existir se o patamar de roubo e de corrupção for zerado… Portanto, liberte os seus sonhos, ponha para fora os seus desejos, cobre soluções. Venha para o espanador você também! O tempo pede.
Sim, o terreno é muito propício para ações de saneamento bem radicais. Veja-se, por exemplo, a linda escolha jovem que estreia esta semana no Teatro Serrador – um dos textos mais impressionantes de Ibsen, Um Inimigo do Povo, direção de Bruce Gomlevsky. A montagem marcará a formatura de uma turma do primeiro semestre de 2018,da CAL, do curso profissionalizante de ator. E denuncia uma vontade de mudar vigorosa.
O debate proposto pelo texto é um nó atravessado na alma carioca desde o Império – a salubridade das águas urbanas. Inferno dos trópicos, o Rio teve um longo tempo de fama de pestilência, em especial em algumas regiões ao redor da Baia de Guanabara, sem que se chegasse a debater francamente o assunto.
Outras montagens aptas para sacudir a madeira dos palcos e ajudar o movimento espanta-cupim podem encantar o público, com um banho de carioquice, como a esperada homenagem a Martinho da Vila. E podem ser teatro em estado puro e alta voltagem, caso de Contracapa, texto original de Suzana Nascimento, direção de Priscila Vidca. A peça propõe uma discussão coerente com a necessidade humana geral de faxina: aborda as relações familiares, avaliadas através de escolhas feitas no passado, e de suas consequências. No elenco, José Karini, Roberto Frota, Rocio Durán (idealizadora do espetáculo) e Saulo Rodrigues.
A rigor, a empreitada de sacudir tudo, arejar, espanar e espantar cupins tem uma utilidade complementar importante: impede que os seus promotores, os protagonistas, imóveis, inativos, virem múmias, situação perigosa no Brasil, pois a chance de uma múmia ser condenada a banho de chuva é enorme. Dizem alguns que o teatro brasileiro não sofre este risco: mesmo infestado de cupins, ameaçando cair, ele persiste jovem e de bom humor. Pode cair e sobreviver. É atlético. Mas o ideal, de verdade, é que fosse uma realidade cultural fervilhante e que o fervilhar não fosse a ação destrutiva dos cupins.
“Contracapa”
Temporada: de 18/5 a 10/6 – sexta e sábado, às 20h; domingo, às 19h.
Local: Casa de Cultura Laura Alvim. Av. Vieira Souto 176. Tel.: 2232-2015
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia).
Lista amiga: contracapaapeca@gmail.com
Capacidade: 190 lugares. Duração: 70 min. Classificação etária: 14 anos.
Tagged: Bruce Gomlevisky, MÚmia egípcia, Museu da Quinta da Boa Vista, Priscila Vidca, saúde do Teatro Brasileiro
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Ora, para quê afinal servem os atores?
Atores são descartáveis. São perecíveis. O teatro acontece, o prédio e a peça ficam, o resto vai embora. Às vezes, nem o prédio nem peça sobrevivem. Mas, de imediato, o resto morto sempre é o ator e o seu baú de truques e disfarces. Portanto, para quê servem os atores, este exagero vadio de humanidade? Para esquecer? Servem apenas para sumir nas voltas do tempo? Quem se interessa por essas pequenas partículas de sentimento e escassa razão?
Resumo com as minhas palavras delirantes a queixa de um aluno ator diante de uma velha crítica teatral, documento amarelado inscrito com rigor colegial num papel velho, fonte para o estudo de uma peça esquecida. O tempo arrastou todos para um porão mofado em ruínas – a peça, os atores, a intervenção crítica, por sinal muito malvada, cujo objetivo era este mesmo, apagar a obra.
Nas críticas, me dizia triste uma jovem amiga ainda outro dia, existe um formato congelado, velho. O ator fica dependurado lá no fim, em palavras rápidas, às vezes só citação, às vezes engolido na constatação lacônica de que o elenco estava bem, mal, péssimo.
E, no entanto, quem faz a força, a beleza e a magia do teatro brasileiro é o ator. Nas nossas críticas, não devíamos copiar o velho modelo francês, consagrado no século XIX, de origem acadêmica explícita. A fonte desta crítica-modelo era o résume, a apresentação condensada da intriga da peça. Ao redor deste coração, razão de ser do texto, orbitava a qualificação do autor, a fortuna de sua obra e do seu perfil. O espetáculo existia só para que as letras adquirissem vida.
A academia, olimpo das letras poderoso, paraíso desejado pelos jornalistas enredados nas miudezas da imprensa, devia ser vista como um padrão de qualidade normativo para os textos críticos. O jogo do mercado, o gosto do público, a capacidade artística específica de cada ator, nada disto podia contar para a análise da peça.
Ou melhor – contavam sim, contavam para que se apontasse como estes sensacionalismos esfumavam ou não a obra, quando ela possuía méritos acadêmicos de monta. Se a obra fosse um produto de ocasião, moldado para as correntes do mercado, para o perfil de um artista ou de um elenco, ou – a pior de todas as perfídias contra a arte – fosse um arranjo para cortejar o gosto do público, a saraivada do crítico era para derrubar o equívoco, o conjunto.
Não existe, assim, na tradição franco-lusitana que seguimos na crítica desde o século XIX, qualquer chance de valorização do trabalho do ator ou de destaque do jogo de cena. O que governa o olhar crítico neste filão acomodado é o fluxo ditado pelas letras, pelo texto. E se a cena rompe o texto, o defeito é da cena, ela está errada – a via é de mão única.
O mais notável na História do Teatro Brasileiro é a persistência deste modelo mesmo depois do advento do “teatro moderno”. Esta revolução teatral tão especial, consagradora da encenação como pedra de toque da arte do palco, obra do diretor capaz de moldar o trabalho de um elenco, não foi capaz de mover a chave de leitura crítica, do texto para a cena.
O paradoxo se torna ainda maior se atentarmos para um fato bastante prosaico: o teatro brasileiro tem ator, aliás foi iniciado, no século XIX, por um grande ator, João Caetano (1808-1863), mas não tem autor. O dramaturgo não existe no Brasil. Não é respeitado, não é reconhecido.
Bem, na verdade, é bem pior do que isto. A literatura dramática não existe no Brasil. Na escola, os brasileiros não estudam literatura dramática. Se os alunos chegam a saber da existência de José de Alencar ou Machado de Assis, por exemplo, eles não sabem que eles foram dramaturgos. Os professores de Português se formam sem ter aulas de Literatura Dramática. Aqui, Gil Vicente é um ilustre anônimo.
Portanto, é hilário pensar que a densidade do palco brasileiro é medida, nas críticas teatrais, através da aferição da voltagem literária da cena. O que isto significa? Significa ignorar a identidade da cena nacional, de saída. E significa também desconhecer a grande força produtiva, a extrema energia criativa que sustenta de pé o teatro do país – a força do ator.
Hoje, na cena brasileira, existe uma variedade impressionante de estilos, vertentes de trabalho, orientações profissionais, no que se refere à presença dos atores. Há uma força histórica original vibrante, minoritária, quase extinta, que ecoa em grandes atores como Ary Fontoura. Ou em Ana Lúcia Torres.
O texto é rápido, não permite grandes detalhamentos, ficará na observação geral. Sem considerar a grandeza histórica do ator nacional, é impossível pensar a força cênica deste ator no palco – temas como presença, percepção espaço-afetiva, expansão da aura são estratégicos e remontam à grande tradição.
Vale percorrer os tijolinhos de anúncio das peças e garimpar os valores expressivos correntes na cena brasileira hoje. Se os cartazes da temporada são considerados, o ponto de partida para pensar o ator pode ser estruturado ao redor de três vertentes independentes, além daquela acima, que se poderia definir como tradicional ou universal, por sua grande extensão estético-artística.Ela reune os atores absolutos, dedicados à abolição de si em cena, mas sintonizados com a imensidão histórica. Seria a vertente de Ary Fontoura, já citado, de monstros sagrados absolutos, como Antonio Fagundes.
As três vertentes que descrevo aqui são simples: o histrionismo imediato, a dimensão plástica e o ator sem corpo. É possível encontrar seres híbridos, cujos trabalhos mesclam as diferentes linhas. Mas sempre um tom define ou predomina em cada personalidade.
Há uma graduação técnica de uma para a outra vertente, mas tal não significa inferioridade ou superioridade, apenas diferença de procedimento. De certa forma, na primeira definição, o histrionismo imediato, devem ser situados atores de orientação racionalista, brechtianos, portanto, performers e “narratores”, contadores de histórias. São atores que se fazem conduzir pela palavra e por seus efeitos automáticos, ou por suas habilidades pessoais expressivas primárias: charme, bem dizer, empatia, simpatia.
Nesta primeira vertente estão situados também os atores mais jovens, menos experientes, e os profissionais que não conseguem, mesmo aclamados, sair de si, de sua forma pessoal, seu jeito de ser. São atores declamadores, ventríloquos, ainda que nem sempre senhores do texto apresentado. São sinceros e entregues, esforçados, mas contidos por sua incapacidade para vencer a sua própria forma pessoal, limite gerado por escolha, por vaidade ou por limitação de seu ímpeto interior. Isto não significa a apresentação de trabalhos ruins, mal teatro, mas um feitio específico de ocupar a cena. Em geral, os cômicos são filhos desta categoria.
Na segunda categoria, a dimensão plástica, concentram-se os atores de filiação moderna e pós-moderna, intérpretes dotados de aguda percepção do quadro da cena, senhores zelosos dos efeitos que podem acionar com o seu corpo. São atores de forte carisma, preocupados com a plasticidade física, atentos à sua integração ao conjunto da obra teatral.
Estes atores plásticos surpreendem graças à percepção aguda de sua aura: cuidam de sua dimensão, percebem o seu alcance e tecem um diálogo vigoroso entre o espaço, o conjunto da obra e o próprio corpo. Eles expandem a aura. Há pouco, um exemplo notável desta linha esteve em cena no CCBB, com a Cia dos Atores e o intrigante Insetos, trabalho em que a dimensão da construção física chegava a alcançar um impacto perturbador.
Finalmente, sobre a terceira vertente, a do ator sem corpo, se poderia observar que se trata de uma visão artaudiana e, portanto, de resto, inexistente. Não é verdade: ela está aí, mesmo que surja com frequência em fiapos, ocasião em que só pode ser denominada ator sem corpo por uma opção paradoxal. Pois o ator sem corpo é justamente aquele que consegue tornar o seu corpo metafísico, imaterial, apagado a favor da arte. É um corpo pungente e sublime, doado para transportar a plateia para um outro lugar que não o aqui-agora.
Não, não há malabarismo, acrobacia, contorcionismo – o ator constrói um fluxo de emoções em si, não apenas nas palavras e nos gestos, mas na totalidade da sua pessoa. Magnetiza, contamina a cena, um pouco como Rubens Corrêa conseguia fazer, José Wilker quando liberto de certos maneirismos. Ary Fontoura parte da grande tradição para chegar neste lugar em que o corpo é só instrumento, abolição de si. A palavra é um gatilho, usada para desencadear uma construção imaginária envolvente, induzir um estado de suspensão.
Muito do trabalho das jovens companhias – como o Armazém, com Patricia Selonk e Elisa Eiras – transita por esta busca. Diversas montagens da Cia dos Atores propuseram este lugar. Caio Blat, na montagem de Grandes Sertões – Veredas, direção de Bia Lessa, se afirmou com potencia absoluta no lugar do ator sem corpo, subsunção requintada do fluxo interior da literatura no espaço.
Um espetáculo em cartaz, singelo no seu despojamento, virulento na sua espiral de arte, exemplifica com rigor o debate – A vida ao lado, de Cristina Fagundes. Vale conferir – e rir muito. A montagem exige mais do que este comentário apressado, mas precisa ser citada por tudo o que representa em função do assunto da coluna. É para conferir como o corpo dos atores se torna trama, espaço, afeto e tempo.
A julgar por depoimentos, críticas, reportagens, Itália Fausta (1878?-1951) foi precisamente uma atriz sem corpo. Nunca vi um trabalho seu; até onde pesquisei, ela nunca foi filmada, e ela morreu antes do meu nascimento.
Alguns contemporâneos gostavam de falar do seu potente vozeirão, que estremecia as paredes dos velhos teatros ou se projetava ao redor do Campo de Santana no teatro ao ar livre. Nas fotos, mesmo quando ela está num conjunto, sua pose solene sempre catalisa a atenção, atrai o olhar; a dimensão dos gestos insinua conter em si a percepção do tamanho do palco.
E, no entanto, é difícil encontrar, mesmo na classe teatral, quem saiba quem foi Itália Fausta, a grande trágica brasileira, a dama absoluta da cena que sacudiu a República Velha. A conclusão é cristalina, como os brilhantes valiosos doados às grandes atrizes, no tempo em que elas eram rainhas fugazes: o ator é opaco para a posteridade, ele só é revelado ao mundo por terceiros, pelos seus contemporâneos.
Falar em brilhantes é falar em prêmios e hoje, no nosso jogo teatral, buscamos compensar a falta de projeção dos atores no tempo com as premiações. Vem aí nesta quarta a entrega dos Prêmios APTR de teatro 2017, no Teatro NET Rio, e o centro da festa será, como sempre, a celebração dos atores, estes mesmos que, embora laureados, vão morrer para a História. Assim como são transparentes nos textos críticos, pois devem deixar ver outra coisa que não eles próprios ou o seu trabalho.
Ao passar ao largo do trabalho do ator, ao não lançar um foco mais intenso sobre o seu trabalho, a crítica teatral presta um grande desserviço ao país – deixa de reconhecer os méritos, para o bem e para o mal, dos artistas responsáveis pela existência do teatro aqui. A maioria dos projetos encenados nos palcos do país é obra de atores.
Portanto, perguntar sobre a utilidade dos atores, perguntar para quê servem estes seres tão dependentes do outro, é perguntar francamente sobre a nossa ignorância. Está na tela algo simples, mas muito doloroso, o nosso fracasso para reconhecer os seres raros que trabalham para a nossa maior grandeza, a percepção do outro. quem não reconhece o outro, é indigente histórico: somos carentes de civilização.
A VIDA AO LADO – (COMÉDIA)
Duração: 1h30min
Temporada: 03 a 26 de maio de 2018
Local: Teatro Municipal Serrador
Endereço: Rua Senador Dantas – 13 / Centro
Telefone: (21) 2220-5033
Dias: Quintas / Sextas e Sábados, às 19h30min
Ingressos: R$40 (inteira) / R$ 20,00 (meia entrada)
Classificação: 14 anos.
Indicados ao Prêmio APTR -2017
ESPETÁCULO
ADEUS, PALHAÇOS MORTOS
HAMLET
LOVE, LOVE, LOVE
SUASSUNA – O AUTO DO REINO DO SOL
TOM NA FAZENDA
ATOR EM PAPEL PROTAGONISTA
ADRÉN ALVES – Suassuna – O Auto do Reino do Sol
ARMANDO BABAIOFF – Tom na Fazenda
ARY FONTOURA – Num Lago Dourado
GUSTAVO VAZ – Tom na Fazenda
RICARDO KOSOVSKI – Tripas
ATRIZ EM PAPEL PROTAGONISTA
ALINE DELUNA – Josephine Baker, A Vênus Negra
DÉBORA FALABELLA – Love, Love, Love
GUIDA VIANNA – Agosto
MONICA MARTELLI – Minha Vida em Marte
PATRÍCIA SELONK – Hamlet
YARA DE NOVAES – Love, Love, Love
ATOR EM PAPEL COADJUVANTE
CLAUDIO MENDES – Agosto
FÁBIO ENRIQUEZ – Suassuna – O Auto do Reino do Sol
MÁRIO BORGES – Doce Pássaro da Juventude
RENATO LUCIANO – Suassuna – O Auto do Reino do Sol
RODRIGO POCIDÔNIO – Adeus, Palhaços Mortos
ATRIZ EM PAPEL COADJUVANTE
CLAUDIA VENTURA – Agosto
HELOÍSA JORGE – O Jornal
KELZY ECARD – Tom na Fazenda
LETÍCIA ISNARD – Agosto
LISA EIRAS – Hamlet
AUTOR
BRÁULIO TAVARES – Suassuna – O Auto do Reino do Sol
GUSTAVO GASPARANI – Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba
LUÍS ALBERTO DE ABREU – Pagliacci
MONICA MARTELLI – Minha Vida em Marte
PEDRO KOSOVSKI – Tripas
DIREÇÃO
ERIC LENATE – Love, Love, Love
JOSÉ ROBERTO JARDIM – Adeus, Palhaços Mortos
LUIZ CARLOS VASCONCELOS – Suassuna – O Auto do Reino do Sol
PAULO DE MORAES – Hamlet
RODRIGO PORTELLA – Tom na Fazenda
CENOGRAFIA
AURORA DOS CAMPOS – Tom na Fazenda
BIJARI – Adeus, Palhaços Mortos
CARLA BERRI E PAULO DE MORAES – Hamlet
MARCOS ANDRÉ NUNES E MARCELO MARQUES – Guanabara Canibal
SÉRGIO MARIMBA – Monólogo Público
FIGURINO
ANTÔNIO GUEDES – Ubu Rei
JOÃO MARCELINO E CAROL LOBATO – Hamlet
KIKA LOPES E HELOISA STOCKLER – Suassuna – O Auto do Reino do Sol
MARCELO OLINTO – Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba
ILUMINAÇÃO
ADRIANA ORTIZ – Monólogo Público
MANECO QUINDERÉ – Hamlet
PAULO CÉSAR MEDEIROS – O Jornal
RENATO MACHADO – Guanabara Canibal
TOMÁS RIBAS – Tom na Fazenda
MÚSICA
ALFREDO DEL PENHO, BETO LEMOS E CHICO CÉSAR – Suassuna – O Auto do Reino do Sol
FELIPE STORINO – Guanabara Canibal
JOÃO CALLADO – Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba
MARCELO ALONSO NEVES – Dançando no Escuro
CATEGORIA ESPECIAL
ANIELA JORDAN – pela gestão e programação do Centro Cultural João Nogueira – Imperator
IVAN SUGAHARA – pela curadoria da Sede das Cias
RENATO VIEIRA – direção de movimento e coreografias de “Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba”
SERGIO SABOYA – pelo Festival Cena Brasil Internacional
VERÍSSIMO JÚNIOR – pelo trabalho no Teatro da Laje
PRODUÇÃO
AGOSTO
SUASSUNA – O AUTO DO REINO DO SOL
TOM NA FAZENDA
UBU REI
UM BONDE CHAMADO DESEJO
VAMP, O MUSICAL
HOMENAGEM
Amir Haddad
Comissão julgadora do Prêmio APTR:
Bia Radunsky, Daniel Schenker, Lionel Fischer, Luiz Felipe Reis, Macksen Luiz, Maria Siman, Rafael Teixeira, Rodrigo Fonseca, Tania Brandão e Wagner Correa de Araújo.
Tagged: A vida ao lado, Antonio Fagundes, Armazém Companhia de Teatro, Ary Fontoura, Bia Lessa, Caio Blat, Cia dos Atores, definição de ator, João Caetano, Lisa Eiras, Patricia Selonk, Prêmio APTR 2017
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O amigo fiel do pobre herege
Todo mundo sabe que o teatro tem um notável arqui-inimigo.Um monstro horrendo, hediondo. Quer dizer, as caravanas passam e o teatro tem sempre alguém odioso, aquele ser que consegue levar o povo atrás da caravana, para bem longe caixa do teatro. É o inimigo exemplar. Na verdade, o inimigo da vez. Ele é mutante.
Sim, o inimigo muda de figurino, de cargo, de natureza, de vontade e de alma. Às vezes é a chuva, ou o calor, ou a violência, ou o preço, ou o prefeito, ou as eleições, ou o carnaval, ou as festas religiosas – sempre há um inimigo forte para detonar o teatro. Ou para levar a culpa pelo desastre.Um teatro que acontece num mercado fraco precisa ser vítima de alguém o tempo todo para camuflar, de si e dos outros, a sua fraqueza.
Mas, contudo, em especial aqui no Brasil, o teatro tem um amigo dileto, de coração e alma, uma espécie de irmão por afinidade. Aquele alguém que cuida, colabora, se preocupa e até financia. O amigo ama o teatro, pensa que o palco é necessário, uma forma de oxigênio social estratégico para a saúde da vida em comum. Por causa deste amor, ele vela pela arte desde o século XIX. Ou até mesmo, numa certa liberdade histórica, desde o século XVIII. Sabe dizer quem é?
Não precisa fazer muito esforço. O grande amigo social do teatro, no Brasil, é o comércio. Há uma história rica por ser escrita envolvendo as duas atividades. Se o comércio esteve perto de alguns dos primeiros atores semiprofissionais do século XVIII, ele foi a origem de Martins Pena, Artur Azevedo, Jayme Costa… para ficar em alguns grandes nomes.
Talvez a necessidade vital de sociabilidade que rege a prática do comércio explique a sua aproximação e a sua identidade com o teatro. A exigência da relação intensa e imediata com o outro solicita um apuro da humanidade, do estar em conexão, para que a ação comercial aconteça e seja bem sucedida. O teatro seria quase uma escola de aperfeiçoamento para o comércio.
Esta relação profunda, autêntica sintonia de alma, explica alguns fatos importantes da rotina teatral brasileira. E o fato mais importante a considerar é o decidido apoio do SESC ao teatro no Brasil. Na verdade, o SESC é a única instituição nacional que apresenta esta visão a favor da arte e que, consequentemente, dialoga em profundidade com o palco. São várias iniciativas, desde a manutenção de uma rede de casas de espetáculos, até a formação de plateia, a formação e o aprimoramento de artistas, passando pelo apoio à produção e por projetos voltados para a política de estruturação da arte.
Nesta conjuntura, não é de espantar o sucesso e a força de um projeto de alcance revolucionário para o teatro nacional – o Palco Giratório. Trata-se de um projeto político, devotado em profundidade à estruturação da arte, mas em larga extensão também formador de artistas e de plateia.
O Palco Giratório promove a circulação de peças, em especial as montagens de grupos densos em seu artesanato da arte, pelo vasto território do país. Este movimento trabalha a favor de um desenho futuro, a possibilidade a longo prazo de constituição de um mercado nacional da arte, articulado em circuitos, algo adiante da velha estrutura mambembe, do litoral e do sertão, em atividade desde, no mínimo, os tempos de Artur Azevedo.
É verdade que não se constrói o mercado a partir de ações executivas ou de atos de vontade. O mercado é uma dinâmica econômica histórica, resultado da ação das forças produtivas. Para o mercado de arte, a instrução e a difusão da cultura são fatores primordiais.Sem escola e sem estímulos ao consumo cultural, não há chance do mercado se estruturar.
Com certeza é necessário ter poder econômico, pois, sem renda, não existe público. Mas, a rigor, se a demanda simbólica existir, é possível ajustar o preço do produto – a plateia estudantil e intelectual é, em todo o mundo, uma plateia pobre, precisa de ingressos baratos. As plateias operárias e de baixa renda podem constituir parte expressiva do mercado. De toda a forma, o centro do mercado é formado pelos ricos – se eles não forem ignorantes. Com frequência, alguns segmentos da classe teatral desancam com a burguesia, xingam o público do sábado – esquecem que são eles os que pagam os seus salários.
A situação é bastante irônica. Não é elegante falar mal do patrão: foi a expansão burguesa que emancipou os artistas e jogou a arte, livre, no mercado. O comércio e o SESC, portanto, são fatos importantes do mercado. De certa forma, são pais da produção teatral por aqui. Assim, falar mal da classe média, da burguesia e dos endinheirados pode ser algo bem próximo de pirraça de filho malcriado.
Muito da fragilidade do mercado brasileiro nasce desta tensão, com freqüência desviada para a agressão, cujo resultado mais forte e lamentável é o desinteresse do público. Um problema comum, uma atitude curiosa encontrada em quem faz teatro, é a postura messiânica: o artista acha que tem a luz, sabe o caminho, é iluminado, vai salvar o mundo e as pessoas. A arrogância cega o artista e faz com que ele se torne autoritário. O teatro se transforma num pregador herege prepotente, pobre de maré de si.
No esforço salvacionista, contudo, o artista só vai salvar algumas pessoas, as que têm dinheiro e já perceberam a grandeza divina do guru. Os outros, sem dinheiro e/ou insensíveis ao salvador, vão para o inferno, a vida corrente da sociedade de consumo. Na verdade, vão curtir outras formas de arte, pois na sociedade contemporânea ninguém vive sem arte e as formas doutrinárias encontram um espaço reduzido, pois as igrejas e seitas cumprem melhor este papel de salvar almas.
Na equação proposta pelo SESC e pelo Palco Giratório esta tensão se dilui. O amor ao teatro é tamanho que ele se tornou, neste campo, algo orgânico. Não sei se o SESC sabe claramente o perfil do seu público, mas, em todo o material que divulga, aparece clara a intenção de formação, estratégia prioritária hoje para a crise do teatro do país. A preocupação com a multiplicidade de linguagens também é forte, muito embora a tradição tenha menos força do que a inovação.
O resultado? Importa acompanhar de perto, avaliar, saber o que acontece no Palco Giratório. Dimensionar as atividades, situar as peças e as propostas de arte. O mapa de atividades precisa ser divulgado, examinado, debatido. Pois, além de trazer a marca de um amigo histórico, ele tem a força decisiva das ações que contam para o bem da sociedade em geral.
Ainda no interior destas ações, a semana teatral vem abençoada por uma iniciativa áurea muito festiva – a reinauguração do Teatro Adolpho Bloch, uma casa de qualidade notável, um palco que estava fazendo falta. A reinauguração não poderia ser mais significativa para a história do Rio, pois o espetáculo de abertura é o interessantíssimo O Musical da Bossa Nova, direção de Sergio Módena, que volta ao cartaz reformulado.
O musical celebra uma parte nobre da arte carioca, a Bossa Nova, assim como o teatro, fechado há dezoito anos, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, celebra a grandeza do Rio. Depois de várias tentativas para promover a reabertura da casa, o sucesso foi conquistado graças à iniciativa da Aventura Empreendimentos, em parceria com a BR Properties, atual proprietária do imóvel em que foi erguido o teatro tombado.
Portanto, alvíssaras: para todos os que andam sofridos com a situação do Rio e com a instabilidade que envolve o país, dá para dissipar a atmosfera sufocante com uma ida ao teatro. A montagem oferece um mergulho numa época em que o Rio era puro charme, criatividade, elegância e arte de bem viver. E o Brasil era uma promessa para o futuro, com um potencial arrebatador, associado a uma terra capaz de fazer o mundo cantar e dançar. Sobra emoção e conforto sentimental! Além do mais, o teatro está lindo, confortável, radiante.
Quer dizer, podem ser várias idas ao teatro. A primeira tem a importância de conhecer ou rever o Teatro Adolpho Bloch, a oportunidade de contar com 90 minutos da melhor música brasileira, apresentada por atores cantores brilhantes, senhores da cena, envoltos numa visão inteligente da história recente da cidade e da música. Ao redor, espalhado pela cidade em múltiplas atividades, o Palco Giratório do SESC traz o Brasil teatral, uma iniciativa para tentar estimular a transformação do teatro em paixão nacional. Quem sabe, um dia, se torne realidade, o desejo eloquente do amigo?
O Musical da Bossa Nova
Direção de Sérgio Módena,
Pesquisa: Rodrigo Faour
Elenco: Claudio Lins, Marcelo Varzea, Nicola Lama, Jullie, Stephanie Serrat, Andrea Marquee, Ariane Souza, Ariane Souza, Eduarda Fadini, Juliana Marins e Tadeu Freitas
Duração 90 minutos
Estreia para o público: 04/05/2018, com sessões às sextas, sábados e domingos.
Teatro Adolpho Bloch
Rua do Russel, 804 – Glória, Rio de Janeiro – RJ, 22210-010
+55 21 2558-3862
SERVIÇO: PROGRAMAÇÃO – Festival Palco Giratório (programação completa no arquivo anexo)
Atrações gratuitas (25 espetáculos, com dança, circo, teatro e música, sete oficinas teatrais e ações de intercâmbio com companhias do Rio de Janeiro e de outros estados)
Data: 2 a 30 de maio
Local: Espaço Cultural Escola Sesc
Endereço: Avenida Ayrton Senna, 5677 – Jacarepaguá
Informações: (21) 3214-7404 / espacocultural.escolasesc.com.br
Estacionamento gratuito sujeito à lotação
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A Caixinha de surpresas do vendaval
Parece um vendaval – para onde você olha, tudo vai pelos ares, esvoaça, como se dançar fosse o destino natural de tudo. Um alento, diante do freio de arrumação alucinado, bagunçando o coreto geral: dá para arejar as ideias, ousar pensar o novo, perguntar a sério a respeito do que desejamos para a vida. O vendaval na vida sacode a vida, mas é ótimo para pensar a vida. Quem sabe, rever tudo.
A notícia furacão da semana no Rio é o anúncio, ainda não confirmado oficialmente, de que os generosos espaços da Caixa Cultural RJ, no Centro, serão fechados até agosto. A unidade conta com um teatro de arena encantador, dois cinemas, quatro galerias de arte, além de espaços complementares para ensaios e oficinas. Em suma, um centro cultural dinâmico e de atuação reconhecida na cidade.
Segundo as informações sopradas por um funcionário anônimo, a bomba foi anunciada numa reunião interna. Na versão do disse-me-disse, a Caixa vai se mudar para um prédio mais modesto, em que não há espaço para a cultura, só para a contabilidade mesmo. Portanto, a Caixa estaria às vésperas de uma mudança radical. Pronta para encolher, mas só no Rio – a Caixa Cultural permaneceria intacta nas demais capitais, a saber Brasília, Curitiba, Fortaleza, Recife, Salvador e São Paulo.
O estopim teria sido o alto preço do aluguel do imóvel, uma surpresa para quem sempre pensou que a casa espaçosa da Caixa era própria ou, não sendo, que a entidade seria rica o bastante para bancar o teto chique no ponto nobre do Centro do Rio. Vamos combinar que o simples contorno do boato – se é que se trata de boato – já é estarrecedor. A Caixa sem dinheiro para pagar o aluguel?
A coisa vai mais além até: pululam os adjetivos de surpresa e medo. É muito preocupante, numa república que não tem feito outra coisa a não ser enriquecer os bancos, um banco estatal tradicional forte aventar dificuldades para pagar o aluguel. A poupança da alma de cada cidadão estremece. E, no Rio, mais adiante do cenário nacional ameaçador, o carioca urra.
Pois, em primeiro lugar, não existe mais aqui espaço sentimental para cogitar uma redução maior ainda da vida cultural da cidade, a tal que seria a capital cultural do país. A vida cultural carioca está enrodilhando ladeira abaixo e a expectativa de todos, em especial diante do poder público, é a do anúncio de medidas de reversão da crise. Anúncios de mais aperto e redução, não dá para aceitar não.
Dentro em breve, o Rio poderá se tornar, ao menos em termos relativos, a primeira megalópole do Ocidente sem teatro, pois a divisão do número de assentos teatrais pelo número de habitantes vai dar um número negativo espantoso. Os teatros fecham aqui num ritmo inadmissível – qualquer governo digno deste nome já teria tomado medidas eficientes a respeito, trataria de estancar a hemorragia.
Há muito tempo atrás, numa entrevista jornalística, perguntei a Fernanda Montenegro qual seria, no seu entender, o motivo para a não expansão da oferta de teatros no Rio. Ela argumentou com uma condição ditada por aqueles tempos, anos 1980, em que imperava o poder dos Sérgios Dourados: a especulação imobiliária tornava o teatro um investimento anacrônico. Em parte, ela estava com a razão – só em parte. Tudo indica que há uma engrenagem perversa, violenta, mais profunda, interessada em cultivar a sociedade de degradação humana que está se espalhando aqui.
O fato é que o teatro não interessa ao Estado, ao Poder bárbaro, pois ele é um dispositivo eficiente para a construção do cidadão sensível pleno. Para completar a nossa ruína, tampouco a classe conseguiu demonstrar, e consolidar, com ímpeto e fúria, a importância social da arte da cena. Por isto, o teatro só faz definhar. E a Caixa, como Eike Batista e tantos outros antes, pode insinuar o fim de uma importante casa de teatro – e de cultura – na certeza da impunidade. A lista dos teatros que foram abaixo no último século sem que nada acontecesse diante do crime de lesa-comunidade é revoltante.
Mas há um segundo problema a considerar, para dimensionar o absurdo que é, para a sensibilidade carioca, o fim das atividades da Caixa Cultural. A Caixa Cultural foi criada e instituída com dinheiro do povo. A Caixa é um banco público. Fechar a Caixa Cultural é crime contra a economia popular. E é uma estocada feroz na Lei Rouanet.
Não tenho dados, mas certamente a Caixa Cultural se valeu da isenção fiscal. Assim, é dinheiro público ao quadrado. A Lei da Isenção fiscal foi concebida, no Brasil, para tentar levar a elite, indiferente e desinteressada pelo país, a investir na produção de cultura brasileira. Colonizada, hipnotizada pelo mercado internacional, a elite brasileira nunca sentiu outro interesse cultural que não fosse a produção europeia ou norte-americana.
Uma frase brincalhona atribuída a uma grã-fina paulista de quatrocentos anos, mecenas das artes mais por obrigação do que por gosto, retrata bem a condição nacional. Segundo o folclore, ela costumava dizer: “Quando noto que sinto vontade de olhar as vitrines do Mappin, é porque está na hora de voltar para Paris.”
A hora, portanto é de perguntar se a Lei Rouanet foi para Paris, digamos. Ou ficou a ver navios. É escandaloso que este dispositivo legal de aplicação do dinheiro público na cultura tenha se tornado uma ferramenta de marketing de empresas, bancos, instituições financeiras, em lugar de ter gerado uma torrente de investimento privado a favor da cultura no país. O que aconteceu? A rigor, as leis de incentivo fiscal, ao menos teoricamente, viabilizaram a redução das verbas de marketing – ou a ampliação do marketing privado através do dinheiro público. Que os empreendimentos gerados por este meio, chancelados com o nome do possível mecenas, fechem as portas, é imoral, é um escândalo, exemplo de gestão pública nociva.
Portanto, se chocou a sensibilidade carioca o ato de Eike Batista fechar o Teatro Glória, se revolta hoje a todos a omissão do Estado do Rio diante da imponência do Teatro Villa-Lobos condenado às ruínas, o que sentir e dizer diante da possibilidade do fechamento da Caixa Cultural, um centro cultural de funcionamento exemplar, gerado e financiado pelo dinheiro público, fechado como se fosse um bem particular, de uma entidade privada? A Caixa pode fechar a Caixa Cultural no Rio à revelia dos interesses sociais e culturais da cidade?
Vale o debate amplo, geral e irrestrito destes fatos e deste vendaval de estranhas proporções. Um povo sem cultura é um risco que não se pode correr e a cultura nacional não tem mais para onde cair. Em boa hora, no olho do furacão, anuncia-se a reabertura do Teatro Adolpho Bloch, prenda nobre da cidade maravilhosa. Este é o gesto que se espera: grandeza de realizações, mãos espalmadas para oferecer recursos de ativação da vida cultural, mãos que receberão os aplausos da cidadania ávida para ter de volta uma cidade de luz, uma pérola para encantar a vida de todos os que têm a graça de circular por aqui.
Diante dos fatos, ou dos boatos, é urgente afinar os mecanismos de articulação da classe teatral; não se trata de tentar fazer política partidária, usar a classe em função de jogos eleitorais, mas, antes, de reconhecer a urgência comum relativa à definição do campo de trabalho no seu sentido mais amplo. Um primeiro passo importante foi dado pela APTR, em carta à Caixa Econômica Federal. Maturidade, equilíbrio, visão da arte e do papel social da arte em si, parece ser este o convite expresso no vendaval. Que possamos nos tornar senhores dos ventos, para criarmos juntos, na nossa sociedade, a possibilidade do teatro futuro.
Rio de Janeiro, 20 de abril de 2018.
À Caixa Econômica Federal
A/C – Sr. Nelson de Souza – Presidência
Brasília – DF
Prezado Sr. Nelson de Souza,
Primeiramente, felicitações pelo novo cargo. Desejamos sucesso em sua gestão.
A APTR – Associação de Produtores de Teatro gostaria de solicitar esclarecimentos a respeito de notícia recentemente veiculada em que se dá como certo o fechamento de um dos mais importantes equipamentos culturais do país, a Caixa Cultural Rio de Janeiro / unidade Almirante Barroso.
Aproveitamos a oportunidade para ressaltar que em seus 12 anos de funcionamento, a Caixa Cultural Rio tornou-se uma grande referência para artistas de todas as linguagens e estéticas, atraindo e fomentando a visitação do grande público. O prédio da Almirante Barroso compõe o tradicional corredor cultural do centro da cidade, abrindo democraticamente espaço para os novos talentos da arte contemporânea; o teatro de pesquisa de linguagem; o cinema experimental e independente; e também os consagrados artistas de todas as áreas.
A Caixa Cultural tem impulsionado a cultura do Rio de Janeiro com uma programação pautada na diversidade e qualidade.
Constatando o impacto positivo que a Caixa Cultural exerce, e acreditando no seu potencial, fazemos um apelo para que tal decisão, se verdadeira, seja revertida. O estado do Rio de Janeiro vive e sobrevive a um momento de falência econômica e de intervenção federal na segurança. Acreditamos que a sensibilidade de um novo gestor poderá reverter o quadro e manter, em pleno funcionamento, o importante prédio da Almirante Barroso, que abriga a Caixa Cultural Rio, com tanta pluralidade artística, ingressos gratuitos ou populares e com grande repercussão para o público carioca e fluminense.
O fim da Caixa Cultural Rio seria uma grande perda para a cultura brasileira e também para a Caixa Econômica Federal, instituição que realiza importante trabalho e tem sua marca associada ao desenvolvimento da cultura brasileira e do próprio país.
“A CAIXA Cultural Rio de Janeiro está localizada no edifício-sede da CAIXA, na Av. Almirante Barroso, 25, junto à Estação Carioca do metrô e do VLT. Inaugurada em 2006, abriga em seus mais de 6.000m² um teatro de arena, dois cinemas, quatro galerias de arte, além de salas de oficinas e ensaios.”
“Rica e diversificada, a cultura brasileira é fruto do grande potencial humano e estético de nosso povo, refletindo as tradições e os valores de todas as regiões. Pensando nisso, a Caixa mantém um diálogo constante com as nossas raízes culturais e busca consolidar sua imagem de grande apoiadora da cultura brasileira.
Diante desse comprometimento em disseminar a cultura em todos os cantos do país, a Caixa instalou unidades da Caixa Cultural em sete capitais: Brasília, Curitiba, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, onde proporciona aos brasileiros, o acesso a uma diversidade de manifestações da arte e da cultura nacionais, e também estimula o intercâmbio cultural e a troca de experiências, patrocinando eventos de artistas de outros países. Tudo isso com uma programação plural e de qualidade, gratuita ou a preços acessíveis.”
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A velocidade acelerada do tempo
Tempos pulsantes, ritmo acelerado. São impressionantes os momentos assim, de pura velocidade. Verdadeiros ou não, os fatos atropelam a todos. Estamos num momento destes. E de tédio, diante do teatro, ninguém morre… Verdade: a semana registra a retomada do ritmo habitual de estreias,intenso, muitas cenas numa cena, ainda que a vida curta seja a lei geral. Lei? Pois é.
Não é só estreia, a velocidade que nos visita – lei virou sinônimo de problema. A semana passada foi marcada pela união da classe teatral, com as mais diferentes tendências unidas em assembleia para enfrentar uma crise que se anunciava há bastante tempo: o sério problema da regulamentação profissional.
O fato é curto e direto: a possibilidade de extinção da lei da regulamentação profissional. O estopim, uma incômoda denúncia de concessão fraudulenta de DRT, o ansiado registro na profissão de artista. Não foi a primeira denúncia, não foi o início do problema, muita confusão já aconteceu nesta arena. Algumas pessoas até já foram presas por causa de DRT falsas. O tema é muito espinhoso, delicado mesmo, demanda reflexão coletiva, maturidade de pensamento.
Afinal, aqui, um dilema rascante corta o pano de boca, ao lado e além do crime de falsidade ideológica. É preciso assegurar a qualquer preço as parcas garantias profissionais conquistadas, meios para a sobrevivência, ainda que incerta, num mercado claudicante? O que é o mercado, o que é a profissão de artista? O mercado existe? Os artistas vivem do exercício de sua arte? Na realidade, o mercado é construído na marra por cada um que decide ser ator, o esforço individual, mais do que a lei, garante o direito de cada um.
Ao que tudo indica, o amparo legal, enfim, teria mais efeito para as questões previdenciárias, de doença, aposentadoria, não? A lei por si não parece vigorar no cotidiano dos profissionais, ela não parece garantir a entrada no mercado, nem regular a permanência nele, pois não ela assegura as condições básicas do exercício da profissão, o salário mínimo, os direitos profissionais. Isto por uma razão simples: o mercado é uma abstração, uma hipótese que cada um precisa às suas custas tornar real. Em vários casos, o mercado se confunde com o próprio artista, já que é todo construído por ele.
E, assim, a lei acena com um outro problema, o fechamento do mercado. Esta decorrência é um tabu, uma casa de maribondos que muitos não gostam de discutir. Ao pé da letra, a lei permite que a classe, legalmente definida, impeça o acesso livre à expressão artística, situação desejada e defendida por muitos em nome da formação especializada e da competência adquirida.
Mas o problema, ao redor, é o Brasil – o fechamento acontece num país tão rico em talentos espontâneos, tão pobre em escolas e, o mais grave, onde não há acesso universal, amplo e irrestrito, às escolas. O Brasil nunca ofereceu aos cidadãos a escolaridade plena, em particular a escolaridade profissional.
É impossível dizer que nossos talentos naturais, intuitivos, podem e conseguem frequentar as escolas. Não podem, não há escolas para todos. Uma cruel crítica sempre feita por doutos e poderosos a Dercy Gonçalves, muito revoltante, era exatamente que era lamentável que ela não tivesse estudado. E – pior – que, quando ficou famosa, não tratou de sanar a sua “carência”.
Para a classe teatral, na sua esmagadora maioria sempre progressista em seus anseios e sempre engajada a favor dos direitos sociais amplos e irrestritos, parece duro e contraditório o fechamento total do mercado a partir de um ato legal, a letra da lei. No fechamento, o acesso à profissão acontece quase exclusivamente através das escolas especializadas.
Ou não apenas. Ele pode ser obtido também por indicação do poder econômico, em especial através das grandes redes de televisão. Ou através de comprovação de efetivo exercício da arte, exercício que teria que ser iniciado fora do mercado, no braço… São brechas elitistas, em boa parte, pois supõem sempre algum poder econômico.
Para complicar, é preciso reconhecer que as escolas de arte são realidades bastante novas no país, são inexistentes ou frágeis em muitos lugares. E artistas de perfil espontâneo mais original ou rebelde podem não conseguir nunca ingressar numa escola de formação, de segundo grau ou de ensino superior. Conheço bastante as escolas do Rio e não consigo imaginar como talentos semelhantes a Dercy Gonçalves, Aracy Côrtes, Grande Otelo poderiam chegar aos exames de seleção. Procópio Ferreira foi reprovado na Martins Pena, fez sucesso e foi convidado a voltar e a se diplomar.
Cristaliza-se, neste contexto, uma estrutura de poder densa. Graças à lei, ao lado da escola, para regular a liberação de registro, se consolida o poder do sindicato. Cria-se uma firme barreira institucional ao redor do mercado, portanto. Ou seja – aqueles talentos brasileiros naturais, inatos, espontâneos, fulgurantes, em vários casos quase analfabetos, pobres de maré de si, ficam por princípio impedidos de ingressar na profissão… No máximo, podem ter acesso à praça e ao próprio chapéu.
Mas não é tão fácil ser senhor do próprio chapéu. Ou da praça. Alguns exemplos precisam ser pensados. Para ser artista de rua e ter trânsito institucional pleno – quem sabe, ter financiamento público ou mesmo licença para atuar na rua – pode se chegar sim ainda ao impasse de exigir escolaridade do candidato. Portanto, toda a classe, da rua ao Teatro Bradesco, deveria saber cedo a sua inclinação para a arte e ir para a escola se formar.
Chegamos, então, a uma situação bastante curiosa – o engessamento profissional precoce absoluto. Se a pessoa escolheu uma profissão, deve seguir nela. Um escândalo para o caso do teatro. Afinal, se olharmos a classe teatral brasileira do século XX, chegando aos nossos dias, uma multidão está fora da lei, não poderia se tornar artista.
Figuras como Paulo Autran, advogado, ou Sergio Britto, médico, nas condições atuais teriam dificuldade para seguir o caminho escolhido, em especial aqueles que não foram amadores. Denise Weinberg é bióloga. Zezé Polessa, médica. Ana Veloso, advogada. E vai por aí.Há, porém, mais complicadores. Numa época em que o país precisa discutir seriamente a questão da aposentadoria, tema urgente há décadas sempre evitado por sua imensa antipatia política, o debate de uma lei do artista em que a única vitória concreta inegável é a aposentadoria parece ser uma conversa complexa.
O pior de tudo é que, honestamente, falar de uma classe artística parece ser um extremo esforço de retórica: como no tempo de Leopoldo Froes, existem as poeiras da arte e as estrelas absolutas da profissão. Isto não significa qualidade de arte ou pessoal, é hierarquia social brasileira mesmo. Diante da miséria dos artistas-poeira do seu tempo, Froes começou a campanha para a criação do Retiro dos Artistas. Lá, como hoje, o mercado continua a ser uma ficção, quase uma miragem, um delírio. Não é uma condição coletiva efetiva.
Se o olhar for ácido, talvez seja preciso constatar que pouca coisa mudou – fora os citados efeitos de retórica. Precisa-se da lei do artista, mas exatamente para quê, quais as suas condições ideais e reais? O que se pretende garantir com ela, como celebrar a sua excelência e reconhecer as condições básicas da vida na sociedade brasileira? É possível definir a estrutura profissional evitando o fechamento do acesso à profissão? Vale a pena conferir às escolas o poder absoluto de controlar o acesso à profissão? Os sindicatos servem apenas para fiscalizar – ou conceder – autorização de trabalho?
Importa pensar na lei com os olhos fixos nas condições do mercado hoje. Um dado curioso e alarmante é a eterna juventude da nossa classe teatral. Não, não se trata de ingestão desbragada de botox, ninguém descobriu a fonte da juventude – o teatro libera a alma, mas não rejuvenesce o corpo… O que acontece é que as escolas formam uma pequena multidão de artistas, rotineiramente.
O resultado gritante é que a cada ano uma leva espantosa de jovens ingressa na arte, mas fica pouco tempo. Como se tivéssemos um ritual de sacrifício juvenil semelhante àquele do Minotauro. O êxodo parece ser quase tão elevado quanto o ingresso – poucos ficam, poucos envelhecem, por isto a classe teatral brasileira atual é sempre juvenil. Por isto, o gosto dominante pela vanguarda, o pouco apreço aos clássicos e às grandes montagens – o padrão dominante é juvenil. Para muitos dos que estão mobilizados hoje ao redor da discussão da lei, ela não será o poder regente de suas vidas, pois um largo número vai abandonar o teatro…
E a semana segue. É esta febricidade juvenil que faz a tônica da semana teatral. A semana respira bastante juventude e ferve numa linha de produção intimista, delicada. No seu conjunto, as propostas traduzem projetos pessoais, como manda o figurino do não-mercado brasileiro. Não há nenhum projeto institucional em cena.
Dentre os novos cartazes da semana, vale destacar alguns. De saída, chama a atenção a presença de três musicais. Ou quase musical, no primeiro caso, o delicado Maria, com textos de Antônio Maria adaptados pelo ator Claudio Mendes, direção singela, mas de extrema criatividade, de Inez Viana. O recurso ao talento arrebatador de Antônio Maria permitiu a construção de uma ode de homenagem ao Rio, ao melhor do Rio, proposta bem situada no SESC Copacabana. É emocionante e lindo.
O caráter intimista também aparece em Nara – A menina disse coisas, texto de Hugo Suckman e Marcos França, direção de Priscila Vidka. Trata-se de um musical de bolso, biográfico, dedicado a Nara Leão, com os atores Aline Carrocino e Marcos França, no Teatro Ipanema.
Já a verve carioca para a demolição crítica de tudo e de todos assina presença no divertido A vida não é um musical – o musical, de Leandro Muniz, direção do autor e de João Fonseca. Um elenco de dez atores, acompanhado por cinco músicos, faz a festa no Teatro de Arena do SESC, busca sacudir as formas de pensar correntes, patentes nos desenhos da Disney, em paralelo com fatos políticos atuais.
Afinal, a presença juvenil aflora também numa peça mais dramática e experimental, o docudrama Solitárias, de Clarisse Zavros, cartaz do SESC Tijuca. O eixo do texto é constituído pelos relatos de mulheres presas e torturadas na ditadura militar.
Sem dúvida a panorâmica rápida revela um pouco da velocidade vivida estes dias – ela permite dimensionar uma cena que se agita intensamente ao redor de pesquisas, inquietações e buscas, com um vigor jovem extremo. Uma cena que precisa buscar por si os meios para existir e para sobreviver. Um estilo Brasil inquietante, posto que imediato, instável, imprevisível, como se vivêssemos na guerra. No mundo lá fora, a realidade não faz por menos, a guerra se instalou de verdade. A sensação é a de que estamos passeando sobre areia movediça, um chão que treme, sempre ameaçador. Que o nosso equilíbrio seja o nosso maior conselheiro, para não afundarmos na terra fofa traiçoeira.
Maria
Local: Mezanino do Sesc Copacabana – Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro
Informações/tel.: 2547-0156
Temporada: 12 de abril a 6 de maio
Dias: Quinta a sábado às 21h e domingo às 20h
Classificação indicativa: 12 anos
Duração: 70 minutos
Lotação: 80 pessoas
Ingressos: R$ 7,50 (Associados do SESC) e R$ 30,00 (casos previstos em lei pagam meia)
Nara – A menina disse coisas
Teatro Ipanema
Estreia: 14 de abril – Classificação: Livre
Rua Prudente de Moraes, 824. Ipanema – 2267-3750
Horários: 20h30 Duração: 1h 10
Lotação: 192 lugares – Preço: R$ 50,00
A vida não é um musical – O musical
Duração: 1h 45m
Classificação indicativa: 16 anos
Local: Teatro de Arena/ Sesc Copacabana
Temporada: de 12/04/2018 a 06/05/2018
Horários: quintas, sextas e sábados, às 20h; domingos, às 19h
Lotação: 242 lugares
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) | R$ 15,00 (meia-entrada) | R$ 7,50 (associado Sesc)
Solitárias
Sesc Tijuca – Teatro II
Temporada: De 13 de abril a 06 de maio – 12 sessões – Classificação: 16 anos
Local: Teatro Sesc Tijuca- Teatro II (Rua Barão de Mesquita, 539 – Tijuca)
Horários: De sexta a domingo – 19h – Duração: 50 minutos
Capacidade: 50 Lugares – Gênero: Drama
Preço: R$ 7,50 (COMERCÁRIO) R$ 15,00 (Meia) R$ 30,00 (INTEIRA)
Tagged: A vida não é um musical - o musical, Aline Carrocino, Clarisse Zavros, Claudio Mendes, Espaço Sesc Copacabana, Inez Viana, João Fonseca, Leandro Muniz, Lei de Regulamentação da Profissão de Artista, Marcos França, Maria, Nara - A menina disse coisas, Sesc Tijuca, Solitárias
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FESTIVAL DE CURITIBA: O teatro aqui e agora
Se o teatro não leva a sua alma ao paraíso, esqueça o teatro, pois ele se tornou um bastardo na sua vida. Talvez a frase seja a melhor definição para sintetizar o pensamento do diretor e ator Omar Porras, um homem de teatro no sentido maior da expressão.
Colombiano, radicado na Suíça, ator e diretor, líder do Teatro Malandro, com um repertório de fazer qualquer amante de teatro perder o fôlego, ele veio ao Festival de Curitiba. A rigor ele é um teatrista – um artista de teatro. E as fotos e vídeos do seu trabalho, disponíveis na internet, comprovam a grandeza de sua obra, inédita no Brasil.
Sim, ele veio ao festival por acaso, fora da grade e do planejamento oficial, graças a um destes descaminhos que fazem com que os festivais se tornem lugares essenciais de criação e de pensamento. Amigo em Paris de Deolinda Vilhena, uma mulher de teatro brasileira incansável batalhadora a favor da arte, ele aceitou o convite para vir até Curitiba.
O motivo foi bem simples, puro amor ao teatro: conhecer o trabalho de Gabriel Villela, outro nome forte do panteão afetivo da moça. Para Deolinda, era fundamental conseguir que os dois barrocos teatrais latino-americanos se conhecessem. A inclusão de Gabriel Villela na grade oficial com dois espetáculos – Hoje é Dia de Rock, de José Vicente, e Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, gerou a oportunidade.
Neste jogo do destino, fui contemplada com a sorte de conhecer o furacão criativo que se chama Omar Porras, uma personalidade inquieta, curiosa, apaixonada, comprometida até a última fibra do seu ser com a latinoamericanidad e com a humanidade. Ouvi-lo traz a certeza de que o palco é uma espécie de altar, um lugar-memorial que deve ser cuidado e cultivado, pois a interlocução profunda necessária para manter a vida em estado pleno passa por lá.
Conversamos muito. Não fiz uma entrevista no sentido técnico corrente, jornalística, mas mantivemos uma conversa teatral que, espero, deve prosseguir. O centro de nossas falas é muito próximo: a necessidade de se pensar – quem sabe algum dia entender – a dinâmica profunda que cimenta a nuestra América.
Colonizados, ibéricos, donos inconscientes de imenso potencial criativo e vasta fortuna natural, somos estranhos uns aos outros, no entanto, quase desconhecidos. Vivemos em estado permanente de solidão sensível afetiva. Continuamos a sonhar com alguém que venha apontar caminhos e soluções, dissolver os impasses, instaurar a luz, nos levar à realização de nossos sonhos. Inebriados, não nos movemos, andamos tontos em círculos e, quando confrontados na nossa inércia, achamos sempre um culpado logo ali, o algoz que não nos permite assumir o que somos. Ou podemos ser.
Esta solidão carente não nos define, ela é o nosso vazio, o nosso abismo. Qual o seu significado histórico? Por que somos reféns da marginalidade? Deveríamos reconhecer um princípio fundador, uma identidade, uma espinha dorsal comum, a nos estruturar? Existe um plano inefável capaz de definir a latinoamérica? O tema é urgente e é muito forte – por causa da crise, da necessidade de novos conceitos e instrumentos para pensar o impasse do presente, através do novo.
Em larga medida, Omar Porras rompeu a ciranda, se foi e realizou o seu potencial criativo. Como todos os que partem, ele tem a latinoamericanidad dentro dele e sente a angústia de não resolver, não lidar com este mistério humano continental. Brasil e Colômbia possuem muito em comum, ainda que nós, brasileiros, vivamos virados para o Atlântico.
Mas, se a Colômbia de Omar Porras, retalhada e pressionada pelo tema da contravenção e pela ânsia de viver a sociedade tecnológico-virtual, é um pouco como o Brasil, ela é, no entanto, a Colômbia de Bolívar, um idealista sonhador guerreiro que desconhecemos. Como dialogar e aproximar territórios com vivências históricas tão díspares?
No Brasil, além de herdarmos o Sebastianismo português, somos fruto de um pai da Pátria que era o herdeiro da Coroa Portuguesa, que seria (e foi) rei de Portugal. A nossa independência talvez tenha sido feita por uma mulher austríaca, não reconhecida enquanto tal, D. Leopoldina. O bolivarismo é estranho ao nosso processo histórico.
Dá para notar que o papo foi longo, percorreu inúmeros caminhos, algumas inusitadas trilhas históricas. Qual o sentido de uma conversa tão longa, tão ampla, para o debate teatral do presente, para se pensar o que fazer no nosso país e, talvez, para buscar alguma sintonia continental?
Em primeiro lugar, vale considerar que pensar teatro é um enorme prazer, o teatro se estrutura a partir de um compromisso com o coletivo no qual a sensação se expande, para servir às ideias. O teatro não é uma feira de amostras nem uma vitrine de curiosidades descartáveis.
No entanto, ainda assim parece justo supor que o teatro, hoje, vive ao redor de duas vertentes diferentes de criação, necessárias, mas nem sempre essenciais. Uma vertente imediata, especular, do aqui e do agora, preocupada com a busca de simples reflexos da situação ao redor. Ela pode até sugerir radicalidades e ousadias, mas não passa da superfície do que está aí, se encerra no flerte com o existente.
Inebriada com a chance de enfrentar o real, esta vertente até mostra cenas cruas, mas todo o esforço se esvai no furor de fazer ver o que há para ver. Talvez nem fosse imprescindível o teatro para chegar a isto e é curioso como estas cenas muitas vezes são naturais, como se fossem conversas corriqueiras.
São obras que contabilizam o que já se sabe, o que já se sente, e mantém os seres atrelados a esta roda de obviedades, como se formassem um círculo de penitentes. Podem aparecer atores nus, perseguidos, cenas dos impasses cotidianos dilacerantes, mas o que se propõe é apenas fotografia, o sentido último de tudo permanece velado, distante. Vale o choque pelo choque.
A outra vertente, que se poderia chamar de metafísica, posto que especulativa, lida com o presente desafiador, busca encontrar ferramentas profundas para situar o dilema humano do momento e do tempo, dilema que é sempre histórico.Não abre mão da arte, da linguagem da arte. Não se trata de fazer registros ou reportagens da vida imediata ao redor, fotografias, mas antes radiografias, sintonia com o fluxo mais subterrâneo que governa – ou desgoverna – a superfície dos fatos. São mapas poéticos, convites ao mergulho no imaginário.
Apesar da aparência por vezes rebelde ou irada do teatro especular, ele é um teatro vazio, alienante como o velho teatro de diversão, uma empreitada mimética de simples atualização com os fatos, tão contido em si, autorreferente, como o noticiário da TV ou a final do campeonato de futebol. O choque, fruto de uma realidade presente chocante, e o conformismo, a confraternização de iniciados, caminham lado a lado. Apenas pulsações epidérmicas estão agenciadas e a plateia se vai feliz com a sensação gloriosa de que é assim mesmo, eu sei.
Em contraste, o teatro especulativo move o espectador do conforto da contemplação da rotina brutal ao redor. Obriga-o a se perguntar sobre as forças que movem as sensações que recebe. Leva-o a sair da vida para a poesia, para ser confrontado com o ímpeto da criação, transpor os limites do seu tempo, do aqui-agora, num percurso que não poderia ser realizado fora do desafio da arte. Ainda que encerrado na sua dimensão de indivíduo, a sua herança é ou o desconforto ou o desafio para a invenção. Mesmo quando lida com o realismo ou o documentário, o teatro especulativo não abre mão de ser teatro, teatralidade.
O teatro de Omar Porras é sempre especulativo, é sempre um ato de arte, envolve a criação de obras que exigem pesquisa, estudo, um longo processo de maturação. Portanto, ele se interessa em falar ao cidadão da polis e ao cidadão do universo, e a sua fala implica num compromisso mais denso do que a escolha de um alvo qualquer ao redor, para retratar ou reproduzir ou retalhar.
Neste sentido, um dos grandes fatos do Festival de Curitiba de 2018 foi a visita do encenador, ainda que ela tenha sido um resultado imprevisto da presença, na grade oficial, dos espetáculos de Gabriel Villela. O diálogo com Gabriel Villela e seus atores, a chance de conhecer o jovem elenco do Teatro de Comédia do Paraná, integrante da montagem de Hoje é Dia de Rock, o início de um diálogo criativo com a excelente companhia Ave Lola foram resultados imediatos da visita inesperada. Ao lado e ao redor, ele revelou um desejo vibrante de realizar um trabalho no Brasil, pesquisar a sensibilidade que nos aproxima. Ou poderia nos aproximar.
Não acompanhei todo o Festival deste ano, estive na cidade um par de dias como convidada do evento, mas a viagem valeu, foi preciosa para o meu interesse em pensar teatro brasileiro. No plano político, a edição 2018 foi importante por manter o protagonismo de Curitiba – e do Paraná – na cena nacional, pois o Festival continua a ser o evento mais importante de teatro brasileiro no país. E é sempre uma emoção indescritível ver como a cidade fervilha teatro.
No que se refere à grade oficial, ela se manteve fiel à tradição, não sofreu qualquer mudança conceitual de fundo, persistiu sendo uma vitrine da produção teatral brasileira do momento, com algumas inclusões de música e dança. Apresentou, contudo, cores intensas desta inclinação recente, bastante objetiva: a presença de muitas obras de teatro especular. Foram muitas peças preocupadas em discutir o aqui-agora mais imediato, oferta de oportunidades para vivenciar os fatos de forma sensível, performáticas, por vezes tão performáticas que solicitam a participação da plateia. Em estado bruto, naturalizados, desfilaram os dramas e acontecimentos que percorrem a vida cotidiana do país.
Sim, a tendência tem se tornado forte nos palcos, parece natural que compareça ao Festival, talvez não em número tão elevado. Trata-se de um teatro de confraternização de iniciados, encontro de pessoas que sabem das coisas, flerte de esclarecidos. É um teatro de certezas. Aos poucos esta linha está se tornando a base do mercado, com salas pequenas, público seleto. Tudo indica que este é o sucessor do teatro comercial do passado, e o risco é ver o teatro poético definhar, desaparecer enquanto hábito social. Seria um off-teatro, criação nossa.
Boa parte das produções em cartaz no Rio de Janeiro sintoniza este caminho. Talvez a escolha permita atrair um público mais jovem, mas com certeza afasta as plateias convencionais, o chamado público de teatro, amante da poesia e da oportunidade de transmudação sensível, naturalmente oferecida pelo teatro há séculos.
Que venha o novo, então – mas é uma pena que o teatro não esteja preocupado em lidar profundamente com a crise que varre a alma de todos, aqui e agora. Há pouco, o Papa, argentino, afirmou que não existe o inferno. E o que mais? Somos latino-americanos, somos ocidentais: o paraíso, para as nossas almas, persiste sendo o pensamento, como queria Brecht. Talvez valha a pena retomar este velho teatro do paraíso, capaz de não ser escravo da vida rotineira, mas antes, ser o senhor de uma sensação transgressora, uma sensação ousada o bastante para tentar governar o pensamento.
FESTIVAL DE TEATRO DE CURITIBA
27 de março a 8 de abril de 2018
festivaldecuritiba.com.br
Mostra Oficial
Fringe
Atividades Paralelas