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O Dia Mundial da Felicidade Humana
Hoje é um dia para dançar na rua, alegre: o mundo comemora o Dia Mundial do Teatro. Se aqui no Brasil ainda não temos tanta gente interessada na festa, a falha é nossa, da gente de teatro, do povo dos palcos.Não conseguimos engajar o prazer da sociedade na nossa arte. Mas, como para tudo na vida há jeito, a classe teatral carioca está programando uma manifestação cidadã importante para hoje, terça, dia 27 de Março.
Vale ir até lá conferir – vai ser um protesto pelo fechamento do Teatro Villa-Lobos, em Copacabana. O assunto interessa a todos, pois o complexo teatral foi erguido com dinheiro público, mantido pelo Governo do Estado e abandonado incendiado com obras de reforma inacabadas pelas mesmas autoridades. Sim, é um complexo teatral, uma construção grandiosa, um verdadeiro centro cultural inativo, queimando o investimento do dinheiro do povo.
Não se sabe se o Teatro Villa-Lobos tem fantasmas e assombrações rondando no seu interior – afinal, ele próprio foi promovido a alma penada da cidade. Na verdade, parece que teatros jovens, posto que jovens, custam a contar com assombrações, pois elas são modernas como as casas e se inclinam para outros passatempos, mais afinados com os tempos.
O Villa-Lobos é muito jovem. O teatro começou a ser construído em 1978, ficou pronto em treze meses. Receberia o nome de Ziembinski – mas o governador Faria Lima, no melhor estilo ditadura militar, mudou o nome para Villa-Lobos e o Ziembinski acabou na Tijuca, quando Walmor Chagas construiu o pequeno teatro de endereço confuso lá no bairro.
Se não tem fantasma para chamar de seu, ao menos o Villa tem lendas saborosas. A mais importante cerca o seu nascimento e permite vários debates a respeito da nossa política cultural. Reza a lenda que teria ocorrido um debate acalorado a respeito da necessidade de construção de casas de espetáculo no Rio. A vertente vencedora dos debates propunha uma orientação renovadora: que o bom dinheiro destinado a este fim fosse empregado na construção de uma constelação de casas simples, despojadas, sem luxo, tropicais e práticas. O projeto foi feito, assinado por um famoso cenógrafo com mão de arquiteto, aprovado e tcham! Derrubado. Um outro rumo para a verba foi decidido.
Ainda segundo a lenda, na Funterj, Fundação Estadual de Teatros do Rio de Janeiro, o presidente Adolpho Bloch idealizou, com a assessoria do experiente Geraldo Matheus, um teatro monumental, de veludo, mármores e grandes arcadas, projeto de Raphael Matheus Peres. Como o terreno é passagem do interceptor oceânico, que leva todo o esgoto da Zona Sul para o emissário de Ipanema, foi preciso mesmo um gigantismo arquitetônico para contornar o terreno acidentado. Por isto, todo o movimento em degraus e desníveis que a construção segue, para driblar o esgoto da cidade que corre por ali.
Não sei – insisto – se a lenda é verdadeira, apenas ouvi falar, não pesquisei e não tenho provas. Se ela é verdadeira, parece natural que a casa não tenha fantasmas, pois quem viveu a época e morreu deve estar procurando endereços errados, de pequenos teatros urbanos que não chegaram a sair do papel – teatrinhos perdidos na imaginação, hiperfantasmas teatrais. E parece uma página do teatro de absurdo o Estado erguer monumentos que não consegue manter.
Seja como for, o Teatro Villa-Lobos está aí, na paisagem urbana, nasceu para ser um glorioso templo teatral da cidade e é absolutamente inaceitável o estado de abandono em que está. A casa abrigou espetáculos históricos, encenações memoráveis – foi inaugurada em 1979 com o espetáculo Pato com Laranja, de William Douglas Home, direção Cecil Thiré, com Marília Pêra e Paulo Autran. Ou seja, chegou dizendo a que vinha, apresentando uma montagem digna de qualquer cidade zelosa por suas ofertas espetaculares.
Teatro comercial? Sim, com certeza – é com ele que todos pagam as contas e trabalham a sensibilidade média, corrente, da cidadania, constroem a identidade da sociedade, trabalham os nossos humores. E, no Dia Mundial do Teatro, é bom pensarmos os motivos que fazem com que se queira inviabilizar este lugar do teatro, de bilheteria, textos convencionais, montagens caras e cuidadas, investimento razoável de capital, estabilidade profissional. Qual a razão para dinamitar o mercado teatral? Onde se deseja chegar com isto?
Portanto, se não tem fantasma, o Teatro Villa-Lobos tem lenda e insondável mistério. Não é nada razoável ter o Teatro Villa-Lobos fechado desde 2010, devastado por obras intermináveis e incêndios mal explicados, sem datas ou planos para que o povo volte a usufruir a casa que pagou para ter. O que está acontecendo nos gabinetes, que não há sequer um mínimo gesto para dar explicações, prestar contas?
Talvez no Dia Mundial do Teatro não tenhamos nada para festejar – não temos planos de Estado para a Arte, não temos políticas culturais que percebam a função social básica do teatro junto à cidadania, não temos garantia de que os parcos teatros cariocas sobrevivam ao desmando geral. Mas vamos à luta exigir explicações, para tentar entender os fatos e saber se o teatro corre o risco de ser banido do nosso mapa social.
O que o Estado pretendia fazer com o Teatro Villa-Lobos:
IMPRENSA RJ
NOTÍCIAS
CULTURA
SECRETARIA DE CULTURA APRESENTA PROJETO DE RECUPERAÇÃO DO TEATRO VILLA-LOBOS
30/01/2013 – 12:53h – Atualizado em 30/01/2013 – 13:08h
» Ascom da Secretaria de Cultura
Sala de espetáculos terá mais 234 assentos
A secretária de Cultura, Adriana Rattes, apresentou nesta terça-feira (29/01), em evento na Casa França-Brasil, o projeto de recuperação, modernização e ampliação do Teatro Villa-Lobos. Conforme o novo projeto, a sala de espetáculos principal terá mais 234 assentos com a criação de um balcão. Ao todo, serão 656 lugares.
O teatro receberá nova caixa cênica, novos camarins, e equipamentos de última geração. Os vidros negros da fachada darão lugar a vidros transparentes, para melhor integração com o espaço público. Um recuo na calçada possibilitará melhor movimento para desembarque do público de carros e táxis. O projeto foi criado pelo escritório Archi 5 e pela arquiteta Tânia Chueke, com consultoria cênica de José Dias.
– Vamos superar a tragédia de 2011 recuperando, modernizando e ampliando o Teatro Villa-Lobos, de forma que ele possa atender às produções mais exigentes e às necessidades da cena teatral do Rio de Janeiro. O teatro reabrirá rejuvenescido – , diz a secretária.
Além dos novos assentos, o teatro receberá nova caixa cênica, novos camarins, e equipamentos de última geração. Os vidros negros da fachada darão lugar a vidros transparentes, para melhor integração com o espaço público. Um recuo na calçada possibilitará melhor movimento para desembarque do público de carros e táxis.
O projeto observa as condições ideais de acessibilidade e sustentabilidade, inclui ainda um novo foyer em três níveis, com um moderno e bem equipado café. Também no foyer estará trabalho de grandes dimensões, criado pelo artista Daniel Senise e feito com material retirado dos escombros do incêndio. As produções que trabalharem no teatro passarão a contar com um espaço novo: uma sala de leitura e convivência.
No lugar do antigo Anexo III, nos fundos do terreno, será erguido um novo prédio, dotado de um moderno teatro modular para 120 pessoas, destinado a trabalhos experimentais, e de duas salas de ensaio cujas dimensões reproduzem o palco. Além disso, terá um café ao ar livre.
A variedade de palcos e as novas condições técnicas possibilitarão a realização simultânea de até quatro espetáculos por semana.
As obras, a cargo da EMOP-Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro, estão previstas para começar em julho de 2013. A previsão para a reabertura do teatro Villa-Lobos é o segundo semestre de 2014. O custo das obras foi estimado em R$ 36.700.000,00.
Objetivos do Projeto
• Reconstruir a Sala Principal, aperfeiçoando suas qualidades originais e incorporando novas tecnologias de palco, som e luz
• Ampliar o complexo, de 3.487 m2 para 5.366 m2
• Criar uma nova plateia, com 444 lugares, e balcão com 212 lugares = 656 espectadores
• Revitalizar a imagem do conjunto, incorporando novas linguagens e materiais
• Criar novos espaços de convivência
• Construir um teatro modular com 120 lugares
• Construir e equipar um Centro de Ensaios com duas salas que reproduzem o palco principal (12 X 16 metros)
• Ampliar, modernizar e tornar mais flexíveis camarins e espaços de apoio
• Dotar todos os espaços de condições ideais de acessibilidade
• Equipar o conjunto com soluções tecnológicas de água, energia e ar condicionado modernas e sustentáveis
• Ampliar e modernizar áreas técnico-administrativas
Tagged: classe teatral, crise teatral, Dia Mundial do Teatro, Marília Pêra, Paulo Autran, Teatro Villa-Lobos
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O cânone e o nada
Semana fervilhante: a cidade está em ponto de combustão. O país não fica muito atrás. Para todos os lados, problemas e protestos. Protestos justos e bem fundados, em boa parte. Só que o turbilhão não para. Manter o alto astral, a cabeça fria e o cérebro pensante se tornou tarefa para seres extraterrestres.
Não faltam motivos para que se perca a paciência, sair do sério ficou fácil. Na verdade, estava inscrito na tabuleta desde sempre que um dia ia dar uma baita confusão por aqui. Chegou a hora. Espera-se que a gente bronzeada mostre o seu valor. Para quem pensa, a esperança é clara – tomara que o ímpeto de reclamação e protesto, generalizado, seja transformador de verdade, que não seja apenas vontade de alugar a disponibilidade do próximo.
Reclamaram até da coluna – um amigo leitor protestou, afirmou que escrevi supondo que não existe o cânone, que não há a grande arte, diferente dos pastiches e das trivialidades banais. No seu entender, compus uma ode de celebração da arte ruim, do achismo, da opinião rasteira do momento.
Ô xente! Pois eu estava falando de um outro ponto de vista, não da análise acadêmica e douta, nem do sistema de arte, mas da recepção do ser comum, sem superpoderes acadêmicos ilustrados. No receptor, existe a sensibilidade, mas não existe o cânone, se não temos sistema educacional e cultural. A arte que chega ali, dialoga com o universo expressivo do sujeito, é mesclada com a sua expressão sentimental, é a arte em circulação e vai proporcionar algum prazer sensível.
Mas vale o debate. Cadê o cânone? Para o amigo, seria formulado na arte, independentemente das condições de recepção ou de produção. Portanto, sobreviveria impávido numa torre de marfim, metafísico. Será? Podemos dizer que produzimos arte canônica?
Este é o problema – é claro que estamos dançando num pé só, na beira do abismo, faz muito tempo. O medo (ou a ignorância) do abismo levam muitos artistas a obras rarefeitas, apelativas, efêmeras demais. Em alguns casos, há até uma autoimolação afetiva, dilaceramento em cena, a alma dependurada do lado de fora, no último fôlego. Para a plateia geral, esta é a arte que está aí, não existem referências de comparação/validação. E se é assim tortuosa, bicho-grilo e, por vezes, cara, a plateia foge estarrecida.
Pois o desespero da beira do abismo criou um tipo de artista estranhíssimo, autóctone, apavorado com a obsolescência, eterno vanguardeiro. A ordem do dia é a pesquisa, a invenção, a ultrapassagem dos limites – mas só o artista conhece (ou pensa conhecer) os limites a ultrapassar.É preciso ser transgressivo, audaz – quer dizer, em lugar de encenar Shakespeare, urge reinventar o bardo. Antes de saber falar os versos elaborados do autor, explorar a sua densidade, deve-se descobrir um jeito novo, revolucionário, de estrangular cada estrofe.
Portanto, em tais condições, debater o cânone da arte teatral no Brasil se torna muito difícil. Aqui a arte é líquida, não é instituição, se esvai sob o sol escaldante do verão. Podemos debater Shakespeare, Goethe, Tchekhov, Ibsen, Strindberg, Shaw… Quais seriam para você, leitor, os autores teatrais canônicos? Mas qual a materialidade destes autores no universo teatral brasileiro? Aliás, para criar mais um problema, quais são os autores canônicos nacionais?
Enfim, problemas, muitos problemas. Problemas gigantes como o país. O que eles exigem? Protestemos contra a falta de projeto cultural e educacional de Estado, protestemos contra a indigência em que vivem os professores deste país, protestemos contra a atmosfera cultural pífia de nossas cidades. Protestemos! Mas, ao lado dos protestos, importa agir. Agir significa algo simples – encontrar meios para fazer da arte da cena uma prática densa, instaurada na ordem social.
Não, não é para rejeitar o que somos e começar do zero. Temos uma obra teatral consolidada com feição própria. Por causa de nossa vanguardite crônica, temos exemplos curiosos, fortes, de ação bem sucedida. Conseguimos resultados históricos valiosos. Um exemplo notável poderá ser avaliado a partir desta semana, no CCBB, o peculiar fôlego para o trabalho da Cia dos Atores. Eles vão estrear Insetos, de Jô Bilac.
Quer dizer, não é bem isto – a rigor, faz tempo que a dramaturgia, para a Cia dos Atores, é um lugar de experimentação. Assim, Insetos tem adaptação assinada pela Cia dos Atores e pelo diretor desta montagem, o premiado Rodrigo Portella, de Tom na Fazenda. O que isto significa? Simples – esperem algo absolutamente inovador. Para começar, a sala de apresentação não será um teatro convencional, com palco, plateia e CEP, mas sim as salas C e D, espaço rotineiramente usado para exposições do CCBB.
E não é só – o cenário de Beli Araújo e Cesar Augusto (sim, o ator e diretor) foi construído com pneus, este símbolo da inventividade (a roda) e da obtusidade (o automóvel). Os figurinos de Marcelo Olinto passeiam pelo mundo dos insetos. E a junção destes elementos cênicos já insinua a força expressiva da montagem – o foco é falar da crise da sociedade do nosso tempo, usar os insetos para desviar a lupa para a potência destrutiva humana.
A montagem comemora os trinta anos da cia, com a presença em cena de quatro atores-fundadores do conjunto – Cesar Augusto, Marcelo Olinto, Marcelo Valle e Susana Ribeiro. Chegar a tantos anos de trabalho, no teatro brasileiro, é um feito memorável – quase um protesto cronológico anteposto a todos os obstáculos contrários à força do teatro.
A força do teatro, afinal, é uma qualidade importante para a sobrevivência da arte na sociedade. Ela transita em outras montagens de vida longa, reestreias desta semana, indícios da resistência da arte. Na Caixa Cultural (Teatro de Arena), até 1 de abril será possível ver Silêncio, de Renata Mizrahi, excelente trabalho de atriz de Suzana Faini. Ao lado de Priscila Vidca, Verônica Reis, Jitman Vibranovski, Alexandre Mofatti e Gabriela Estevão, a protagonista expõe uma situação de família muito eloquente para a atualidade, pois a cena é atravessada pelo preconceito mais rude, o enfrentamento de um tabu bem pouco debatido ainda hoje.
A jovem guerreira Clara Santhana cumprirá, no Teatro Clara Nunes, mais uma temporada do musical de bolso biográfico dedicado a Clara Nunes, uma montagem de sucesso popular. Com texto de Marcia Zanelatto e direção de Isaac Bernat, Deixa Clarear – Musical sobre Clara Nunes ativa a linha dos musicais singelos que têm feito a rotina da cena carioca.
Já no Teatro Net Rio, a oportunidade imperdível é o vigor da luta de Martin Luther King, que tanto tem para ensinar a este Brasil racista, autoritário e preconceituoso. O Topo da Montanha, de Katori Hall, permite que os excepcionais atores Lázaro Ramos e Taís Araújo nos emocionem até o último feixe de nervos com ideias, situações e sentimentos de humanidade plena.
Portanto, a conversa da semana é papo direto – debater o cânone é fundamental para as lides acadêmicas. Para a rotina da sociedade e do teatro, o valor maior é situar as necessidades da hora e as respostas cênicas sonantes. Quer dizer – diante dos problemas, dos desafios, vale buscar saber o que o palco tem a dizer, como ele diz e para quem ele diz.
Os valores e requintes mais sofisticados disto tudo, conheceremos no futuro, nos livros. Ou, se continuarmos apenas em combustão e explosão, sem construir uma ordem nova, quem sabe as traças – com certeza traças canônicas, aperfeiçoadas pela fervura geral – venham um dia a saber o valor mais elevado do que anda agora rolando nas cenas, antes de o país ir pelos ares.
Foto: Elisa Mendes
Espetáculo: “Insetos”
Temporada: De 22 de março a 6 de maio, de quarta a domingo.
Horários: de quarta a sexta, às 19h. Sábado, às 17h e 19h. Domingo, às 19h.
Local: CCBB Rio (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro)
Salas C/D – Segundo andar.
Informações: (21) 3808-2020.
Capacidade: 116 lugares. Recomendação etária: 14 anos.
Duração: 80 minutos.
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
bb.com.br/cultura | twitter.com/ccbb_rj | facebook.com/ccbb.rj
instagram.com/bancodobrasil
SAC 0800 729 0722 – Ouvidoria BB 0800 729 5678
Deficientes Auditivos ou de Fala 0800 729 0088
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Teatro: veneno e remédio
Volta e meia o assunto aparece: o que se faz com uma peça ruim? A rigor, não há nada a fazer, apenas ver e tentar entender o que aconteceu. Como nasce uma peça ruim? Ninguém assina um fracasso por querer. Acontece. E detalhe importante: nem sempre uma peça é ruim para todo o público.
Já vi peças detestáveis que o público adorava, urrava de satisfação – exalava o sublime prazer de ser enganado sem arte – e eu não morri por ter estado por lá, no meio da plateia. Sobrevivi sempre e fiquei exercitando os neurônios para tentar entender o desastre, a sua função na linha de trabalho daquele artista. Há sempre uma lógica da arte ao redor das oscilações da arte.
Gosto muito de lembrar uma entrevista que fiz com o ator Sergio Britto (1923- 2011), em que ele se declarou contra o teatro na escola – no seu entender, o teatrinho escolar de papel crepom só poderia gerar pessoas de sensibilidade deformada, incapazes de entender a arte. O resultado seria afastar o público do teatro.
No entanto, conheci uma faxineira cujo maior encanto de toda a vida foi ter tido a chance de fazer teatro de papel crepom na escola primária, na Baixada Fluminense – por causa da experiência, ela adorava teatro e sempre que podia e o bolso deixava, ela ia ver as peças em cartaz. Não era uma especialista, enquanto convivi com ela nunca deixou de ser uma espectadora singela, mas ela dizia que sempre saía do teatro com a alma leve. Qualquer teatro, vale frisar – mesmo peças que, para especialistas, emanavam o mais puro tédio – faziam a sua felicidade.
Portanto, vale concluir a favor da boa intenção eterna do artista, da constituição humana positiva da arte. Quando alguém sobe num tablado, por mais sem noção que o exibido possa ser, ele acredita sinceramente ter algo importante, significativo mesmo, para passar adiante. Busca, então, transmitir esta sua descoberta, a sua produção, algo em que investiu energia e tempo.
O artista sabe dos seus riscos. No fundo da alma, teme ser um enganador desclassificado, um blefe. Mas mergulha, confia, não sabe fazer outra coisa. Existe a possibilidade, contudo, de uma hesitação, um vácuo, um vazio, um equívoco. E pronto – a obra não consegue mobilizar o outro, o espectador. Recebe uma avalanche de vaia, coisa rara hoje. Ou esvanece sob pura indiferença. Ou mobiliza um segmento reduzido. Mas, não importa: a obra está ali e sempre estará acionando um fluxo de energia e de comunicação viva, certamente o elo que incendiava a minha amiga faxineira.
Sergio Britto também tinha horror ao artista medíocre. Mas, convenhamos, ele existe, tem a sua função e o seu público. O modesto artista suburbano tem todo o direito à sua arte. Nem todo artista é genial, é Rimbaud, cada um faz o melhor que pode e, afinal, o verso do momento do grande poeta pode ser ruim. No meio de uma obra de excelência, um dia aparece o cascalho bruto, o verso torto, menor. Talvez uma procissão de pequenos artistas seja necessária para o nascimento de um ídolo.
Mas não é só isto. É mais. Instável, a natureza da arte. O próprio da trajetória da arte, de toda a grande arte, é ser acidentada. É impossível fazer uma obra prima todo o dia, só conceber grandes obras, perfeitas, por mais genial que o artista seja, por mais que disponha de condições ideais de inspiração e de produção.
A criação é um processo, atinge um grau mais elaborado em certo momento, mas passa por etapas de formulação mais problemáticas, menos nítidas, com menor clareza de concepção. Ter difusão da arte na sociedade e escola, educação para todos, impulsionam o refinamento da expressão coletiva. O teatro de escola é direito do cidadão, dever do Estado e oxigênio para a arte.
Na verdade, tudo pode ficar bem desfavorável para o artista, tudo pode ser bem mais difícil. Numa sociedade de escolaridade nebulosa, a expressão coletiva tende a ser turva. Num cenário teatral rarefeito, instável, com instabilidade de produção, como conseguir uma voltagem produtiva elevada, propícia ao fluxo criativo mais requintado, refinado? No caso do teatro, que não é obra solitária de atelier ou de escrivaninha e depende de condições materiais objetivas de produção, uma arena de arte hostil, como a brasileira, é um enorme obstáculo para o trabalho do artista.
Ainda assim, temos grandes artistas – temos artistas guerreiros capazes de sobreviver e produzir sob condições de trabalho detestáveis. No entanto, há um preço, temos sempre uma instabilidade grande de produção. Temos um contingente razoável de peças com resolução obscura. As obras fracassadas – as pecas ruins, digamos – se tornam bem mais dolorosas, pois não se permite, para o artista de teatro brasileiro, o horizonte de hesitação natural na produção de arte.
O artista teatral brasileiro tem que acertar sempre – o que é uma total impossibilidade. As peças aqui, boas ou ruins, têm pouco público, não podem viver em liberdade o seu fluxo de concepção e criação, vivem pouco tempo. O teatro brasileiro é um cemitério, cheio de fantasmas e de obras vítimas de morte prematura. O teatro é acidental, em lugar de ser um diálogo estético vivo da sociedade. Pouca gente frequenta o teatro para vivenciar a linguagem específica da encenação. Neste contexto, o teatro é outra coisa do que aquilo que ele é: é passatempo, é desfile de celebridades, é fru-fru social, é modinha, é caça-níquel, é passarela de vaidades, é lavanderia. Difícil, então, definir com objetividade o que seria uma peça ruim.
Neste jogo insano, dois fatores precisam ser muito valorizados: os prêmios, a escolha dos melhores de cada ano, e a grande produção, com oferta de condições de trabalho estáveis. São dois eixos de importância para o equilíbrio do mercado – devem favorecer a qualidade, a obra de artesanato sofisticado, estimular o burilado da arte.
A reflexão importa esta semana por conta de dois grandes acontecimentos – o primeiro, a cerimônia de entrega do Prêmio Shell de Teatro, exatamente a comemoração festiva de trinta anos do prêmio, uma noite de gala no Golden Room do Copacabana Palace. A lista de indicados, abaixo, reúne vários segmentos da arte, com ligeira tendência à valorização da pesquisa de linguagem e do vanguardismo. O Prêmio Shell se tornou um prêmio inquieto, preocupado com o experimentalismo e um tanto distante dos grandes nomes-monumentos da arte, apesar de ser concedido por uma gigante do mercado petrolífero.
O segundo acontecimento é, no mesmo dia, a estreia de Romeu e Julieta, de Shakespeare, em versão musical, grande produção da Aventura, cartaz do belo Teatro Riachuelo. A ficha técnica do espetáculo conta com profissionais do mais alto padrão e a expectativa é de que o Rio terá uma peça para celebrar a alma da cidade.
Além do grande volume de capital investido, nomes preciosos povoam a ficha técnica. A direção geral coube a Guilherme Leme Garcia, a preparação do elenco ficou sob a responsabilidade da atriz Vera Holtz. O cenário traz a excelência de Daniela Thomas. E vai por aí.
A montagem é de importância estratégica para a cena teatral atual por esta condição de grande produção de qualidade. E por trazer à baila, mais uma vez, um debate histórico importante. Assinada por Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche, também responsáveis pela adaptação do texto original, a trilha sonora revela um nome novo para o teatro – Marisa Monte.
Assim como, no início do século XX, a música popular e o teatro estiveram casados e unidos na cena carioca, para deleite do público, o casamento desfeito volta a acontecer aqui. A música abandonou o teatro, fez carreira solo de imenso sucesso, fugiu para o radio, o cinema, o disco e o show. A volta é uma virada histórica memorável.
O caminho foi o segredo irresistível de Otelo da Mangueira, de Gasparani. Fora da linha do musical biográfico, que transpõe para a cena em música a vida de astros da MPB, este formato ousa buscar o andamento dramático de textos consagrados em canções de sucesso do nosso tempo. A ideia é maravilhosa, os artistas envolvidos exemplares e a chance de fazer a cidade cantar teatro é total. Ou seja, está em cena muito do que se precisa para ter peças excelentes, favoráveis à pujança do teatro. Em uma palavra: imperdível.
Foto: Felipe Panfili
Lista dos indicados da 30ª edição do Prêmio Shell de Teatro do Rio de Janeiro:
Autor
Marcia Zanelatto por “Ela”
Walter Daguerre por “Josephine Baker, a Vênus Negra”
Braulio Tavares por “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”
Pedro Kosovski por “Tripas”
Direção
Eric Lenate por “Love Love Love”
Rodrigo Portella por “Tom na Fazenda”
Luiz Carlos Vasconcelos por “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”
Paulo de Moraes por “Hamlet”
Ator
Armando Babaioff por “Tom na Fazenda”
Gustavo Vaz por “Tom na Fazenda”
Adrén Alves por “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”
Ricardo Kosovski por “Tripas”
Atriz
Aline Deluna por “Josephine Baker, a Vênus Negra”
Yara de Novaes por “Love Love Love”
Guida Vianna por “Agosto”
Juliane Bodini por “Dançando no Escuro”
Letícia Isnard por “Agosto”
Cenário
Aurora dos Campos por “Tom na Fazenda”
Mina Quental por “Mata teu pai”
Carla Berri e Paulo de Moraes por “Hamlet”
Sérgio Marimba por “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”
Figurino
Beth Filipecki por “Ivanov”
Marcelo Marques por “Josephine Baker, a Vênus Negra”
Kika Lopes e Heloisa Stockler por “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”
Marcelo Olinto por “Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba”
Iluminação
Aurélio de Simoni por “Ubu Rei”
Nadja Naira e Ana Luzia de Simoni por “Mata teu pai”
Maneco Quinderé por “Hamlet”
Paulo Cesar Medeiros por “O Jornal”
Música
Marcello H. por “Tom na Fazenda”
Ricco Viana por “Janis”
Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho por “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”
Marcelo Alonso Neves por “Dançando no Escuro”
Inovação
“Que legado” pela ocupação cultural que propõe o diálogo entre profissionais de atuações e geografias diversas no Rio de Janeiro.
“Escola Spectaculu” pelo contínuo trabalho de formação e inserção de jovens profissionais na área técnica das artes cênicas.
Espetáculo “Tripas” pela forma de realização entre a universidade, através dos programas de pós-graduação, e a produção teatral.
Homenagem
Hélio Eichbauer por seu trabalho ao longo de mais de 50 anos de renovação da cenografia brasileira.
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Poeira de estrela ao nosso redor
Asemana começou sob o signo da dor: o adeus a uma grande estrela é sempre um mergulho na sensação de que, sem ela, ficamos menores e piores. Tônia Carrero partiu e com ela seguiu uma fortuna cultural imensa, muito variegada, um mundo do teatro impactante, uma história de mulher sensacional. E mais: desaparece agora também um jeito de ser carioca, talvez em boa parte o jeito de ser carioca. Dói fundo na gente, porque sabemos que a parte perdida contava muito e é irrecuperável.
A morte abriu o baú das lembranças e várias histórias deliciosas circularam sobre a lenda viva que foi a atriz irresistível. Além da carreira de elevada voltagem artística, Tônia Carrero foi uma mulher exuberante, alegre, iluminada, senhora de uma presença arrebatadora em qualquer roda social, numa época em que o Rio era a roda social do país. Conviver com ela era sempre oportunidade certa para saudar a alegria, flertar com as emoções mais positivas da vida. E entristece a todos os amantes do teatro constatar que a sua morte acontece num momento em que um estranho ciclo parece estar se fechando – em 2016, a cidade perdeu a Sala Tônia Carrero, no Leblon, enquanto o teatro, se não está andando para trás, está estagnado.
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Com quantas pedras se faz um bom teatro?
No meio do caminho, sempre tem uma pedra – e não, não são só os poetas que esbarram com a coisa. É a vida. Não dá para andar sem tropeço. Passa o carnaval e vem a ladainha: como alguém pode celebrar as escolas de samba? Como alguém ousa dizer algo positivo a respeito destes antros de perdição, que vicejam por aqui sem freio desde o início do século XX? Curioso notar que poderia ser fala do Prefeito desequilibrado do Rio, preocupado em afundar a cidade. Mas não, gente lúcida e bem intencionada anda com a fala perto da garganta desafinada do alcaide.
A primeira vez que li sobre as hordas de capoeiras no século XIX, fiquei pasma. Os relatos falavam de negros libertos ou quilombolas, arruaceiros, que assaltavam as procissões ostentação, com os seus fiéis cobertos de joias. Resultado: acabaram com as procissões por um tempo e quando voltaram eram cortejos de gente despojada. As primeiras vezes que vi desfiles de escolas de samba, na Praça XI, eu era criança – e o problema dos adultos era proteger os infantes, quando a polícia chegava para pegar os bandidos sambistas! Voava pancadaria para todos os lados e eram engraçados os relatos da confusão.
Cresci vendo todo o mundo adulto ao redor jogar no jogo do bicho. Tive uma grande amiga na primeira série ginasial, que perdi de vista, muito tímida, que era filha de um banqueiro de bicho – mas era a família dois, a filial, e moravam numa casa digna do Boca de Ouro: um coreto-ostentação. Uma amiga relatou há umas semanas que no condomínio dela, na Barra, ninguém teme assalto – a maioria dos moradores é de milicianos e de bandidos mesmo. E todos convivem de maneira muito civilizada.
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Um ilustre morto bem morto
Depois da grande ilusão do carnaval, passou o momento de sonho, tudo se acabou em cinzas e a quarta-feira não trouxe o teatro de volta. São poucas as estreias, algumas reestreias, escassas ofertas. Na verdade, a única estreia da semana vai acontecer na sexta, 23, no Centro Cultural da Justiça Federal.
A peça é um monólogo, curiosamente batizado com o nome Não Peça, de Lucília de Assis, direção de Bianca Byngton, interpretação da autora. A ficha técnica é alentada, pois conta com excelentes profissionais, mas é mínima. Não é uma exceção na temporada, o tom geral é este. Apesar da densidade dos trabalhos, as montagens são tímidas, muitas integram o bloco do eu sozinho. Vida que segue, teatro que fica.
Todos já sabem, mas vale insistir, anunciar alto e bom som, tentar pensar a respeito. O teatro morreu. Sim, especialmente aqui no Rio, vanguarda do país, morreu. E o cadáver rola por aí, insepulto, sem nenhuma Antígona corajosa disposta a fazer as honras fúnebres. Talvez nenhum cemitério queira recebê-lo. Em breve, o corpo apodrecido terá o tamanho do país.
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Beija-Flor campeã!
Acabou mais um Carnaval, mas este ano não vai ser igual àquele que passou: tradições vão rolar, vão fazer com que a maior festa popular do país conheça uma virada histórica. Frase polêmica? Discordo – graças ao desfile da Beija-Flor de Nilópolis, nunca mais seremos os mesmos. Uma escola de samba conseguiu fazer uma revolução nas nossas vidas. Lá no céu, Joãozinho Trinta está se acabando de sambar. E de rir.
É bom, de saída, deixar bem claro o campo da discussão. Não sou Beija-Flor. Quer dizer, não era – desconfio que larguei a minha escola do coração, Unidos do Vira-Folha, e me tornei Beija-Flor desde o final do desfile da Beija-Flor este ano. Mas, de toda forma, tudo o que aconteceu comigo não foi deliberado, não foi uma paixão cristalizada em mim, não foi uma atitude preconcebida. Não esperava ver o que eu vi, nem reagir assim.
Não fui para a avenida este ano. Apesar de algumas oportunidades, resolvi não desfilar em qualquer escola; no ano passado, saí na Portela. A saúde um pouco hesitante, a canseira por excesso de trabalho, o medo de andar nas ruas da minha cidade se uniram para me jogar na frente da televisão. Sim, eu vi a transmissão dos desfiles pela TV Globo, zapeei no Sambarazo e no face. Sei que isto é ruim, limita a minha visão dos fatos. Mas foi deste lugar que acompanhei a maratona.
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Salve, Carnaval – Salve, Teatro!
Se você pensa que o Carnaval significa “adeus, teatro”, você está muito enganado – o caldeirão de Dioniso ferve sem parar, mesmo sob a folia nossa de todo ano. Mas, veja lá, a fervura brota de múltiplos ingredientes, surge de várias direções.
Sabemos que o nosso palco não tem mais uma programação carnavalesca ou de Semana Santa, como antigamente. Nem bailes carnavalescos. Ainda que a maioria das peças tenha recesso, tem muita faina teatral ao seu dispor, para que você não se esqueça da danada da arte e não desapareça da vida da cena. Ou para que o teatro não saia da sua vida. A estante de livros segue próspera, não falta o que ler. E a oferta de cursos, oficinas, leituras é tanta que você corre o risco de ficar tonto, mesmo se deixar as garrafas cheias.
Sim, muita água vai rolar. Além das peças estreadas este ano, de saída você pode comprar ingressos para peças muito cotadas que estão de volta ao cartaz. Uma lista breve inclui uma diversidade de títulos admirável, atestado da vitalidade do teatro carioca. As novidades vão de Grande Sertão: Veredas, a volta de Bia Lessa à direção, ao espetáculo Eri Pinta Johnson Borda dedicado à arte tradicional do ator performer brasileiro.
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Esse cara, é ele!
Se alguém tem alguma dúvida a respeito da popularidade de Roberto Carlos, há uma forma simples para verificar a voltagem do sucesso do artista: basta ir a uma coletiva do Rei, no Projeto Emoções em Alto Mar, atividade aberta aos fãs, como a que aconteceu ontem, quinta-feira, no navio Costa Favolosa, ancorado no Pier da Praça Mauá. A oportunidade é preciosa para contemplar a trama afetiva densa que enovela o artista e um número incontável de admiradores – uma rede fina, resistente, de muito afeto, envolve tudo. O infinito do desejo povoa os olhos, como se o encontro fosse a atualização de uma identidade construída carinhosamente ao longo do tempo.
A composição da sala, contudo, é bem híbrida: convivem no espaço veteranos do amor, amantes antigos, novatos, passageiros fugazes ou eventuais, surfistas arredios, testemunhas carinhosas e até alguns projetos de heresia, cujos anseios rebeldes são logo vencidos. O que está em pauta é um caso de amor consolidado – talvez até certo ponto platônico, no sentido popular do termo, mas é sem dúvida um caso de amor. E o amor, todo o mundo sabe muito bem, é mestre na arte do contágio: chegou perto, pegou a febre.
Lotado, o auditório do teatro reuniu jornalistas dos mais variados veículos nacionais e até do México – situação que determinou a formulação de uma pergunta sobre a possibilidade do projeto acontecer em águas mexicanas, caribenhas ou circunvizinhas. Este é o sonho de muitos amantes das belas praias cristalinas ao norte e, segundo Roberto Carlos e Dody Sirena, empresário diligente presente ao encontro, uma possibilidade futura bastante passível de virar realidade. A materialização do projeto depende de negociações – o financiamento para a programação internacional exige muitas articulações.
Portanto, o leque de temas abertos na tarde ensolarada teve a amplidão do oceano. Uma sinuosa regência, porém, governou o andamento. A experiência da coletiva compartilhada com o tsunami de amor dos fãs, para os jornalistas, é bastante peculiar. Até mesmo no desenho da arquitetura a situação é digna de nota – na plateia, no centro, em situação frontal com o entrevistado, os jornalistas, e ao redor e nos balcões estava o elenco generoso de fãs. Portanto, o que soava do centro, reverberava em volta, como se fosse uma inusitada câmara de eco, uma forma afetiva de sonar.
Neste formato, o coletivo da imprensa figura envolvido pelo coletivo de fãs. Apesar das regras de comportamento, anunciadas de saída por Eri Johnson, divertido com a presença maciça de mulheres na plateia, sugerirem sobretudo uma impensável contenção das emoções, a reação do povo foi sempre forte a cada pergunta considerada expressiva.
Sim, sem dúvida, o efeito maior foi provocado pelos temas que rondaram a intimidade do coração do cantor, cuja situação afetiva, no momento, provoca especulações, suspiros e inquietude. Após a coletiva, em rodinhas discretas espalhadas no deck programado para o lanche da tarde, as fãs mais devotadas sustentavam versões – por vezes relatadas com bastante veemência – a respeito das possíveis atuais amadas do artista. O surpreendente é a persistência do plural nos diferentes relatos, escolha que denota, no mínimo, uma grande generosidade de afeto compartilhado.
Ao que tudo indica, o plural persegue o astro no momento. Uma das perguntas de sucesso da tarde foi muito direta – a jornalista quis saber se o cantor considerava possível amar duas pessoas ao mesmo tempo. Com astúcia, o rei garantiu que perguntara uma vez algo a respeito a um estudioso da alma humana e a resposta teria sido afirmativa. Mas, no entanto, entendia que a pergunta poderia ser melhor esclarecida se fosse feita a Mr Catra. Os risos foram automáticos.
Roberto Carlos não demonstra nenhuma hesitação diante do desafio de conversar com tantas vozes. Favorecido pela atuação de uma excelente assessoria de imprensa, profissionais nomeados por um jornalista presente no encontro como “os meninos de ouro Maurício Aires e Rogério Alves”, senhor de uma longa trajetória de convivência com diferentes veículos e apoiado por uma massa fiel de admiradores, ele dominou a coletiva com muita desenvoltura, foi soberano, comandou os fluxos de razão e emoção sem tremer no tombadilho.
Com humor, delicadeza e habilidade, enfrentou as perguntas com disposição. A franqueza se impôs como ordem natural, mesmo que, a rigor, a sua principal qualidade tenha sido muito mais a espontaneidade simpática, apta para esconder alguns pontos em foco sob respostas evasivas inteligentes. Na verdade, ele não perdeu nenhuma chance para demonstrar a sua extrema simpatia. Decididamente, ele mostrou que é o cara: senhor de uma identidade pública encantadora.
O curioso é ver que esta forma irresistível de ser singra ondas revoltas sem qualquer abalo. Um exemplo? Existe uma ansiedade mal disfarçada no ar por um novo disco de inéditas, notícia que todos – jornalistas e fãs – adorariam receber. Mas a falta de uma resposta positiva não produziu nenhuma onda-caixote, não derrubou o ânimo de ninguém. Apesar de ainda não poder anunciar o novo disco de inéditas, prometido faz tanto tempo, Roberto Carlos anunciou o próximo lançamento do disco em espanhol e acariciou os corações com a hipótese de que o de inéditas possa sim estar perto de se tornar fato, com músicas novas começadas ou esboçadas, embora tal presente não esteja programado para este ano.
A temperatura ferveu com a pergunta sobre as condições atuais para a aproximação com as mulheres, neste tempo de denúncias de abusos e de repúdio ao assédio, atos negativos relativizados com as ponderações de Catherine Deneuve. Uma jornalista perguntou se ficou mais difícil chegar perto das moças – um tema incandescente, bom para provocar um redemoinho nos corações.
O galã hábil de imediato se revelou. Observou, para delírio do público, em especial para a parte feminina, que o cara que entende de mulher sempre sabe chegar de uma forma não agressiva, com atitude agradável para a musa escolhida. Ainda a respeito do assunto, ele considerou também, adiante, que existe o momento de cantar “eu te amo, eu te amo “ e a hora de cantar “eu te proponho”… Para a plateia, não poderia ser formulada uma cantada melhor: a mulherada, é claro, exultou.
Modesto – ou humilde – ele diz que não sabe explicar o sucesso de suas músicas, geração após geração, por tantas faixas etárias, uma produção que segue desafiando as mudanças dos meios de difusão, passando de um suporte ao outro, dos discos materiais às edições digitais, e sempre na moda. E se diz agradecido – palavra recorrente em sua fala – por todas as realizações.
A modéstia, contudo, não interfere com o hábito brasileiro de chamá-lo de Rei. Bem resolvido, ele observou que recebe esta denominação de pessoas que andam de chinelinho e de pijamas no seu coração, e, portanto, não há outra saída a não ser aceitar, ainda que tenha, no passado, cogitado ver problema no título, pois temeu, no início, figurar como arrogante ou usurpador.
A fala tem o efeito de nitroglicerina pura: é a deixa para a aclamação geral. O coro de Rei, Rei, Rei, Roberto é nosso Rei se alastra pelo salão imenso, explode no ar e a diversão é geral. A situação provocou simplesmente um instante de alegria fulgurante – alguém para aclamar em triunfo, hoje, no Brasil, com o coração pleno, desarmado, não é pouca coisa.
E assim correu a tarde, como ondas mansas acariciando a superfície do mar. Roberto Carlos, sobre os seus gostos musicais, voltou a falar dos seus ídolos na canção, Frank Sinatra e Elvis Presley em destaque. Reiterou que ouve de tudo e sempre, ouve no carro o radio e, em casa, se liga mais na televisão. Preocupa-se em saber o que faz sucesso, o que acontece, o que há de novo.
Logo a nota dominante de diversão se tornou discreta e apareceu colorida por uma tênue hipótese de desencanto na fala a respeito do medo de envelhecer. O Rei insistiu que sente muito medo da velhice – pânico mesmo. E reconheceu que sim, faz bastante esforço para ter qualidade de vida e deter a transformação provocada pela ação do tempo, ainda que tenha insinuado que, afinal, alguma qualidade existe no fato inexorável de ficar velho. A percepção da tranquilidade gerada pela vivência ficou, aqui, muito clara. Uma sabedoria ditada pelo amor à vida transpirou no seu comentário de encerramento da resposta – a seu ver, o bom é saber aproveitar todas as idades, as vantagens de cada fase, garantiu.
Um tema tabu rodou no ar distante, arremedo da gaivota espreitando um peixe impossível. Uma jornalista desejou saber se havia alguma nostalgia a respeito da vida que Zunga levava livre, na infância, em Cachoeiro do Itapemirim. Em parte, a pergunta confina com a imensa pressão das fãs para se aproximar do ídolo – talvez um pouco grande demais – uma demanda que determina a sua circulação restrita por todos os lugares, até mesmo no navio.Em algum grau, o assédio limita o seu direito de se espalhar pelo mundo.
Mas, senhor do flerte com tantas amadas, Roberto Carlos respondeu à indagação por uma das tangentes cabíveis, como se ela tocasse apenas naquela saudade que todos nós temos da candura de nossa vida infantil, a lembrança de um tempo irrecuperável perdido no passado. Ele falou, então, da nostalgia dos banhos de rio e de cachoeira, dos passeios afetivos pela cidade natal, do banho de mar em Marataízes. A nota soou com absoluta elegância e confirmou o lugar de elevação romântica do cantor.
A grande nova do encontro foi, afinal, a fala política, justo o assunto que sempre se considerou como estranho à pauta de Roberto Carlos, muito embora o rei já tenha se expressado a respeito publicamente. Em resposta à pergunta se ainda vota ou se já desistiu, Roberto Carlos fez um elogio solene ao juiz Sergio Moro e à toda a luta contra a corrupção no Brasil. Frisou com veemência a necessidade de dar todo o apoio e todo o carinho, toda a contribuição possível, para que tudo o que o juiz Sergio Moro está fazendo tenha sucesso. O apoio público foi efusivo.
Para completar o lado mais excitante da tarde, não faltaram temas picantes, sob medida para atiçar a fogueira da imaginação e dos corações, como a já propalada, em entrevistas anteriores, recepção de nudes – os quais, ele assegurou mais uma vez, não são apenas recebidos, mas são guardados e não deletados. Para jogar azeite na fogueira, ele não fugiu da provocação para comentar a hipótese de receber – e tomar sorvete – com alguma admiradora mais empreendedora, capaz de descobrir, na imensidão do navio, a cabine do Rei e cometer a ousadia de bater na porta, em busca de uma conexão mais direta.
E notícias objetivas também fizeram sucesso, todas relativas a um cotidiano de muito trabalho. Ao longo do ano, o filme e a biografia vão caminhar: uma boa nova concreta, alvissareira. A fase atual é a de conclusão do roteiro, primeira parte, com a subsequente escolha de elenco e filmagem. Ainda não se sabe o nome do ator privilegiado que terá o encargo de fazer o papel de Roberto Carlos.
Apesar de muitas perguntas possíveis ainda, o encontro chegou ao fim, depois de o Rei comentar que, na solidão, em casa, tem sempre uma grande sensação de satisfação, de agradecimento, por todo o amor que recebe. “Às vezes, até choro”, reconheceu.
Aos olhos do desejo dos fãs, ansiosos por sintonizar com o ídolo em carne e osso, sob o testemunho dos jornalistas, Roberto Carlos se apresentou sem reservas, na sua natureza. Poeta da vida, cantor do afeto generoso cotidiano, ele fulgurou na cena do bate-papo com um sorriso irresistível e um olhar intenso. Um olhar Roberto Carlos.
Um olhar vívido, pronto para ver e saudar cada pessoa, envolver cada um num sentimento humano forte, e sugerir ali, no encontro dos olhares, uma relação profunda, puro ato de amor, como se fosse um encontro de almas que se entendem. Roberto Carlos é amado e ama o seu público, sem rodeios. E o amor acontece não apenas na adesão pública, na fala ou no canto, mas na forma do olhar.
No porto, em volta do navio, a tarde lentamente se despedia, o mar se tornava escuro, um turbilhão de mistérios. O tom de intimidade informal logo se desfez. Todos partiram, foram se preparar para o show da noite. Estava encerrada uma tarde de amor, sob um dia agradável de verão em que reinou mais uma vez a arte afetiva do encontro: a arte de Roberto Carlos. A arte em que Roberto Carlos é Rei, mesmo que as palavras deixem de revelar, na completude, quem é afinal este cara gentil que se dispõe a acalentar os nossos sonhos de amor e, olhos nos olhos, a nos amar.
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Uma Dama de Teatro para chamar de nossa
Responda rápido: o que faz uma atriz – ou uma mulher de teatro – se tornar uma Dama de Teatro? Não, não estou falando do emploi antigo, dama central, dama galã. Estou falando Dama no sentido de senhora capaz de falar e se fazer ouvir em nome da arte, da realidade do teatro. Aquela mulher capaz de chegar no proscênio e impor o reconhecimento da cena como lugar de falas múltiplas, livres, poéticas, necessárias. De repente, quem ouve se reconhece ali e se percebe cúmplice, participante, gente da arte.
Bom, a esta altura toda a tribo interessada em teatro já sabe dos quinze minutos de protagonismo universal de Guida Vianna no Prêmio Cesgranrio, na noite de terça-feira. No rigor, foram doze minutos. Mas que minutos – algo assim para nenhum Andy Wharhol botar defeito. A performance foi intensa, espontânea, sincera, um jorro de coisas que precisam ser ditas, reditas e debatidas.
E vamos reconhecer, logo, de saída, o gol, pois a fala caiu bem numa festa cujo objetivo é exatamente este: acender o canhão e deixar a plena potência da arte brilhar sob a luz. Aconteceu. A festa foi linda, numa visão geral as escolhas dos jurados foram bem aceitas, os salões ferveram até tarde, mas a fala das falas, ficou no ar, quicando nas cabeças, nas rodinhas e no buchicho.