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As ondas longas do canto nacional
Ouvidos atentos, olhos conquistados. Muitos estudos precisam ser feitos a respeito da relação brasileira entre rádio e teatro. Ela está na ordem do dia. A aproximação entre os dois espaços de criação nasceu desde a implantação do rádio no país e nem sempre foi pura harmonia, muito pelo contrário… Assim como o cinema despertou temores de que, por causa dele, o palco iria se acabar, também as transmissões radiofônicas, em especial depois da eclosão da paixão pelas radionovelas, trouxeram a suspeita de que os dias da cena estariam contados.
O tema surge para o debate por várias razões. Em primeiro lugar, por causa da insinuação, agora, de novo, de que o teatro poderá morrer em função de ocupações domésticas, tais como a televisão, os filmes em casa, a dedicação ao parque de diversões contido nos celulares. Estive por estes dias conversando com amigos da Zona Norte do Rio e eles se declararam reclusos noturnos, quer dizer, eles não saem mais de casa à noite, por causa do medo da violência. Abdicaram de vez do prazer de ir ao teatro e se dedicam a outras artes e diversões, em casa. Optaram por se divertir entre quatro paredes familiares.
A razão da escolha de agora difere da situação passada, gerada quando o rádio despontou, que era de puro amor radiofônico. Registra, contudo, a mesma inclinação para a diversão doméstica desfavorável ao teatro. Dificilmente a maioria dos recolhidos atuais optará por ouvir rádio, mas, de toda a forma, eles elegeram a opção de se divertir no lar. Este novo recesso me fez lembrar o antigo, rememorar uma velha história importante para o teatro.
Pois existem outras razões para trazer à baila o tema da aproximação entre as duas searas de produção: o rádio, quando surgiu, decididamente enfeitiçou a população. O sucesso fez com que muita gente, artista, migrasse dos palcos para os microfones das estações. Vale assinalar um fato menosprezado, a ascensão do rádio coincidiu com o declínio progressivo do teatro de revista, tema bastante polêmico não pesquisado até hoje. Seria possível argumentar que a revista cumpriu um ciclo e sumiu por sua própria fraqueza.
Ela não teria conseguido se reinventar. Não conseguiu se estruturar com estabilidade como atividade de mercado, dentro de um jogo econômico mais competitivo do que o do século XIX, quando o palco era soberano. Só que a nascente música popular, que pulsava no teatro, nasceu nele para as plateias, se tornou uma fortaleza nas rádios. A partir deste trampolim, virou indústria, numa vertigem de capital distante da realidade teatral.
O trânsito atingiu também autores e atores. Alguns dramaturgos – e o maior exemplo é Oduvaldo Vianna, o pai (1892-1972) – se tornaram grandes personalidades do rádio, como autores de radionovela e como dirigentes de emissoras. Algumas vozes célebres de atores do teatro brasileiro só podem ser analisadas com propriedade se considerarmos a sua formação ou a sua aclamação nas rádios.
Mas é possível ir mais longe. Um dado curioso a observar é que hoje um movimento inverso, de retorno, marca a cena brasileira. A música, traidora, que abandonou a cena a favor dos estúdios, voltou a ocupar a velha casa em escala crescente, no ciclo de renascimento, de agora, do teatro musical. A pergunta mais importante do tema é a respeito do fluxo que preside este movimento. O quê move a sensibilidade brasileira neste jogo? O que torna a produção de música importante aqui, irresistível, uma atração capaz de abrir exceção na reclusão atual do carioca? Uma amiga da Zona Norte desistiu do teatro mas, pressionada, reconheceu – vai sair de casa sim, para ir ao Centro, mas para ver musical, suprema delícia, a seu ver.
Vale reler algumas páginas do final do século XIX, assinadas por Machado de Assis, ou do início do século XX, com Lima Barreto. Os dois acusam a existência de um forte gosto brasileiro pela música. Mas, se havia o retrato de uma devoção ao piano, no primeiro, o segundo já fala do violão e da impressão repulsiva que o instrumento, amado pelos marginais, causava nos chefes das famílias, autênticos caçadores de seresteiros. Os primeiros sucessos destes notáveis vadios aconteceram nas rodas de samba e de batuque. Para os palcos das revistas, foi um passo curto. E o violão acabou por se tornar um som nobre da vida brasileira.
Não se pode, entretanto, achar que o passo curto foi fácil, rápido e rasteiro: o processo de namoro foi lento. Não foi uma paixão imediata, fulminante. A música que veio do século XIX, mesmo no violão, era filha dileta do belcanto, amante do dó de peito. Apesar do remoto vínculo idealista, ela mexia com o corpo, com os quadris. O resultado é fácil de imaginar: a revista e o teatro musical do início do século aconteciam sob uma aura de transgressão. Causavam repulsa nos meios intelectuais elevados e nas famílias de qualidade, eram qualificados como terra do trolóló e pernas nuas. E o mais engraçado é que pode até ser que o corpo da roda de samba tenha sido contido para caber no palco. Ainda assim ele era uma facilidade expressiva, era tosco, excessivo, segundo as normas dos saraus à beira do piano. Aracy Côrtes (1904-1985) machucando um maxixe era uma visão obscena.
O que foi que provocou a mudança e fez surgir um tórrido caso de amor? Não há dúvida, para a boa música brasileira, a dissipação dos tabus, a popularidade e o gosto familiar foram conquistados graças ao rádio. E é do rádio que o teatro empresta, agora, os seus maiores sucessos, acontecimentos que podem fazer as pessoas saírem de casa, mesmo com a violência, pois os horários das sessões teatrais começam a se aproximar das tardes. Se antigas marchinhas ironizavam as fãs, vistas sob o rótulo pejorativo de macacas de auditório, hoje se pode ver nas plateias que macacas e madames compartilharam paixões. O caso de amor aconteceu e varreu tudo e todos.
É nesta abordagem que se pode entender a aclamação de vários sucessos da cena teatral musical recente. Olhar a cena carioca neste momento revela propostas de contorno bem nítido, cuja origem só pode ser explicitada se for considerado o sucesso do rádio, dos programas de auditório, a consagração do hábito de ouvir música em casa, na intimidade. E o prazer de ter a alma banhada por belas vozes brasileiras.
Vale destacar que o rádio foi a porta democrática capaz de viabilizar a aclamação de pessoas de origem muito humilde – Elza Soares e Elizeth Cardoso (1920-1990) chegaram ao estrelato absoluto, mais do que merecido, por este caminho. As ondas sonoras levaram para todo o território a arte das duas e o caminho de consagração foi mais eficiente do que o teatro poderia ser, pois era um caminho imediato e nacional. Por mais que o Rio de Janeiro, capital federal, falasse dos palcos para o país, esta repercussão possuía outro andamento.
O rádio proporcionou também o surgimento de possibilidades locais de projeção – novas estações foram criadas por todo o território. É importante observar como, até certa altura, estas manifestações locais não possuíam autonomia e seguiam o padrão ditado pelo Rio de Janeiro. Este jogo centro-periferia transparece no início da carreira de Isaurinha Garcia (1903-1973), uma voz privilegiada de São Paulo que iniciou a carreira na Rádio Cultura e na Rádio Record, de São Paulo, e se firmou como artista a partir de sua cidade.
No início de sua trajetória, as referências com que trabalhava eram Carmen Miranda (1909-1955) e Aracy de Almeida (1914-1988), consagradas cantoras sediadas no Rio de Janeiro. Contratada pelo rádio em São Paulo, Isaurinha construiu uma identidade forte, consolidada na sua cidade, com projeção nacional, graças à beleza de sua voz e ao poder do novo veículo. A sua carreira nacional projetada longe do Rio traduziu, portanto, o esboço de uma nova realidade geopolítica da arte no país.
Pois eis em sua integridade a questão. Por obra e graça do gosto popular por espetáculos musicais, as três grandes cantoras estão em cena no Rio de Janeiro em produções cuidadas e de grande densidade artística. Elizeth recebeu a graça divina do desempenho inspirado de Izabella Bicalho e faz enorme sucesso no Teatro Maison de France. A atriz consegue irradiar o encanto e o magnetismo da cantora, envolta numa aura de época muito bem desenhada.
Elza Soares recebeu a ousadia de ver a sua identidade plasmada através de um número cabalístico – sete atrizes representam o seu imenso poder artístico no palco do Teatro Riachuelo. Num redemoinho de canções, pulsações, corporeidades, cores, elas revelam a impressionante força de Elza, força humana e força artística.
Já Isaurinha Garcia retorna à cena numa nova encenação sob a luz da excelente Rosamaria Murtinho, criadora da personalidade em 2003. Nesta nova montagem, ela terá a companhia das radiosas Kiara Sasso e Soraya Ravenle. Trata-se de uma narrativa biográfica, dedicada à estrela paulista na época de ouro do rádio, novo cartaz do Teatro Oi Casa Grande. O que se pode dizer?
O encanto que o rádio espalhou em ondas curtas e frequência modulada está entre nós de novo, sob uma outra forma, a forma teatral. As atrizes, contudo, não fazem mais um teatro cabeça-pescoço, engessado como uma ópera velha – elas trazem uma idade nova do musical brasileiro, quente, vibrante, povoado por corpos expressivos, musicais.
Os primeiros musicais biográficos deste novo ciclo histórico – como Dolores ou mesmo Rádio Nacional, por exemplo – ainda possuíam atores em desempenhos quase radiofônicos, frontais, rígidos diante das canções. No início, o palco mimetizava um pouco a situação do estúdio, engessamento ainda presente em algumas montagens, esquecidas do fato de que se trata de uma outra poética.
No geral, contudo, o novo musical busca desenvolver uma forma cênica em sintonia com a vida atual – uma vida em que a intensidade do corpo é um valor de primeira grandeza. Mesmo falando do passado, o teatro descobriu que encenar não é apenas fazer fluir a voz, como se o físico fosse uma estaca alto-falante. A cena mudou e é importante conferir – a homenagem às estrelas fica ainda mais emocionante. Não dá para perder a chance de sintonizar com ondas profundas responsáveis por muito da nossa identidade.
Vale agradecer ao rádio, por ter sido incubadora e abrigo de talentos tão notáveis. E ao teatro, agora numa fase musical intensa, por gostar tanto de música e oferecer oportunidades preciosas para que se saia de casa, se levante a cabeça, e se vença o medo de morar no Rio. Importa usar a velha paixão por canções para lotar os teatros. Nada melhor se poderia oferecer ao sofrido povo carioca neste momento: olhos, ouvidos e corações em sintonia fina.
Elizeth, A Divina
ESTREIA: 04 de julho (4ªf), às 17h
LOCAL: Teatro Maison de France
Av. Presidente Antônio Carlos, 58 – Centro / RJ Tel: (21) 2544-2533
HORÁRIOS: quartas às 17h e quintas às 19h /
INGRESSOS: R$ 50,00 e R$25,00 (meia) / HORÁRIO
FUNCIONAMENTO DA BILHETERIA: 3ª a domingo, a partir das 14h
VENDAS POR INTERNET: www.tudus.com.br /
CAPACIDADE: 355 espectadores / DURAÇÃO: 120 min (com intervalo)
GÊNERO: Musical
CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA: Livre
TEMPORADA: até 16 de agosto (excepcionalmente nos dias 01 e 02 de agosto não haverá espetáculo, devido a compromissos do teatro previamente agendados)
Elza
Temporada de 19 de julho a 30 de setembro
Quintas, às 19h. Sextas e Sábados, às 20h. Domingos, às 18h
TEATRO RIACHUELO
Rua do Passeio, 38/40 – Centro
Vendas na bilheteria do teatro e site da Ingresso rápido.
Ingressos:
Quintas: R$ 40 (Balcão Superior), R$ 80 (Plateia e Balcão Nobre), R$ 100 (Plateia VIP).
Sextas: R$ 50 (Balcão Superior), R$ 100 (Plateia e Balcão Nobre), R$ 130 (Plateia VIP).
Sábados: R$ 50 (Balcão Superior), R$ 100 (Plateia e Balcão Nobre), R$ 150 (Plateia VIP).
Domingos: R$ 40 (Balcão Superior), R$ 80 (Plateia e Balcão Nobre), R$ 100 (Plateia VIP).
Classificação etária: 14 anos.
Duração: 120 minutos.
Isaura Garcia – O Musical
ESTREIA: 29 de Julho
Local: Teatro OiCasagrande, Av. Afrânio de Melo Franco 290 A, Leblon
Temporada: de 26 de julho a 14 de outubro
Horários: quinta-feira, às 20h; sexta-feira, às 20h; sábado, às 17h30 e às 21h; domingo, às 18hPreços: de R$ 50 (inteira) a R$ 150 (inteira)
Vendas: bilheteria do teatro e pelo site Tudus (https://www.tudus.com.br/evento/oi-casa-grande-isaura-garcia–o-musical)
Classificação etária: 12 anos
Tagged: Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Elizeth, Elza, Elza Soares, Isaurinha Garcia, Izabella Bicalho, Kiara Sasso, Rádio, Rosamaria Murtinho, Soraya Ravenle, Teatro, Teatro Musical
Elza: eu, mulher, agradeço e retribuo
Por você eu faço tudo: existem mulheres assim. Elas movem o mundo com a força do seu amor à existência, elas querem uma vida melhor e seguem adiante sempre, para chegar lá. Ou tentar, até o último limite de suas forças. Elas são Elza. E Elza está em cena num esplendor só, nunca pensado, num ato de justiça à grandeza deste monumento-mulher.
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Teatro: a fábrica do inefável
Dizem os cientistas que a matéria existe aqui, ao nosso redor, em três estados: sólido, líquido e gasoso. Basta ter sensibilidade aguçada para perceber o quanto eles estão errados, pois os estados da matéria são cinco – sólido, líquido, gasoso, musical e inefável.
Tagged: Bayreuth, Conceição Evaristo, Daviid Gieselmann, Elza, Elza Soares, Indicados do Prêmio Cesgranrio Primeiro Semestre 2018, Instituto Goethe, Karl - Ernest Hermann, Marina Caruso, Marius von Mayenburg, Mostra Metástase, Ole Erdmann, Peter Stein, Rebekka Kricheldorf, Schaubuhne, Será que vai Chover?, Sybille Berg, Teatro Inefável, Teatro Musical, Wagner
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O cenógrafo do infinito poético
Como se fosse um velho quadro construtivista, a cena brasileira se veste de preto e branco, o preto do luto e o branco da limpidez da alma infantil. A cena lamenta a morte, ontem, de um artista de absoluta dimensão histórica, requintada capacidade poética, Hélio Eichbauer (1941-2018). Ele foi um cenógrafo poeta, um artista capaz de indicar com rigor e fantasia, a um só tempo, o sentido mais sofisticado da arte da cena.
Estudante de filosofia com interesse por artes plásticas e teatro, personalidade inquieta, Hélio Eichbauer optou pelo estudo da cenografia no início dos anos 1960, depois de conhecer o trabalho do cenógrafo Josef Svoboda na Bienal de São Paulo. A fascinação o levou para a Tchecoslováquia, para estudar com o artista. Lá, conquistou uma formação clássica, de visão rigorosa da arquitetura da cena, fundada no abstracionismo monocromático. Os estudos envolveram a criação de maquetes como ponto de partida, aliada aos exercícios de criação fundados na composição gráfica, no desenho e na escultura a partir de repertório dramatúrgico convencional.
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Quem foi que descobriu o Brasil? Foi o teatro?
Não sei dizer o motivo, mas o Rio Grande do Sul volta e meia laça a minha vida. Primeiro, foi o incrível espetáculo Mockinpott, de Peter Weiss, do Teatro de Arena de Porto Alegre, apresentado no Rio em 1976. Um esplendor. Depois foram alguns alunos, na época em que os sindicatos do RJ e do RGS não possuíam acordo de reconhecimento profissional. Os jovens eram notáveis, mas sumiram da escola de teatro assim que o acordo sindical entre os estados foi assinado. Uma pena, sempre se renova a rotina da profissão com alunos adoráveis em sala.
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A prefeitura e o teatro da cidade
Nasci no Distrito Federal, capital cultural do país, capital do país. Durante a infância, me afeiçoei à ideia, por obra e graça do poder, hábil, naquela época, na arte de implantar em nós um profundo civismo. Quando decidiram mudar a capital, eu ainda era criança, mas não gostei nada, esbravejei. A vida seguiu de perda em perda, e foram retumbantes os meus furores domésticos contra o esvaziamento total da importância da cidade. Contudo, ela permanecia linda. E culta. Recentemente…
Bom, por conta da doutrinação insana que eu sofri no inicio da vida, uma cariocagem desvairada, detesto quando maltratam o Rio de Janeiro. Sou Distrito Federal, sou Guanabara, sou Rio de Janeiro. Sou esta pequena partícula de terra bronzeada incrustada nas montanhas cansadas deste litoral velho ao sul. Mexeu com o Rio, mexeu comigo.
Portanto, não desisto de lutar pelo Rio e penso que neste descalabro total em que vivemos agora só há uma saída: teatralizar a cidade. Transformar o Rio num grande fluxo de teatro a céu aberto, Teatro de Janeiro. O plano é diabólico, proponho que a arte do palco envolva tudo e todos, num reformismo mais avançado do que aquele que moveu um dos meus grandes inspiradores, Lima Barreto, carioca também, Distrito Federal destilado. Nada de Pereira Passos, a coisa tem que ser mais adiante! Cariocas, avante!
Começaria assim – faríamos uma intervenção decidida na gerência urbana mais ampla. Exigiríamos do alcaide que estivesse no cargo a adoção de um Plano Diretor de Vitalidade Urbana – o PDVU. O PDVU imporia uma visão teatral para cada recanto da cidade, detalhadamente, ao ponto que se pudesse ter uma cidade-poema cênico, uma instalação de arte coletiva capaz de deslumbrar todo o ocidente. Sim, a ação aconteceria por bairros e de bairro em bairro ergueríamos uma cidade-arte inédita, nunca vista no mundo, quiçá na Via Láctea ou mesmo em todo o universo. Seria uma teatralização moderna, construída a partir da realidade cotidiana aqui e agora, e não uma enxurrada de voos metafísicos.
É evidente que o lugar número um da proposta do PDVU seria Copacabana. A Princesinha do Mar seria transformada de maneira descarada no bairro trans, no bairro fantasia, no bairro sonho. Por todas as esquinas seria estimulada a implantação de lojas de fantasias. O traje típico de Copacabana seria “à fantasia”. Os salões de beleza – você sabem que Copacabana tem uma inflação de salões de beleza, não? – seriam estimulados, com redução de impostos, para que organizassem desfiles, mostras, encontros de Fantasia de Si. Quer dizer, além de andar metido em fantasia, o transeunte poderia usar os salões para transformar face, cabelos, superfícies maquiáveis.
As lojas de fantasias seriam (ou poderiam ser) verdadeiros ateliês de criação – fantasia encalhada, fantasia reciclada. Imaginação pediu, fantasia surgiu – qualquer um poderia encomendar aquela fantasia esquisita desejada por toda a vida sem esperança de realização. No Carnaval, seria permitido usar fantasia de gente comum, para surpreender os turistas desavisados que estivessem muito exaltados buscando adrenalina nas ruas do bairro. E Copacabana continuaria a ser assim a nossa maior referência universal. A trilha sonora seria o bolero e a marchinha, a chuva seria confete, as cortinas puras serpentinas.
Ipanema seria outra coisa – seria o bairro intelectual, suprema ambição de seus moradores célebres, e teria livros por toda a parte. Além de livrarias, teria praçatecas, digamos, praças com estantes para o acesso universal e pleno aos livros. E para organizar a brincadeira festiva solene do bairro, tão agradável, do livro-esquecido e do livro-revelação. O jogo teria regras simples: todo ipanemense teria que, uma vez por mês, abandonar um livro amado, importante para as letras do mundo, no santuário-mor do bairro, a Praça Nossa Senhora da Paz. E teria também que “achar” um livro para ler, dentre aqueles deixados pelos concidadãos. A teatralização seria o ato de ler – e mesmo quem não gostasse seria convidado a vestir o figurino, andar com páginas ao redor da alma. Ler em voz alta, em público, seria a suprema manifestação de amor e civilidade.
Alguns bares e esquinas seriam nomeados como academias ipanemenses. O assunto em suas mesas seria necessariamente a vida intelectual do bairro, da cidade, do país e do mundo, jamais trivialidades, fofocas ou besteirol. Uma ou duas esquinas seriam transformadas em locus poeticus – assim mesmo, em latim macarrônico – tribunas livres para a recitação de poesias. E a roupa ipanemense seria esta mesma que muitos deles usam, um misto de panos enviesados, fardão acadêmico, invenção e informalidade – aquela coisa de: veja, estou na moda. Ou: eu sou a moda! A música seria a Bossa Nova, claro.
E por aí seguiria o plano reformador, conduzindo as almas a outros lugares: distantes das agruras de hoje, eles se tornariam lugares maravilhosos. Mas as vocações destes lugares não seriam arbitrárias, seriam ditadas pela tradição local, nada seria imposto por ato de autoritarismo. A população seria ouvida duplamente, através da escuta refinada da tradição, a qual todo bom carioca conhece bem, e através de eleição popular, bairro a bairro, em assembleias públicas bem barulhentas e sem os riscos e os custos de modernices fantasiosas como as urnas eletrônicas.
Não vou expor todo o plano diretor aqui – não quero correr o risco de algum aventureiro dele lançar mão. Porém, alguns exemplos mais, bem eloquentes, podem ser expostos. No caso do barulho, vejamos. Reza a tradição carioca que o bairro da Urca, talvez por ser tão novo, ter idade ao redor de um século, se tornou notável por ser um paraíso de silêncio e tranquilidade, mesmo com as tsunamis tradicionais de suburbanos que varrem o recanto nos fins de semana de verão – afinal, isto faz parte da rotina do Rio.
No entanto, um belo dia inventaram a mureta e a pobreta e, tchibum, adeus silêncio. Em particular no verão, há um bafafá noturno de assustar sentinela distraído. Pois bem, considerando a tradição de quietude, o plano pretende propor para o bairro a situação de oásis da pesca. Aos jovens mureteiros e pobreteiros seria oferecida requintada formação em pesca. Por todos os cantos possíveis seriam abertas lojas de equipamento de pesca e os militares do bairro, nas horas aquarteladas ociosas nas matas, providenciariam belas minhocas nativas para refinar a qualidade da atividade. A Urca permaneceria pululando juventude à beira mar, mas haveria um grande silêncio, pois ninguém consegue pescar com barulheira. E note-se: a amurada da Urca é um ponto tradicional de pesca da cidade, nada seria feito contra o que já está na essência do que é.
Pois o plano não torceria nunca a vocação de um lugar. Exemplos? Pois bem – Cascadura poderia se tornar um bairro de comércio de pedras preciosas, em honra ao nome. A música? Chá-chá-chá – um som bom para casos calientes de amor alimentados tantas vezes por belas pedras. No entanto, a arte de tecer sapatos artesanais sofisticados, inclusive para fantasias de luxo e para bailados de qualidade, muito bem exercitada no bairro, seria mantida, pois seria também um ato precioso.
O bairro do samba seria, claro, Madureira. Mas a macumba e o bate tambor dividiriam morada, pois são parentes muito chegados e afins. Embaixo do viaduto continuaria a ter a festa dos ritmos urbanos da hora. A roupa ia juntar o branco ritual, as baianas e os shortinhos, com alguma ostentação nas beiradas. Vila Isabel não se aborreceria com o samba sediado lá para o meião da linha da Central, pois se tornaria morada da seresta e da vida de bar. As modinhas românticas embalariam as noites, em contracanto com todo o cancioneiro de Noel.
Para o Méier migraria toda a moda, mesmo com o jeans continuando com a sua sede em Vilar dos Teles. Sim, ok, Vilar dos Teles pertence a outro município, São João de Meriti, o plano diretor não vai se atrever a gerar conflitos intermunicipais, vale só o exemplo, para tornar mais clara a coisa. Veja-se bem um outro exemplo – Botafogo, outrora um bom reduto de lojas de produtos de macumba, se tornaria o abrigo das ervas, todas as ervas, com as fantasias de folhas nativas liberadas para os moradores. Chapéus de embaúba serão acessório banal, espanadores do calor sob o ritmo de polcas e lundus.
E isto sem conflitos com São Cristóvão, senhor das flores, embalado com o xaxado e todos os ritmos nordestinos comendo solto. Para a Tijuca iriam os médicos, hospitais, clínicas e assemelhados, toda a população junto, aderindo aos higienizados uniformes. A música sem dúvida seria a valsa. O rock dominaria Laranjeiras, pois lá estaria o bairro hippie, pazeamor e zen. Enfim, a geografia toda se tornaria ato de arte, a partir dos matizes da própria vida cotidiana, local, como se o gosto pela performance fosse a razão de ser da polis. Os teatros brotariam do chão como uma espécie de cogumelo ávido, pois seria preciso ter muitas assembleias e muitas representações das artes locais.
Parece delírio de quem já está desesperado diante da crise carioca sem fim? Devaneio louco de quem não aceita a situação patética de abandono da cidade maravilhosa? Encosto de alta voltagem das almas de dois dos cariocas mais profundos, o maranhense Artur Azevedo e o nativo de estirpe Lima Barreto?
Sei não. Pois desconfio que a coisa está nos ares, traduz o descontentamento abissal com as omissões governativas do momento. Podem me refutar, se eu estiver errada, mas achei tudo coerente, depois do meu delírio, quando li o release da deliciosa ópera Bastien und Bastienne, de Mozart, que será apresentada no Rio neste fim de semana.
Justamente ela estará em cartaz nos dias 14 e 15 de Julho, na Cidade das Artes, aquele insano monumento ao desperdício que a cidade foi obrigada a engolir. No PDVU a Barra da Tijuca, por razões muito evidentes, será o bairro da ópera, com grandiloquências urbanas novas prolongando as grandiloquências inacreditáveis locais. A Barra vai se assumir em veludo, véus, bordados preciosos, rococós. Portanto, o espetáculo é mais do que bem vindo, é precioso.
E basta uma olhada rápida nos detalhes da proposta para que se perceba a sua beleza e a oportunidade de tudo. A ópera foi composta por Mozart aos 12 anos, razão pela qual a versão apresentada irá incorporar a figura de um narrador menino que sonha uma visita ao Rio no futuro, uma visita a uma exposição do pintor Pieter Godfred Bertichem. Deslumbrado, ao acordar ele escreve a ópera. As cenas irão surgir aos poucos, enquanto ele escreve a música.
O artifício dramatúrgico permitiu à concepção da montagem incorporar imagens do Rio dos séculos XVIII e XIX – verdade, aquele Rio arrebatador que virou a cabeça de tantos artistas e estrangeiros – sugerindo, hoje, um passeio visual por uma cidade apagada no tempo, desconhecida de verdade para nós, na atualidade. Um ato de magia teatral, não há dúvida, imperdível – o enredo de Bastien und Bastienne traz exatamente este colorido. A história – um Singspiel – conta as desventuras de Bastienne, jovem camponesa que perde o amado, Bastien, para uma mulher nobre. Desesperada, louca para recuperar o amor perdido, ela recorre ao mago Colas, que aconselha ao jovem casal o que fazer.
O diretor Manuel Thomas, em boa hora para as dores do Rio, optou projetar em cena reproduções gigantes de artistas das missões francesa e austríaca – e este procedimento ofecerá ao público a rara chance de mergulhar num túnel do tempo peculiar, de banho de amor à cidade, um banho teatral restaurador da esfrangalhada auto-estima carioca.
Vê-se muito bem, portanto, que está em pauta um ciclo de celebração muito especial. O foco é a recuperação da cidade. Em sintonia com este movimento, o PDVU tem larga perspectiva de sucesso. Você, carioca, fiel devoto da mais bela cidade entre todas (nenhum carioca de verdade descrê deste dogma, mesmo que não o confesse publicamente), precisa começar a agir. Pois se o Rio de Janeiro é mesmo o coração do carioca, corra, antes que o seu órgão vital seja esmigalhado, depois de arrancado brutalmente do seu peito. Nos ensinaram a amar, agora querem nos levar ao ódio. Então, lembre-se: imposições do poder à parte, o Rio merece todo o seu amor. Precisa dele. Inventaram o carioca, acreditamos: não vamos abrir mão da velha fantasia.
Datas: 14/07 a 15/07
Horários: – Sábado:20h; Domingo: 19h
Duração: 60 Minutos em média
Local: Cidade das Artes
Sala: Teatro de Câmara
Classificação etária: Livre
Preços: Inteira : R$ 70,00/ Meia: R$ 35,00
Direção Musical e Regência: Evandro Rodriguese
Direção Cênica: Manuel Thomas
Pianista Preparadora: Eliara Puggina
Elenco
Bastien: Rodrigo Sammarco,
Bastienne: Chiara Santoro
Mago Colas: Rafael Siano
Mozart: Vittório Gava
Atlantis Opera Orchestra
I Violino: Kelly Davis Moura
II Violino: Sarah Cesário
Viola: João Reis
Violoncelo: Diogo Moura
Contrabaixo: Matheus Tabosa
Oboé: Ruan Pablo Ribeiro
Trompas: Jhonatas Oliveira, Felipe Alves.
Produção: Kether Arts
Imagem: Hospício de D. Pedro II, Praia Vermelha,Pieter Godfred Bertichem.
Tagged: Artur Azevedo, bairros do Rio, Bastien und Bastienne, Cidade das Artes, Lima Barreto, Mozart, PDVU, Prefeitura do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Teatro
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A voz do corpo
Ocorpo fala e fala alto. Agora mesmo o pessoal dedicado ao corpo no teatro carioca começou a soltar a voz. O motivo da gritaria – uma gritaria gentil e educada, ressalte-se – é a ausência da categoria corpo nos diferentes prêmios de teatro da cidade. Nenhum prêmio atual considera estes profissionais numa menção específica.
A rotina dominante sempre fez com que os especialistas nos trabalhos de corpo fossem indicados e premiados na Categoria Especial, um grande balaio capaz de abrigar tudo o que não estiver nas categorias fixas. Pois bem, agora, os profissionais do corpo solicitam uma visão objetiva, nova, diferenciada, um prêmio para chamar de seu.
A turma tem perfil muito variado, um perfil de grandes dimensões. Participam da reivindicação, liderada por um grupo que redigiu uma carta aberta, apoiada por vários artistas, profissionais vinculados às categorias Coreografia, Preparação Corporal e Direção de Movimento. Estas especialidades absorvem artistas especializados dotados de formação bastante diversificada, atuantes em campos tão diferentes como a dança, o circo, as artes marciais, a educação somática.
O fato é histórico. Mas a historicidade, aqui, não remete apenas ao fato da reivindicação, não surge apenas por causa da existência objetiva do clamor, e sim por assinalar uma trajetória concreta do corpo do ator no teatro brasileiro. Em um século, de certa forma ecoando a própria libertação do corpo humano na sociedade, aconteceu uma transformação radical na fisicalidade dos atores. O tema é vasto, porém algumas notas precisam ser ressaltadas. Vale considerar como ponto de partida as lições do ator Procópio Ferreira (1898-1979), um primeiro ator da escola antiga: as suas palavras são preciosas, dizem muito a respeito da história do trabalho corporal em cena.
A cena é o início do século XX, o palco é um lugar de fala retumbante, para comover plateias numerosas, teatros sempre com mais de mil lugares, o velho edifício à italiana no estilo do século XIX. Para a formação teatral da época, na maior parte dos casos obtida na prática, a retórica e o bem dizer eram ferramentas essenciais; o ator precisava saber ganhar a cena, situar-se em três quartos, semi-perfil para a plateia. Nesta atitude, corpo estatuário, suporte para a emissão de palavras de impacto, ele devia soltar o verbo, para fazer tremer as almas e as paredes. O ator seguia a ação descrita nas palavras e as coordenadas da ação conduziam algumas movimentações pelo espaço, movimentos que traduziam com exatidão o texto. Era uma arte apaixonante para a sensibilidade daquele tempo, Procópio era um monstro sagrado. Aliás, para celebrar tanta popularidade, convém lembrar que no dia 8 de Julho ele completaria 120 anos, se vivo estivesse.
No livro que publicou em 1925, A Arte de Fazer Graça, Procópio Ferreira definiu o ator de forma precisa: “O ator é o intérprete fiel e consciente do autor; o criador, ao vivo, da personagem imaginada, pela frase e pela ação, dentro da peça.” A definição traz uma costura clara – a palavra, o texto, as intenções do autor, que, a seu ver, podem ser completadas de forma inteligente pelo ator, são os condutores absolutos do trabalho em cena. E ele diz mais: “O gesto, no teatro, é o introdutor diplomático da palavra.” Portanto, o corpo do ator era um suporte, um sustentáculo, para a expressão mais importante, a fala.
Uma das grandes chaves do sucesso da atriz Eva Todor (1919-2017) foi, numa época em que a palavra fazia a cena, a presença corpórea intensa, inclusive cômica, obtida a partir do uso da formação em balé e de efeitos acrobáticos. O seu território primeiro foi a revista, um teatro mais livre para o corpo, mas quem observa com atenção as chanchadas da Atlântida, da década de 1950, pode ver com muita clareza o que teria sido o corpo em cena na primeira metade do século, nos anos 1930, mesmo na revista, e dimensionar o furor de alegria oferecido pelas soluções criadas por D. Eva. A cena famosa de espelho do filme Os Dois Ladrões, de Carlos Manga, com Eva Todor e Oscarito, sempre usada nas aulas de História do Teatro Brasileiro, dimensiona o ardiloso uso do corpo sob intenções cômicas na época. Mas, ainda aqui, toda a regência do ato se faz pelas palavras.
Portanto, durante boa parte do século XX o corpo do ator brasileiro era moldado por uma armadura verbal resistente. O grande marco para a mudança, a renovação incontestável, surgiu da dança, de certa forma. Klauss Vianna (1928-1992), bailarino e professor de dança, foi o revolucionário que sacudiu a cena. Preocupado com a expressividade do corpo e com a estrutura física da expressão, ele formulou um método a partir da experiência concreta de trabalho com atores. O marco da grande virada aconteceu em 1967, com a montagem de Navalha na Carne, de Plínio Marcos, direção Fauzi Arap, um desempenho histórico de Tonia Carrero (1922-2018).
Vários trabalhos a seguir alcançaram grande sucesso e impuseram a realidade de um corpo novo, não mais o corpo verbal antigo ou o corpo maleável adestrado para acompanhar o verbo, mas um corpo senhor de sua potência e de sua força expressiva. Klauss Vianna tornou-se referência, fez escola. DDentre tantos trabalhos que assinou, destacam-se historicamente Roda Viva, de Chico Buarque, direção de José Celso, e os trabalhos com o Teatro Ipanema de Ivan Albuquerque e Rubens Corrêa – notadamente O Arquiteto e o Imperador da Assíria e Hoje é Dia de Rock.
Portanto, uma poética nova despontou, um fazer diferente se impôs, não foi apenas uma assinatura ou uma proposição pessoal. Nasceu a Expressão Corporal, com a incorporação de múltiplas referencias, da dança moderna ao circo, passando pela dança clássica. Na realidade, uma frase de Klauss Vianna no seu livro A Dança situa com muita clareza o novo território: “Não podemos aceitar técnicas prontas, porque na verdade as técnicas de dança nunca estão prontas: têm uma forma, mas no seu interior há espaços para o movimento único, para as contribuições individuais, que mudam com o tempo.”
Realista ou profético, o fato é que as mudanças não pararam, trouxeram muitas nuanças, muitos profissionais, um corpo inquieto e múltiplo, até mesmo uma faculdade, sob a liderança de Angel Vianna, esposa e colaboradora de Klauss Vianna num grau absoluto. Assim como o corpo é móvel, assim as artes do corpo em liberdade de criação são obras de movimento, em movimento. O fluxo criativo ronda o infinito. Tanto a pesquisa caminha para dançar o cotidiano, poetizar a rotina, como envereda pelo lúdico, pelo formal, pelo extra-cotidiano ou o ancestral: não há fórmulas nem receitas.
E esta ebulição criativa aparece nas comissões de prêmios: nas reuniões, sempre há o reconhecimento de obras marcantes, colaborações destacadas, artistas do gesto que fizeram diferença na temporada. De fato, o campo de trabalho hoje é imenso. E necessário. É impossível entender a cena atual somente a partir da equipe criativa moderna tradicional – diretor, cenógrafo, iluminador, figurinista. Até mesmo para analisar a performance dos atores, é preciso ter noção de sua história físico-expressiva, além de considerar a linha de trabalho do artista encarregado da, digamos, “direção do corpo”.
Agora mesmo – para tornar mais precisa a visão da riqueza deste espaço de trabalho – surgiu o anúncio da Conferência Nacional Laban 2018, Sistema Laban Como Prática de Liberdade. O encontro acontecerá no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro, de 1 a 3 de Agosto, com o objetivo de reunir pesquisadores e artistas nacionais Labanianos. Importante perceber a oportunidade e a coerência. O conhecimento de Laban importa para a análise das peças teatrais do presente – um exemplo é a bem sucedida A palavra progresso na boca da minha mãe soava terrivelmente falsa, da Multifoco Companhia de Teatro, um coletivo cujo processo de trabalho incorpora múltiplas linguagens cênicas, em especial o circo e a dança contemporânea – e Laban. A bem sucedida direção de movimento de Palu Felipe só pode ser perceptível na sua densidade a partir do conhecimento de Laban.
Com certeza a criação de uma nova categoria nos prêmios envolve mais do que o reconhecimento da importância da atividade. A rigor, há um lado prático e financeiro, e há também o lado da pergunta difícil, rascante – há mesmo em cada temporada um volume razoável de participações, capaz, este volume, de justificar um olhar específico para os artistas envolvidos? Existem outras categorias esquecidas, que se tornaram obrigatórias na cena de hoje e permanecem injustiçadas? O que fazer – já que o tema é corpo – com o vasto terreno de habilidades do musical? O que fazer com o próprio musical, menosprezado em muitos ambientes, dominados ainda por um estranho preconceito reducionista da arte? Debate aberto, soluções adequadas virão. Importa reconhecer o valor de todo o trabalho de criação na esfera da arte.
Este mês de julho, por sinal, começou com uma grande perda na área do teatro, uma perda triste, mas propícia para iluminar um pouco mais o debate – o ator Peter Land anunciou a morte de sua esposa, a coreógrafa inglesa Gillian Lyne (1926-2018). Bailarina de formação, longeva, ela foi autora de uma lista admirável de trabalhos. Entre tantas atividades, ela assinou direções e coreografias – e recebeu duas indicações ao Tony pela criação da coreografia de Cats e de O fantasma da Ópera. O fato de serem musicais ajuda a ampliar o alcance da reflexão: Cats em particular é um argumento decisivo para apontar a força e o impacto da presença física do ator hoje. E os musicais, com certeza o teatro do nosso tempo, são o lugar de exigência máxima do corpo enquanto capacidade expressiva.
Vale assinalar um detalhe curioso. O talento natural para a dança de Gillian Lyne teria sido descoberto muito cedo, por um médico, consultado por sua mãe, preocupada com o rendimento escolar da menina. O médico teria pedido para falar a sós com a mãe e ligou o rádio – sozinha, a pequena dançava ao ouvir música, extravasava a sua dança interior. O médico recomendou aulas de dança e o talento foi cultivado. A dedicação intensa à sua arte foi a tônica de sua biografia, a partir de um pequeno gesto de reconhecimento, capaz de mudar toda a orientação de sua vida.
A reflexão a respeito da proposta formulada pelos profissionais do corpo, neste país dançante e gingado, deve considerar temas desta ordem. Sim, em algum grau ela está ligada ao bem das pessoas e ao bem do país. Pois, no final das contas, o que está em discussão é mesmo o valor mais simples e irredutível: o valor das pessoas. A partir do respeito às necessidades delas, é possível chegar ao bem social e à função mais nobre da arte em nosso tempo. O debate envolve tudo – a necessidade da arte, a redenção humana e a elevação sensível. Em tais condições, parece natural que a voz do corpo, soante no nosso tempo, livre da velha escravidão às palavras, ecoe forte, ocupe mais espaços – como os espaços dos prêmios. Afinal, como se pode ver ao redor, por todos os palcos, uma arte da cena intensamente corpórea é a condição do palco hoje. E ninguém duvida: ela diz algo importante sobre a vida atual, no país e no mundo.
Conferência Nacional 2018- Sistema Laban como prática de liberdade!
1 a 3 de agosto no Centro Coreográfico da cidade do Rio de Janeiro
Rua José Higino, 115 – Tijuca
Inscrição online:
www.evenbrite.com.br (digitar laban2018brasil em pesquisar eventos)
Tagged: Angel Vianna, Companhia Multifoco de Teatro, corpo, Eva Todor, expressão corporal, Gillian Lyne, Klauss Vianna, Laban, prêmios de teatro, Procópio Ferreira, Tônia Carrero
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A arte do ator: teatro não se aprende na escola
Muitas vezes já me vi na situação embaraçosa de tentar explicar uma das minhas profissões mais estranhas – são várias – para pessoas descrentes do potencial humano para arranjar coisas bizarras para fazer. É quando comento que dou aula em escola de teatro e o interlocutor, cidadão do mundo comum, exclama – Mas que diferente! O que você faz lá? E para quê serve uma escola de teatro? Você forma atores?…
Trabalho em escolas de teatro desde 1982 e não, não sei se eu formo atores – ou mesmo se alguma escola de teatro consegue formar atores. Quanto tempo leva um ator para se formar? Reparem bem na estrutura da pergunta, pois acredito que é o ator quem se forma, quem cuida de si, quem batalha dia a dia para ser ator. A rigor, de verdade, ninguém forma um ator, o ator é que se forma. E a grande dúvida reside aí – um curso de 2, 3 ou 4 anos não leva um ator a se formar. O ofício é denso.
A história está povoada por multidões de atores – a imensa maioria – que nunca estiveram numa escola de teatro. Como eles se formaram, se as escolas de teatro são tão recentes? Na vida. Muitos não tiveram escolha: nasceram em famílias de teatro e, como as profissões, até há bem pouco tempo, passavam obrigatoriamente de pai para filho, foram forçados a seguir no tablado. Neste mundo histórico, a escola era o ato mesmo de fazer – e eu penso que isto, na arte, significa muito. O artista nasce na arte. Nenhuma teoria pode ensinar um ator a fazer uma cena, seja de puro corpo, de riso ou de dor.
Na encantadora Escola de Teatro Martins Pena, uma usina de arte fabulosa, conheci um senhor, o Seu Arthur, patriarca da escola, conselheiro da comunidade, um destes sábios cotidianos, um dos meus ídolos secretos. Ele namorava a secretaria da escola, Claudinete, fora comerciante ali na rua e se acostumou a apadrinhar a casa. Um dia, numa conversa distraída na secretaria, ele sentenciou: aqui nesta escola não são formados atores, são formadas pessoas melhores. Depois de formados, os alunos decidem se querem seguir a arte, mas, se não seguirem, terão uma vida mais feliz. Serão bancários melhores, motoristas melhores, comerciantes melhores.
Adotei este pensamento singelo, direto: o teatro torna as pessoas mais felizes, melhores, ninguém passa impune por uma experiência teatral. Mas, formar um ator, um artista de teatro, na plena expressão do termo, eis uma tarefa difícil. Ensinar teatro é ensinar tudo: é ensinar a viver com arte no próprio corpo, ensinar a irradiar e a exalar arte. Gestos, palavras, sentimentos, pensamentos – tudo, enfim, precisa ser sintonizado com uma dimensão poética explícita.
A questão é muito profunda. E é muito séria. A pessoa pode passar a vida fingindo ser ator, pode simular um domínio da expressão que, de fato, não tem. E ainda assim pode ter sucesso, encantar um público, conquistar uma plateia para chamar de sua. São os canastrões, os malandros da arte, que fingem com sinceridade ser o que efetivamente não são – e, vamos combinar, que mal há nesta farsa em que farsante e farseados se sentem felizes, compartilhando um lugar sentimental reconfortante, de uma mentira rasteira?
Existe, contudo, o ator pleno, íntegro, verdadeiro, vertiginoso. A pessoa doa a alma ao que faz e irradia uma energia de vida pura, cristalina. Usa-se com frequência a palavra sacerdócio para falar destes celebrantes, que conseguem dominar um código de comunicação, uma linguagem, em que a vida está ausente e a arte se faz dominante. Como é isto? Como se pode ensinar isto?
Sim, eu não sei se formo atores por que trabalho sempre com teoria, sempre dei aulas de teoria do teatro, estética, história do teatro, crítica teatral e metodologia da pesquisa. Vale insistir que eu nunca quis ser atriz. Sou historiadora de formação, escolhi estudar História muito cedo e sou encantada por seu estudo. Decidi me especializar em História do Teatro quando o campo era um terreno baldio e, ciente da minha ignorância a respeito do teatro, fui estudar a arte. Sim, passei pelo palco nas escolas de teatro, quase conclui o curso de direção, adoro dirigir, mas a minha praia é mesmo a teoria.
Vi coisas inacreditáveis em aulas de interpretação ao longo da minha vida nas escolas. Ausência de método, empirismo, impressionismo, improvisação canhestra, superficialidade, arrogância, ignorância e má fé não faltaram. E sempre bateu forte a percepção de que vivemos num meio teatral muito instável, muito irregular, muito frágil. Os saberes são muito difusos. Qualquer aventureiro que chega, como se fosse um colonizador europeu com seus espelhinhos, faz a praça, vira deus. Já vi professor de interpretação empurrar o aluno do palco para que o aluno caísse lá de cima e… perdesse o medo da cena…!
Penso que é fundamental a organização de uma rotina de congressos de ensino de teatro, para que as diferentes escolas se encontrem e exponham seus métodos e processos. Para debatermos o que é formar um ator. Hoje, no Brasil, vivemos uma realidade muito engraçada: temos mais escolas de teatro do que teatro. Formamos por todo o país uma quantidade enorme de atores e de diretores de teatro – e até de críticos – sem que estes jovens tenham qualquer perspectiva de mercado. As escolas trabalham por si e para si, visam um mercado inexistente. Formam atores?
Muitos professores destas tantas escolas de teatro raramente vão ao teatro e vários ignoram os grandes trabalhos teatrais do momento. Ao mesmo tempo, nas escolas regulares, os currículos de formação dos professores de Português ignoram os autores dramáticos, os dramaturgos. E todo este povo, salvo exceções muito localizadas, segue a vida sem ter tido teatro na formação escolar. Neste quadro, o aluno pode chegar à escola de teatro, universitária, sem nunca ter feito teatro e tampouco ter visto uma peça.
A profundidade do debate a respeito do teatro no Brasil hoje, portanto, é abissal. E a pergunta de fundo é rascante – que tipo de país se pretende construir no qual a própria instituição do teatro tende a ser uma farsa patética? Vale, então, destacar as iniciativas fortes, os pontos de tensão e de inquietude que podem sacudir a pasmaceira. Nesta semana, uma iniciativa acadêmica louvável estará à disposição de todos os que amam teatro e estão verdadeiramente interessados em debater a formação dos atores.
Trata-se de uma montagem escolar realizada na Escola de Teatro da UNIRIO. O projeto mobiliza a capacidade de produção da escola e identifica com muita clareza o contorno institucional e as condições de realização da escola. A estreia será na quinta-feira, dia 28, e as apresentações seguirão até o domingo. O texto escolhido é Em Alto Mar, de Slawomir Mrozek (1930-2013), obra lançada em 1961 e de impactante atualidade.
A sinopse diz tudo – três náufragos perdidos no meio do oceano, numa jangada improvisada, sem comida, decidem que precisam fazer uma eleição vital, para escolher alguém “daquela sociedade” para ser devorado e, assim, garantir a sobrevivência dos outros. A direção é do professor encenador Ewald Hackler. E a pergunta impertinente surge clara: qual a novidade que transforma uma simples montagem escolar em evento importante da temporada, sonante para uma reflexão a respeito da estrutura do teatro brasileiro hoje?
O primeiro ponto a destacar é a densidade artística do trabalho de Ewald Hackler. Professor, ele é, antes de tudo, um diretor, um grande especialista na arte da encenação. Nascido na Alemanha, na década de 1960 ele trabalhou com atores do Berliner Ensemble, o teatro estruturado por Bertolt Brecht (1898-1956).
Estes atores fugiram da Alemanha Oriental e se radicaram na cidade de Colônia, onde Hackler vivia. Leonard Steckel (1901-1971), o ator criador do papel do Sr. Puntilla, foi um destes atores. Hackler desempenhou ainda a função de cenógrafo-assistente de Caspar Neher (1897-1962), o grande cenógrafo de Brecht, e se projetou como figurinista e cenógrafo.
Radicado no Brasil há cinquenta anos, professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, Ewald Hackler veio ao Rio convidado pelo Instituto Martim Gonçalves e pelo PPGAC da Escola de Teatro da UNIRIO. O projeto tem uma densidade profissional admirável. É a terceira vez que o diretor dirige o texto e, neste projeto, o diretor se concentrou no método da montagem, na leitura de mesa e na compreensão da estrutura da peça.Quer dizer, extensa aplicação de um método, calcado na formação do ator para a encenação.
Assim, a discussão central do trabalho é a formação do ator segundo as regras mais nobres da arte no nosso tempo. Em Alto Mar pretende ser uma montagem didática, uma encenação que nasce de um seminário especializado, realizado na disciplina Prática de Montagem Teatral, ministrada pela Professora Jussilene Santana, produtora executiva do espetáculo e diretora do Instituto Martim Gonçalves. O processo foi acompanhado por uma equipe de filmagem, para o registro do trabalho e para a realização de um documentário. Ou seja – o método de direção de Hackler ficará documentado.
Para o tema da formação do ator, há um mérito absoluto na montagem: o texto escolhido, uma peça do gênero didático, apresenta uma estrutura formal composta por cenas autônomas, independentes entre si, mas articuladas em profundidade. A intencionalidade e a intensidade do trabalho do ator precisam ser focalizadas com rigor para que esta estrutura apareça com impacto, entre a sensação e a razão. Da fala ao menor gesto, é preciso contar com uma abordagem técnica muito precisa, sem espontaneísmo, sem apoio em truques de colete ou em vícios expressivos.
Portanto, a encenação recorre ao efeito épico para a apresentação das cenas. Vale acrescentar algo a esta concepção do épico, na qual o intérprete tem protagonismo decisivo em todo o processo. A concepção geral da proposta nasce do diretor, mas é profundamente elaborada junto à equipe, segundo aquilo que se poderia chamar de contracena inteligente. A solução poderá ser vista com muita clareza no ensaio aberto do dia 27 próximo, quarta-feira, no qual o diretor trabalhará os procedimentos com o pano aberto, expondo para a plateia o mecanismo de montagem – o ensaio aberto será, portanto, uma aula-ensaio.
A partir da dinâmica ácida do texto, uma combinação requintada de representação, farsa e mordacidade, crítica aguda ao Estado e aos poderes de aniquilamento do sujeito, é possível encontrar um desafio forte para o trabalho do ator, em especial do jovem ator, inquieto, louco para sacudir as estruturas do mundo. Para que a opressão se torne palpável, alvo nítido para a plateia, vale mostrar e desmontar, digamos – e a potência para fazê-lo dirá da extensão do intérprete.
Como se pode constatar, é uma tarefa árdua explicar o trabalho que deve acontecer dentro de uma escola de teatro. Pois as escolas se tornaram necessárias em razão desta arte atual, de alta voltagem crítica. Trabalhar com o ator para que ele se torne capaz de materializar esta força a um só tempo criadora e questionadora, lúdica e racional, é a tarefa que se atribui, hoje, às escolas de atores. Sim, em lugar de formar, elas indicam caminhos. Não se trata mais de mera repetição de um arsenal de truques e padrões, mas de invenção da sensibilidade e da percepção. Como dar conta do encargo? Não há resposta teórica. Mas, sim, há uma chance para tentar explicar tudo ao vivo: é ver a montagem e dimensionar o quê, afinal, se pode conseguir fazer numa escola tão tradicional como a UNIRIO.
EM ALTO MAR
Apresentações:
27 de junho – quarta-feira – 19h (ensaio aberto e didático)
28 de junho – quinta-feira – 18h (estreia para público e convidados)
29 de junho – sexta-feira – 19h
30 de junho – sábado – 19h
01 de junho – domingo – 19h
Local: UNIRIO – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
Palcão da UNIRIO
Endereço: Av. Pasteur, 436 – Urca, Rio de Janeiro – RJ
Duração: 60 minutos
Gênero: comédia
Lotação: 80 lugares
Classificação: 14 anos
Entrada gratuita – distribuição de senhas 30 minutos antes da sessão.
Dramaturgia: Slawomir Mrozek
Tradução: Roberto Lage
Direção: Ewald Hackler
Assistente de Direção: Jussilene Santana
Preparadora de voz: Jussilene Santana
Elenco: Guedes, Osvaldo Baraúna, Vanessa Rocha, Venâncio Cruz e Virgínia Bravo
Assistentes de produção: Maria Clara Migliora, Raphael D´Arc, Stace Mayka e Úlli de Oliveira
Figurino: Ewald Hackler e elenco.
Caracterização: Mona Magalhães (monitorada pelo aluno Everton Cherpinski)
Assistência de cenografia: Adler Franco
Iluminação: Raphael Cassou
Design e Ilustrações: Yuri Barreto
Assessoria de Imprensa: Duetto Comunicação
Produção Executiva: Jussilene Santana
Produção: Escola de Teatro da UNIRIO e PPGAC
Apoio: Instituto Martim Gonçalves
Site https://institutomartimgoncalves.com.br
Tagged: Atores, Em Alto Mar, escola de teatro, Escola de Teatro da UNIRIO, Escola de Teatro Martins Pena, Ewald Hackler, Instituto Martim Gonçalves, Jussilene Santana, Slamowir Mrozek, UFBA
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Teatro e futebol: formas do saber humano
Já conheci várias pessoas com uma característica espantosa: o ódio ao teatro. Algumas tinham o coração entregue ao futebol, arte mais verdadeira e intensa, na sua opinião. No conjunto, os motivos do ódio são vários. Impossível elencar todos – vão desde a convicção de que o teatro é velho, superado, passam pela certeza de que a cena explora apenas a vaidade e o exibicionismo rasteiros e chegam até o mais puro desencanto com a arte. Para este ponto de vista desencantado, o teatro estaria devotado mais à materialidade fútil do que à intensidade ideal da poesia. Algo assim como se um craque se preocupasse mais com os volteios do seu penteado do que com a qualidade dos seus chutes, digamos.
A lista das queixas é longa. Já sai de uma peça de vanguarda obscura com duas senhoras devotadas ao teatro, desconhecidas, indignadas com a cena apresentada. Exaltadas, elas declararam com veemência que iriam abandonar o teatro em favor do cinema, pois, amantes da velha arte, enfrentaram naquela semana uma sequência de peças experimentais no seu entender inúteis, equivocadas mesmo, como estudo da humanidade. Elas estavam furiosas e chegaram até a zoar o elevador canhestro do velho prédio: já que o foco da casa era a invenção, qual o motivo de ter um elevador modesto, trôpego pelos andares?, proclamaram.
Ouvi em silêncio. Mas entendi que existe uma falta, um abismo, entre o palco e a sociedade brasileira. Depois do jogo da seleção, ao andar a pé no meu bairro, na universidade em que trabalho e por diferentes recantos da cidade, o que eu ouvi em todas as bocas era a discussão, às vezes bem exaltada, a respeito dos rumos do futebol brasileiro – vale topete, pose, maquiagem ou o importante é o pé, o cérebro de par com a bola…? Foi jogo ruim ou roubo? O futebol fez vários gols estes dias e disparou os corações. O teatro com frequência não consegue nada parecido, mesmo com aqueles que o amam com intensidade. A norma é o tédio e não há nem mesmo a vontade de xingar o juiz.
Podem ser ciclos da sociedade humana – no século XIX, a vida não era assim. Não existia o futebol, nem o cinema, ou a TV. O teatro era o rei do pedaço. Sim, tinha a concorrência da ópera e da música, mas, desde a função de ser a escola de costumes, até o nobre papel de apontar a definição requintada do ser, tudo era próprio do gramado do teatro. Neste século XXI, quem sabe o futebol esteja com os seus dias contados, prestes a morrer, a favor de uma nova arte, a arte de viver virtual, um casamento da internet com a performance? Não, não será uma forma de teatro, será outra coisa, ainda sem nome. E o teatro?
Sobreviveremos – vale a resposta curta, histórica, emprestada por Tchekhov. Impossível saber para onde andará o teatro: sempre usamos um edifício velho no nosso tempo novo, pois, quando as paredes teatrais se erguem, registram, a rigor, o teatro que passou. Sempre usamos fiapos do que fomos e fizemos e da arte cristalizada no ar, sempre recorremos ao público fiel – portanto, passados, todos passados. Ansiamos o futuro, mas vivemos ancorados no passado. Como dimensionar o futuro? Impossível saber. Porém, a necessidade de aprender com a presença humana, de ouvir o outro e se encantar, sempre existiu e sempre existirá – sobreviveremos.
Vale buscar, olhar e avaliar a cena que consegue pulsar no meio da Copa do Mundo. Vale tentar entender o que faz com que tantos percam o seu tempo, sem lamentar, com os olhos pregados nos pés dos atletas e rejeitem, sem piscar, a dedicada energia de tantos artistas da cena. Há um saber humano aí? Há sentimento bruto, de um lado, refinamento de emoção, do outro? Qual o caminho?
De longe, chegam aqui atestados da grandeza do teatro brasileiro. De Portugal, do FITEI, um festival de teatro que sobrevive há 41 anos, chegam notícias do sucesso das apresentações no Porto do nosso celebrado Caranguejo Overdrive, da Aquela Cia. Além do tema, o descompasso profundo entre poder e sociedade que dilacera o país desde sempre, indicador da não superação aqui da condição colonial, alcançou impacto lá a forma da linguagem. Entre o documentário e o drama, alicerçado a um só tempo na narração, na representação, na performance e na apresentação, o trabalho despontou como eloquente registro da expansão da sensibilidade individual no nosso tempo. A forma da cena não fala mais apenas de sensibilidades conduzidas, integradas, como quer a linguagem teatral convencional, o velho drama, mas também de sensibilidades que pleiteiam a maestria da própria expressão.
O FITEI – Festival de Teatro de Expressão Ibérica – oferece uma gama variada de atividades – além da apresentação de peças nacionais e internacionais, conta com oficinas, concertos, debates, encontros, festas. Esta edição acontecerá de 12 a 22 de junho, contemplando não só o Porto, mas Vila de Gaia, Matosinhos, Felgueiras e Viana do Castelo e a presença brasileira está bastante forte.
Não se pense, contudo, na existência de facilidades para a arte em Portugal. Na semana passada, outro festival de projeção, de Almada, promoveu o lançamento de sua 35A., a ser realizada de 4 a 18 de Julho. No lançamento, além da definição da programação, foi reafirmado o compromisso público de manutenção do festival, apesar dos cortes de verbas anunciados. A expectativa é a de que a redução do financiamento público, divulgada em março, seja revista em prol da sobrevivência do encontro cultural importante.
Enquanto isto, lá como cá e por várias partes do mundo o dinheiro jorra nos gramados e a favor das chuteiras. Ninguém fala em corte de verbas para o futebol. Ele figura como necessidade primeira. Apesar dos escândalos de corrupção, do roubo e do vedetismo consumista exaltado dos craques – com frequência mergulhando no ridículo – nada leva a crer na possibilidade de falta de capital para o futebol nos próximos tempos. E, se tal acontece, uma coisa é certa: multidões apaixonadas garantem a sobrevivência da atlética ocupação.
O diagnóstico do caso, visto do lado do teatro, pode ser preciso. Talvez seja o caso ululante de uma unanimidade burra, como diria Nelson Rodrigues, ele próprio louco por futebol, ainda que não pudesse ver claramente qualquer jogo, por problemas sérios de visão. Mas ia aos estádios e simulava bem um domínio perfeito das artes da bola no campo, para atiçar os ânimos, como deseja o jogo. Ou o teatro. Teatro, futebol, Nelson Rodrigues: quem sabe se misturar tudo permita que se chegue a algum novo entendimento da espécie humana?
Pois, nesta semana de copa, paixões acirradas, torcidas histéricas e descabelamentos atléticos, uma sensacional montagem de Nelson Rodrigues estará à disposição do distinto público. E de graça. O Espaço Furnas Cultural, em Botafogo, vai apresentar a irresistível Perdoa-me Por Me Traíres, de Nelson Rodrigues, de 16 a 24 de junho, às 19h.
A peça é um clássico do autor e exala aquele sentimentalismo transgressivo exaltado do grande torcedor do Fluminense. A direção de Daniel Herz alcançou um efeito potencializador da dinâmica do texto, graças a uma cena límpida, geométrica, marcada por desempenhos intensos, realçados pela cenografia cirúrgica de Fernando Mello da Costa e pela luz diabólica de Aurélio di Simoni.
A oportunidade é de ouro, como a falecida taça Jules Rimet – ela permite pensar algo a respeito de um encontro improvável, mas desejável, entre teatro e futebol. Ao escavar o subterrâneo das almas, o autor fala da estrutura de sombra, paixão e dilaceramento que ergue o homem, talvez os mesmos engenhos que o futebol aciona, numa outra voltagem, quando instaura no estádio o urro coletivo. Quem sabe se este tipo de programa desperte a necessidade de teatro que sobrevive em todas as almas, ajude a diluir o ódio equivocado ao teatro, o ódio estranho que grassa por aí e impede a arte de revelar democraticamente as belezas que pode oferecer, em benefício da iluminação da vida?
Perdoa-me por me traíres
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Daniel Herz
Elenco: Bebel Ambrosio, Bob Neri, Clarissa Kahane, Ernani Moraes, Gabriela Rosas, João Marcelo Pallottino, Rose Lima, Tatiana Infante e Wendell Bendelack
Espaço Furnas Cultural
R. Real Grandeza, 219 – Botafogo, Rio de Janeiro
Temporada: 16 e 17, 23 e 24 junho
Entrada franca
Horário: 19h
Classificação: 14 anos
Duração: 80 minutos
Tagged: Aquela Cia, Caranguejo Overdrive, Copa do Mundo, Festival de Almada, FITEI, Futebol, Nelson Rodrigues, Perdoa-me Por Me Traíres, Teatro
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A ordem é: vamos namorar São Paulo
São Paulo é outro mundo, é um lugar muito longe. Duvida? Pois reconsidere sua visão. Nem sempre a distância se faz por quilômetros ou por tempo gasto para chegar. Às vezes, o lugar é logo ali, mas é como se lá o mundo estivesse virado de cabeça para baixo, fosse outro planeta. Um pouco como, no Rio, a relação Zona Norte- Zona Sul. Um tempinho de viagem e zás – entramos numa relação civilização-mundo de outra ordem, quase irreconhecível, uma espécie de espiral etérea de deslumbramento com a diferença abissal do outro.
O.K., para muita gente boa São Paulo não é longe, é logo ali. E parte desta gente acha também que os paulistas ainda estão apegados à equação Brasil-século XIX. Mas eu, que embatuco sempre com avião, eu discordo, penso que qualquer ponte-aérea é arremedo do caminho para Tóquio – e olha que eu desconfio que jamais irei a Tóquio, ainda que eu ame o Japão. É muito longe! Pois São Paulo, hoje, é uma espécie de tóquiodoriodejaneiro, um lugar no qual a vida anda de cabeça para baixo. É muito longe. O século XIX, por lá, se foi – e, sorry, gente bronzeada distraída, despencou decidido por aqui.
O leitor há de implicar: mas que equação Brasil-século XIX é esta? Explico. O século XIX tem seus mistérios e seu poder é monumental. Acredito que foi o único período da História – e vejam, foi por um pequeno lapso de tempo – no qual o Brasil andou em sintonia com o tempo do mundo. Antes, na colônia, estivemos no esgarçamento humano total, infinitas temporalidades dispersas pelo vasto território. Inaugurado o novo século, por sugestão de D. João, empurrão de Napoleão e obra da inefável e pouco lembrada D. Leopoldina, ingressamos no século com torque de motor a vapor (mas sem os motores, pois cá não os tínhamos…).
Mas o que digo? Mentira! Este Brasil do século XIX que era puro e intenso século XIX, sintonia perfeita com o melhor da época, era, na verdade, o Rio de Janeiro, ainda nada maravilhoso, embora resplandecente à beira mar plantado… O resto do país, do pobre país, decaído o ouro e arruinadas as Gerais, era a roça! E São Paulo era a roça mais braba da terra, a roça dos aventureiros inquietos, humilhados bandeirantes transformados em plantadores de marmelo. Esta foi a equação Brasil-século XIX: as luzes do Rio tentando iluminar as trevas do país-roça, luzes sangrentas movidas à escravidão, um crime no pensamento porém legalidade naquela vida. O país vivia a reboque de sua capital federal pura luz e sentia intensa admiração por ela, o resto era caipirada e matutice.
Algumas peças teatrais da época ilustram bem este Brasil – basta passar os olhos nas comédias do século XIX, marcadas pela oposição Corte-Roça. Na vida, contudo, logo a equação se revelou uma dissintonia com o tempo: veio a indústria, instaurou-se a igualdade e a liberdade humana, mas o Brasil não viu. Foi o furor bandeirante quem assumiu tais bandeiras, mas no século XX. E foi então que São Paulo começou a se tornar um lugar longe… cada vez mais longe.
É inegável que persiste em São Paulo algo do século XIX – quer dizer, da velha equação Brasil-século XIX. Esfumado no ar, paira aqui e ali um cheiro de estofo caipira. Consigo perceber a equação ao circular pela cidade e, com o meu s litorâneo carregado, logo ouvir a velha pergunta-cumprimento, entre a admiração e o elogio: “Você é… carioca?” É quase uma declaração de amor eterno, pois a frase vem seguida por um suspiro de devaneio, como se a pessoa dissesse: “Ah, o Rio!…” E, acreditem, às vezes elas dizem.
Ao andar pelas ruas de São Paulo, mesmo naquelas ruas em que a fortuna impera e em que é preciso romper a custo a atmosfera impregnada de ectoplasma capitalista, sempre há a deselegância discreta das meninas nativas. O fato também é corriqueiro em shoppings de luxo dignos de Miami ou de principados árabes – a vida de corte não impregnou o jeito de ser da cidade, a roça segue envolvendo muitas almas…
No entanto, a imensa fortuna borbulhante da cidade projeta-a, para aprisioná-la, no coração do redemoinho consumista do século XXI. São Paulo é chique e é cafona. São Paulo é rica. São Paulo é um shopping febril. E surpreenda-se: é muito civilizada. Mas é Brasil, portanto, mestiço selvagem, tem lá a sua grosseria nativa, coisa bem nossa, mas sem comparação, contudo, com as trevas humanas que vivemos hoje, por exemplo, na bronzeada vida maravilhosa.
A coisa fica mais séria se olhamos a Pauliceia com bastante atenção. O que se vê? Ah, há os teatros – ah, os teatros de São Paulo, maravilhas da civilização perdidas nos trópicos! O prefeito do Rio devia organizar excursões escolares regulares para os burgueses cariocas (projeto barato, na atualidade eles caberiam numa modesta van!) para que eles conhecessem o que é teatro e empreendessem aqui, como queria a Lei Rouanet. Alfa, Santander, Itau Cultural, Folha, Novo, Procópio Ferreira, Frei Caneca, MASP, VIVO, Sérgio Cardoso, FAAP, Porto Seguro, Itália… a lista não tem fim. E o colosso do SESC SP? Desconfio que é impossível, hoje, saber quantos teatros existem em atividade em São Paulo. E o melhor de tudo: ocupados com teatro. Com espetáculos deslumbrantes, marcados por uma seriedade de produção desconcertante, uma capacidade de execução notável.
Ah, São Paulo, como não te amar se você tem esta generosidade com a alma humana desvalida do presente, tão necessitada de teatro, este colo quentinho da humanidade? Mas importa ficar alerta – com o fígado preso no século XIX, São Paulo padece de uma vergonha do seu dinheiro que é estarrecedora, intrigante, uma forma de culpa cultural estranhíssima, uma coisa que faz o rico viver o seu dinheiro com vergonha de ser rico e o pobre chafurdar na pobreza com vergonha de querer ser rico enquanto faz tudo para ficar rico. Se a aristocracia francesa inventou o nouveau riche, São Paulo inventou o nouveau pauvre. O lema é: pode-se ter dinheiro, mas urge fazer como que se não o tivéssemos, soframos… Pode ser que seja praga da fundação jesuíta, vai saber?
Assim, há por lá um vago preconceito contra o teatro de grande produção, incorporando-se neste rol o teatro musical, pois a pobreza mental do país ainda vê o musical como alienante, apesar de Brecht, dos cabarés alemães, etc – mas vamos pular esta outra discussão, muito longa e pouco oportuna aqui. De certa forma, apesar do panorama impressionante da vida teatral paulista, vigora na comunidade teatral deles uma espécie de raça teatral, como se estivéssemos nos estádios dos clubes, em que o que conta é a coisa visceral, subterrânea, de invenção, para iniciados. É preciso transcender, afundar o dedo nas dores mais estranhas da alma, mesmo que a maioria nem tenha ideia do que isto possa ser.
Este clima materializa atmosferas loucas. Além da relação tortuosa com o dinheiro, o odiado capital, maldito objeto de desejo e de repulsa, vigora um amor estranho ao despedaçamento, aos fragmentos, farrapos. E um amor doido à conversa íntima. Vale ter no máximo trinta pessoas na plateia – trezentas já é quase o caminho da excomunhão. Na tabela, o único teatrão aceitável é o TBC, porque histórico, fracassado, acabado, morto, enterrado. Se algum zumbi-Zampari sair da tumba agora e ousar fazer um novo TBC, vai levar ovo, no mínimo. Os paulistas sabem com excelência fazer um teatrão único, arrebatador, mas eles têm vergonha disto, acham que é algo velho, para ser visto por pessoas lobotomizadas.
Esquizofrênicos, distantes de si, teatros e mais teatros vicejam pela cidade de São Paulo, portanto. As formas teatrais são várias, de extrema riqueza. Quem pula a cerca do experimentalismo nobre e cai na vala do comercialismo espúrio perde o prestígio – mas o caminho inverso até pode ser celebrado, mesmo que o herói seja recebido com nariz torcido, pois o cheiro de dinheiro fica pregado para sempre em quem transita no palco comercial. Entretanto, para quem passeia por São Paulo e adora teatro, que prazer é mergulhar na Broadway paulista, a verdadeira Broadway brasileira – vai, que é linda!
Talvez por causa do TBC, os paulistas fazem teatro com um acabamento que, no Rio, só vigorava de verdade no finado Teatro Mesbla, aquele bem comercial de comédias rasgadas. Aqui, no Rio, as paredes trepidam com qualquer movimento de porta, as taças de cristal são de eloquente plástico, as sedas são tão sintéticas quanto os cabelos da Barbie… Para o teatro carioca, esta indigência é normal e deve ser contornada pela verve, pela imaginação, o tal do espírito de corte. E se o ator ri do fiasco, a plateia aplaude em cena aberta, em especial se for plateia da classe. O vexame vira criatividade. E pensar que os paulistas de teatro se envergonham de viver o oposto disto, desprezam a carpintaria nobre? Ô xente, que injustiça…
A longa reflexão nasceu após uma voltinha rápida de fim de semana por São Paulo. E também por uma lufada de alento, após a alvissareira notícia da estreia no Rio, afinal, da grande montagem paulista de O Homem de La Mancha, de Miguel Falabella, agora no Teatro Bradesco – um dos raros grandes teatros do Rio hoje. Um teatro que merece o século XXI.
A encenação é deslumbrante, imperdível, atesta o padrão de produção paulista com rigor. E o pior de tudo: ela revela por que São Paulo convenceu Miguel Falabella, carioca de quatro costados, a mudar de CEP. Miguel como Cervantes, sonhador como Quixote, Falabella, a histórica loura má do palco do Rio, não economizou talento ou força de trabalho para obter uma cena teatral poética triunfal. E a cidade não foi mesquinha com o seu novo filho. O resultado é digno de todos os louvores recebidos: deslumbrou já na estreia. Garanto, é imprescindível ver a montagem.
A fantástica produção é mais do que benvinda. A cidade foi a capital cultural do país, foi o berço do teatro profissional brasileiro, mas apresenta, hoje, uma cena tímida – são apenas cerca de dez musicais agora em cartaz no Rio, a maior parte formada por produções modestas locais. Neste quadro, é imprescindível receber as grandes montagens de São Paulo, sobretudo a fortuna musical.
Entre as duas cidades, surgiu um descompasso histórico de tal ordem que a maioria das produções paulistas não vem ao Rio. Aliás, a cartelera carioca de musicais é tão pouco louvada que não chega a merecer uma coluna de destaque, especializada, no principal informativo teatral carioca, o suplemento Rio Show, do Jornal O Globo. E o gênero, convenhamos, é bem típico do Rio, essencial para a saúde da cidade.
Uma pena. Um mercado teatral menos anêmico no Rio seria fortalecedor também para São Paulo, destaque-se. A praça teatral nobre ficaria dobrada. No momento, este é um grande passo que importa conquistar – um passo de gigante, vale reconhecer, agora que São Paulo ficou tão longe, se perdeu no horizonte. Talvez seja missão para bandeirante, quem sabe.
Mas a esperança move o mundo quando o amor ao teatro é verdadeiro: depois de tantas rusgas, de uma falsa inimizade histórica, chegou a hora de começar o namoro tão adiado entre Rio e SP. Que a fumaça das fábricas se una à espuma do mar e os deuses do tablado sejam louvados de forma ampla, geral e irrestrita, estejam eles dançando e cantando o amor aos homens, recitando dramas e risos cotidianos ou procurando fígados para esboçar estudos sobre a matéria de que são feitos os seres. Será que chegou a hora estimular vivamente o diálogo cênico interurbano, fazer São Paulo ficar mais perto, bem mais perto, de todos nós? A sorte esta lançada, torcemos.
O Homem de La Mancha
Temporada: 9 de junho a 27 de julho de 2018
Horário: quintas e sextas às 21h, sábados às 17h e 21h, e domingos às 20h
Local: Teatro Bradesco – Shopping Village Mall
Endereço: Avenida das Américas, 3900 – Barra da Tijuca – Rio de Janeiro – RJ
Classificação: 10 anos
Duração: 105 minutos
Gênero: Musical
Ingressos: R$75,00 até R$190,00
Informações: 21 3431-0100
Capacidade: 1060 lugares


