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Teatro e futebol: formas do saber humano
Já conheci várias pessoas com uma característica espantosa: o ódio ao teatro. Algumas tinham o coração entregue ao futebol, arte mais verdadeira e intensa, na sua opinião. No conjunto, os motivos do ódio são vários. Impossível elencar todos – vão desde a convicção de que o teatro é velho, superado, passam pela certeza de que a cena explora apenas a vaidade e o exibicionismo rasteiros e chegam até o mais puro desencanto com a arte. Para este ponto de vista desencantado, o teatro estaria devotado mais à materialidade fútil do que à intensidade ideal da poesia. Algo assim como se um craque se preocupasse mais com os volteios do seu penteado do que com a qualidade dos seus chutes, digamos.
A lista das queixas é longa. Já sai de uma peça de vanguarda obscura com duas senhoras devotadas ao teatro, desconhecidas, indignadas com a cena apresentada. Exaltadas, elas declararam com veemência que iriam abandonar o teatro em favor do cinema, pois, amantes da velha arte, enfrentaram naquela semana uma sequência de peças experimentais no seu entender inúteis, equivocadas mesmo, como estudo da humanidade. Elas estavam furiosas e chegaram até a zoar o elevador canhestro do velho prédio: já que o foco da casa era a invenção, qual o motivo de ter um elevador modesto, trôpego pelos andares?, proclamaram.
Ouvi em silêncio. Mas entendi que existe uma falta, um abismo, entre o palco e a sociedade brasileira. Depois do jogo da seleção, ao andar a pé no meu bairro, na universidade em que trabalho e por diferentes recantos da cidade, o que eu ouvi em todas as bocas era a discussão, às vezes bem exaltada, a respeito dos rumos do futebol brasileiro – vale topete, pose, maquiagem ou o importante é o pé, o cérebro de par com a bola…? Foi jogo ruim ou roubo? O futebol fez vários gols estes dias e disparou os corações. O teatro com frequência não consegue nada parecido, mesmo com aqueles que o amam com intensidade. A norma é o tédio e não há nem mesmo a vontade de xingar o juiz.
Podem ser ciclos da sociedade humana – no século XIX, a vida não era assim. Não existia o futebol, nem o cinema, ou a TV. O teatro era o rei do pedaço. Sim, tinha a concorrência da ópera e da música, mas, desde a função de ser a escola de costumes, até o nobre papel de apontar a definição requintada do ser, tudo era próprio do gramado do teatro. Neste século XXI, quem sabe o futebol esteja com os seus dias contados, prestes a morrer, a favor de uma nova arte, a arte de viver virtual, um casamento da internet com a performance? Não, não será uma forma de teatro, será outra coisa, ainda sem nome. E o teatro?
Sobreviveremos – vale a resposta curta, histórica, emprestada por Tchekhov. Impossível saber para onde andará o teatro: sempre usamos um edifício velho no nosso tempo novo, pois, quando as paredes teatrais se erguem, registram, a rigor, o teatro que passou. Sempre usamos fiapos do que fomos e fizemos e da arte cristalizada no ar, sempre recorremos ao público fiel – portanto, passados, todos passados. Ansiamos o futuro, mas vivemos ancorados no passado. Como dimensionar o futuro? Impossível saber. Porém, a necessidade de aprender com a presença humana, de ouvir o outro e se encantar, sempre existiu e sempre existirá – sobreviveremos.
Vale buscar, olhar e avaliar a cena que consegue pulsar no meio da Copa do Mundo. Vale tentar entender o que faz com que tantos percam o seu tempo, sem lamentar, com os olhos pregados nos pés dos atletas e rejeitem, sem piscar, a dedicada energia de tantos artistas da cena. Há um saber humano aí? Há sentimento bruto, de um lado, refinamento de emoção, do outro? Qual o caminho?
De longe, chegam aqui atestados da grandeza do teatro brasileiro. De Portugal, do FITEI, um festival de teatro que sobrevive há 41 anos, chegam notícias do sucesso das apresentações no Porto do nosso celebrado Caranguejo Overdrive, da Aquela Cia. Além do tema, o descompasso profundo entre poder e sociedade que dilacera o país desde sempre, indicador da não superação aqui da condição colonial, alcançou impacto lá a forma da linguagem. Entre o documentário e o drama, alicerçado a um só tempo na narração, na representação, na performance e na apresentação, o trabalho despontou como eloquente registro da expansão da sensibilidade individual no nosso tempo. A forma da cena não fala mais apenas de sensibilidades conduzidas, integradas, como quer a linguagem teatral convencional, o velho drama, mas também de sensibilidades que pleiteiam a maestria da própria expressão.
O FITEI – Festival de Teatro de Expressão Ibérica – oferece uma gama variada de atividades – além da apresentação de peças nacionais e internacionais, conta com oficinas, concertos, debates, encontros, festas. Esta edição acontecerá de 12 a 22 de junho, contemplando não só o Porto, mas Vila de Gaia, Matosinhos, Felgueiras e Viana do Castelo e a presença brasileira está bastante forte.
Não se pense, contudo, na existência de facilidades para a arte em Portugal. Na semana passada, outro festival de projeção, de Almada, promoveu o lançamento de sua 35A., a ser realizada de 4 a 18 de Julho. No lançamento, além da definição da programação, foi reafirmado o compromisso público de manutenção do festival, apesar dos cortes de verbas anunciados. A expectativa é a de que a redução do financiamento público, divulgada em março, seja revista em prol da sobrevivência do encontro cultural importante.
Enquanto isto, lá como cá e por várias partes do mundo o dinheiro jorra nos gramados e a favor das chuteiras. Ninguém fala em corte de verbas para o futebol. Ele figura como necessidade primeira. Apesar dos escândalos de corrupção, do roubo e do vedetismo consumista exaltado dos craques – com frequência mergulhando no ridículo – nada leva a crer na possibilidade de falta de capital para o futebol nos próximos tempos. E, se tal acontece, uma coisa é certa: multidões apaixonadas garantem a sobrevivência da atlética ocupação.
O diagnóstico do caso, visto do lado do teatro, pode ser preciso. Talvez seja o caso ululante de uma unanimidade burra, como diria Nelson Rodrigues, ele próprio louco por futebol, ainda que não pudesse ver claramente qualquer jogo, por problemas sérios de visão. Mas ia aos estádios e simulava bem um domínio perfeito das artes da bola no campo, para atiçar os ânimos, como deseja o jogo. Ou o teatro. Teatro, futebol, Nelson Rodrigues: quem sabe se misturar tudo permita que se chegue a algum novo entendimento da espécie humana?
Pois, nesta semana de copa, paixões acirradas, torcidas histéricas e descabelamentos atléticos, uma sensacional montagem de Nelson Rodrigues estará à disposição do distinto público. E de graça. O Espaço Furnas Cultural, em Botafogo, vai apresentar a irresistível Perdoa-me Por Me Traíres, de Nelson Rodrigues, de 16 a 24 de junho, às 19h.
A peça é um clássico do autor e exala aquele sentimentalismo transgressivo exaltado do grande torcedor do Fluminense. A direção de Daniel Herz alcançou um efeito potencializador da dinâmica do texto, graças a uma cena límpida, geométrica, marcada por desempenhos intensos, realçados pela cenografia cirúrgica de Fernando Mello da Costa e pela luz diabólica de Aurélio di Simoni.
A oportunidade é de ouro, como a falecida taça Jules Rimet – ela permite pensar algo a respeito de um encontro improvável, mas desejável, entre teatro e futebol. Ao escavar o subterrâneo das almas, o autor fala da estrutura de sombra, paixão e dilaceramento que ergue o homem, talvez os mesmos engenhos que o futebol aciona, numa outra voltagem, quando instaura no estádio o urro coletivo. Quem sabe se este tipo de programa desperte a necessidade de teatro que sobrevive em todas as almas, ajude a diluir o ódio equivocado ao teatro, o ódio estranho que grassa por aí e impede a arte de revelar democraticamente as belezas que pode oferecer, em benefício da iluminação da vida?
Perdoa-me por me traíres
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Daniel Herz
Elenco: Bebel Ambrosio, Bob Neri, Clarissa Kahane, Ernani Moraes, Gabriela Rosas, João Marcelo Pallottino, Rose Lima, Tatiana Infante e Wendell Bendelack
Espaço Furnas Cultural
R. Real Grandeza, 219 – Botafogo, Rio de Janeiro
Temporada: 16 e 17, 23 e 24 junho
Entrada franca
Horário: 19h
Classificação: 14 anos
Duração: 80 minutos
Tagged: Aquela Cia, Caranguejo Overdrive, Copa do Mundo, Festival de Almada, FITEI, Futebol, Nelson Rodrigues, Perdoa-me Por Me Traíres, Teatro
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Bia Lessa, a crise e o teatro nosso de cada dia
O país em crise, sob um estresse violento. E eu aqui, para sempre um ser fora da linha, obcecada por teatro, como se o palco persistisse, sob este vendaval de agora, com a mesma importância festeira dos dias de calmaria social. Quer dizer, vale perguntar se, na sociedade brasileira, existe a chance de atribuir uma importância festeira ao teatro, sob qualquer clima que seja. A festa nasce apenas do olhar dos que amam a cena, desconfio.
Mas, rápida, afasto a dúvida – acredito no teatro, no poder do teatro, na sua importância. Com sinceridade. Tenho a certeza cristalina, inabalável, de que o teatro importa para a vida, para a felicidade do indivíduo e para a felicidade social. Está fora de discussão, a meu ver, o imenso poder do palco para transformar o ser humano. No fim das contas, resta perguntar se a nossa sociedade conhece mesmo calmaria. Tirando aquela lá longe, na costa da África, que serviu de álibi para o Cabral, o velho, o saldo parece duvidoso.
Sim, lamento, mas é assim. Fiz o meu balanço pessoal e cheguei à conclusão de que, na minha rotina, ao longo da minha vida, a exceção foi, de verdade, toda esta época recente, desde os anos 1980, em que simulávamos singrar um mar de almirante, planar num céu de brigadeiro. Não uso uma imagem de general porque, para eles, parece que não existe esta necessária metáfora. Marchar num campo de general? Um campo de general, seria o quê? Repleto de margaridas? Alheio a minas e bombas? Desconfio que a imagem não funcione, talvez o exército esteja sempre nas agruras.
Pois bem – pode parecer estranho para alguns, mas herdamos um momento histórico tranquilo dos militares, exatamente. Depois do horror que foi a vida sob os governos militares, veio a restauração democrática e se instalou este clima de sociedade estável, que nem na minha infância, nos conturbados anos 1950, não vivenciei. Fui uma menina muito preocupada com travessuras, brincadeiras e livros, mas, ainda assim, lembro que havia uma atmosfera de sobressalto constante. Pelo menos uma vez arrumei uma trouxinha de tralhas para fugir de casa, para diversão dos adultos. Ameaça de instabilidade, por ar, terra e mar.
Portanto, tudo como antes, no quartel d’Abrantes. E se estamos condenados a existir em desassossego, que ao menos tenhamos o teatro para nortear o descaminho. Esta possibilidade de ver o rumo, por mais esgarçado que seja, em meio ao caos, já nos visitou este ano no mínimo uma vez, com a belíssima montagem de Grande Sertão, Veredas, de Bia Lessa, no Centro Cultural Banco do Brasil.
A inventividade plena da encenadora sacudiu o espaço, reinventou com olhar certeiro o texto, expôs uma forma sinuosa de atuação entre multifacetadas formas do humano e conduziu o público a um impressionante mergulho-Brasil. Um dos pontos mais curiosos, momento muito denso, foi o uso dos cobertores de feltro, aqueles usados pela população de rua, para fazer figuras humanas, evocações dos soldados chineses de terracota, numa época em que a China integra o nosso pesadelo para definir o país.
Pois bem, Bia Lessa está de volta, em São Paulo. Agora a proposta vai ainda mais longe, vai questionar os limites concretos e abstratos da vida, do ser, da representação. O espetáculo PI, Panorâmica Insana, conta com dramaturgia de Bia Lessa, Júlia Spadacini e Jô Bilac. Um mosaico, um caleidoscópio, um painel do indivíduo no nosso tempo vai inaugurar um espaço cênico em São Paulo, o Teatro Novo.
O processo de criação foi todo ele marcado pela busca da trama complexa que enreda o contemporâneo – quer dizer, em cena, estão em jogo formas plenas, amplas, uma combinação de procedimentos que justifica o recurso ao substantivo panorâmica. A própria dramaturgia foi desenhada a seis mãos a partir de textos de Júlia Spadacini, Jô Bilac e André Sant’anna, com citações de Kafka e Auster.
No elenco, os nomes de Claudia Abreu, Leandra Leal, Luiz Henrique Nogueira e Rodrigo Pandolfo atestam a excelência pretendida na representação. Representação? Aí começa o debate. A fluidez da linguagem é o cálculo primeiro – a cena pretende vagar entre o teatro, a dança e as artes plásticas. O cálculo foi pensado para alcançar um objetivo claro: olhar para a sociedade contemporânea nos seus meandros e descaminhos. Mas não está em vista a produção de um simulacro.
A partir de dados e de pessoas reais, a cena focaliza o indivíduo, a política, a riqueza, a miséria, a violência, a nação, a civilização, o desejo, o gênero. A observação da vida aqui e agora está sob o foco, mas para buscar atingir o atemporal, um tempo de humanidade em que há lugar para o reconhecimento, a dúvida e a ironia.
O espaço usado participa da ideia – o teatro, em obras, foi preparado para receber a montagem, mas está inacabado, entre a ruína e a obra concluída. Na área de representação, 8 mil peças de roupas serão usadas pelos atores em suas performances, uma insinuação de seres múltiplos e transitórios – ao final da temporada, as roupas serão doadas para instituições de caridade. E o flerte com o transitório se faz ainda na paisagem sonora, construída em camadas de música, ruídos, sons, vozes, como aconteceu em Grandes Sertões.
Portanto, há um sinal a propósito do em trânsito, da passagem, da hesitação – um pouco como se a humanidade estivesse neste hiato de tempo, necessitando de um teatro de invenção. O que se aponta, aqui, é a necessidade do novo, da ousadia, do corte e da ruptura com velhas formas, mas sem perder o molde e o fôlego.
Que cálculo é este? Se olhamos com atenção a História, vemos bem claramente que é impossível falar na existência do teatro. Nunca existiu o teatro, um teatro, a mesma e repetida arte. Cada tempo faz o seu palco, faz nascer a cena de que precisa para lidar com as mazelas de sua alma. O teatro é cria do seu tempo. Na História, o máximo que podemos encontrar é a pluralidade, os teatros dos diferentes homens no mundo.
Vivemos num tempo múltiplo, instável, contraditório, dilacerado, multifacetado. Temporalidades estilhaçadas, antagônicas, contraditórias, fragmentárias varrem a vida, coexistem e buscam arregimentar fiéis. O ser humano precisa cuidar de si e de sua independência, do seu direito pleno de ser. Haverá um teatro adequado para cada uma das forças em jogo? Ou só recorre ao teatro quem percebe os abismos da vida?
Agora, então, no Brasil, é preciso serenar a mente e os afetos para tentar entender verdadeiramente o que acontece, fora dos interesses cristalizados espalhados por toda a parte, desde Cabral – o velho. Para cada inquietação, seria importante ter uma cena. E cenas arrebatadoras, vertiginosas, universais, aptas para falar a todos, libertas de qualquer calmaria.
Um belo exemplo? Talvez Bia Lessa trafegue por este caminho. Não sei: vou a São Paulo ver. E vai ser divertido reconhecer justamente em São Paulo uma bela panaceia, concebida por uma carioca de quatro costados, para o dolorido momento nacional. O país está em profunda crise – mas talvez nenhum ponto do vasto território esteja tão dilacerado como o meu velho Rio, que afunda em mar revolto: esperemos contar com o abrigo de um afável porto, a estabilidade de preciosa âncora, nenhum Cabral aventureiro de novo por aqui. Ou ao menos um bom teatro forte, para amortecer, na queda, nossos delicados corações.
Pi
Panorâmica insana
Teatro Novo (320 lugares)
Rua Domingos de Moraes, 348 – Vila Mariana
Informações: (11) 3542-4680
Bilheteria: terça a quinta, das 14h às 19h; sexta a domingo a partir das 14h. Acessibilidade para cadeirantes. Estacionamento conveniado(em frente ao teatro).
Vendas: www.ingressorapido.com.br
Sexta e Sábado às 21h | Domingo às 18h
Ingressos: Sexta R$ 50 | Sábado e Domingo R$ 70
Duração: 90 minutos
Recomendação: 16 anos
Gênero: Drama
Estreia dia 01 de Junho de 2018
Temporada: até 29 de Julho
Tagged: Bia Lessa, crise e teatro, Grande Sertão: Veredas, História e teatro, PI Panorâmica Insana, São Paulo, Teatro Novo
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A Praça Mauá é Nossa
Querem acabar com a Praça Mauá – quer dizer, querem acabar com a Praça Mauá que reina na alma da muy leal e histórica cidade de São Sebastião que habitamos. Cidade-poesia, cidade-sonho, cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro lírico reconhece na velha praça, agora em transe para o futuro, um lugar mítico, berço histórico da cidade-lenda.
Muito desta atmosfera de inefável carioquice nasceu do porto, sem dúvida. Mas, reconheçamos, o Edifício A Noite, abrigo célebre da Rádio Nacional, assina a autoria de boa parte da trama de sedução que enredou a cidade, encantou o país e provocou o ciúme mais doentio de São Paulo, a capital febril fabril. Eles correram para fabricar algo mais alto! Mas o Rio era o Rio.
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O teatro, o dinossauro e os seus cupins
Os cupins – tão pequenos – conseguiram derrubar um dinossauro: esta foi uma das notícias surpreendentes da semana. É certo que eles são vorazes e obstinados, digamos. Ou objetivos. E também é certo que o dinossauro, no caso, era um pobre simulacro, restos de ossos armados em poderosa estrutura de madeira. Ela foi eleita pelos devoradores, que puseram o monumento abaixo. Aconteceu no Museu da Quinta.
Talvez o Museu da Quinta, a antiga residência de D. João e dos imperadores brasileiros, possua uma secreta identidade com o teatro brasileiro. Por isto a notícia me arrebatou, além, claro, do fato de eu ser apaixonada pelo Museu da Quinta desde a infância.
Paixões de lado, dá para afirmar que muitas analogias podem ser traçadas entre o antigo lar dos imperadores e o antigo altar da alma nacional, o teatro. A mais evidente das analogias é retumbante como a pátria – depois da glória como centros do poder no século XIX, os dois estão caindo aos pedaços.
E – dói reconhecer a evidência cruel – a ruína é resultado direto da nossa ação, da ação humana, quer dizer, desinteresse, baixa mobilização, egoísmo, falta de visão do bem comum. Talvez tenhamos um jeito republicano torto, um tanto maligno, que nos impeça de abraçar metas favoráveis à saúde nacional. Tanto saúde física, como cidadã ou simbólica.
Não, não vou discutir aqui o que o teatro e o museu nacional significam para a saúde nacional. O foco é outro. Penso que é trabalhoso, mas é fácil banir (e erradicar!) os cupins. Segundo as minhas vivências, é essencial matar a rainha. Quer dizer, banir o núcleo gerador do problema. Então, no caso do museu, como não frequento a casa, vou abdicar de formular sugestões objetivas.
Sim, já decidi, estou fora da Quinta da Boa Vista. Só volto por lá quando estiver bem espanada, pois a última vez em que lá estive, a múmia, a preciosa múmia estimada do imperador, uma peça ilustre de preço estratosférico, estava passando pela gloriosa experiência tropical de tomar banho de chuva! Fiquei com medo de deparar com a cena dantesca, de tanta intimidade, a cena de ver uma múmia egípcia arquimilionária tomando banho, e abdiquei, larguei a Quinta, como se inspirada por D. Pedro I fosse.
Portanto, a boa espanada por lá não seria coisa leve, tipo tirar pó de múmia, até porque a nossa múmia não tem pó, ela toma banho. A coisa seria pesada, tipo suspender o dinossauro. Ou indo mais longe: arranjar una escada eficiente para consertar o telhado… O espanador começaria bem lá em cima, portanto, para ir até o subsolo. Abdico. De folga, vou para o teatro. Abaixo os cupins, viva a cena.
E o que fazer com os cupins do teatro? Em primeiro lugar, reformar, limpar, consertar os teatros da cidade. Depois, construir uns cinco teatros de grande porte, para abrigar grandes espetáculos, inclusive grandes musicais, e permitir uma política sólida de interação entre educação e teatro. Sim, levar as escolas ao teatro, aos magotes.
Além dos grandes teatros, legítimos altares da cidade, faria os “teatros de bairro” – pequenos oratórios comunitários para peças mais delicadas, pontuais, onde haveria agenda para programações locais significativas. Também abriria uma linha de crédito para que cada escola pública construísse ou reformasse o seu teatro, um teatro para chamar de seu, onde os alunos fariam apresentações e receberiam visitas teatrais de peças profissionais adequadas aos seus estudos.
Todo artista interessado em descascar abacaxi e provido de uma faca afiada o bastante para tal fim teria direito a um financiamento amigável, liquidável, para construir o seu próprio teatro. Nenhum shopping seria autorizado a funcionar sem teatro. Uma rede de galpões espalhada pela cidade ofereceria apoio para depósito de materiais cênicos, de uso privado ou comum.
Mas teatro se faz com gente. Assim, todo ano haveria a escolha municipal do artista do ano – um dramaturgo (vivo ou morto), um ator, uma figura relevante do palco, algum ser teatral com dimensão histórica. Uma agenda de eventos celebratórios convocaria a coletividade para louvar, analisar, pensar, debater a figura. Uma grande montagem em sua honra seria o centro do ritual.
Algumas outras iniciativas seriam estratégicas para assegurar a barreira de contenção ao redor da arte, capaz de libertá-la de nova infestação de cupins. A primeira seria uma política permanente e consequente de edições teatrais – peças, programas, almanaques, revistas, livros de pesquisa e de estudos, dissertações e teses. A estante teatral largaria a anemia e ficaria bem robusta.
A segunda, coisa do espírito, implicaria na organização de seminários, simpósios e oficinas de formação, atualização ou reciclagem profissional, eventos para encontro e debates, trocas de ideias. Aconteceriam também concursos, prêmios e uma política séria permanente de bolsas para aperfeiçoamento de jovens talentos, com intercâmbio internacional.
Parte da formação escolar e cívica, o teatro contaria com um incentivo oficial direto do governo para a encenação de peças estruturadas no interior de projetos culturais. Em consequência, o ingresso seria subsidiado, poderia ter um preço mais barato do que o custo bruto da produção determinaria. Quem não desejasse este formato, poderia sim explorar todos os meandros do teatro comercial.
Penso que esta ciranda de ideias e de projetos culturais imunizaria o teatro, do subsolo ao urdimento. E esta é apenas uma singela sugestão pessoal. A sua divulgação social acarretará, se ocorrer, a multiplicação da espanada em infinitas fórmulas, o fim dos cupins. A atitude é urgente, estamos em ano eleitoral. O dinheiro público para esta virada só vai existir se o patamar de roubo e de corrupção for zerado… Portanto, liberte os seus sonhos, ponha para fora os seus desejos, cobre soluções. Venha para o espanador você também! O tempo pede.
Sim, o terreno é muito propício para ações de saneamento bem radicais. Veja-se, por exemplo, a linda escolha jovem que estreia esta semana no Teatro Serrador – um dos textos mais impressionantes de Ibsen, Um Inimigo do Povo, direção de Bruce Gomlevsky. A montagem marcará a formatura de uma turma do primeiro semestre de 2018,da CAL, do curso profissionalizante de ator. E denuncia uma vontade de mudar vigorosa.
O debate proposto pelo texto é um nó atravessado na alma carioca desde o Império – a salubridade das águas urbanas. Inferno dos trópicos, o Rio teve um longo tempo de fama de pestilência, em especial em algumas regiões ao redor da Baia de Guanabara, sem que se chegasse a debater francamente o assunto.
Outras montagens aptas para sacudir a madeira dos palcos e ajudar o movimento espanta-cupim podem encantar o público, com um banho de carioquice, como a esperada homenagem a Martinho da Vila. E podem ser teatro em estado puro e alta voltagem, caso de Contracapa, texto original de Suzana Nascimento, direção de Priscila Vidca. A peça propõe uma discussão coerente com a necessidade humana geral de faxina: aborda as relações familiares, avaliadas através de escolhas feitas no passado, e de suas consequências. No elenco, José Karini, Roberto Frota, Rocio Durán (idealizadora do espetáculo) e Saulo Rodrigues.
A rigor, a empreitada de sacudir tudo, arejar, espanar e espantar cupins tem uma utilidade complementar importante: impede que os seus promotores, os protagonistas, imóveis, inativos, virem múmias, situação perigosa no Brasil, pois a chance de uma múmia ser condenada a banho de chuva é enorme. Dizem alguns que o teatro brasileiro não sofre este risco: mesmo infestado de cupins, ameaçando cair, ele persiste jovem e de bom humor. Pode cair e sobreviver. É atlético. Mas o ideal, de verdade, é que fosse uma realidade cultural fervilhante e que o fervilhar não fosse a ação destrutiva dos cupins.
“Contracapa”
Temporada: de 18/5 a 10/6 – sexta e sábado, às 20h; domingo, às 19h.
Local: Casa de Cultura Laura Alvim. Av. Vieira Souto 176. Tel.: 2232-2015
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia).
Lista amiga: contracapaapeca@gmail.com
Capacidade: 190 lugares. Duração: 70 min. Classificação etária: 14 anos.
Tagged: Bruce Gomlevisky, MÚmia egípcia, Museu da Quinta da Boa Vista, Priscila Vidca, saúde do Teatro Brasileiro
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Teatro: veneno e remédio
Volta e meia o assunto aparece: o que se faz com uma peça ruim? A rigor, não há nada a fazer, apenas ver e tentar entender o que aconteceu. Como nasce uma peça ruim? Ninguém assina um fracasso por querer. Acontece. E detalhe importante: nem sempre uma peça é ruim para todo o público.
Já vi peças detestáveis que o público adorava, urrava de satisfação – exalava o sublime prazer de ser enganado sem arte – e eu não morri por ter estado por lá, no meio da plateia. Sobrevivi sempre e fiquei exercitando os neurônios para tentar entender o desastre, a sua função na linha de trabalho daquele artista. Há sempre uma lógica da arte ao redor das oscilações da arte.
Gosto muito de lembrar uma entrevista que fiz com o ator Sergio Britto (1923- 2011), em que ele se declarou contra o teatro na escola – no seu entender, o teatrinho escolar de papel crepom só poderia gerar pessoas de sensibilidade deformada, incapazes de entender a arte. O resultado seria afastar o público do teatro.
No entanto, conheci uma faxineira cujo maior encanto de toda a vida foi ter tido a chance de fazer teatro de papel crepom na escola primária, na Baixada Fluminense – por causa da experiência, ela adorava teatro e sempre que podia e o bolso deixava, ela ia ver as peças em cartaz. Não era uma especialista, enquanto convivi com ela nunca deixou de ser uma espectadora singela, mas ela dizia que sempre saía do teatro com a alma leve. Qualquer teatro, vale frisar – mesmo peças que, para especialistas, emanavam o mais puro tédio – faziam a sua felicidade.
Portanto, vale concluir a favor da boa intenção eterna do artista, da constituição humana positiva da arte. Quando alguém sobe num tablado, por mais sem noção que o exibido possa ser, ele acredita sinceramente ter algo importante, significativo mesmo, para passar adiante. Busca, então, transmitir esta sua descoberta, a sua produção, algo em que investiu energia e tempo.
O artista sabe dos seus riscos. No fundo da alma, teme ser um enganador desclassificado, um blefe. Mas mergulha, confia, não sabe fazer outra coisa. Existe a possibilidade, contudo, de uma hesitação, um vácuo, um vazio, um equívoco. E pronto – a obra não consegue mobilizar o outro, o espectador. Recebe uma avalanche de vaia, coisa rara hoje. Ou esvanece sob pura indiferença. Ou mobiliza um segmento reduzido. Mas, não importa: a obra está ali e sempre estará acionando um fluxo de energia e de comunicação viva, certamente o elo que incendiava a minha amiga faxineira.
Sergio Britto também tinha horror ao artista medíocre. Mas, convenhamos, ele existe, tem a sua função e o seu público. O modesto artista suburbano tem todo o direito à sua arte. Nem todo artista é genial, é Rimbaud, cada um faz o melhor que pode e, afinal, o verso do momento do grande poeta pode ser ruim. No meio de uma obra de excelência, um dia aparece o cascalho bruto, o verso torto, menor. Talvez uma procissão de pequenos artistas seja necessária para o nascimento de um ídolo.
Mas não é só isto. É mais. Instável, a natureza da arte. O próprio da trajetória da arte, de toda a grande arte, é ser acidentada. É impossível fazer uma obra prima todo o dia, só conceber grandes obras, perfeitas, por mais genial que o artista seja, por mais que disponha de condições ideais de inspiração e de produção.
A criação é um processo, atinge um grau mais elaborado em certo momento, mas passa por etapas de formulação mais problemáticas, menos nítidas, com menor clareza de concepção. Ter difusão da arte na sociedade e escola, educação para todos, impulsionam o refinamento da expressão coletiva. O teatro de escola é direito do cidadão, dever do Estado e oxigênio para a arte.
Na verdade, tudo pode ficar bem desfavorável para o artista, tudo pode ser bem mais difícil. Numa sociedade de escolaridade nebulosa, a expressão coletiva tende a ser turva. Num cenário teatral rarefeito, instável, com instabilidade de produção, como conseguir uma voltagem produtiva elevada, propícia ao fluxo criativo mais requintado, refinado? No caso do teatro, que não é obra solitária de atelier ou de escrivaninha e depende de condições materiais objetivas de produção, uma arena de arte hostil, como a brasileira, é um enorme obstáculo para o trabalho do artista.
Ainda assim, temos grandes artistas – temos artistas guerreiros capazes de sobreviver e produzir sob condições de trabalho detestáveis. No entanto, há um preço, temos sempre uma instabilidade grande de produção. Temos um contingente razoável de peças com resolução obscura. As obras fracassadas – as pecas ruins, digamos – se tornam bem mais dolorosas, pois não se permite, para o artista de teatro brasileiro, o horizonte de hesitação natural na produção de arte.
O artista teatral brasileiro tem que acertar sempre – o que é uma total impossibilidade. As peças aqui, boas ou ruins, têm pouco público, não podem viver em liberdade o seu fluxo de concepção e criação, vivem pouco tempo. O teatro brasileiro é um cemitério, cheio de fantasmas e de obras vítimas de morte prematura. O teatro é acidental, em lugar de ser um diálogo estético vivo da sociedade. Pouca gente frequenta o teatro para vivenciar a linguagem específica da encenação. Neste contexto, o teatro é outra coisa do que aquilo que ele é: é passatempo, é desfile de celebridades, é fru-fru social, é modinha, é caça-níquel, é passarela de vaidades, é lavanderia. Difícil, então, definir com objetividade o que seria uma peça ruim.
Neste jogo insano, dois fatores precisam ser muito valorizados: os prêmios, a escolha dos melhores de cada ano, e a grande produção, com oferta de condições de trabalho estáveis. São dois eixos de importância para o equilíbrio do mercado – devem favorecer a qualidade, a obra de artesanato sofisticado, estimular o burilado da arte.
A reflexão importa esta semana por conta de dois grandes acontecimentos – o primeiro, a cerimônia de entrega do Prêmio Shell de Teatro, exatamente a comemoração festiva de trinta anos do prêmio, uma noite de gala no Golden Room do Copacabana Palace. A lista de indicados, abaixo, reúne vários segmentos da arte, com ligeira tendência à valorização da pesquisa de linguagem e do vanguardismo. O Prêmio Shell se tornou um prêmio inquieto, preocupado com o experimentalismo e um tanto distante dos grandes nomes-monumentos da arte, apesar de ser concedido por uma gigante do mercado petrolífero.
O segundo acontecimento é, no mesmo dia, a estreia de Romeu e Julieta, de Shakespeare, em versão musical, grande produção da Aventura, cartaz do belo Teatro Riachuelo. A ficha técnica do espetáculo conta com profissionais do mais alto padrão e a expectativa é de que o Rio terá uma peça para celebrar a alma da cidade.
Além do grande volume de capital investido, nomes preciosos povoam a ficha técnica. A direção geral coube a Guilherme Leme Garcia, a preparação do elenco ficou sob a responsabilidade da atriz Vera Holtz. O cenário traz a excelência de Daniela Thomas. E vai por aí.
A montagem é de importância estratégica para a cena teatral atual por esta condição de grande produção de qualidade. E por trazer à baila, mais uma vez, um debate histórico importante. Assinada por Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche, também responsáveis pela adaptação do texto original, a trilha sonora revela um nome novo para o teatro – Marisa Monte.
Assim como, no início do século XX, a música popular e o teatro estiveram casados e unidos na cena carioca, para deleite do público, o casamento desfeito volta a acontecer aqui. A música abandonou o teatro, fez carreira solo de imenso sucesso, fugiu para o radio, o cinema, o disco e o show. A volta é uma virada histórica memorável.
O caminho foi o segredo irresistível de Otelo da Mangueira, de Gasparani. Fora da linha do musical biográfico, que transpõe para a cena em música a vida de astros da MPB, este formato ousa buscar o andamento dramático de textos consagrados em canções de sucesso do nosso tempo. A ideia é maravilhosa, os artistas envolvidos exemplares e a chance de fazer a cidade cantar teatro é total. Ou seja, está em cena muito do que se precisa para ter peças excelentes, favoráveis à pujança do teatro. Em uma palavra: imperdível.
Foto: Felipe Panfili
Lista dos indicados da 30ª edição do Prêmio Shell de Teatro do Rio de Janeiro:
Autor
Marcia Zanelatto por “Ela”
Walter Daguerre por “Josephine Baker, a Vênus Negra”
Braulio Tavares por “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”
Pedro Kosovski por “Tripas”
Direção
Eric Lenate por “Love Love Love”
Rodrigo Portella por “Tom na Fazenda”
Luiz Carlos Vasconcelos por “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”
Paulo de Moraes por “Hamlet”
Ator
Armando Babaioff por “Tom na Fazenda”
Gustavo Vaz por “Tom na Fazenda”
Adrén Alves por “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”
Ricardo Kosovski por “Tripas”
Atriz
Aline Deluna por “Josephine Baker, a Vênus Negra”
Yara de Novaes por “Love Love Love”
Guida Vianna por “Agosto”
Juliane Bodini por “Dançando no Escuro”
Letícia Isnard por “Agosto”
Cenário
Aurora dos Campos por “Tom na Fazenda”
Mina Quental por “Mata teu pai”
Carla Berri e Paulo de Moraes por “Hamlet”
Sérgio Marimba por “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”
Figurino
Beth Filipecki por “Ivanov”
Marcelo Marques por “Josephine Baker, a Vênus Negra”
Kika Lopes e Heloisa Stockler por “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”
Marcelo Olinto por “Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba”
Iluminação
Aurélio de Simoni por “Ubu Rei”
Nadja Naira e Ana Luzia de Simoni por “Mata teu pai”
Maneco Quinderé por “Hamlet”
Paulo Cesar Medeiros por “O Jornal”
Música
Marcello H. por “Tom na Fazenda”
Ricco Viana por “Janis”
Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho por “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”
Marcelo Alonso Neves por “Dançando no Escuro”
Inovação
“Que legado” pela ocupação cultural que propõe o diálogo entre profissionais de atuações e geografias diversas no Rio de Janeiro.
“Escola Spectaculu” pelo contínuo trabalho de formação e inserção de jovens profissionais na área técnica das artes cênicas.
Espetáculo “Tripas” pela forma de realização entre a universidade, através dos programas de pós-graduação, e a produção teatral.
Homenagem
Hélio Eichbauer por seu trabalho ao longo de mais de 50 anos de renovação da cenografia brasileira.
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Com quantas pedras se faz um bom teatro?
No meio do caminho, sempre tem uma pedra – e não, não são só os poetas que esbarram com a coisa. É a vida. Não dá para andar sem tropeço. Passa o carnaval e vem a ladainha: como alguém pode celebrar as escolas de samba? Como alguém ousa dizer algo positivo a respeito destes antros de perdição, que vicejam por aqui sem freio desde o início do século XX? Curioso notar que poderia ser fala do Prefeito desequilibrado do Rio, preocupado em afundar a cidade. Mas não, gente lúcida e bem intencionada anda com a fala perto da garganta desafinada do alcaide.
A primeira vez que li sobre as hordas de capoeiras no século XIX, fiquei pasma. Os relatos falavam de negros libertos ou quilombolas, arruaceiros, que assaltavam as procissões ostentação, com os seus fiéis cobertos de joias. Resultado: acabaram com as procissões por um tempo e quando voltaram eram cortejos de gente despojada. As primeiras vezes que vi desfiles de escolas de samba, na Praça XI, eu era criança – e o problema dos adultos era proteger os infantes, quando a polícia chegava para pegar os bandidos sambistas! Voava pancadaria para todos os lados e eram engraçados os relatos da confusão.
Cresci vendo todo o mundo adulto ao redor jogar no jogo do bicho. Tive uma grande amiga na primeira série ginasial, que perdi de vista, muito tímida, que era filha de um banqueiro de bicho – mas era a família dois, a filial, e moravam numa casa digna do Boca de Ouro: um coreto-ostentação. Uma amiga relatou há umas semanas que no condomínio dela, na Barra, ninguém teme assalto – a maioria dos moradores é de milicianos e de bandidos mesmo. E todos convivem de maneira muito civilizada.
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Beija-Flor campeã!
Acabou mais um Carnaval, mas este ano não vai ser igual àquele que passou: tradições vão rolar, vão fazer com que a maior festa popular do país conheça uma virada histórica. Frase polêmica? Discordo – graças ao desfile da Beija-Flor de Nilópolis, nunca mais seremos os mesmos. Uma escola de samba conseguiu fazer uma revolução nas nossas vidas. Lá no céu, Joãozinho Trinta está se acabando de sambar. E de rir.
É bom, de saída, deixar bem claro o campo da discussão. Não sou Beija-Flor. Quer dizer, não era – desconfio que larguei a minha escola do coração, Unidos do Vira-Folha, e me tornei Beija-Flor desde o final do desfile da Beija-Flor este ano. Mas, de toda forma, tudo o que aconteceu comigo não foi deliberado, não foi uma paixão cristalizada em mim, não foi uma atitude preconcebida. Não esperava ver o que eu vi, nem reagir assim.
Não fui para a avenida este ano. Apesar de algumas oportunidades, resolvi não desfilar em qualquer escola; no ano passado, saí na Portela. A saúde um pouco hesitante, a canseira por excesso de trabalho, o medo de andar nas ruas da minha cidade se uniram para me jogar na frente da televisão. Sim, eu vi a transmissão dos desfiles pela TV Globo, zapeei no Sambarazo e no face. Sei que isto é ruim, limita a minha visão dos fatos. Mas foi deste lugar que acompanhei a maratona.
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Chute o balde, por favor
Não sei a opinião do povo psi-pensante – mas defendo a existência da Síndrome de Gauguin. E o que seria? Bem, exatamente aquele sentimento decidido, bruto, em que a criatura fica saturada de tudo ao redor e decide chutar o balde. Vai, chuta e foi. Como, ao que tudo indica, não existe mais no mundo inteiro nenhum Taiti para refúgio dos afetados pela síndrome, o jeito é chutar o balde à pequena distância, por aqui mesmo ao redor.
Nestas horas, o teatro é um grande aliado – você chuta o balde, entra lá e se livra do balde, adeus mundo. Parte para uma outra realidade, nem sempre melhor, nem sempre pior, mas com certeza diferente. Para você que atingiu o ponto de saturação e está no vermelho, só pensa em chutar o seu balde, existem várias opções.
A primeira é bem completa e radical: você pode fazer um curso de teatro. Não, não precisa de vestibular, Enem, nem qualquer outro balde burocrático. Existe a CAL – a dinâmica escola de teatro, a mais dinâmica dentre todas, promove cursos livres, de férias, com especialistas e para várias aptidões. Tanto pode ser Interpretação, para TV e cinema e sob várias outras abordagens, como pode ser uma oficina de diálogos com a experiente autora Marcia Zanelatto ou um curso prático de roteiro para iniciantes, com Voya Wursch. Há ainda corpo com a notável Sueli Guerra, teatro musical com a dupla de excelência Mirna Rubim e Menelick de Carvalho. E mais – a inscrição pode ser feita online, sem nenhum balde, liberdade pura.
Mas, se o seu caso é mais direto e simples e basta, para a sua sensibilidade carente de emancipação, um bom e belo espetáculo, corra para ver Agosto, de Tracy Letts, direção exemplar de André Paes Leme. A cena se torna o lugar do chute no balde afetivo, o espaço poético de extravasamento de conflitos da vida inteira, oportunidade para interpretações históricas, absolutas, sob a liderança da magmática Guida Vianna, uma enxurrada de lama existencial que rompe devorando tudo. A contracena com a esplêndida Leticia Isnard é a apoteose do balde perdido – tudo aquilo que você pensou em dizer nas tramas sufocantes de afeto e não conseguiu.
E ainda tem no elenco cinco estrelas uma coleção de feras, impiedosos aliados no chute ao balde nosso de cada dia: Alexandre Dantas, Claudia Ventura, Claudio Mendes, Eliane Costa, Guilherme Siman, Isaac Bernat, Julia Schaeffer, Lorena Comparato e Marianna Mac Niven. Todavia, há um detalhe muito ruim – a temporada vai ser curta. Nesta reestreia deste enorme sucesso de 2017, o cartaz ficará apenas até 4 de agosto no Teatro SESI.
É interessante este dado: a reestreia. O passado, assim, contribui com mais uma chance para os distraídos chutarem o balde com classe. Vale destacar que não é só Agosto que permite este feito. Um outro trabalho arrebatador de 2017 decidiu ajudar aos chutadores de balde contemplativos, que precisam muito entrar em ação no teatro. Está em cartaz apenas até este fim de semana o belíssimo Tom na Fazenda, um dos mais pungentes gritos de defesa da liberdade humana vistos em tempos recentes no teatro brasileiro.
Trata-se de um chute no balde sideral, a favor da beleza integral de ser e do ato pleno de viver, a favor da plenitude do amor, texto de Michel Marc Bouchar. A direção de Rodrigo Portella é de tirar o ar e sacudir a alma, o cenário de Aurora dos Campos, devastado como as pessoas da cena, é uma joia da cenografia, o elenco desgoverna o infinito com a força telúrica de Armando Babaioff, Analu Prestes, Gustavo Rodrigues e Camila Nhary. A peça voltou no Teatro Dulcina e neste sábado o pensamento sobre a cena vai ferver com um debate entre Armando Babaioff, o diretor Rodrigo Portella e Isabel Diegues, da Editora Cobogó – que lançou o texto da peça em português.
Aliás, sim, ler pode ser uma forma elegante de chutar o balde – e até bem discreta. A poesia pode estar num livro ou em cena. Neste último caso, será preciso ler o livro-ator. De certa forma, este chute no balde tão especial é garantido por Matheus Nachtergaele, com a peça Processo de Conscerto do Desejo, dirigida e interpretada por ele em homenagem à sua mãe, a poetisa Maria Cecília Nachtergaele, falecida em 1968. O ator não apenas representa, mas incorpora a figura materna, e recita os textos da poetisa acompanhado dos músicos Luã Belik e Henrique Rohrmann/Bryan Diaz. A volta ao cartaz acontece no Teatro da Caixa Nelson Rodrigues, com temporada de 25 de janeiro a 4 de fevereiro.
Mas enfim tudo isto aí pode ser que seja café pequeno – ops – balde pequeno, para o seu caso. Se a coisa se avolumou, se é preciso pensar grande, voar alto, existem sugestões vindas lá de São Paulo exemplares. São Viagens Musicais, com apoio e divulgação da Cultura Artística, coordenação geral da Sociedade Chopin do Brasil. A coisa é para grupos pequenos, com lugares limitados e confirma que existe no país um público sofisticado para um mercado cultural de alto padrão – balde de ouro, digamos.
A programação faria até mesmo Gauguin exultar, se ele fosse nosso contemporâneo. Ela se estende de março até setembro. Integra este calendário de ofertas requintadas a felicidade de acompanhar os maiores festivais musicais mundiais e eventos top do top – Festival de Páscoa em Salzburg, Festival de Páscoa em Aix-en- Provence, Abril em Nova York no Metropolitan, a Toscana, Festival Stars of the White Nights, Festival de Verão em Baden Baden, Festival de Arena de Verona, Festival Bayreuth, Festival de Salzburg, Festival de Lucerna, Festival Enescu… Os nomes envolvidos – para citar alguns escolhidos a êsmo – demonstram porquê o nosso tempo será parte importante da História Cultural do mundo.
A lista rápida revela a presença da Staatskapelle Dresden, Martha Argerich e Daniel Barenboim, Nelson Freire, Marcelo Lehninger, Filarmônica de Nova York, Leonidas Kavakos, Yuri Termiokanov, Ballet do Bolshoi, Anna Netrebko, Franco Zefirelli, Roberto Alagna, Orquestra Filarmônioca de Viena, Ricardo Muti…
Bom, cansei. Não há balde que sobreviva a este time. Desconfio que ler os nomes já oferece uma trégua para o lado exaustivo do mundo. Então, veja bem, você nem precisa viajar tanto e para tão longe.
Basta ter a certeza de que a arte, esta estranha invenção humana, herança dos deuses, existe para aliviar o peso da vida e do mundo sobre as nossas cabeças – se procuramos com atenção, logo vemos que a arte está ali do nosso lado, ao nosso alcance, para nos ajudar a nos livrar dos baldes, preservar nossos pés e todo o resto. Afinal, convém lembrar, Guaguin chutou o balde e fugiu para o Taiti exatamente para fazer… arte!
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FLIP/2017: O luto e as pedras do caminho da cultura
Paraty se torna uma linda festa: é tempo de FLIP. FLIP quer dizer um recanto raro de encontro brasileiro com a vida intelectual mais legítima e plena, atual, vibrante. Durante uns poucos dias, com alguns estrangeiros de recheio, uma massa ávida por ideias, saberes, letras e alento intelectual vaga pelas ruas de pedras tortas e pelos arredores da vila histórica em busca de um modo de viver outro, civilizado. Acontece de tudo na cidade, de apresentações intelectuais sofisticadas a debates antenados com as exigências imediatas da vida, passando por videoarte e pelos mais curiosos eventos de rua. É festa mesmo, vale tudo a favor da cultura.